Olhamo’-nos por tempo. As azas da aguia abriam os seus leques enormes

de varetas curvas. A immobilisação porém continuava e o pescoço

permanecia cahido á borda do ninho. Veio-me a idéa de que podia estar

morta. Atirei-lhe com uma pedra--a mesma indifferença.

Sem querer saber de mais, desenrolei a corda e atirei-a á primeira

pernada da arvore. Quando attingi a altura do ninho, pude olhar bem de

perto a aguia agonisante, que um fremito vago percorria. Era poderosa

e magnifica, de enormes azas pardacentas, cujas fortes remiges se

aguçavam como punhaes, na ponta. Estava de bruços sobre o ninho, como

se quizera aquecer o peito de encontro aos froixeis alvinitentes em

que os filhinhos tinham visto a primeira luz. A cabeça um pouco chata

descahia adiante n’um bico de bordos dentados, e sobre a iris de oiro,

a nictitante ia descahindo na sombra da agonia, como um apagador sobre

a luz do cirio paschal.

A aguia morreu n’esse dia, á mesma hora em que as outras aves voltavam

cantando aos ninhos, para dormir com a prole. Por muito tempo, cruzando

o montado atraz dos rebanhos de meu pai, pude vêr nos cimos da

azinheira gigante, suspenso o berço-tumulo, a que o esqueleto da aguia

fazia guarda, dia e noite, de azas estendidas, branquejando na sombria

folhagem da arvore. E vinham-me então remorsos, que fôra eu o assassino

d’aquella dynastia real!

* * * * *

Vai completar-se um anno que a tua filha desceu á cova, ó minha mãi!

E vendo-te curvada no teu luto, pobre mulher envelhecida de lagrimas,

sublime por toda uma vida de abnegação sem exemplo, para mim fico

pensando, que deve ser cruel o Deus que tu adoras, se nunca teve

remorsos de haver roubado tambem--_o Ninho d’aguia_.

1881--Villa de Frades.

[Illustração]

A DOR

Quando o ultimo _orango_ deu origem ao primeiro homem, e esse homem,

chegando á virilidade pôde desfrutar a grandeza da indomavel força de

seu pai, domada pela bondade hilariante da sua luminosa intelligencia,

fez um dia a si proprio esta pergunta:

--Em que diffiro eu d’aquelle carrancudo sêr, que não falla senão

por guinchos e só por contracções grotescas se exprime, que para a

alegria tem um grito e um urro para a cólera, que vê morrer os filhos e

fugir-lhe a esposa, sem que o invada este desconsolado entorpecimento

que eu sinto se não remedeio o mal, e se para o que me cerca não

encontro explicação?

Elle caminha aos saltos, coberto de pellos e ululante de vinganças,

trepando pela nodosidade dos caules e enchendo do seu terror feroz as

grutas e os maciços das florestas palpitantes de ninhos, pisando sem

remorsos as corollas mais purpureas e os calices mais olorantes, e não

vendo na vastidão opulenta e na chromatica irradiante d’esse mundo

alado ou d’esse mundo vegetal, mais que a rêde em que descuidosamente

os seus inimigos vem cahir e onde elle faz as suas victimas!

É das differenças superficiaes de estructura--de eu estar nú e

elle vestido de pellos, de elle ter cauda e eu não, dos seus pés

terem o feitio das suas mãos prehensis, em quanto as minhas plantas

se espalmam pela asperidão das marchas a que as submetto--é das

differenças apparentes de organismo, que nascem estas discordancias

de natureza--n’elle a seccura, a ferocidade, o egoismo e a

inconsequencia--em mim o sagrado terror da responsabilidade, o alcance

de vistas que me perturba, a previsão sagaz que me aconselha, e esta

commoção sem origem que se entorna no meu corpo, e me tortura ou me

enthusiasma, conforme provém de uma necessidade satisfeita, ou conforme

provém de um contratempo inesperado?

E como se interrogava em voz alta, no meio dos castanheiros que as

trepadeiras vestiam em amplexos concupiscentes nas suas couraças de

folhas, viu surgir dos rochedos negros em que pousava, o velho deus

das selvas, alta figura cingida, de cachos e coroada de flôres, com

barbas de musgos e vasta cabelleira de relvas verdejantes.

--Abre a cabeça de teu filho, disse o deus.

O homem tomou o machado de silex, chamou seu filho, e fazendo-o

ajoelhar fendeu-lhe o craneo de um só golpe.

--Essa caixa de osso que partiste, é como a casca lenhosa de certos

fructos tropicaes de que te alimentas. Partida a casca, esses fructos

revelam a polpa delicada, de extraordinario tecido e exquisito sabor.

--Guarda esse fructo, disse o deus.--E após, com imperio:

--Abre a cabeça de teu pai! ordenou-lhe. O homem encontrou na toca do

grande baobab o velho _orango_ que lhe dera o sêr, acocorado e tropego,

roendo talos. Deu-lhe as boas noites, pediu-lhe a benção como de

costume, e quando o _orango_ lhe estendia a mão lanugenta, sentiu na

fronte o gume do machado que lhe separava o craneo em duas metades.

--Extrahe-lhe o fructo, tornou o deus, e o homem obedeceu.

--Bem, disse o outro.

E apontando cada um dos cerebros desnudados:

--Este é o cerebro de teu filho, este o de teu pai. Vês que é maior o

do pequeno que o do velho, não vês? Agora segue com a tua unha estes

arabescos mysteriosos que sulcam a polpa arrancada ao pequeno. Elles

desenham o quer que seja de legenda em hieroglyphicos: é a buena-dicha

da especie humana. São as _circumvoluções_, que mal se esboçam no

cerebro do _orango_ e que os teus levarão mais e mais profunda e

profusamente impressas. Até teu pai o cerebro era alguma coisa

tosca como o granito; de ti por diante elle lapida-se, depura-se e

modifica-se--é a pedra preciosa, caustica na sombra e tenebrosa na luz,

dotada de fulgor proprio e propensa a illuminar ao longe os tenebrosos

recessos dos instinctos que herdaste e tens de transmittir suavisados

e aptos á utilidade, pela cultura a que tu mesmo os forçarás. Corta-os

ambos em pedaços e examina-os bem. São da mesma materia, teem identica

fórma e parecem do mesmo valor. Mas um é o ferro bruto que o mineiro

distilla do filão recondito, o outro é o ferro dotado de propriedades

magneticas. Pódes chamar áquelle, carvão negro e torvo, se tiveres

olhado n’este o diamante lapidado, que scintilla pelos engastes das

tuas orbitas como se ardesse vívido na corôa de um rei.

--Comprehendo! disse o homem pensativo.

--Olha melhor esse miolo dos dois fructos descascados. Cada polpa se

me afigura formada de lobulos ou espheroides. É como um continente

dividido em nações pelos grandes rios, ou um paiz repartido em

districtos, pelas grandes estradas reaes. Cada districto é a potencia

que rege alguma determinada funcção do corpo--são as bossas. Ha a

bossa da memoria, a bossa da intelligencia, a bossa da luxuria, a da

gula...

E apontando cada proeminencia, o deus chamava-as pelos seus nomes.

Algumas que eram salientes na criança, ou mal se esboçavam no _orango_

ou positivamente não existiam[5]. Em compensação o cerebro do bruto

tinha n’outras, um desenvolvimento colossal a respeito do pequeno. O

deus fazia-as comparar miudamente, uma a uma.

[5] Faz notar Gratiolet, que as circumvoluções dos mais rudes

_primates_ são como o schema das circumvoluções do cerebro humano.

--Todas as que presidem á direcção de necessidades animaes, instinctos

ou appetites, são consideraveis em teu pai, dizia elle ao homem. Todas

as que se referem ao intellecto são de surprehendente grandeza em teu

filho. Eis por que buscas alguma coisa mais na vida que a replexão do

teu estomago se tens fome, que a ingestão de agua corrente se tens

sêde, que o repouso se tens somno, e o coito brutal se a virilidade

do teu sexo faz explosão ante a femea que passa, serva obediente da

tua crueldade ou docil instrumento da tua lascivia! D’esse instincto,

que a natureza instituiu para povoar os seus continentes e os seus

mares, encher de rumor as florestas e de cardumes as aguas, instincto

todo grosseiro nos que te são inferiores, tiraste tu os effeitos mais

dôces, as symphonias mais limpidas, os mais castos threnos e as mais

scintillantes volatas. Chamaste-lhe o amor, e crystallisando o amor

transfizeste-o na adoração. Á femea escrava quebraste as algemas, não

consentindo que os seus pés sangrassem, como os teus rudes pés de

luctador, nos abrolhos da selva e nos espinhos da maledicencia. Da tua

rude cabana fizeste um templo, da tua fé um lampadario, uma cupula da

tua religião e da mulher o teu deus. No santuario do teu amor, puzeste

o deus, e da cupula do templo o lampadario encheu de esplendores

mysticos a tua familia e a tua alma. Pela adoração domaste a tua força,

aprendendo a ser delicado para os fracos, altivo para os soberbos,

cruel para os maus, justiceiro, generoso e valente! Estas qualidades

deve-las á tua intelligencia, fluido singular que emana d’este

lobulo--e apontava--e te destacou dos teus antepassados. Por essa

faculdade, dominarás os elementos e os animaes, serás rei e senhor,

porque o teu braço obedecerá sempre á tua cabeça. Cada geração receberá

da anterior um patrimonio de idéas adquirido, entregando religiosamente

á que lhe succeder, acrescentado pelos seus esforços, esse patrimonio

sagrado e inviolavel. A tua ambição será satisfeita, descança.

--E serei eterno? disse o homem, tremendo áquella idéa.

--Na historia.

--Na vida! Que me importará a historia? Se poderei viver assim sempre,

dominando mares e povos, e experimentando cá dentro esta plenitude

de seiva que extravasa do meu corpo, e se desentranha em colossaes

alegrias?

--Não! disse o deus com voz profunda. Morrerás!

--De que me serve então tudo isto? exclamou elle contrahindo a face

serena, que uma graça infinita deificava. E erguendo os braços

desesperado cahiu a chorar a mesquinhez da sua condição. O velho deus

sorria.

--E qual a bossa, que no cerebro de meu filho corresponde a este

horrivel veneno que a tua palavra me faz beber?

O deus apontou-lh’a, dizendo:

--Esse veneno chama-se a _Dôr_ e nunca envenenou teu pai.

--Faze-me então voltar á nativa bruteza dos meus, disse o homem.

Prefiro a inconsciencia rude do _orango_, a essa intelligencia que

illuminando-me a vida me faz d’ella um ergastulo, e onde não poderei

fazer um passo, bom ou mau que seja, sem que este tribunal interior,

incorruptivel e soberano, me detenha se vou com pressa, ou bruscamente

me acorde se adormeci, para me julgar do que eu fizer e para me

castigar a toda a hora.

A voz do deus bradou:

--Jámais!

E desde então esse animal vaidoso, julgado o mais perfeito e o mais

livre dos sêres vivos, tornou-se no miseravel escravo que eternamente

geme sob o chicote do seu verdugo--esse verdugo que se chama: o

Pensamento.

FIALHO D’ALMEIDA

CONTOS

PARTE II

A cidade do vicio

NO PRELO

Contos(#70819) · 第 19 / 19 段