O tédio é a grande enfermidade da escola, o tédio corruptor que tanto
se póde gerar da monotonia do trabalho como da ociosidade.
[Figura 25]
Tinhamos em torno da vida o ajardinamento em floresta do parque e a
toalha esmeraldina do campo e o diorama accidentado das montanhas da
Tijuca, ostentosas em curvatura toraxica e frentes felpudas de collosso:
espectaculos de excepção, por momentos, que não modificavam a seccura
branca dos dias, enquadrados em pacote nos limites do pateo central,
quente, insupportavel de luz, ao fundo d'aquellas altissimas paredes do
_Atheneu_, claras da caiação, do tédio, claras, cada vez mais claras.
Quando se aproxima o tempo das férias, o aborrecimento é maior.
Os rapazes, em grande parte dotados de tendencias animadoras para a vida
pratica, forgicavam mil meios de combater o enfado da monotonia. A
folgança fazia época como as modas, metamorphoseando-se depressa como
uma serie de ensaios.
A peteca não divertia mais, palmeada com estrepito, subindo como
foguete, caindo a rodopiar sobre o cocar de pennas? Inventavam-se as
bolas elasticas. Fartavam-se de borracha? Inventavam-se as pequenas
espheras de vidro. Acabavam-se as espheras? Vinham os jogos de salto
sobre um tecido de linhas a giz no soalho, ou riscadas a prego na areia,
a _amarella_, e todas as suas variantes, primeira casa, segunda casa,
terceira casa, descanço, inferno, céu, levando-se á ponta de pé o
seixozinho chato em arriscada viagem de pulos. Era depois a vez dos
jogos de corrida, entre os quaes figurava notavelmente o saudoso e rijo
_chicote queimado_. Variavam os aspectos da recreação, o pateo central
animava-se com a revoada das pennas, o estalar elastico das bolas,
passando como obuzes, ferindo o alvo em pontaria amestrada, o
formigamento multicôr das espheras de vidro pela terra, com a gritaria
de todas as vozes do prazer e do alvoroço.
Depois havia os jogos de parada, em que circulavam como preço as
pennas, os sellos postaes, os cigarros, o proprio dinheiro. As
especulações moviam-se como o bem conhecido ophidio das corretagens.
Havia capitalistas e usurarios, finorios e papalvos, idiotas que se
encarregavam de levar ao mercado, com a facilidade de que dispunham
fóra do collegio, fornecimentos inteiros, valiosissimos, de Mallats e
Guillots que os habeis limpavam com a gentileza de figurões da bolsa, e
sellos inestimaveis que os colleccionadores praticos desmereciam para
tirar sem custo; fumantes ebrios de fumo alheio, adquirido facilmente no
movimento da praça, repimpados á turca sobre os coxins da barata
fartura.
As transacções eram prohibidas pelo codigo do _Atheneu_. Razão de
mais para interessar. Da letra da lei, incubados sob a pressão do veto,
surgiam outros jogos, mais expressamente caracteristicos, dados que
espirravam como pipocas, naipes em leque, que se abriam orgulhosos dos
bellos trunfos, entremostrando a pansa do rei, o sorriso galhardo do
valete, a symbolica orelha da sota, a paysagem ridente do az; roletas
miudas de cavallinhos de chumbo; uma alluvião de fichas em cartão,
pullulantes como os dados e córadas como os padrões do carteiro.
A principal moeda era o sello.
Pelo sinete da posta dava-se tudo. Não havia premios de licção que
valessem o mais vulgar d'aquelles coupons servidos. Sobre este preço,
permutavam-se os direitos do pão, da manteiga ao almoço, da sobremesa,
as delicias secretas da nicotina, o proprio decoro pessoal em si.
A raiva dos colleccionadores, caprichando em exhibir cada qual o album
mais completo, mais rico, transmittia-se a outros, simples agentes de
especulação; d'estes ainda a outros com a seducção do interesse. No
collegio todo, só Rebello talvez e o Ribas, primeiro fundeado no porto
da misanthropia senil que o distanciava do mundo tempestuoso, o outro a
fazer perpetuamente de anjo feio aos pés de Nossa Senhora, escapavam á
mania geral do sello, melhor, á geral necessidade de premunir-se com
valor corrente para as emergencias.
No commercio do sello é que fervia a agitação de emporio, contractos
de cobiça, de agiotagem, de esperteza, de fraude. Accumulavam-se
valores, circulavam, fructificavam; conspiravam os syndicatos, arfava
o fluxo, o refluxo das altas e das depreciações. Os inexpertos
arruinavam-se, e havia banqueiros atilados, espapando banhas de
prosperidade.
Falava-se, com a reserva tartamuda dos caudatarios do milhão, de
fortunas imponderaveis... Certo felizardo que possuia aquelles immensos
exemplares da primeira posta na Inglaterra, os dous rarissimos, ambos! o
azul e o branco, de 1840, com a estampa nitida de Mulrady: a
Gran-Bretanha braços abertos sobre as colonias, sobre o mundo; á
direita, a America, a propaganda civilisadora, a conquista da savanna;
á esquerda, o dominio das Indias, coolies sob fardos, dorsos de
elephantes subjugados; ao fundo, para o horizonte, navios, o trenó
canadiano que foge á disparada das rennas; no alto, como as vozes
aladas da fama, os mensageiros da metropole.
Joias d'este preço immobilisavam-se nas collecções, inalienaveis por
natureza como certos diamantes. Nem por isso era menos ardente a
mercancia na massa febril da pequena circulação; da quantidade
infinita dos outros sellos, rectangulares, octogonaes, redondos,
ellipsoidaes, alongados verticalmente, transversalmente, quadrados,
lisos, denteados, antiquissimos ou recentes, inglezes, suecos, da
Noruega, dinamarquezes, de sceptro e espada, sumptuosos Hannover, como
retalhos de tapeçaria, cabeças de aguia de Lubeck, torres de Hamburgo,
aguia branca da Prussia, aguia em relevo da moderna Allemanha,
austriacos, suissos de cruz branca, da França, imperiaes e
republicanos, de toda a Europa, de todos os continentes, com a estampa
de um pombo, de navios, de um braço armado; gregos com a effigie de
Mercurio, o deus unico que ficou de Homero, sobrevivo do Olympo depois
de Pan; sellos da China com um dragão esgalhando garras; do Cabo,
triangulares; da republica de Orange com uma larangeira e tres trompas;
do Egypto com a esphinge e as pyramides; da Persia de Nasser-ed-Din com
um pennacho; do Japão, bordados, rendilhados como pannos de biombo e de
ventarolas; da Australia, com um cysne; do reino de Hawaii, do rei
Kamehameha III; da Terra Nova com uma phoca em campo da neve; dos
Estados-Unidos; de todos os presidentes da republica de S. Salvador com
uma aureola de estrellas sobre um vulcão; do Brasil, desde os enormes
mal feitos de 1843; do Perú com um casal de lamas; todas as côres,
todos os sinetes com que os estados tarifam as correspondencias
sentimentaes ou mercantis explorando indistinctamente um desconto minimo
nas especulações gigantescas e o imposto de sangue sobre as saudades
dos emigrados da fome.
A sala geral do estudo, comprida, com as quatro galerias de carteiras e
a parede opposta de estantes e a tribuna do inspector, era um microcosmo
de actividade subterranea. Estudo era pretexto e apparencia, as
encadernações capeavam mais a esperteza do que os proprios volumes.
A certas horas reunia-se alli o collegio inteiro, desde os elementos de
primeiras letras até os mais adiantados cursos. Agrupavam-se por ordem
de habilitações; o abc diante da porta de entrada, á direita; á
extrema esquerda, os philosophos, cogitadores do Barbe, os latinistas
abalisados, os admiraveis estudantes do allemão e do grego.
Baralhavam-se as tres classes de idades; podia estar um marmanjo
empacado á direita na carteira dos analphabetos, e podia estar um
bêbê prodigio a desmammar-se na philosophia da esquerda. O acaso da
collocação podia sentar-me entre o Barbalho e o Sanches, como podia da
affeição do Alves desterrar-me uma legua. Dependia tudo do
adiantamento.
Como compensação d'estas desvantagens havia os telegraphos e a
correspondencia de mão em mão. Os fios telegraphicos eram da melhor
linha de Alexandre 80, subtilissimos e fortes, accommodados sob a taboa
das carteiras, mantidas por alças de alfinete. Em férias desarmavam-se.
Dous amigos interessados em communicar-se estabeleciam o apparelho; a
cada extremidade, um alphabeto em fita de papel e um ponteiro amarrado
ao fio; legitimo Capanema. Tantas as linhas, que as carteiras vistas de
baixo apresentavam a configuração agradavel de citharas encordoadas
tantas, que ás vezes emmaranhava-se o serviço e desafinava a cithara
dos recadinhos em harpa de carcamano.
Havia o genio inventivo no _Atheneu_, esperanças de riqueza, por alguma
descoborta milagrosa que o acaso deparasse á maneira do pomo de Newton.
Occorre-me um perspicaz que contava fazer fortuna com um privilegio para
explorar ouro nos dentes chumbados dos cadaveres, uma mina! Foi assim a
invenção malfadada do telegrapho-martellinho. Tantas pancadinhas, tal
letra; tantas mais, tantas menos, taes outras. Os inventores achavam no
systema dos signaes escriptos a desvantagem de não servir á noite. O
elemento base d'esta refórma era uma confiança absoluta na surdez dos
inspectores; aventuroso fundamento, como se provou.
As primeiras pancadinhas passaram; apenas os estudantes mais proximos
sorriam disfarçando. Mas o martellinho continuou a funccionar e ganhou
coragem. No silencio da sala, gottejavam as pancadas, miudas, como o
debicar de um pintainho no soalho.
No alto da tribuna, o Sylvino coçou a orelha e ficou attento; começava
a implicar com aquillo. Silencio... silencio, e as pancadinhas de vez em
quando.
Foi o diabo. Inesperadamente precipitou-se do alto assento como um
abutre, e com a finura do officio foi cair justo sobre o melhor de um
despacho. Seguiu-se a devastação. Examinando a carteira, descobriu a
rêde consideravel dos outros telegraphos. Foi tudo raso. Brutal como a
furia, implacavel como a guerra--oh Havas!--o Sylvino não nos deixou um
fio, um só fio ao novello das correspondencias! De carteira em
carteira, por entre pragas, arrancou, arrebentou, destruiu tudo, o
vandalo, como se não fosse o fio telegraphico listrando os céus a
pauta larga dos hymnos do progresso e a nossa imitação modesta uma
homenagem ao seculo.
A violencia não fez mais que augmentar o trafego dos bilhetinhos e
suspender temporariamente a telegraphia.
De mão em mão como as epistolas, corriam os periodicos manuscriptos e
os romances prohibidos. Os periodicos levavam pelos bancos a troça
mordaz, aos collegas, aos professores, aos bedeis; mesmo a pilheria
blasphema contra Aristarcho, uma temeridade. Os romances, enredados de
atribulações febricitantes, attrahindo no descriptivo, chocantes no
desenlace, alguns temperados de grosseira sensualidade, animavam na
imaginação panoramas ideados da vida exterior, quando não ha mais
compendios, as luctas pelo dinheiro e pelo amor, o ingresso nos salões,
o exito da diplomacia entre duquezas, a festejada bravura dos duellos, o
pundonor de espada á cinta; ou então o drama das paixões asperas,
tormentos de um peito malsinado e sublime sobre um scenario sujo de
bodega, entre vomitos de máu vinho e palavradas de barregã sem preço.
Com a proximidade das férias de anno, tudo desapparecia. O
aborrecimento imperava.
A impaciencia da expectativa de livramento fazia intoleravel a reclusão
dos ultimos dias.
Organisavam-se os preparativos para a grande exposição de trabalhos da
aula de desenho, as aulas primarias estavam a ponto de entrar em exames,
dos particulares semestraes, em que o director sondava o aproveitamento.
Estes cuidados não podiam combater a inercia expectante dos animos.
No salão do estudo poucos abriam livro. Os rapazes alargavam os
cotovellos sobre a carteira, fincavam o queixo nas costas da mão e
abstrahiam-se com o olhar immovel, idiotismo de espera, como se
tentassem perceber o curso das horas no espaço. Por traz da casa, no
quintal do director, ouvia-se cantando Angela, cantilenas hespanholas,
sinuosas de molleza; mais longe, muito mais, em zumbido indistincto,
como um horizonte sonoro, as cigarras trilavam, agitando o ar quente com
uma vibração de fervura.
Nas horas longuissimas do recreio, os rapazes passeavam calados,
destruindo a communhão usual dos brincos, como se temessem estragar
mais alegria naquelle captiveiro, certos de melhor emprego breve. Pelas
paredes a carvão, pelas taboas negras a traços brancos, arranhada na
caliça, escripta a lapis ou a tinta, por todos os cantos via-se esta
proclamação: _Viva ás férias_! determinando a ansiedade geral, como
um pedido, uma intimativa ao tempo que fosse menos tardo, oppondo,
cruel, a resistencia impalpavel, invencivel dos minutos, dos segundos,
á chegada festiva da boa data.
Bento Alves, depois de assegurar que unicamente por mim se havia
sujeitado á humilhação que soffrera, andava propositalmente arredio.
Eu, solitario, ia e vinha como os outros, percorrendo o pateo, marcando
a bocejos os prazos alternados de impaciencia e resignação, vendo
pairar por cima do recreio um papagaio que soltavam meninos da rua para
as bandas do _Atheneu_. Invejava-lhe a sorte, ao papagaio cabeceando
alegre, ondeando a balouçar, estatelando-se no vento, passaro
caprichoso, dominando vermelho o vasto rectangulo azul que as paredes
cortavam no firmamento, solitario, solitario como eu, captivo
tambem--mas ao alto e lá fóra.
Relaxava-se o horario; professores faltavam; era menos rude a
inspecção. Os alumnos iam por toda parte á vontade. Faziam roda de
palestra nos dormitorios, pilando enfastiadamente os mais duros
assumptos, murmurações esmoidas, escabrosidades pulverisadas,
trituradas malicias, algumas vezes malicias ingenuas se é possivel,
caracterisando-se no conciliabulo o azedume tagarella do cançaço podre
de um anno, conforme a psychologia de cada salão.
Os dormitorios appellidavam-se poeticamente, segundo a decoração das
paredes: _salão perola_, o das crianças, policiado por uma velha,
mirrada e má, que erigira o beliscão em preceito unico disciplinar,
olhos minimos, chispando, bocca sumida entre o nariz e o queixo,
garganta escarlate, Uma população, de verrugas, cabeça pennugenta de
gypaeto sobre um corpo de bruxa; _salão azul_, _amarello_, _verde_,
_salão floresta_, dos ramos do papel, aos quaes se recolhia a classe
innumeravel dos médios. O salão dos grandes, independente do edificio,
sobre o estudo geral, conhecia-se pela denominação amena de _chalet_.
O chalet fazia vida em separado e mysteriosa.
O policiamento dos dormitorios competia aos diversos inspectores,
convenientemente distribuidos.
Na época attenuavam-se os zelos da policia. O proprio gypaeto do
_perola_ batia as azas para a folia, uma innocente folia de noventa
annos.
A palestra corria desassombrada.
Deitavam-se uns a uma cama, outros cercavam agrupados nas camas proximas
e atacavam os assumptos.
No salão dos médios:
«D. Emma... D. Emma... não se murmura á tôa... Reparem na maneira de
falar do Chrysostomo... Tem motivo, um rapagão... Palavra que os
apanhei sósinhos, juntinhos, conversando, á distancia de um beijo...
--O melhor é que o Chrysostomo não vae para a rua... Que diabo, nem
tanto vale o grego, que se pague a beijocas descontadas pela mulher....
Tenho para mim que o negocio ainda acaba mal e porcamente, _kakós kai
ruparós_ com uma estralada...
--Ora, directores! emprezarios! fabricantes de sciencia barata e
prodigios de carregação, com que empulham os papaes basbaques... O que
querem é a frequencia do negocio... Falem cá em annuncios... Mulher ao
balcão... Que chamariz, uma carinha seductora! Eu por mim, se fosse
director, inaugurava um _Kindergarten_ para taludos; uma bonita
directora á testa e quatro adjunctas amaveis... Não haveria nhonhô
graudo que não morresse pelo ensino intuitivo. Como não haviam de
pagar para cortar pauzinhos no meu jardim! E que serviço ao progresso
do meu paiz: estimular á Frœhel as intelligencias perrengues e as
adolescencias atrazadas...
--Pois eu seria capaz de guerrear o estabelecimento. Se fosse director,
teria o cuidado de ser tambem ministro do imperio... Revogava a
Instrucção Publica e approvava a minha gente por decreto, tudo de
pancada e com distincção.
--Qual! eu, se fosse director, seria safado! Não ha nada neste mundo
como ser safado! Uma bonita meninada, que festança! Os meninos gostam
da gente, a gente gosta dos meninos e o collegio cresce: _crescite_!...
D'ahi a pouco tanta matricula, que precisariamos mudar de casa...
--Que canalha! Que linguinhas... Safa! Pois eu cá só digo mal
d'aquelle typo do _Lyceu Marcello_, que tem na face a costura
cicatrizada do talho que lhe fez um discipulo em certa aventura com o
mais pacifico dos utensilios, e que, ainda assim, foi apanhado no
_Cassino_ deixando aberto num divan o _carnet_ de baile, cuidadosamente
illustrado de symbolos... pedagogicos.
A palestra no _perola_ era muito mais candida, e, principalmente, nada
pessoal.
Curso improvisado de obstetrica elementar, pura especulação. Todos
queriam saber; apertavam-se vinte pequenos em roda do problema, como
aquellas figuras da licção de Rembrandt. Qual a origem das especies?
Eram investigadores. Ninguem adiantava um passo. Estava ausente o
gypaeto, que talvez podesse explicar. Feliz quem póde conhecer a causa
das cousas! Como é a entrada na vida? Ordem dorica? jonica? composita?
As imaginações trabalhadas formigavam avidamente sobre a questão;
ninguem penetrava. Desenrolavam-se as theorias domesticas,
angelico-gynecologicas.
Havia em Paris uma grande empreza de exportação, da qual eram agentes
em todo o mundo os parteiros, e commissaria central no Rio M.^me
Durocher. Vinha o genero nos berços, encaixotados, mijadinhos e
chorosos. Esta theoria tinha o merecimento philosophico de prescindir
das causas finaes. Os metaphysicos inclinavam-se mais para a
intervenção da sobre-natureza: por occasião do Natal havia de noite
uma distribuição geral de herdeirozinhos pela terra, chuva de
pimpolhos, para compensar a matança dos innocentes, tão prejudicial no
tempo de Herodes. Inutil dizer que os referidos innocentes vinham
outr'ora ao mundo pela mão dos mesmos portadores das credenciaes da
revelação, hoje em desuso.
E a academiazinha de investigadores amimava documentos, sorrindo alguns
da credulidade dos outros, exhibindo em refutação credulidade de
diverso quilate; alguns, mais positivos, adduzindo observações
proprias, porque os meninos espiam, offerecendo á opinião dos collegas
uma nota ponderosa, edificando-se lentamente o systema como os systemas
se edificam, aproveitando-se apenas o elemento franqueado pelo apoio
commum.
Dous ultimos pareceres concorreram opportunamente para desatar os
embaraços e a assembléa dispersou-se. Um cearensezinho, de cabello á
escova, intelligente e silencioso, amigo de responder por um geito
especial de virar os olhos, senhor de um sorriso desconcertante que
sabia armar a proposito, falando baixinho e explicito, introduziu no
debate a descripção minuciosa, sem perda de fofos nem apanhados, da
toilette balnearia das mulheres do sertão na provincia, descendo ao
rio, de um bello panno sympathico em que o raio do sol nascente
representa de fio mais grosso. Outro parecer foi a grosseira chacota de
um caturra barrigudinho, fronte de novilho, miniatura de arrieiro,
brutal e maroto, filho de um criador abastado do Paraná e instruido
para todas as exigencias praticas da industria paterna. Estava alli a
ouvir desde o principio sem dizer palavra, esperando a conclusão.
Suppondo que o cearense ia fazer a luz, atirou-se adiante, interrompeu-o
e concluiu largando o enxurro, espojando-se farto na garotada, como a
cria da estancia no lodo fresco.
A vadiagem dos dormitorios não consistia só em palestra. Depravados
pelo aborrecimento e pela ociosidade, inventavam extravagancias de
cynismo.
O Cerqueira, _ratazana_, sujeito comico, cara feita de beiços, rachada
em bocca como as romans maduras, de mãos enormes como um disfarce de
pés, galopava a quatro pelos salões, zurrando em fraldas de camisa,
escoucinhando uma alegria sincera de mú. Maurilio, o dos quinaus, não
era exclusivamente o campeão da taboada que conhecemos; tinha outra
habilidade notavel e prestava-se com applauso a uma experiencia original
de fluidos inflammaveis. Este rapaz escapou de morrer, em um dos ultimos
naufragios da nossa costa; um ex-collega escreveu-lhe: Quem os semeia,
colhe tempestades.
As provocações no recreio eram frequentes, oriundas do enfado;
irritadiços todos como feridas; os inspectores a cada passo precisavam
intervir em conflictos; as importunações andavam em busca das
susceptibilidades; as susceptibilidades a procurar a sarna das
importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabellos. Viam
Romulo passar, lançavam-lhe o appellido: _mestre cook_!
Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Romulo! só
porque lembrava a culinaria, com a carnosidade bamba, fofada dos
pastellões, ou porque era gordo das enxundias enganadoras dos
fregistas, dissolução morbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de
mais volumosa saude? Romulo era simplesmente e completamente o
confeiteiro das esperanças doces de Aristarcho.
Anafado de apparencia, e ainda mais ancho de fortuna, significava bem o
que se diz um bom partido. Aristarcho tinha uma filha; saude, fortuna:
um genro ideal; ainda por cima bonachão e pacato.
A Melica, a altiva e requebrada Amalia, lambisgoia, proporções de
vareta, fina e longa, morena e airosa, levava o tempo a fazer de
princeza. Dous grandes olhos pretos, exaggero dos olhos pretos da mãe,
tomavam-lhe a face, dando-lhe de frente a semelhança justa de um bello
I com dous pingos. Por estes olhos e por sobre os hombros, que tinha
erguidos e mephistophelicos, derramavam-se desdens sobre tudo e sobre
todos. Possuia e petiscava a certeza facil de que o _Atheneu_ em peso
andava caído por ella, e morava no andor imaginario d'aquella idolatria
de trezentos. Trezentos corações, trezentos desdens. A eminencia do
pae sobre aquelle mundozinho desprezivel dava-lhe vida á vangloria, e
ella gostava de visitar o collegio para ter occasião de exercitar a
altivez culminante, misturada, do sexo e da gerarchia. Quanto a Romulo,
era o primeiro no seu desprezo. Timbrava em não prestar-lhe attenção.
Designava-o esplendidamente:--o parvo. Melica era bem conversada e
preciosa.
Romulo philosophava por Epicuro. Desdens não matam. Havia de bom
naquella attitude de noivado perenne, uma serie de utilidades: cargo de
vigilante, privilegios de benevolencia, um jantar de vez em quando com o
director,--isto é, uma folga ao paladar imaginada em sonho por quantas
boccas, no regimen obrigatorio e destemperado da casa, _menu_
permanente, inviolavel como a letra das constituições.
Quando vinha Melica ao _Atheneu_, era Romulo o primeiro a aproximar-se,
o ultimo a ser visto. Aristarcho chamava-o ás vezes e levava a passeio
com a menina. Melica, toda donaire e orgulho, passava adiante e
permittia, quando muito, que Romulo a seguisse cabisbaixo e mudo, como
um hippopotamo domesticado. Diga-se, a bem da verdade, que o gorducho
esperava rir por ultimo ao pae e á filha.
Em um estabelecimento de rumorosa fama como o _Atheneu_ não se podia
deixar de incluir no quadro das artes a musica de pancadaria.
Passava despercebido o harmonium do Sampaio, religioso e bálbuce.
Estimava-se como cousa somenos a rabequinha do Cunha, choramigas e
expressiva, nas mãos do esguio violinista; manhoso o instrumento como
uma casa de maternidade, pallido o musico, espichadinho e chlorotico;
dando ares de graça a linguagem das cravelhas por meio de sons que
imitavam a quasi aphasia timorata e infantil do Cunha, descambando em
syncopes, de vez em quando, estendendo guinchos hystericos de amor
vadio, saltitando _pizzicatos_ como as biqueiras de verniz do Cunha,
amigo de valsar, agil no baile como as fitas, as plumas e as evaporadas
tulles.
Considerava-se razoavelmente o piano do Alberto Souto, bochechas largas
de maestro em effigie, pianista portento que viera parar ao _Atheneu_,
depois de percorrer a Europa á cata de triumphos, redondo, curto e
musical como um cylindro de realejo; famoso pela gargalhada soez,
bagaço espremido da vaidade, da cobiça, que lhe ficara dos successos
do palco e das surras da aprendizagem; e pela estupidez secca nos
estudos, como se a intelligencia lhe houvesse escapado pelos dedos para
os teclados em deserção definitiva.
[Figura 26]
Mas a predilecção de Aristarcho era pela banda, pela pancadaria, grita
vibrante dos cobres, fuzilaria das vaquetas, levando gente á janella
quando o _Atheneu_ passava, dando rebate á admiração das esquinas, o
estrepito das caixas troando á marcha dobrada como um eco de combates,
furor infrene, irresistivel, de zabumbada em feira.
A banda tinha casa propria e um professor bem pago. Os instrumentistas
gozavam de particular favor nos relaxamentos de disciplina; nas
occasiões de festa eram mimoseados, com um brinde de gulodices;
condecoravam-se com distinctivos de prata, que nem os harmoniosos
concertantes do _Orpheon_ logravam pilhar.
Ainda na banda graduava-se a predilecção de Aristarcho, segundo a
importancia de sonoridade dos timbres. O grave bombardão, o ophiclide,
a trompa, o trombone, o proprio sax, destinados ao mister secundario de
acompanhamento, recuando, como lacaios, na encenação sonora, homens
de armas servilmente bravos nas investidas brilhantes, ou timidos
pagens, arrepanhando o abandono de caudas escapadas ao luxo regio das
grandes notas do canto,--valiam menos ainda, na estima do director, que
na marcação da partitura.
Predilecto era o flautim, florete feito som, tenue, penetrante,
perfuração de agulhas; predilecta era a requinta, especie de flautim
rachado, aggressiva como a vibração do dardo das serpentes; o fagote,
augmentativo de requinta, unico apparelho capaz de produzir
artificialmente a fanhosidade colerica das sogras; o claro oboe, larynge
metallica de um cantor de epopéas, heroico e bello; o piston frenetico
e vivo, estandarte á mostra sobre a celeuma, harmonisando,
centralisando a instrumentação como um regimento de cavalleiros.
Predilectos porque gritavam mais! Predilecto principalmente o tambor e o
bombo tonante, primazia do estrondo, a trovoada das pelles tezas, que a
tormenta sobraça nos arroubos de carnaval canalha dos seus dias e que
sobraçava, no _Atheneu_, Romulo, o graxo Romulo, o nedio, o opulento, o
carissimo genro das esperanças caras.
Foi exactamente por esta seriação de preferencias acusticas que chegou
Aristarcho á descoberta do seu favorito. E por acaso.
Durante uma festa escolar, exhibia-se a banda. Distrahe-se o bombo e
solta fóra de tempo um magnifico tiro, que ia bem á composição
executada como uma gotta de tinta Monteiro numa aquarella. Metade dos
ouvintes acreditaram que aquillo era um capricho wagneriano enxertado de
proposito; outra metade não conteve o riso.
Aristarcho admirava o bombo em solo, solidão das salvas em pleno mar,
factor grandioso de sonoridade que o Zé Pereira multiplica. Mas o riso
dos convidados incommodou-o.
Acabada a festa, mandou vir á presença o artista do estampido.
Apresenta-se o musico e não sei como se entenderam que, em vez de
castigo, retirou-se Romulo do gabinete com os foraes vantajosos de genro
_ad honorem_.
O escandaloso favor suscitou uma reacção de inveja.
Romulo era antipathisado. Para que o não manifestassem excessivamente,
fazia-se temer pela brutalidade. Ao mais insignificante gracejo de um
pequeno, atirava contra o infeliz toda a corpulencia das infiltrações
de gordura solta, desmoronava-se em sôcos. Dos mais fortes vingava-se,
resmungando intrepidamente.
Para desesperal-o, aproveitavam-se os menores do escuro. Romulo, no
meio, ficava tonto, esbravejando juras de morte, mostrando o punho. Em
geral procurava reconhecer algum dos impertinentes e o marcava para a
vindicta. Vindicta inexoravel.
No decorrer enfadonho das ultimas semanas, foi Romulo escolhido,
principalmente, para expiatorio do desfastio. _Mestre cook_! via-se
apregoado por vozes phantasticas, saídas da terra; _mestre cook_! por
vozes do espaço, rouquenhas ou esganiçadas. Sentava-se acabrunhado,
vendo se se lembrava de haver tratado panellas algum dia na vida; a
unanimidade impressionava. Mais frequentemente, entregava-se a accessos
de raiva. Arremettia bufando, espumando, olhos fechados, punhos para
traz, contra os grupos. Os rapazes corriam a rir, abrindo caminho,
deixando rolar adiante aquella ambulancia damnada de elephantiasis.
A uma das vaias estive presente. Romulo marcou-me. Pouco depois
encontravamo-nos no longo corredor que levava á bibliotheca do
_Gremio_. Situação embaraçosa. Eu vinha, elle ia. Parar? Recuar?
Emquanto hesitava, fui-me adiantando. Romulo, de salto, empolgou-me a
golla da blusa. Sacudia a ponto de macerar-me o peito. «Então, seu
cachorro (_sic_), diga-me aqui, se é capaz, quem é _mestre_.»
A injuria equilibrou-me do espanto. Estava tudo perdido. Deitei bravura.
«_Mestre, mestrissimo cook_!» gritei-lhe á barba. Não sei bem do que
houve. Quando dei por mim, estava estendido em baixo do uma escada.
Entraram-me na cabeça tres pregos, que havia nos ultimos degráus.
Ponderando que tinha no futuro tempo de sobra para vingança,
levantei-me e sacudi da roupa a poeira humilhante da derrota.
Afinal, o dia chegou dos exames primarios.
Provas de formalidade para as transições do curso elementar: primeira
aula, para a segunda, segunda para a terceira, terceira para o ensino
secundario.
Levavam-se assentos e mesas para o salão do oratorio, vestido o altar
de um reposteiro, e repotreava-se a commissão solemne, da qual faziam
parte personagens da Instrucção Publica, com o director e os
professores.
Aristarcho representava, na mesa, o voto pensado do guarda-livros.
Contas justas: approvação com louvor, cambiando ás vezes para
distincção simples; atrazo de trimestre, approvação plena com risco
de simplificação; atrazo de semestre, reprovado.
Havia no _Atheneu_, fóra d'esta regra, alumnos gratuitos, doceis
creaturas, escolhidas a dedo para o papel de complemento objectivo do
caridade, timidos como se os abatesse o peso do beneficio; com todos os
deveres, nenhum direito, nem mesmo o de não prestar para nada. Em
retorno, os professores tinham obrigação de os fazer brilhar, porque
caridade que não brilha é caridade em pura perda.
Nas provas do terceiro anno, as distincções foram tão numerosas, que
me veio ter as mãos uma, sem escandalo aliás, que desde muito perdera
o medo e começava a quadrar-me a _aisance_ das demonstrações, como um
mal contaminado do director. Fiz um figurão, apanhei a deliciosa nota,
que levei a mostrar em casa, como um bichinho raro, mimando-lhe o pello
fino, beijocando-lhe a focinheira. Sanches teve louvor; Manlio, louvor;
Cruz, louvor tambem, graças á especialidade da cartilha, em que era
provecto, espantando a commissão julgadora com a ladainha toda de Nossa
Senhora e ameaçando-nos com o calendario de cór. Santo por Santo,
observações adjacentes, mais a designação das festas moveis e das
luas, como o proprio doutor Ayer das pilulas catharticas o não faria.
Gualterio, palhaço, foi reprovado. Nascimento, o _bicanca_, fungou de
satisfação: plenamente. Negrão, Almeidinha, Alvares, distincção.
Contra a distincção d'este ultimo, o professor Manlio protestou
surdamente; o bronco do Alvares com distincção! Baptista Carlos, o
bugre das settas, bomba! Diante da commissão mostrou-se muito
surprehendido das perguntas, como se tivesse alguma cousa com aquillo;
Barbalho, bomba. Barbalho pae andava atrazado semestre e meio e Barbalho
filho não deixou de salvar as apparencias com uma escrupulosa
collaboração de asneiras. O optimo, o veneravel Rebello não
compareceu: deixara o collegio, havia mezes, por causa dos olhos.
[Figura 27]
Emquanto na sala verde, emparedada de porphyro polido, esperava, com os
collegas, que apparecesse á porta o inspector que devia ler o resultado
do escrutinio, foi-me parar a vista aos quadros de alto relevo, das
artes e das industrias, os risonhos meninos nús, fraternaes, em gesso
puro e innocencia. Senti-me velho. Que longa viagem de desenganos!
Alguns mezes apenas, desde que vira, á primeira vez, as ideaes
crianças vivificadas no estuque pelo contagio do enthusiasmo ingenuo,
ronda feliz do trabalho... Agora, um por um que os interpretasse, aos
pequenos hypocritas mostrando as nadegas brancas com um reverso igual de
candura, um por um que os julgasse, e todo aquelle gesso das facezinhas
rechunchudas córaria de uma sancção geral e esfoladora de palmadas.
Não me enganavam mais os pequeninos patifes. Eram infantis, alegres,
francos, bons, immaculados, saudade ineffavel dos primeiros annos,
tempos da escola que não voltam mais! E mentiam todos! Cada rosto
amavel d'aquella infancia era a mascara de uma falsidade, o prospecto de
uma traição. Vestia-se alli de pureza a malicia corruptora, a
ambição grosseira, a intriga, a bajulação, a covardia, a inveja, a
sensualidade brejeira das caricaturas eroticas, a desconfiança selvagem
da incapacidade, a emulação deprimida do despeito, da impotencia, o
collegio, barbaria de humanidade incipiente, sob o fetichismo do Mestre,
confederação de instinctos em evidencia, paixões, fraquezas,
vergonhas, que a sociedade exaggera e complica em proporção de escala,
respeitando o typo embryonario, caracterisando a hora premente, tão
desagradavel para nós, que só vemos azul o passado, porque é illusão
e distancia.
Para a exposição dos desenhos foram retiradas as carteiras da sala de
estudo, forradas de setim escuro as paredes e os grandes armarios. Sobre
este fundo, alfinetaram-se as folhas de Carson, manchadas a lapis: pelo
sombreado das figuras, das paysagens, pregaram-se, nas molduras de friso
de ouro, os trabalhos reputados dignos d'esta nobilitação.
Eu fizera o meu successozinho no desenho, e a garatuja evoluira no meu
traço, de modo a merecer encomios. A principio, o bosquejo simples,
linear, experiencia da mão; depois, os esbatimentos de tons que
consegui logo como um matiz de nuvem; depois, as vistas de campo,
folhagem rendilhada em bicos, pardieiros em demolição pittoresca da
escola franceza, como ruinas de páu podre, armadas para os artistas.
Depois de muito moinho velho, muita vivenda de palha, muito casarão
deslombado, mostrando as miserias como um mendigo, muita pyramide de
torre aldeã esboçada nos ultimos planos, muita figurinha vaga de
camponesa, lenço em triangulo pelas costas, rotundas ancas, saias
grossas em pregas; sapatões em curva, passei ao desenho das grandes
cópias, pedaços de rosto humano, cabeças completas, cabeças de
corcel; cheguei á ousadia de copiar com toda a magnificencia das sedas,
toda a graça forte do movimento, uma cabra do Thibet!
Depois da distincção do curso primario, foi esta cabra o meu maior
orgulho. Retocada pelo professor, que tinha o bom gosto de fazer no
desenho tudo quanto não faziam os discipulos, a cabra thibetana, meio
metro de altura, era aproximadamente obra prima. Ufanava-me do
trabalho. Não quiz a sorte que me alegrasse por muito. Negaram-me á
bella cabra a moldura dos bons trabalhos; ainda em cima--considerem o
desespero! exactamente no dia da exposição, de manhã, fui encontral-a
borrada por uma cruz de tinta, larga, de alto a baixo, que a mão
benigna de um desconhecido traçara. Sem pensar mais nada, arranquei á
parede o desgraçado papel e desfiz em pedaços o esforço de tantos
dias de perseverança e carinho.
Quando os visitantes invadiram a sala, notaram na linha dos trabalhos
suspensas duas enigmaticas portas de papel rasgado. Estranhavam,
ignorando que alli estava, interessante, em ultimo capitulo, a historia
de uma cabra, de uma cruz, drama de desespero e espolio miserando de uma
obra prima que fôra.
As exposições artisticas eram de dous era dous annos, alternadamente
com as festas dos premios. Conseguia-se assim uma quantidade fabulosa de
papel riscado para maior riqueza das galerias. Cobria-se o metim desde o
soalho até ao tecto. Havia de tudo, não só desenhos. Alguns quadros a
oleo, do Altino, risonhas aquarellas accidentando a monotonia cinzenta
do Faber, do Conté, do _fusain_. Os futuros engenheiros applicavam-se
ás aguadas de architectura, aos desenhos coloridos de machinas.
Entre as cabeças a crayon retincto, crinas de ginete, felpas de onagro
lanzudo, inclinando o funil das orelhas, cerdosas frontes hirsutas de
javalis, que arreganhavam presas, perfis de audacia em collarinhos de
renda, abas atrevidas de feltro, plumas revoltas, physionomias de
marujo, selvagens, arrepiadas, num sopro de borrasca, barbas incultas,
carapuça esmurrada sobre a testa, cachimbo aos dentes; entre todas
estas caras, avultava uma collecção notavel de retratos do director.
[Figura 28]
O melindroso assumpto fôra inventado pela gentileza de um antigo
mestre. Preparou-se modelo; um alumno copiou com exito; e, depois, não
houve desenhista amavel que não entendesse zeladamente dever ensaiar-se
na respeitavel veronica. Santo Deus! que ventas arranjavam ao pobre
Aristarcho! Era até um desaforo! Que olhos de blepharite! que boccas de
beiços pretos! que calumnia de bigodes! que invenção de expressões
aparvalhadas para o digno rosto do nobre educador!
Não obstante, Aristarcho sentia-se lisonjeado pela intenção.
Parecia-lhe ter na face a cocegazinha subtil do crayon passando,
brincando na ruga molle da palpebra, dos pés de gallinha, contornando a
concha da orelha, calcando a commissura dos labios, entrevista na franja
dos fios brancos, definindo a severa mandibula barbeada, subindo pelas
dobras obliquas da pelle ao nariz, varejando a pituitaria, extorquindo
um espirro agradavel e desopilante.
Por isso eram acatados os desenhistas da veronica.
Os retratos todos, bons ou máus, eram alojados indistinctamente nas
molduras de recommendação. Passada a festa, Aristarcho tomava ao
quadro o desenho e levava para casa. Tinha-os já ás resmas. Ás vezes,
em momentos de _spleen_, profundo _spleen_ de grandes homens,
desarrumava a pilha; forrava de retratos, mesas, cadeiras, pavimento. E
vinha-lhe um extase de vaidade. Quantas gerações de discipulos lhe
haviam passado pela cara! Quantos affagos de bajulação á effigie de
um homem eminente! Cada papel d'aquelles era um pedaço de ovação, um
naco de apotheose.
E todas aquellas cousas mal feitas animavam-se e olhavam brilhantemente.
«Vê, Aristarcho, diziam em côro, vê; nós que aqui estamos, nós
somos tu, e nós te applaudimos!» E Aristarcho, como ninguem na terra,
gozava a delicia inaudita, elle incomparavel, unico capaz de bem se
comprehender e de bem se admirar--de vêr-se applaudido em chusma por
alter-egos, glorificado por uma multidão de si-mesmos. _Primus inter
pares_.
Todos, elle proprio, todos acclamando-o.