apparecemos ante o portal gothico do templo. F. gritou-me
zombeteiramente:
--Adiante! Era elle quem tinha medo.
Subi ao côro. Na fita de papel, sempre em movimento e desenrolando-se
com imperturbavel presteza, no cylindro de aço annexo ao apparelho, o
punção do receptor tinha escripto, horas antes, este telegramma:
«_Paris 9, ás 10 horas da manhã.--Terminou o prazo de 24 horas
concedido aos jesuitas de Paris, para sahirem das casas que occupavam
e fecharem os cursos publicos que regiam. Hoje ás 11 horas, a
policia fará despejar todos os estabelecimentos da Companhia de
Jesus. Receiam-se disturbios. O prazo de 15 dias foi cedido aos
estabelecimentos da mesma Ordem, em actividade em toda a França._»
--A padralhada vai ficar fula! gritou F. O que dirá padre Kurpi,
respeitavel e escanhoado director espiritual de minha tia baroneza? Eh!
que vai tudo razo!
--Uma hora. Isto enfastia. Vamos ás ostras.
--Não vejo inconveniente, disse o conde com um jogo de hombros. Vamos
lá.
--Se passar algum telegramma, o punção deixa na fita escripto o que
houver.
Descemos aos rochedos e das rochas á arêa. A maré enchia, e uma agua
crystallina e tepida, do sol no zenith, acariciava lubricamente as
barbaças das caryatides d’alga que á bocca da gruta faziam carantonhas.
--Já fizeste a digestão? inquiriu F.
--Já e tu? E o banho está tão patife!...
--N’esse caso atiremo’-nos á agua.
--Vá feito.
Em cinco minutos, as nossas cabeças sahiam á flôr do oceano como as
d’esses tritões alegres, que nas estampas rodeiam os carros em concha
dos deuses marinhos. Nadavamos a distancia em frente da caverna, que
vista d’aquelle ponto tinha as mais singulares parecenças com uma bocca
de reptil descommunal.
--Repara, dizia eu apontando. Aquella fita de arêa clara que forra a
entrada, é como um beiço estendido. Depois, logo as primeiras pedras
aguçadas compõem a porção incisiva e canina da dentadura. Olha para
o fundo. Vês as estalactites conicas que descem do tecto? São os
dentes do crocodillo com fome. Olha mais para o fundo, aquella arcada
incompleta--é a guela. Lá tens a uvula, o céo da bocca retalhado
de sulcos negros. Agora para cima da bocca, aquella buracaria em
triangulo. Primeiro temos as narinas, ferozes e dilatadas. Nas horas
de borrasca a agua esguicha por alli, como dos respiros de uma balêa.
E os olhos, tão profundos e sem orbita! Depois a cabeça, toucada do
barrete gothico do mosteiro.
--É original! dizia F. reparando.
--É terrivel, juntei eu.
Continuámos a nadar. Um zumbido de vida exuberante sahia da agua.
De cabeça estendida, eu olhava a caverna. Parecia-me ter notado um
movimento lateral de maxillas, na estranha bocca do inferno. O monstro
triturava. Diabo!
Ri-me d’alli a pouco do poder da minha imaginação, irritada ante
aquelle scenario de titans.
A faiscação do astro vestia o cetaceo do mar n’uma couraça de
relampagos, e uma rêde de oiro amoldava-se á ondulação do monstro
respirando. Mas então notei que as estalactites oscillavam, e as
fauces do antro se uniam n’uma estrangulação de raiva. D’essa garganta
formidavel de agonisante, um oceano arremessou contra nós montanhas de
agua negra, fervilhando em espuma sulphydrica.
A violencia do jacto foi tamanha que ambos nós, eu e o conde,
fomos morder a arêa do fundo, distantes da caverna como estavamos.
Das entranhas da terra sahiram rugidos como se o mundo fizesse
derrocada--vimos mexer o convento, abaterem-se as flechas das torres,
desabar a abobada com fracasso indescriptivel--a vaga atirou-se
raivando de encontro aos destroços, como um mollosso aos peitos de um
vencido. E meia hora depois, no sitio do mosteiro assentava a pyramide
torva dos destroços, sobre que as gaivotas aos gritos descreviam as
suas espiras fatidicas.
Chegado á praia e envergado o fato, o meu primeiro cuidado foi vêr as
horas.
--Tres e meia! A derrocada tinha portanto sido _ás tres, no dia 9 de
junho de 1880_.
O conde chegou a casa sem poder fallar. Nunca assistira a espectaculo
mais grandioso. _Nem o incendio do Banco._
Dias depois, um criado da quinta veio trazer-nos intacto o receptor que
pudera salvar nas ruinas, e um bocado de papel onde estava escripto a
punção, o seguinte telegramma:
«_Paris 9, ás 3 da tarde. Completou-se em Paris a expulsão dos
jesuitas. O povo assistiu sem protesto ao cumprimento dos decretos da
Republica. Reina socego_».
Pois que o povo era indifferente, a pedra quizera protestar derruindo,
contra essa lei que afugentava implacavel, as tristes ovelhas do
Senhor!
[Illustração]
O NINHO D’AGUIA
Na tarde anterior dirigira-me ao montado, cahia a noite. Uma
contemplação profunda fazia-se em torno e o campo adormecia. Sobre as
arvores, o céo concavo tinha laivos rosa, como sorrisos tristes de
boccas que exhalam o ultimo adeus. Longe, por entre os caules seculares
dos azinhaes e carvalheiras, uns acharoados de incendio ardiam em
apotheoses fulgidas, sobre que os braços do arvoredo desenhavam em
negro fórmas de estranhos esqueletos. Cahiam a prumo, d’uma banda
e outra, fórmas de granitos aridos mostrando nos reconcavos e na
profundeza lobrega dos barrancos, os primeiros phantasmas da noite com
os seus capuzes de sombra derrubados na fronte, e um escorregamento
de passadas mysteriosas--como de ronda sinistra que desemboca na
quietidão d’uma viella, no silencio da noite velha. Ao centro do
abysmo, a vereda serpenteava, corcovando a sua fita saibrenta por
entre agglomerações bruscas de basalto e grés vermelho, d’onde os
matagaes irrompiam como hirsutos cabellos d’uma cabeça decepada. Por
sob a vegetação aggressiva dos espinheiros e zambujaes, uma linha
d’agua corria, fazendo murmurios timidos de segredos trazidos de fraga
em fraga--e essa queixa contínua e chorosa das gotas cahindo manso,
acrescentava uma nota saliente á symphonia em surdina dos vegetaes
adormecidos e dos ultimos ninhos em rumor. O montado começava d’alli
a subir pelo irregular das collinas. Não podia enganar-me na marcha.
Tinham-me dito--vaes pela vereda, chegas ao cotovêlo da rocha, á
esquerda, sobes a encosta.
--É a ultima azinheira, tronco direito e vermelho, com a cortiça
descascada. Leva corda para subires. Olhas para cima, aproximas-te sem
fazer ruido, ouve bem--sem fazer ruido! Dás com o ninho logo. Quando a
noite se fecha, a aguia chega, azas abertas, vôo circular e gritinhos
alegres de boa _ménagère_ que volta, com o dia ganho e um reptil no
bico curvo, para os pequeninos esfaimados.
Eu decorára todo este itinerario, promettendo não esquecer a menor
cautela, iria devagarinho, muito devagarinho, sem chapéo, descalço
mesmo, olhando para cima e em direitura á azinheira de tronco vermelho
e nú de cortiça. Tinha então doze annos, era rubro e selvagem,
de grenha fulva, os dentes pequeninos e ralos, muito brancos, que
erriçavam de gumes o meu riso escarlate e feroz--de korrigan vingativo.
Achavam-me o orgulho de um rei e a pouca educação de um herdeiro
presumptivo. Era de poucas palavras, vinham-me ao sol alegrias
colossaes que transbordavam de mim como o rufo de um tambor extravasa
da caixa de ar; todos os meus musculos amplos e duros na contracção,
contornados nas linhas altivas de um athleta imberbe, amavam a lucta
e se tonificavam na carreira. Passára até alli n’uma herdade, entre
boiadas de que uma mansidão poderosa se abala glorificando a força, á
rabeira dos arados, plena liberdade monteza, onde o homem regula as
pancadas do seu coração pelo palpitar tranquillo da grande natureza
que desabrocha em evohés hilariantes. Manhã nada já eu estava a pé,
sentado á banca da cozinha com os ganhões da herdade, diante da açorda
patriarchal que o alho impregna de odores vermifugos. Vestia como elles
a camisola de lã, o largo chapéo de borla e os grossos sapatos cardados
do agricultor, pião na algibeira, uma cicatriz transversal na testa,
de pedradas antigas. Era imperioso e adorado; de resto abusava, dizia
sempre--quero porque quero! Quando eu dormia, minha mãi ia beijar-me,
e d’uma vez acordando sob um d’esses beijos, que são como nymphêas
albas cahidas no marmore das epidermes frias, voltei-me e disse-lhe
enraivecido:
--Os homens não se beijam, apre!
Queimava em podendo, as bonecas de minha irmã, gostando de a vêr chorar
e de a fazer soffrer para me rir depois.
--Bem feito! Bem feito!
D’uma vez bateram-me. Em quanto eu berrava, o gallo cantando, fazia
apotheose da postura recente de uma gallinha amarella, que desposára.
Fui-me a elle e torci-lhe o pescoço.
--Para não mangares commigo. Toma!
A eira, diante do monte da herdade, era em plano inclinado, dura e
polida, sem hervas. Deitava-me no cimo e vinha rolando até baixo. Nunca
conseguiam trazer-me limpo--que tinha um odio insoffrido pelos fatos
novos e pelos peitos engommados, considerando a gravata um traste
inutil, de que me servia para amarrar chocalhos ao pescoço das ovelhas.
Só annos depois acreditei que o mundo que eu não conhecia, o _outro_,
fazia d’essa tira de sêda uma fronteira e perigosa--por muito infestada
pelo contrabando.
N’esse dia, mal deram cinco horas e me apanhei fóra da escóla, deitei
caminho do montado. Tinha á cintura uma corda de linho com azelha,
para subir á arvore, e no bolso uma navalha de podar com gume de
fouce. Todas as precauções foram por mim empregadas. Ao dobrar da
rocha, descalcei os sapatos e tirei o chapéo. Metti a navalha no peito
e desenrolei da cintura a corda. Depois, resolutamente dirigi-me á
azinheira. Lá estava o ninho, era enorme e construido sobre tres
pernadas robustas--como sobre os tres dentes de uma forquilha. Eu
nunca vira coisa igual, a fallar sinceramente. Tinha o feitio oval de
um berço e ficava tão alto, tão alto que fazia vertigens. Era preciso
subir até lá. Atirei a laçada á primeira bifurcação do tronco, icei-me.
Depois, escarranchado na pernada mais solida joguei com o laço ás
ramarias superiores e fui subindo. Á medida que me elevava, a ascensão
entrava a difficultar-se: as folhas em tufos compactos prendiam-me os
cabellos, os ramos oscillavam sob o peso do meu corpo, e de quando em
quando soavam estalidos ameaçadores. Mas via já bem o ninho d’aguia.
Primeiro havia um alicerce de quatro ou cinco ramos de sobro, cruzados;
depois um leito de folhas seccas e pequenas hastes; sobre o leito,
folhas macias de trevos, de tamuges e fenos--e forrando delicadamente
o estojo, uma colcha de pennugens brancas que a aguia arrancava do
peito, nos seus transportes de mãi. Com insano trabalho cheguei-lhe ao
pé. Pulava-me o coração no peito, como um pinto no ovo de que nasceu,
e qual não foi a minha alegria ao vêr aconchegadas no ninho, uma de
encontro á outra, adormecidas e tremendo de frio, duas aguiasinhas
implumes, disformes ainda mas de vigorosas proporções! Cerrára-se
de todo a noite. Um claro luar com reflexos metallicos atravessava
as vaporisações do arvoredo penetrando-as de uma poeira lucida de
atomos scintillantes. Nas faias da ribeira, os rouxinoes faziam jogos
floraes, arremessando-se os sonetos mais rhythmicos; o veio crystallino
dos regatos ia contando ás folhagens humidas dos balseiros e canaviaes,
uma lenda antiga de fadas azues e thesouros maurescos, narrativa muito
em segredo, entre murmurios de beijos que ao longe mansamente se
perdiam.
Dava trindades o sino da aldêa--e as aspirações pairavam n’aquelle
calado ar, em que as borboletas reaes saltitavam traçando sinas de
mulheres predestinadas. A lua na tela do céo esmaiado, lembrava com
as suas ranhuras, a mascara da Comedia no panno de uma opera-comica,
que a luz da ribalta illumina. Ergui os olhos--acabava de ouvir um
grito. Vi a aguia pairar um momento por sobre a minha cabeça, de azas
abertas, cujas remiges em cutelo sifflavam como as vélas de um moinho
em actividade. Depois aquelle vulto negro desceu perpendicularmente,
raivoso da minha audacia e estendendo o bico de gumes curvos, para me
ferir. Agarrado á corda dei um salto abandonando o ninho, e fiquei
suspenso da arvore um instante, a dez metros do chão pedregoso e
batendo os dentes de terror. Que fazer? A corda por curta, não chegava
ao chão. Deixar-me cahir era morrer. De repente porém, a enorme pernada
deu um estalido secco, houve um attrito de folhas e lentamente vim
baixando. Quando pousei no chão, com os dois filhos da aguia no peito
da camisola e a navalha nos dentes, senti um prazer sem limites. Tinha
destruido uma felicidade e praticado a façanha de subir á azinheira,
sem outro auxilio mais que o de uma pequena corda nodosa e fina.
Levaria os implumes para a herdade e creal-os-hia com carne e sangue
fresco, de cordeiro. E elles cresceriam, alcançando as poderosas fórmas
dos paes--bico adunco e corneo, a terrivel garra contractil, symetria
elegante nas azas, que um jogo muscular movimenta com inexplicavel
destreza. E pertencer-me-hiam, estariam na gaiola por minha vontade,
comeriam se eu quizesse. Esta idéa de ter alguem sob a minha obediencia
encheu-me de orgulho. Podia fazer mal sem ter medo das queixas que
arrancasse. E vinham-me tendencias para opprimir, para espicaçar, para
expôr á tortura. Tambem meu pai me batia! Que soffressem! Na azinheira,
a aguia ia de ramo em ramo, soltando a cada investigação inutil, o seu
grito melancolico. Corria as arvores proximas, voejava quasi á flôr
do terreno, batendo com as azas nos tojaes da selva, e indo em todos
os sentidos como allucinada. Depois abriu as azas horisontalmente com
um pulo, susteve-se nas pennas como n’um pára-quedas, e com firmeza
cortou o ar obliquamente, subindo á região das nuvens. De quando em
quando, na calada do campo morto, o seu grito de mãi roubada ouvia-se
na escuridade--como o silvo de um barco em perigo que pede soccorro.
* * * * *
A minha paixão d’aquella noite foram os filhos da aguia.
Persistia na idéa de creal-os--de os fazer gente, dizia eu. Tinham os
olhos quasi fechados, com uma orla amarella e a nictitante espessa,
meio descida. O pescoço nú offerecia um desenho esguio, andavam de
rojo, dando pequenos gritos em busca da pennugem quente da mãi.
Metti-lhes á força miolos de pão pelo bico, que elles bolsaram
escancarando a guéla com carantonhas de uma graça infinita. Em seguida
servi-lhes agua, mas recusavam tudo, os biltres, e se os deixava um
momento punham-se a girar de cabeça alta, á procura do aconchego que
não sentiam. Minha irmã que apesar do mysterio em que eu envolvia as
minhas operações, conseguira espreitar o que eu fazia, trouxe-me então
a idéa de metter as aguiasinhas debaixo da gallinha que na capoeira
chocava os ovos que fôra pondo.
--Ella pensa que são já pintainhos, e as aguias vão crescendo,
crescendo... E dás-me a mais pequenina, sim?
--Dá!... uma figa.
Quando nos mandaram deitar ás oito horas, tudo estava feito--a gallinha
consentira em adoptar os dois orphãos e a coisa ia bem! Não pude dormir
em toda a noite com a idéa nos pequenos. Se a gallinha os picasse,
se os deixasse cahir do cesto!... Os gatos lançar-se-hiam furiosos
contra esses dois desamparados e devoral-os-hiam, rosnando.--Applicava
o ouvido: se ouvisse chiar saltava logo da cama. Quanto tempo levariam
a crescer? Um mez ou dois--estavamos a quatorze. E contava pelos
dedos--era tanto tempo ainda! Mandaria fazer um carro, que os filhos
da aguia puxariam. E com que inveja ficariam os rapazes da escóla,
vendo-me arrebatado pelos volateis, como esses deuses que representava
o _Manual Encyclopedico_! No dia seguinte, ergui-me cedissimo, havia
estrellas ainda. E mesmo descalço fui, pé ante pé, até á capoeira, para
investigar do que havia. Os moços na eira, faziam já girar os bois na
retraçagem dos calcadouros, e ouvia-se na altura o _angelus_ vibrado
pela cotovia. Acocorei-me devagarinho ao pé do cesto, estendendo as
duas mãos ao longo da palha.
A gallinha dera signal, e cheia de colera, as pennas alvoroçadas,
precipitou-se contra mim á bicada, implacavelmente, até me fazer
sangue. Ás apalpadellas percorria a cama de palha em que os ovos se
aninhavam; achára apenas uma das aguiasinhas. Diabo!...
Então, sem medo já que dessem por mim, corri a abrir a lucarna, e o dia
entrou, humedecido pela neblina cheirosa da manhã. Estava apenas uma
aguia, era certo!... Dei um berro de novilho marcado a ferro candente,
que resoou por toda a casa. Queria a outra aguia por força, por força,
por força! Queria-a, então? Queria a porque queria! Era minha, tinha-a
eu achado, então? E como ninguem dava resposta entrei ao pontapé a
tudo, ebrio de uma raiva sanguinea. E n’um formidavel choro rolava-me
pelo ladrilho todo nú. Todo o meu grande desejo era que me attendessem
e viessem todos surprehendidos, saber o que havia. A voz de minha mãi
chamava pelas criadas; entrei a sentir nos quartos ruidos bruscos de
sapatos que se arrastam e saias que se enfiam, á pressa. Já gritava
menos, conseguira o meu fim, tinha incommodado e mettido susto a todos
de casa. Era bastante! Agora, iriam todos procurar a minha aguia,
haviam de m’a encontrar por força, ou arranjar-me outra novasinha em
folha, como aquella. Apre!
Quando de repente me chegou o grito da mãi roubada, grito brusco e
quasi surdo, como se o coasse uma larynge extincta. Toda a noite
o ouvira, ora perto ora distante, e sempre com uma nota de ira
impotente e supplicação desprezada, na tenebrosa calada do matagal.
Fui para a lucarna instinctivamente attrahido, á escuta. Era um grito
intermittente, primeiro muito fraco e repetido, como de alguem a
gemer--_gri! gri! gri!_--; após, subitamente, essa voz dilatava-se,
enrouquecia, fazendo quasi um bramido. Uma mulher não expressaria
melhor a angustia, o desespero e a morte. Córava o oriente como uma
epiderme sadia traduzindo a commoção d’um beijo; nas moradas dos
ninhos, entre decorações de folhagens e caricias de poetica doçura,
as familias de passaros, de melros, de pintasilgos, rolas e poupas,
chilreavam felizes e singelas, deslumbradas na irradiação do céo.
Só ella, a aguia, ia chamando embalde pelos seus, através a vastidão
egoista do ether, em que a vibração luminosa ondulava, e apunhalada
no seu unico amor como essas crueis imperatrizes, que Deus castiga no
unico ponto vulneravel da sua alma.
Com os olhos alongados, via-a rastejar á flôr do sólo, pelas chapadas e
penhascos, extenuada e rouca, despregando as azas obliquas, de enormes
remiges em cutelo, como tectos de lares despovoados pela assolação da
morte.
--Coitadinha! dizia eu commovido. Coitadinha!...
Então fiquei entorpecido n’um constrangimento profundo e singular, que
nunca tinha experimentado. Sentia na guéla o embaraço inexprimivel,
que é nas crianças o prologo do choro, do grande choro soluçado
e inconsolavel, sob que a alma germina em bons impulsos e leaes
dedicações, como na terra se abrem as flôres primaveraes, sob o influxo
das primeiras chuvas.
Antes que viessem surprehender-me corri a vestir-me, e resoluto, os
olhos cheios de lagrimas e a corda á cintura, voltei a buscar depois a
aguiasinha. Minha irmã chamou-me, soluçava.
--Olha, morreu!... disse-me toda afflicta, mostrando-me o cadaver da
outra aguia, que durante a noite, com mil precauções tinha ido roubar
ao cesto.
--Por isso achei falta, gritei colerico, batendo o pé. E aos urros,
crescendo contra ella de punhos cerrados, dizia-lhe golfando
improperios:
--Maldita! Má! Peste! Nosso Senhor ha-de castigar-te, deixa estar.
Ai de mim! Na capoeira, a gallinha raivosa, reconhecendo o outro
engeitado á luz da manhã, acabava de o matar á bicada, lançando-o fóra
do cesto.
Então desatei a chorar. Nunca fôra tão desgraçado, nunca!... Nem quando
me davam açoites com o chinelo, o que estava debaixo da cama de meu
pai, a rir-se de mim pelo buraco ignobil da tomba. E agora, que fazer?
Metti no seio da camisola os dois engeitadinhos mortos, e a correr
atravessei a eira, sem dar bons dias a ninguem. O dia começava.
Rasgando as escuridões em que se envolvera, o panorama sahia das
nebrinas dissipadas a golpes de sol aqui e além, nas cristas dos
outeiros. Desci a correr a ladeira do monte, pendores suaves d’onde o
olhar abrangia para todos os lados, perspectivas do mais bello matiz,
montados, restolhos de searas, regatos orlados de choupos e faias,
mais para além, hortejos alegres onde chiavam noras e se espiralava
o fumo dos casaes, vinhedos sem fim bordando sinuosidades bucolicas,
brancas ermidas pousadas nas montanhas, e perdendo-se na serenidade
esfumosa do horisonte, povoações que na luz iam fazendo mais e mais
nitidos os seus delineamentos. A paizagem tinha agora uma nitidez de
gravura. As aldêas sorriam para o noivado da natureza em festa, em
quanto d’uma banda e outra, grandes massas de arvoredo abriam destaques
surprehendentes.
Iam tranquillamente pelos terrenos ceifados, os carneiros dos rebanhos,
alongando o pescoço, a fofa corpulencia tufada da lã patente em camas
de espiraesinhas miudas.
Alguns velhos guias experientes e graves, de focinho erguido, a grossa
cornadura em anneis de diametros crescentes, toda enrolada como o
arripio da cabelleira de um _dandy_, chocalho pendente por corrêas
de couro crú, a orelha inquieta, olhavam vivamente o largo, bebendo
os sons e procurando-lhes a origem solicitos, como quem tem sobre
si a responsabilidade da tribu e o futuro dos pequeninos. Acima da
redondeza das ancas de alguns, cabritinhos fulvos, de grandes orelhas
horisontaes, uma meiguice candida na vista, erguiam-se a prumo furando
caminho, as maxillas entreabertas, por onde se escapava um queixume
tenuissimo--_mé! mé!_--alguma coisa como os rudimentos da cartilha do
rebanho. Varios preguiçosos, estacados a meio da corrente mergulhavam o
focinho na agua, bebendo. Poucos tinham já passado, e cortavam a dente
as gramineas alastradas nas barranceiras. O velho cão descança, n’uma
postura séria de patriarcha, em quanto nas meias tintas dos planos
secundarios, o pastor de manta ao hombro e polainas encarquilhando
na grossa tromba dos sapatos cardados, tinha o seu ar pasmado de
montanhez, olhando a catarata de ouro fundido que o sol jorrava do
nascente, n’uma apotheose de causticas vivas--olhar em que se estagnava
a silenciosa doçura triste dos olivaes cinzentos e se reflectia a
concepção pantheista de um Deus amantissimo, que fecunda os trigos das
searas, preside ás crias e vem de noite, mansamente, com o seu capuz
de estrellas derrubado para diante, lançar a benção ao gado que dorme,
inoculando no sonho do pastor o esmalte de um sorriso de ceifeira,
vermelho como as cerejas humidas de junho.
Correndo através do montado cheguei á ribeira, que pude salvar n’um
pulo de lobo, e sem me deter entrei a trepar a pedregosa encosta, na
direitura do ninho. Faziam-se alli accumulações selvaticas de tojeiros
e silvados, cabeças de rochedos pardacentos, espinhaes de luxuriante
amplitude, que tolhiam o passo a quem ia. E aquelle recanto plutonico e
brusco desenhava-se n’uma como penumbra de floresta, que de cima cahia
filtrada pelos amontoados da folhagem. Deixára de ouvir a aguia, e era
pungente o socego d’aquella região, equiparado ao orpheon gigantesco
de volateis, que na planicie entoava o poema symphonico da manhã. Por
duas ou tres vezes ergui a voz para insufflar a vida nos echos do
desfiladeiro. De rocha em rocha quando muito, o echo repetia a ultima
syllaba, n’um murmurio timido como rezado á roda de um feretro, e
morria.
Pela montanha, troncos penitentes e negros, orando de braços abertos.
Nos pegos da ribeira, as reticulações verdenegras dos limos deixando
evolar a putrilagem das febres más. Silencio abrazado, pesando.
Quando cheguei ao ninho arquejava. E antes de erguer a vista sobre
elle, detive-me um instante, olhando á roda com um terror sombrio que o
remorso envenenava. Se a aguia désse commigo podia matar-me á bicada. E
teria razão--ai de mim!
Estava sósinho. Não se via d’alli o monte já. De repente, casualmente,
sem mesmo querer, dei com a aguia que de cima do ninho abria as azas,
e sobre mim estendia o seu pescoço avido. Fiquei tremendo ante a raiva
silenciosa que paralysava a terrivel rainha. Ella ia de certo formar
vôo e cahir sobre mim, para dilacerar-me com as suas garras de tres
gumes implacaveis de uma vingança cruel.