No anno seguinte, o _Atheneu_ revelou-se-me noutro aspecto. Conhecera-o
interessante, com as seducções do que é novo, com as projecções
obscuras de perspectiva, desafiando curiosidade e receio; conhecera-o
insipido e banal como os mysterios resolvidos, caiado de tédio;
conhecia-o agora intoleravel como um carcere, murado de desejos e
privações.
Desenvolvido á força e habilitado no torvelinho moral do internato,
aproveitara os dous mezes de feriado para espreitar a animação da vida
exterior. A sala, a sociedade, os negocios da praça publica, que na
infancia são como contactos de nevoeiros resvalando pela imaginação,
que nos despertam com um estardalhaço de pesadelo, que fogem, que
somem-se, deixando-nos readormecidos no esquecimento da idade, ao tempo
em que preferimos da soirée os _bons bocados_, das toilettes os laços
de côres rutilas, ignorando que ha talvez na vida alguma cousa mais
assucar que o assucar, e que o toque macio póde uma vez levar vantagem
á coloração fulgurante, quando invejamos das posições sociaes
modestamente o garbo de Phaetonte nos carros de praça ou a bravura
rubente de umas calças de grande uniforme, sem saber que as ambições
vão mais alto e que ha commendadores; o movimento do grande mundo não
me apparecia mais como um theatro de sombras. Comecei a penetrar a
realidade exterior como palpava a verdade da existencia no collegio.
Desesperava-me então vêr-me duplamente algemado á contingencia do ser
irremissivelmente pequeno ainda e collegial. Collegial, quasi calceta!
marcado com um numero, escravo dos limites da casa e do despotismo da
administração.
Havia a escassa compensação dos passeios. Uniformisava-se de branco o
collegio como para as festas de gymnastica, com os gorros de cadarço, e
saíamos a dous, a quatro de fundo, tambores, clarins á frente.
No anno anterior, os passeios tinham sido insignificantes, marchas
alegres pelo arrabalde. Vinham ao peitoril as mocinhas, e nós todos,
anchos de militarismo, despendiamos elegancia prodigamente. Eram
melhores as excursões á montanha. Subiamos aos Dous Irmãos, caminho
do Corcovado, marchavamos até á Caixa d'agua. Ahi debandavamos, na
amenissima chapada.
Os passeios eram depois do jantar. A noitinha voltavamos, dando balanço
ás notas de sensações, um deslumbramento verde de floresta, um
retalho de afogueado crepusculo, um canto de cidade ao longe diluido em
fumaça côr de perola, ou o olhar de uma dama e o sorriso de outra,
projectis inoffensivos de namoro que na hypothese de andar a gente em
fórma têm o defeito da incerteza, se vêm expressamente a nós, se ao
vizinho, e a nós apenas por uma casualidade de ricochete--o ciume
eterno dos serra-filas que a Praia Vermelha conhece.
Os nossos passeios foram mais consideraveis.
Primeiro ao Corcovado, assalto ao gigante, hoje domado pela vulgaridade
da linha ferrea.
Ás 2 horas da noite, troaram os tambores como em quartel assaltado. Os
rapazes, que mal haviamos dormido, na excitação das vesperas,
precipitaram-se dos dormitorios. Ás 3 e pouco estavamos na serra.
Aristarcho rompia a marcha, valente como um mancebo, animando a
desfilada como Napoleão nos Alpes.
Passeio nocturno de alegria sem nome. As arvores beiravam a estrada de
muros de sombra num e noutro ponto rendada de frestas para o céu
limpido. No caminho, trevas de tunnel e agitação confusa das roupas,
malhada a esmo de placas de luar brando--reptil immenso de cinza e leite
em vagarosa subida. Que sonho de cócegas experimentaria o colosso, na
dormencia de pedra que o prostrava ainda, espezinhado pela invasão!
Subiamos. Pelas abertas do arvoredo devassavamos abysmos; ao fundo, a
illuminação publica por enfiadas, como rosarios de ouro sobre velludo
negro.
Á boa altura, acampamos para o café. Criados que nos precediam com o
farnel, improvisaram um balcão, e nos serviam successivamente na ordem
da fórma. Felizes alguns, conseguiram uma gotta de fino Porto, mais
quente que o café, reforçando com um banho interno de conforto contra
a umidade da altitude e da hora, inflamando a coragem como um punch,
avivando a alegria como um brinde de fogo.
O espaço apparecia mais claro sobre a renda das ramas; as ultimas
estrellas por entre as folhas emmurcheciam como jasmins, e fechavam-se.
Aristarcho deu ordens á banda. A subida recomeçou em festa, um dobrado
triumphal rasgou o silencio das montanhas espavorindo a noite; o bombo
de Romulo trovejou robusto, com imensa admiração da passarada que o
espiava metendo o bico á beira dos ninhos, que o cobiçava talvez para
genro, aturdindo os echos com um repente brutal de alvorada.
Ao passo que nos elevavamos, elevava-se igualmente o dia nos ares.
Apostava-se a vêr quem primeiro cançava. Cada avanço da luz no
espaço era como um excitante novo para a jornada, suavisando a doçura
do alvorecer todo o esforço da ascensão. Quando a musica parava,
ouviamos na alvenaria do grande encanamento, pelos respiradouros, as
aguas do Carioca, ciciando queixas poeticas de naiade emparedada.
Avistavamos por hiatos de perspectiva a bahia, o Oceano vastamente
desdobrado em chammas, extenso cataclysma de lava.
No planalto do Chapéo de Sol parámos. O director convencionou que, ao
signal de debandar, assaltariamos na carreira o espigão de granito
empinado á extrema do monte. A rapaziada acclamou a proposta e, com um
alarido barbaro de peleja, arrojámo-nos á conquista da altura.
Chegou na frente o Tonico, meninote nervoso, de S. Fidelis, especialista
invicto da carreira, corredor de pratica e principios, que de cada exame
da Instrucção Publica fugia duas vezes á chamada, entendendo que a
fuga é a expressão verdadeira da força, e a bravura uma invenção
artificial dos que não podem correr.
Romulo fez a asneira de tentar o espigão; ficou a meio caminho,
suffocado, inanimado, roncando por terra.
Almoçámos ás dez horas, cada um para seu lado, depois da
distribuição frugal do mantimento. Fartos de paysagem, formámos para
a descida.
Descida penosa. Tinhamos imprudentemente esgotado as forças na
folgança. A marcha de volta foi uma miseria. Formámos ainda, mas já
não havia quem olhasse para o alinhamento. As correias frouxas
escapavam á cintura, as blusas ás correias; os pés cambavam, mal
equilibrados no calçado, bambeavam os joelhos passadas de bebado.
As crianças adiante voltavam os olhos dolorosamente para o director,
segurando-se uns aos outros pelos hombros, seguindo em grupos
atropellados como carneiros para a matança. Aristarcho, tão lépido
como na subida, estimulava o seu povinho, chasqueando compadecidas
ironias.
Quiz recorrer ao estimulante da musica. Os musicos, derreados, haviam
deixado os instrumentos na carroça da matalotagem que vinha longe. Nem
tambores, nem clarins; apenas Romulo, atraz de todos, trazia o bombo de
roldão pela estrada como uma pipa.
Por maior tormento, fundia-se a soalheira em chumbo ardente sobre nós,
accendendo reflexos insupportaveis na areia da estrada, emquanto
reverberava o dia lá em baixo, sobre as casas, pelos jardins nublados
de vaporisações de estio, sobre a vegetação das montanhas, a
florescer das tristes flôres da Paixão da alleluia.
Voltavamos de um dia alegre como soldados batidos. A ordem de marcha
decompôz-se aos poucos. Quando chegámos ao Rio Comprido, iamos por
bandos dispersos, arquejantes, os de maior folego na vanguarda; depois,
em cauda interminavel de alquebramento, os mais fracos, até aquelles
que ficavam pelo chão como enfermos, e que os inspectores buscavam como
gado perdido.
No portão do _Atheneu_, mãos ás cadeiras, dentinhos brancos á vista,
esperava-nos Angela, fresca e forte, e recebia com uma vaia de risadas
aquella entrada de vencidos, homens e moços.
Quando, tempos passados, annunciou-se o grande pique-nique ao Jardim
Botânico, certo não foi objecção a lembrança d'este descalabro de
fadiga. Tinhamos almoçado na montanha; tratava-se agora de ir jantar ao
jardim. Promptos!
Ao meio-dia, apeava o _Atheneu_ dos bonds especiaes á porta do grande
parque. Atravessámos cantando um dos hymnos do collegio as arcarias
elevadas de palmas. Junto ao lago da avenida, debandámos.
No bosque dos bambús, á esquerda, estavam armadas as longas mesas para
o banquete das quatro horas. Graças á boa vontade dos paes, prevenidos
opportunamente, vergavam as taboas, sobre cavalletes, ao peso de uma
quantidade rabelaiseana de acepipes. Á parte, em cestos, no chão,
amontoavam-se fructas, caixas e frascos de confeitaria.
Era por um d'esses dias caprichosos, possiveis todo o anno, mais
frequentes de verão, em que as bategas de chuva fazem alternativa com
as mais sadias expansões de sol, deliciosos e traidores, em que,
parece, a alma feminina se faz clima com as incertezas de pranto e riso.
Chovera uma vez ao partirmos, outra vez em viagem; havia no jardim muita
humidade na relva e sob as folhas caidas; ás alamedas de mais sombra,
via-se a areia crivada recentemente dos pequeninos furos que cava o
gottejar do arvoredo. Mas eram tão claros os trechos de bom tempo, no
intervallo dos nimbos, que não podiam apprehensões de aguaceiro
entibiar a franqueza de alegria a que estavamos preparados.
A rapaziada dispersou-se pelos gramados para a montanha, para os
cannaviaes e pomares de ingresso vedado. Alguns, munidos de anzoes,
acocoravam-se á beira do açude, como batrachios, emquanto esperavam
que picasse a probabilidade difficil de um peixe.
Os de espirito calmo buscavam sitios de soledade, iam passear a scisma
silenciosa; os sentimentaes, com o instincto dos photographos
paysagistas, ensaiavam, comparavam, applaudiam os melhores pontos de
vista, ou, simplesmente, dous a dous, intimos, seguiam para longe,
braços pela cintura, balbuciando dialogos lentos. Os menores corriam,
armando animadissimos brincos, atiravam-se ás borboletas, iam pelos
cursos d'agua canalisada através do parque, perseguindo a fuga de um
graveto, trepido, inalcançavel na evasão rapida da lympha. Nos
enredamentos obscuros do bosque, exactamente onde o artista grego
incluiria um satyro, podia-se surprehender sob uma blusa o confiado
abandono bucolico de outros collegas.
De quando em quando, um signal de clarim. Tocava-se a reunir e fazia-se
a distribuição das gulodices. Muitos não compareciam.
Ás quatro horas a banda de musica assignalou com o hymno nacional o
grande momento da festa campestre.
De todos os pontos do jardim começaram a chegar magotes pressurosos de
uniformes brancos. Os vigilantes, energicos, regularisavam a occupação
dos logares.
Ao correr da mesa, fechou-se o bloqueio ameaçador de dentaduras.
No centro alinhavam-se as peças, sem conta, frias, sem môlho,
appetitosas, entretanto, da côr tostada e do aroma succulento.
Os garfos agitavam-se inimigos, amolavam-se os trinchantes nas mãos dos
copeiros...
Obrigados a uma sobranceria stoica de philosophos, depois da provação
definitiva do forno, nem os perús, nem os leitões, nem os timidos
frangos mostravam aperceber-se da situação arriscada.
Os frangos, de pernas para traz, sobre o dorso, cabeça escondida na
aza, pareciam dormir sonhando o calembour das pennas perdidas; os
redondos bacoros, encouraçados na bella côr de torresmo, serviam-se
dos olhos de azeitona para não mais vêr as seducções mentidas da
existencia, empenhados em ensinar aos homens como se leva a cabo o
supplicio culinario dos palitos, com a aggravante azeda dos limões em
rodella; os perús, soberbos até á ultima e menos philosophicos,
prescindiam francamente da cabeça, orgulhosos apenas da vastidão do
peito, enfunando a vaidade cheia do papo, hypertrophia de farofa.
Guarnecendo os assados, perfilavam-se as garrafas pretas desarrolhadas,
conglobavam-se montes de maçãs, peras, laranjas, apoiadas ás
nacionalissimas bananas, como um traço de nativismo. Os pudins, as
marmeladas, as compotas enchiam os vãos da toalha, com um zelo apertado
de mediador plastico. Mesmo sem metter em conta as postas de roastbeef
com que contribuirá Aristarcho, percebe-se que era de truz o jantar.
Quando os rapazes sentaram-se, em bancos vindos do _Atheneu_ de
proposito, e um gesto do director ordenou o assalto, as taboas das mesas
gemeram. Nada pôde a severidade dos vigilantes contra a selvageria da
boa vontade. A licença da alegria exorbitou em canibalismo.
Aves inteiras saltavam das travessas; os leitões, á unha, hesitavam
entre dous reclamos igualmente energicos, dos dous lados da mesa. Os
criados fugiram. Aristarcho, passando, sorria do espectaculo como um
domador poderoso que relaxa. As garrafas, de fundo para cima, entornavam
rios de embriaguez para os copos, excedendo-se pela toalha em sangueira.
Moderação! moderação! clamavam os inspectores, afundando a bocca em
aterros de farofa dignos do Sr. Revy. Alguns rapazes declamavam saudes,
erguendo, em vez de taça, uma perna de porco. Á extremidade da ultima
das mesas um pequeno apanhara um trombone e applicava-se, muito serio, a
encher-lhe o tubo de carne assada. Maurilio descobriu um repolho
recheiado e devorava-o ás gargalhadas, affirmando que era munição
para os dias de gala. Cerqueira, _ratazana_, curvado, redobrado, sobre o
prato, comia como um restaurante, comia, comia, comia como as sarnas,
como um cancro. Sanches, meio embriagado, beijava os vizinhos, caindo,
com os beiços em tromba. Ribas, dyspeptico, era o unico retrahido;
suspirava de longe, anjo que era, diante dos reprovados excessos da
bacchanal.
Em meio do tumulto ebrifestante, ouviram-se palmas. Á cabeceira da mesa
principal, apresentavam-se de pé Aristarcho e o empertigadinho e
cuprico professor Venancio. Era a poesia! Venancio de Lemos costumava
improvisar, mais ou menos préviamente, estrophes analogas nas festas
campestres...
Outros professores, que tinham concorrido ao piquenique, davam-se á
faina grosseira de jantar. Elle, não.
Havia um quarto de hora que andava mysteriosamente por uma aléa de
bambús, esfiapando as barbicas, a gaforina, palpando a testa,
arrancando inspiração ao couro cabelludo, passando, nervoso,
repassando, espiado furtivamente pela nossa admiração. Ninguem ousava
acercar-se, temendo perturbar a elaboração do genio.
Muchôchos adoraveis das brisas, que andaes pela malta, gemedoras
fontes, que desfiaes á tôa as lagrimas de vossos penares, amaveis
sabiás cantores, que viveis de plantão na palmeira da litteratura
indigena, sem que vos galardôe uma verba da secretaria do imperio,
vinde commigo repartir o segredo do vosso encanto! Seductoras rolinhas,
um pouco da vossa ternura! Vividos colibris, a mim! que sois como os
animados tropos no poema frondoso da floresta... E as inspirações
vieram. Primeiro, cerimoniosamente, á altura, volteando espiraes de
urubú sobre a carniça; depois, de chofre, caindo-lhe ás bicadas sobre
o estro. O estro entorpecido acordou. Fez-se hippogrypho um asno morto.
O poeta foi registrando as estrophes.
Quadras de rima facil de participios, espancados pelo camartello
contundente dos agudos.
Sustou-se em toda a linha o furor gastronomico dos rapazes. Ficámos a
ouvir, surpresos.
Murmuraram as brisas; as fontes correram; tomaram a palavra os sabiás;
surgiram palmeiras em repuxo; houve revoadas de juritys, de
beija-flôres; todas essas cousas, de que se alimentam versos communs e
de que morrem á fome os versejadores. Subito, do melhor das quadras,
exactamente quando o poeta apostrophava o dia sereno e o sol, comparando
a alegria dos discipulos com o brilho dos prados, e a presença do
Mestre com o astro supremo, mal dos improvisos prévios! desata-se das
nuvens espessadas uma carga d'agua diluvial, unica, sobre o banquete,
sobre o poeta, sobre a miseranda apostrophe sem culpa.
Venancio não se perturbou. Abriu um guarda-chuva para não ser
inteiramente desmentido pelas gotteiras e continuou, na guarita, a falar
enthusiasticamente ao sol, á limpidez do azul.
[Figura 29]
Não querendo desprestigiar o estimavel subalterno, Aristarcho fingia
acreditar no improviso e, indifferente, deixava cair o aguaceiro. As
abas do chapéo de palha murchavam-lhe ao redor da cabeça, o rodaque
branco desengommava-se em pregas verticaes gottejantes.
Para os rapazes a chuva foi novo signal de desordem. Deixou-se o poeta
com a sua inspiração arrebatadora de bom tempo; recomeçou a investida
aos pratos.
A abóbada de folhagem que nos cobria, em vez de attenuar a violencia
das aguas, concorria para fazer mais grossos os pingos. Pouco importava.
A philosophia impermeavel do director servia-nos tambem de capa. Que
chovesse! Era o môlho dos manjares que nos faltava. As fructas lavadas
luziam com um verniz de frescura que o proprio outomno não possue. O
vinho estendia-se pela toalha encharcada numa generalisação solemne de
purpura. O banho opportuno do banquete vinha temperar a demasiada aridez
das farinhas de recheio. «Acabamos pela sopa, descobriu Nearcho, o
penetrante, por onde o vulgo principia!»
Qual acabavamos! Ninguem acabou. Succedeu que, com os fundilhos
molhados, ninguem quiz mais sentar-se. Gyrou o atropello ao redor das
mesas; os bancos foram repellidos a ponta-pés. Repartia-se o doce sem
equidade; quem não avançava a tempo ficava sem elle. Dous inspectores,
João Numa e o _Conselheiro_, a pretexto de decidir uma contenda,
arranjaram-se com uma caixa de pecegada e desappareceram.
A chuva desculpava a bebida. Era inacreditavel o consumo de brindes.
Brindes a Aristarcho, brindes aos companheiros, ao Sylvino, ao poeta, ao
sol, aos temporaes, ao trovão scandinavo; inimigos figadaes, no
transporte do prazer, reconciliaram-se; Barbalho saudou-me fogosamente.
Romulo, já tonto, affastado das mesas, brindava o copeiro que lhe
arranjara uma garrafa; depois brindou a noiva; o criado, bebendo tambem,
tocou-lhe o copo.
Como escurecia, o director fez o clarim chamar á fórma.
Debaixo do aguaceiro que não cessava, o collegio alinhou-se como bem
pôde. Muitos, queixando-se de saude delicada, obtiveram, dispensa
d'esta inopportuna disciplina de equilibrio; seguiram adiante para o
portão abrigado do jardim... Após, fomos os outros, em marcha regular,
pingando de molhados. A fita vermelha dos gorros desbotava-se-nos pelo
rosto em fios sanguineos.
Quando chegámos ao portão, já nos esperavam os bonds especiaes. Do
outro lado da rua, á entrada do conhecido restaurante, appareceu a
familia do Aristarcho com alguns professores, que lá tinham jantado. D.
Emma, pelo braço do Chrysostomo, a Melica altivamente só e
distanciada.
No collegio, tivemos ordem de subir a descanço nos dormitorios.
Preventivo louvavel de prudencia, depois dos excessos e da tempestade
soffrida. O descanço foi simplesmente um prolongamento da pandega do
passeio. Para cessar a desordem, tocou-se a estudo... Baixámos ao
salão geral. Aristarcho, reassumindo a dureza olympica da seriedade
habitual, apresentou-se e perguntou asperamente se pretendiamos que a
vida passasse a ser agora um pique-nique perpetuo na desmoralisação.
Tacitamente negámos e a tranquillidade normal entrou dos eixos.
Não sabiamos que, a essas horas, preparava o segredo da alta justiça
uma trama de intrigas, que devia estragar em terrores a lembrança do
grande passeio.
Á hora da ceia, na mesma porta em que se lia a gazetilha das aulas,
sombrio como nunca, vagaroso como os compassos de requiem, tetrico como
o juizo final, entrou o director.
Pausa preliminar, fremito de sensação pelo refeitorio:
«Tenho a alma triste», começou, cavernosamente. Uma cinta de trovões
no horizonte, rostos da tormenta da tarde, faziam fundo ás palavras em
côro eschyliano.
«Tenho a alma triste. Senhores! A immoralidade entrou nesta casa!
Recusei-me a dar credito, rendi-me á evidencia»... Com todo o vigor
tenebroso dos quadros tragicos, historiou-nos uma aventura bregeira. Uma
carta comica e um encontro marcado no Jardim. «Ah! mas nada me
escapa... tenho cem olhos. Se são capazes, illudam-me! Está em meu
poder um papel, monstruoso corpo de delicto! assignado por um nome de
mulher! Ha mulheres no _Atheneu_, meus senhores!»
Era uma carta do Candido, assignada Candida.
«Esta mulher, esta cortezã fala-nos da segurança do logar, do socego
do bosque, da solidão a dous... um poema de pouca vergonha! É muito
grave o que tenho a fazer. Amanhã é o dia da justiça! Apresento-me
agora para dizer sómente: serei inexoravel, formidando! E para
prevenir: todo aquelle que directa ou indirectamente se acha envolvido
nesta miseria... tenho a lista dos comprometidos... e que negar
espontaneo auxilio ao procedimento da justiça, será reputado cumplice
e como tal: punido!»
Este convite era um verdadeiro arrastão. Remexendo a gaveta da
consciencia e da memoria, ninguem havia, póde-se affirmar, que não
estivesse implicado na comedia collegial dos sexos, ao menos pelo enredo
remoto do _ouvi dizer_. Ouvir dizer e não denunciar logo, era um crime,
dos grandes na jurisprudencia costumeira. A devassa promettida fazia
alarma geral. Como prevêr as complicações do processo? Como adivinhar
o segredo tremendo da lista?
Aristarcho ufanava-se de perspicacia de inquisidor. Sob a saraivada das
perguntas, ameaças, promessas, o interrogado perturbava-se,
compromettia-se, entregava-se e trahia os outros; nos processos do
gabinete, os factos floresciam em carymbo, fructificavam em cacho; a
pesquiza de uma culpa descobria tres, sem contar as ramificações da
cumplicidade de outiva.
Ao retirar-se, o director deixou na sala uma estupefacção de pavor.
Eu, particularmente, tinha valiosos motivos de sobresalto. A guerra
latente que já me ligava ao director, como as conjuncções
disjunctivas, exacerbara-se com um episodio gravissimo, rompimento
decisivo.
A caminho da bibliotheca, no mesmo logar do infeliz encontro com o
enorme Romulo, achei-me inesperadamente com o Bento Alves.
As sympathias do excellente companheiro não tinham diminuido. Durante
as férias, fôra vêr-me em casa, travando relações com a minha
familia. Fui recommendado insistidamente ao amigo, que me valesse, nas
difficuldades da vida collegial, contra o constante perigo da
camaradagem perniciosa. Durante o mez de Janeiro não nos vimos. Por
occasião da abertura das aulas, notei-lhe um calor novo de amizade, sem
effusões como d'antes, mas evidentemente testemunhado por tremores da
mão ao apertar a minha, embaraços na voz de amoroso errado, bisonho
desviar dos olhos, denunciando a reluctancia de movimentos secretos e
impetuosos. Ás vezes mesmo, um reflexo assustador de loucura
accentuava-se-lhe nos traços.
Interessava-me aquella agonia comprimida. Estranha cousa, a amizade que,
em vez da aproximação franca dos amigos, podia assim produzir a
incerteza do mal estar, uma situação prolongada de vexame, como se a
convivencia fosse um sacrificio e o sacrificio uma necessidade.
Durante os primeiros dias do anno, poucos alumnos chegados, ficavamos
horas inteiras em companhia. Trouxera-me um presente de livros, com
dedicatoria a côres, de bella calligraphia, inscripta em rosas
entrelaçadas de chromo, Recordo-me tambem de um dulcissimo cofre
dourado de pastilhas e outras ridicularias de amabilidade que me
offerecia, passado de vergonha pela insignificancia do obsequio.
Confusamente occorria-me a lembrança do meu papelzinho de namorada faz
de conta, e eu levava a seriedade scenica a ponto de galanteal-o,
occupando-me com o laço da gravata d'elle, com a mecha de cabello que
lhe fazia cócega aos olhos; soprava-lhe ao ouvido segredos indistinctos
para vêl-o rir, desesperado de não perceber. Uma das irmãs casara no
Rio Grande; elle mostrou-me o retrato do noivo, um par de bigodes negros
descaidos, com a noiva, um rosto oval correcto e puro, o turbilhão
nevoento dos véus. Deu-me um botão de flôr de laranjeira que tinham
remettido.
Andavam assim as cousas, em pé de serenidade, quando occorreu a mais
espantosa mudança.
Não sei que diabo de expressão notei-lhe no semblante, de ordinario
tão bom. Desvairamento completo. Apenas me reconheceu, atirou-se como
fizera Romulo e igualmente brutal. Rolámos ao fundo escuro do vão da
escada. Derribado, contundido, espancado, não descurei da defeza.
Entrevi na meia obscuridade do recanto um grande sapato embolorado.
Luctando na poeira, sob o joelho esmagador do assaltante, ataquei-lhe a
cabeça, a cara, a bocca, a formidaveis golpes de tacão, apurando a
energia de sola ferrada com a omnipotencia dos extremos. Bento Alves
deixou-me bruscamente.
Tinhamos luctado em silencio, sem que nada mais se ouvisse do que os
encontrões pelo soalho. No corredor, entretanto, vimos Aristarcho que
chegava como em soccorro. Bento Alves passou; immobilisou-o com o olhar
sem vista, esgazeado, medonho, de quem acaba de perpetrar um homicidio e
desappareceu, tropego, manchado de pó, labios inflammados, desordem nos
cabellos.
Aristarcho veio sobre mim. Que explicasse a briga! Eu estava como o
adversario, empoeirado e sujo como de rolar sobre escarros.
Respondi-lhe com violencia.
«Insolente!» rugiu o director. Com uma das mãos prendendo-me a blusa,
a estalar os botões, com a outra pela nuca, ergueu-me ao ar e sacudiu,
«Desgraçado! desgraçado, torço-te o pescoço! Bandalhozinho
impudente! Confessa-me tudo ou mato-te.»
Em vez de confessar, segurei-lhe o vigoroso bigode. Fervia-me ainda a
excitação do primeiro combate; não podia olhar conveniencias de
respeito. Esperneei, contorci-me no espaço como um escorpião pisado. O
director arremessou-me ao chão. E, modificando o tom, falou:
«Sergio!ousaste tocar-me!»
--Fui primeiro tocado! repliquei fortemente.
--Criança! feriste um velho!
Reparei que havia no chão fios brancos de bigode.
--Fui vilmente injuriado, disse.
--Ah! meu filho, ferir a um mestre é como ferir ao proprio pae, e os
parricidas serão malditos.
O tom commovido d'este final inesperado impressionou-me até o intimo
d'alma. Estava vencido. Fiquei por um minuto horrorisado de mim mesmo.
De volta do atordoamento, achei-me só no corredor. A saída dramatica
do director augmentou-me ainda remorsos. Houve uma reacção de esforço
moral e desatei nervosamente em pranto, chorei a valer, amparando-me ao
peitoril de uma janella.
Contava certo com um castigo excepcional, uma comminação qualquer do
celebre codigo do arbitrio, em artigo cujo gráo minimo fosse a
expulsão solemne.
Esperei um dia, dous dias, tres: o castigo não veio. Soube que Bento
Alves despedira-se do _Atheneu_ na mesma tarde do extraordinario
desvario. Acreditei algum tempo que a minha impunidade era um caso
especial do afamado systema das punições moraes e que Aristarcho
delegara ao abutre da minha consciencia o encargo da sua justiça e
desaffronta. Hoje penso diversamente: não valia a pena perder de uma
vez dous pagadores promptos, só pela futilidade de uma occorrencia,
desagradavel, não se duvida, mas sem testemunhas.
O caso morreu em segredo de discrição, encontrando-nos eu e o director
num conchavo bilateral de reserva, como se nada houvesse.
O resentimento, porém, devia ser fundo e a perspectiva tormentosa do
processo ameaçava-me como o ensejo imminente da desforra.
Não foi possivel dormir tranquillo.
Á hora do primeiro almoço, como promettera, Aristarcho mostrou-se em
toda a grandeza funebre dos justiçadores. De preto. Calculando
magnificamente os passos pelos do director, seguiam-no em guarda de
honra muitos professores. A porta fronteira, mais professores de pé e
os bedéis ainda, e a multidão bisbilhoteira dos criados.
Tão grande a calada, que se distinguia nitido o tic-toc do relogio, na
sala de espera, palpitando os ansiados segundos.
Aristarcho soprou duas vezes através do bigode, inundando o espaço com
um bafejo de todo-poderoso.
E, sem exordio:
«Levante-se, Sr. Candido Lima!
«Apresento-lhes, meus senhores, a Sr.ª D. Candida, accrescentou com
uma ironia desanimada.
[Figura 30]
«Para o meio da casa! e curve-se diante dos seus collegas!!»
Candido era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e
maneiras difficeis de indolencia e enfado. Atravessou de vagar a sala,
dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga, castigado pela
curiosidade publica.
«Levante-se, Sr. Emilio Tourinho...