vista.--E mais baixo, n’um tom de reprehensão amiga:
--Foi para isto que deixaste Leiria, a nossa casa, o tio Arsenio e as
familias das nossas relações, não? Pensas que poderás viver sempre
cantando, tendo celebridade e reclames nos jornaes?
--E porque não? dizia ella ingenuamente.
--Olha que é uma vida de encher olho, não tem duvida. Foi então para
enriquecer uma _cocotte_, que teu pai trabalhou quarenta annos sem
descanço, não vendo outra coisa senão a filha, e não se importando com
outra coisa que não fosse um teu capricho? Educaram-te nas virtudes
burguezas, que na mulher preparam a mãi, simplesmente para que um bello
dia fugisses, roubando a casa dos teus?
--Estás doido?
--Seria melhor que o estivesse. E agora? Em que ponto ficam as nossas
relações, não me dirás?
Ella quiz attrahil-o a si:
--No ponto em que as interrompemos em Leiria. Porque não?
O primo Jorge riu com uma casquinada brutal.
--Tu estás tola, priminha. Eu namorar-te? Tem graça, palavra.
E com ares de cynico:
--As mulheres do theatro não se namoram.
Albertina estava attonita do que ouvia.
--Então? disse ella sem saber, ao acaso.
--É simples, ia dizendo Jorge. Primeiro cercam-se, como as cidades sem
viveres. Depois compram-se. Entendeste?
Ella ergueu-se com os labios brancos e as mãos crispadas. Estendeu-lhe
seccamente a mão.
--Adeus.
Voltou-lhe as costas com um ar de rainha e entrou na alcova.
Jorge não se perturbou lá muito com aquella despedida formal, e
deixou-se ficar socegadamente ao canto do sophá, fumando o seu charuto.
Só quando ouviu os soluços da prima se resolveu a entrar devagarinho
na alcova. Havia um cheiro de _Ylang-Ylang_ e pó d’arroz de Lubin;
fórmas brancas cahiam na penumbra, de cassas apanhadas e _fauteuils_
muito baixos, de casimira perola. Os pés afogavam-se n’uma pelle de
urso, macia e branca, com garras douradas. Primo Jorge respirava alto,
caminhando ás escuras, entontecido de perfumes, um baque nas fontes. E
muito baixo:
--Albertina! disse elle. Voejavam-lhe diante dos olhos, abelhas de
oiro, em circulos febris. Os seus dedos tocaram n’uns cabellos, depois
um bocado de pelle setinosa. Ergueu-lhe carinhosamente a cabeça pelo
queixo, ajoelhára-lhe aos pés, apoiando-lhe os braços nos joelhos. E
n’um tom de voz, em que havia o uivo do desejo refreado, dizia-lhe:
--Pateta! Ouve.
E aos beijos, com palavras entrecortadas:
--Como d’antes, minha filha, como d’antes...
Retesados, os seus braços enlaçavam-na pelo busto, com uma ancia que
fazia medo.
D’alli a nada, Albertina terminava com voz plangente o romance do
ultimo semestre da sua vida. Era pura como outr’ora, apesar de tudo,
jurava ella, expondo pelo quebramento da postura na ottomana, o
onduloso desenho dos quadris e a linha elastica do collo todo abotoado
nas costas, cingido n’um corpete de velludo bronze e aberto no seio em
_fenêtre_, d’onde espumava a gargantilha, n’uma alvura de nymphêa.
Se elle soubesse!... No theatro e na cidade sentia-se fluctuar n’um
abandono glacial. A adulação e os _bouquets_ com que lhe atapetavam o
caminho, causavam-lhe a nostalgia da sua pequena cidade natal. Quem se
interessava agora por ella, quem? Ás vezes, olhando a gente que passava
nas ruas, acotovelando-se com pressa de chegar cedo, e não querendo
saber dos que paravam no caminho, sentia um medo funebre invadil-a
toda. Se morresse, quem lhe fecharia piedosamente os olhos e a
acompanharia ao cemiterio? Que olhasse pelas janellas d’aquelle segundo
andar a cidade, viva em baixo e a róda--transeuntes cacheticos e ruas
tenebrosas, mesmo á claridade do gaz. Que triste era tudo! O primo
Jorge deixava-a fallar á vontade, aninhado junto d’ella, como sob a
tepidez de uma aza de cysne, e tendo uma das mãos em viagem _touriste_
pelas colinas, de que o decote triangular patenteava o sopé, de uma
amenidade inteiramente grega.
--E que mais, que mais? dizia elle, gaguejando.
Albertina mirava-o com esses olhos velados de reptil, que exercem em
certas organisações nervosas invencivel fascinação. A curva do queixo
era redondinha e branca, e subia n’um espraiamento suave até ao lobulo
escarlate da orelha, onde um diamante faiscava como pupilla ciumenta.
Parecia bonita sob aquella excitação, com os olhos fendidos a nankim,
as olheiras ensombradas a bistre, e verniz labial do mais caro. Todo
debruçado, o primo Jorge inhalava os perfumes tepidos da sua carne,
olhando-lhe, nas pennugens da face encarada de perfil, os corpusculos
suspensos da _veloutine_ que a alabastrisava. Aquella absorpção
lethargica e a excitabilidade excessiva que lhe viera, deram-lhe um
quebramento dorsal, uma lassidão de musculos e o desejo incoherente de
se abandonar n’um espreguiçamento eterno, sobre a flaccidez eburnea das
espádoas. Sentia um peso de palpebras langoroso e febril, que não era o
somno.
--Que horas são?
--Oito.
Eram dez e meia dadas. Albertina fallava baixinho, como receando
acordar um _baby_, e a sua voz de estranha doçura, vinha, filtrada por
um secreto medo, anesthesial-o como esse insidioso gaz hilariante que
traz a morte entre risos.
--Amava-o, tinha-o sempre amado como em criança. Por nenhum homem
mais sentia aquella attracção, aquella confiança e a intima alegria
de lhe fallar sem receio. Porque fugira ella de casa e se afastára da
profunda ventura de ser d’elle, mediante os latins de um padre? Mas
não se separariam nunca mais, não era verdade? Nunca mais! Seriam
como um irmão com uma irmã, ella dizendo-lhe a sua vida sem omittir
o episodio mais vulgar, elle contando-lhe tambem _au jour le jour_
as suas esperanças e os seus desalentos. E seria ella quem lhe faria
tudo, quem o trataria se estivesse doente, quem lhe daria conselhos
e lhe engommaria as camisas, obscuramente, sinceramente, sem o menor
resquicio de peccado entre os dois. Os perfumes que pelo decote vinham
do seio d’ella embriagavam-no; sentia-se penetrado por aquelles olhos
de salamandra, como velados por uma nictitante subtil. Havia dois
mezes que tinha entrado na chamada grande vida, vida realmente bem
pequena, que consiste em um sujeito estragar o estomago nos hoteis,
dizer asneiras n’uma tabacaria, n’um café ou no camarim d’um actor, e
arranjar pelo attrito das solas duras e das convivencias safadas, ao
mesmo tempo uma collecção de callos e um museu de vicios pelintras.
Estava no primeiro andar do _Alliance_, quarto e saleta com porta
independente, frequentava os theatros e batia em tipoia pelo Chiado ás
quatro da tarde, mostrando no assento dianteiro os bicos dos enormes
sapatos de polimento e a sêda côr de perola das meias esticadas. De
resto, fazia um gasto decente no elemento hespanhola, sem indagar se
lhe vinha directamente das Caldas ou da agencia de criadas. E á noite,
descendo o Chiado com a gola do carrik levantada, sentia-se appetecido
pelas senhoras pallidas que iam pelo braço dos maridos cacheticos ou
condescendentes, com o adulterio nos olhos. O seu ar de camponio de bom
sangue fazia impressão: era desejado. E como tinha dinheiro...
Extincta a phase nevrotica com que é uso iniciar-se um _bourgeois
gentilhomme_ na roda galante da juventude oiro e azul, o primo Jorge
entrou a vêr um pouco n’esse como encandeamento em que se deslumbrára.
Mesmo entre vadios é forçoso ter posição. Já hoje se começa a penetrar
um pouco pela vida intima de cada qual. A Jorge bastaria o ser rico
ou parecel-o--uma amante sempre dá outro ar, outro tom e outra
consideração. Foi quando recebeu a carta de Albertina. Que diabo! Já
lhe tinha feito a côrte, de mais a mais. Eram tres da manhã quando se
despediram.
Ella, envolta n’um grande penteador de cauda, tremia de frio,
offerecendo-lhe a testa ao ultimo beijo, pés nús sobre a felpa
cariciosa e fofa do tapete. Fallavam muito baixo, com singulares
fulgores na pupilla e uma meiguice de termos, que lhes vinha do orgasmo
nervoso em que estavam.
--Mas és lindissima assim, dizia-lhe Jorge, cingindo-a pela cinta e
beijando-a na bocca.
Albertina tinha um riso delicioso, gulosamente recortado pela
dentadura, de gata irascivel. E mordaz:
--E aquella tua tirada de ha pouco... disse ella surprehendendo-o
vencido, e batendo-lhe na face com o ar petulante, que tantos
applausos lhe rendia no palco.
--Moralista! dizia zombeteira. Todos o mesmo.
Cantavam gallos pela cidade, quando elle sahiu. Desenhados em negro,
ora no clarão baço dos lampeões batidos pela ventania do inverno, ora
alongados na penumbra das ruas e lembrando arganassas estropeadas,
os varredores desciam de vassoura ao hombro, batendo gallegamente os
tamancos. Primo Jorge ia contente, cerebro lucido, um bom charuto na
bocca.
Ao entrar no quarto do _Alliance_, não se conteve que não dissesse:
--O que ella sabe, senhores, o que ella sabe!--Despia o carrik de pello
fulvo.--Esplendida! E que artista...
Viu sobre a mesa uma carta. Era da mãi de Albertina dizendo ao
sobrinho que estava viuva, e supplicando-lhe instasse com a filha,
para ella abandonar a vida má que emprehendera. Encontral-a-hia de
braços abertos, cheia de perdão no seu luto, e prompta a adoral-a como
outr’ora. O primo Jorge riu-se. Estava um pouco bebedo, e passára
sempre por isto que se chama--um bom rapaz.
--Está tola, a velhota, disse elle.
E queimando a carta:
--Afinal se não fôr eu, é outro. Ao menos fica tudo em familia.
* * * * *
E d’alli por diante acompanhou a prima todas as noites ao theatro, e
ficou com ella por amante.
Acrescentando, com ares devassos:
--Até apparecer coisa melhor.
[Illustração]
A EXPULSÃO DOS JESUITAS
Á borda do mar ficava o mosteiro, erguido em peanha de granitos
erriçados de arestas e cobertos na base, de tufos de algas verdenegras.
Nascera no dia que um dos nossos velhos reis alcançára de infieis
um triumpho, conseguindo arrojal-os bem para lá das fronteiras. Com
o tempo, aquella casa tosca de origem, guerreiramente dentada de
setteiras profundas, entrou a merecer por suas virtudes a protecção de
prelados e infantas. Os cavalleiros que partiam para as conquistas, os
principes que voltavam das batalhas carregados de despojos, as infantas
que iam em Hespanha e na Austria, ligar a sua vida á vida aventureira
dos grandes capitães e senhores, antes de deixarem a patria, ou ao
chegar a ella, entravam a profunda arcaria algida do templo, a depôr
no tabernaculo o penhor da sua fé, do seu reconhecimento ou da sua
saudade. Nada mais severo que semelhante edificação, por cada raça
augmentada e refundida, nas fórmas architectonicas do tempo.
Penetrava-se na igreja por um portal esguio e baixo em ogiva, posto
no cimo de uma escadaria de balaustres curvos, onde se engalfinhavam
monstros exoticos no marmore das efflorescencias polluidas da idade.
Sobre o portal e á altura do côro, tres rosaceas de vidros córados,
deixavam jorrar no santuario a purpura sanguinolenta do sol; por
cima, era o coruchéo limoso, entre as duas flechas das torres negras,
encimadas de cataventos rangentes. Á altura da rosacea central, um
poste sustentava os dez fios conductores do telegrapho--e dava uma
commoção indefinida vêr assim ligados, como dois reophoros de pilha
voltaica, aquelles dois pólos de mundos diversos e separados por
dezenas e dezenas de seculos--a casa dos monges e o zinco transmissor
da electricidade. Dentro do templo, parte gothico, parte barbaro, e no
fundo das capellas sombrias em que perpetuamente arfava a luz soturna
dos lampadarios de bronze, viam-se deitadas em sarcophagos de volutas
multiplices, figuras de bispos e eremitas, cavalleiros e santos, toscas
esculpturas terrificas, de capacete ao lado e espada aos pés, em cujas
lapides se podia colligir e lêr, como n’uma velha chronica fiel, a
historia completa da nação. Os santos eram ainda mais toscos que as
estatuas dos mortos. Tinham as fórmas hirtas, a expressão feroz e os
barbaros perfis attonitos, d’esses idolos que ainda hoje se encontram
mutilados nas ruinas dos pagodes hindustanicos, sob palmeiraes colossos.
As Virgens revestidas de brocados, scintillantes de incrustações de
oiro e pedras e coroadas por diademas do mais singular detalhe, olhavam
dos nichos com olhos de vidro, estendendo as mãos ferozes e grossas,
n’um chuveiro de ameaças.
Em oração, os martyres chagados abriam n’um spasmo as frontes
selvagens, flagellando corpos de brutal nudez. Viam-se cahindo das
paredes, poentos e aluidos pela humidade, paineis de milagres em
que Deus era exaltado como um sêr feroz e sujeito a caprichos de
benevolencia, para este ou para aquelle, sepultando uns sob as ruinas
das casas, roubando a outros as colheitas, fulminando os filhos,
matando de fome os paes, e não cedendo nunca da sua raiva pharaonica,
senão á força de procissões e sacrificios. N’aquelles milagres
pendentes em galeria das paredes da igreja, uma geração de envilecidos
e tristes desfilava, vergada á oppressão de senhores, a guerras
impiedosas, a fomes, a pestes e terramotos. Alguns tinham alli vindo
deixar os cabellos e os vestidos. Muitos, que haviam enfermado de uma
perna ou de um seio, offereciam, experimentando melhoras, a imagem
em cera ou em prata d’essa perna ou d’esse seio. Mostravam-se n’um
alpendre da cerca, rumas de lemes, velas e mastaréos, destroços de
barcas e ferros de arados, dos miseraveis surprehendidos em perigo de
morte que assim tinham comprado a clemencia dos santos do mosteiro. Nas
aldêas visinhas, ainda agora se narrava com fervor mystico e secreto
medo, a serie de prodigios e milagres succedidos na igreja, em tempos
calamitosos.
Por uma fome do anno de 1573 havia apparecido no santuario um braço de
fogo sustendo um feixe de espigas. Um physico que ousára escarnecer
de Deus, fôra morto por um corisco ficando negro na mesma hora, nas
escadas do altar-mór. E o milagre do pai e do filho, e o das duas
cabeças do enforcado...
Em tempos d’el-rei João III nosso senhor, o mosteiro fôra entregue aos
jesuitas então no maximo esplendor do seu poderio e fortuna. Era alli
que mais de preferencia se recolhiam os santos padres de Jesus.
A contemplação do oceano cantando a sua eterna legenda, a linha
caustica entre céo e mar, a solidão e a poesia do sitio, convidavam
aquelles homens negros, que a meditação preenchia, como um liquido
preenche um vaso. A cerca perdeu n’esse tempo uma parte da sua
nudez--viram-se os limoeiros e as madre-silvas vestir os muros,
jorrar agua das carrancas dos tanques, e os pomares arredondarem as
suas pinhas de verde envernizado. Permittiu-se ao povo que visitasse
a horta, os claustros e as grutas de devoção particular. Á hora da
missa a turba enchia o mosteiro avida e devota; as confissões feitas
com fervor, mas sem as ameaças do inferno que os antigos monges
vociferavam, attrahiam sympathicamente os penitentes. E Deus appareceu
á terra sob uma face de perdão, que quasi se desconhecia.
Cem annos depois, apesar de se guardarem com a maior fidelidade, as
santas reliquias e milagres do mosteiro, as vetustas tradições estavam
esquecidas entre o povo, e poucos se lembravam de ter ouvido aos avós a
narrativa das duas cabeças do enforcado, do pai e do filho, e da morte
do physico-mór.
Mas eis que o marquez expulsa os jesuitas, cujo poder e argucia arcavam
com os seus.
Do portico escancarado vê-se sahir uma procissão de padres negros
e fronte pallida, de cruz á frente. As santas mulheres ajoelham na
passagem para lhes beijar os vestidos e receber a ultima benção. De
novo o mosteiro fica deserto, sem o caracter hospitaleiro de uma casa
de conselho e oração consoladora. Os negros phantasmas dos monges
ascetas, lividos e frios, prégando abstinencia e flagicios volvem a
percorrer os claustros lugubres e a rezar nas capellas, em que os olhos
dos idolos ameaçam o mundo e proclamam a aniquilação dos povos. Uma
treva enlucta os espiritos e fluctua de emtorno ás muralhas. Em baixo,
o escarneo da vaga que alue pelas cavernas o alicerce de rochas do
templo, é como um rir de diabo aos pés de um Deus inanimado! De noite,
a lua que lança flechas pallidas pelas setteiras profundas para dentro
do mosteiro, alumia estranhos conclaves de espectros. O vento segreda
nos nichos e á roda dos mausoléos, e baixinho parece orar aos pés do
santuario. A chuva infiltra-se nas abobadas e humedece os cimentos.
D’entre as junturas das pedras irrompem gramineas e zambujaes. Ninguem
vai vêr o mosteiro e o portico está fechado. E aquella mole de pedra,
emburelada em musgos e erguida á beira do mar, lembra um suicida
ajoelhado fazendo a ultima oração.
* * * * *
No verão de 1880, o conde F. meu amigo, lembrou-me que poderiamos
fazer na sua propriedade uma estação agradavel. Tinham acabado n’ella
um chalet elegantissimo em tijolo vermelho, com tectos de cortiça
apainelada, á beira-mar. O parque de eucalyptus, enorme e cruzado de
aleas, que uma arêa negra polvilhava, offerecia já troncos de grande
espessura e belleza, soberbos e direitos, sacudindo aos ventos salgados
da costa os seus molhos de folhas em cutelo. Para o interior a vinha
era tão exuberante que subia pelos troncos das arvores, os pomares
alastravam-se turgidos de fructos n’uma distancia de milhas, e nas
collinas que demarcavam o dominio, immobilisava-se o verde funebre
dos pinhaes, cujos filamentos pareciam cabellos verdes de antigos
deuses aricos. Na matta, a caça abundava, coelhos, rapozas, perdizes
e gallinholas. Para obtermos a melhor pesca, bastava que debruçados
na amura de rochedos, lançassemos as redes á agua. O calor em Lisboa
apertava; imagine-se o que seria no Alemtejo, na casa de meus paes!
Decididamente valia a pena ir com F., valia decididamente a pena. E
partimos. Antes de penetrar na quinta dei com o mosteiro, em que nunca
ouvira fallar. Veio-me naturalmente a curiosidade de o vêr por detalhe,
e passar uma noite até, com as sombras legendarias e romanescas que
tamanho medo faziam ás aldêas circumvisinhas.
Por baixo do edificio, o mar tinha escavado profundissimas cavernas
que as algas mais finas tapisavam traiçoeiramente. Estalactites
conicas desciam da abobada a encontrar estalagmites, em que os
molluscos arrastavam mosaicos de incrustações excentricas. Por entre
as columnatas o fragor da ressaca, nas noites de temporal, era de
instrumentação titanica, e reboava no templo como a evocação biblica do
Valle de Josaphat.
As grutas prolongavam-se nas trevas em todas as direcções, e iamos de
gatas, escorregando nas babugens que a maré deixava na dentadura das
penedias. D’uma vez o archote apagou-se-nos, e o phantastico palacio
do mar não tinha termo--galerias sobre galerias, columnas truncadas e
janellas abertas sobre a treva fetida e sepulchral!
Visitadas as cryptas, penetrámos no mosteiro. Tão pesada e ampla
construcção fez-me vêr que a base perdia pouco a pouco a solidez, á
medida que por baixo a onda ia limando o granito. Aqui e além até, as
abobadas fendiam surrateiramente; em cada inverno chuvoso, se succediam
os desabamentos parciaes, e o lagedo dos claustros abaúlava-se abrindo
boccas nas junturas, de que uma respiração putrida parecia exhalar-se.
Tinhamos chegado á quinta nos fins de maio, e em julho ainda lá
estavamos. Mas fatigados já, o conde especialmente, que o retinham
alli negocios de dinheiro, por que dizia sentir o mais authentico
desprezo. Visitado o mosteiro, caçadas todas as perdizes, gallinholas
e betardas do sitio, ferido nos viveiros naturaes da costa um bom
golpe de pesca, as nossas duas imaginações impuzeram-se o trabalho de
descobrir diversão, que nos garantisse a estada na quinta até meados de
agosto--tempo de Cascaes e do jogo forte.
Uma manhã ergui-me antes do dia e fui acordar o conde.
--Achei, venho participar-t’o.
--O que achaste tu a esta hora?
--Uma distracção, c’os diabos!
--Da natureza das outras, aposto. Modificaste o feitio dos papagaios,
hein?
--Ora adeus! disse eu rindo.
--Então dize lá.
--Sabes que me dou um pouco á telegraphia?
--Não tens lucrado muito com isso, não.
--Vaes vêr que se lucra sempre em saber as coisas. Vou mandar vir o meu
transmissor aperfeiçoado e fios conductores.
--E estabeleces um telegrapho entre o chalet e a casa da Palmira. Estás
tolo, com toda a certeza.
--Mau! Ouve.
--Bem! Dize.
--Ligo o transmissor por meio de fios, aos dez fios telegraphicos
que se apoiam na rosacea do mosteiro. E recebemos os telegrammas
fresquinhos e sem pagar nada. Hein?
--Mas, disse o conde encantado. É preciso que vamos habitar o mosteiro.
--E porque não?
Elle deu um salto na cama.
--Mas é esplendido!
--De certo.
--E póde-se alarmar o paiz.
--Não vejo como.
--Nem eu, c’os diabos, mas póde-se alarmar.
--Bem.
--E é como se os telegrammas nos fossem enviados directamente, como se
nos obedecessem a agencia _Havas_, os gabinetes da Europa, as grandes
capitaes, o Oriente, e o diabo que te leve, que nos leve e leve todo o
mundo!
--Eia!
--E podemos incendiar o orbe.
--Pelo telegrapho? que idéa fazes do telegrapho?
--Eu, nenhuma. Não morde?
--Conhecendo as pessoas, não.
--Tanto melhor! E quando teremos os apparelhos?
--Ámanhã.
--Telegramma que passe, hein?...
--Não escapa!
--E gratis, gratuites, sem pagar nada, hein?
--Clarissimo!
--Dá cá um chôcho pela idéa.
--Prefiro um calix de Madeira.
No outro dia, o transmissor chegou com o rolo de fios, e mettemo’-nos á
obra. Ás cinco da tarde recebemos o primeiro telegramma.
«_S. Petersburgo, 8, ás 11 horas da manhã.--Uma bomba explosiva
rebentou junto do czar, quando este se preparava para montar a cavallo.
A policia procede em investigações.--Havas_».
--Este diabo escapa sempre. É extraordinario.
--Ahi vem outro.
--Vou jurar que é bomba, que ainda d’esta vez não alcançou o
invulneravel.
--Nada. «_Paris 8, á 1 hora. Chegou a embaixada Birman e partiu o snr.
Grevy_».
--Todos para casa do diabo.
Estavamos no côro de marmore branco, com baixos-relevos representando
martyrios de santos. Das paineluras negras, monges e virgens
perdiam-se na penumbra da abobada, deslocada pelo templo com uma
vastidão de crepes. As estatuas dos monges e cavalleiros pareciam
colossaes, de immoveis nos mausoléos, essa austeridade das figuras de
Miguel Angelo, no tumulo dos Medicis.
--É triste isto! disse eu commovido.
A perspectiva do mar, roxo da banda do nascente, tinha irritações
animaes até á linha rubra do occaso--dorso de cetaceo ensanguentado
pelo arpéo do sol moribundo. A vista, que percorrendo a immensidade
liquida sem repousar n’um ponto, voltava com um desalento de ave
ferida, trazia a idéa da morte e a saudade de uma existencia menos
crua, n’esses dithyrambicos impérios em que as cabeças se corôam de
flôres.
De repente, na absorpção em que tinhamos cahido, pareceu-me que um
fremito percorrera o balaustre onde me encostava. E cada vez mais
distantes, foram-se succedendo estalidos seccos.
--Não ouviste? disse eu ao conde.
Elle não tinha ouvido. O que?
--Parece que isto tremeu.
--É que te escutavas. E como estás com medo...
Pozemo’-nos a rir.
--Sabes que mais? Vamos passar a noite ao _chalet_.
--Cobarde!
--Tanto melhor! E se esta dança nos cahisse em cima?
--Oh diabo! Podia ser que não ficassemos vivos, não te parece?
--Quasi.
--Então vamos. Primeiro a tua saude.
--Obrigado. Queres que eu tenha medo por nós dois.
--Mas os telegrammas?
--Ámanhã continuaremos na exploração.
--Olha bem para mim. Isto é exploração ou roubo, hein?
--Seja roubo. Anda.
--Então dá ás coisas os verdadeiros nomes, irra!
Descemos. Aquelles estalidos tinham-me dado calefrios, palavra de honra.
--Como tu vens enfiado! dizia F. troçando.
--Como tu vens amarello!
--Qual de nós teve maior susto?
--Foste tu; é boa!
--Foste tu; pois quem?
--E se ficasses na derrocada, ó conde?
--Não tinha pena, palavra.
--Bem, não fallemos mais em tal.
--Mas ámanhã continuamos com os telegrammas?
--De certo.
--E elles que chegam como garraios!
No dia seguinte, era meio dia quando acabamos d’almoçar. O conde bebia
como um saxonio, para honrar a memoria do irmão de seu tio, dizia,
honrado commerciante londrino do Caes do Sodré.
Em plena luz e sob a pressão de quatro garraforias ninguem tem medo.
Vamos aos telegrammas?