Aquella violencia alastrou-se de bocca em bocca, espicaçada por

commentarios mordentes e velhacas interpretações. Era opinião que

o prior detestava padre Nazareth, e sentia atrozes ciumes do seu

talento oratorio e da sua fama de rico. Havia annos que os dois se não

fallavam, por caturrices de eleição. Além d’isso, as preferencias da

fidalga pelo _outro_ haviam sido consideradas na terra como humilhantes

para o parocho--um rustico! como se dizia em casa das Silvas. Durante

toda essa manhã, muita gente fôra consultal-o sobre se deveria

acreditar no milagre. E no intuito mesmo de sondar a opinião de sua

reverencia sobre o ponto melindroso, varios pediam uma interpretação

logica para a terrivel lagrima do deus.

O velho todo se torcia a cada ataque, e de mil côres derivava na

palestra para episodios pueris, colheitas, calores da quadra e preços

do vinho. Mas as devotas voltavam á carga de prompto, insistindo se

seria verdade, se não seria verdade, se o santinho chorara e seria

sangue do legitimo...

Ao mesmo tempo os finorios da terra, proprietarios ociosos farejando

escandalos em que entreter tempo, egoistas promptos a gozar, pela

espectativa dos contratempos alheios, espicaçavam-no cruelmente e de

caso pensado, vontadinha de apanhal-o bem na rede, para lhe pôrem em

evidencia alguma lugubre contradicção de crenças profissionaes. Mas o

prior permanecia sombrio, suando nas fontes sem dar palavra, um fremito

de impaciencia nos hombros.

--Isto de crêr ou não crêr, é da consciencia de cada um, observava

elle, apertado.

E pitadeando:

--Cada qual que se consulte e proceda como melhor lhe convier.

Mal a romaria chegou á ladeira que afrontava o convento, os carros

fizeram alto, por conselho de D. Maria do Juiz, que era authoridade

entre as devotas. As Silvas lançaram-se logo de joelhos. Algumas

velhas tinham-se descalçado, e magoando os pés nas asperezas da vereda

abrazada de sol, seguiam desfiando rosarios, as offrendas em taleigas

de ramagens, chales pela cabeça.

Ao mesmo tempo, o povoléo pressuroso, faminto de assombros e sem

paciencia para esperar que os carros passassem na azinhaga, extravasára

da estreiteza do caminho, espraiando-se pelas terras ceifadas, aos

pulos por vallados e alvercas. Uma febre podre de superstições e

pavores dilatava os olhares e enlividecia as epidermes bronzeas,

alagadas em suor. De todos os lados choviam promessas, alqueires de

azeite, saccos de trigo, milagres de cêra, cabellos, mortalhas, uma

infinidade de coisas. Uns promettiam para que o Senhor lhes livrasse

os filhos de soldados, outros querendo triplicada seára, em quanto

varios desalentados pela doença, sezonaticos e tristes, vinham

simplesmente solicitar a cura immediata, mediante o valor de uma

fogaça. Era pensamento de todos engodar o idolo com dadivas chinfrins,

como fariam a um selvagem por meio de missangas e estamparias. E no

intuito de um bom negocio premeditado, vinham chancellar ao convento o

contracto, mentalmente e sem escrupulos. Á entrada no templo, foi uma

berraria infernal, prantos, latinorios, desmaios... Á frente as velhas

descalças, mãos postas e olhos no céo, faziam um clamor de ladainhas

e preces, com vozes esganiçadas e lamentosas. A D. Maria do Juiz, que

gostava de figurar nas festas e era aia de Santa Catharina, levára de

casa um Santo Lenho de prata, que ergueu á frente da multidão.

Desgrenhadas e cheias de espinhas carnaes, as Silvas vinham-se

arrastando nos joelhos, de braços abertos, e a cada passo pendiam de

canceira com delirios de virgens flatulentas. A. D. Maria do Juiz

chegava-se então, e solemnemente, como vira fazer em Beja ao bispo,

dava o relicario a beijar, bolsando esquirolas de oração.

For detraz d’ellas accumulava-se a gente esfrangalhada, obtusa n’um

pasmo irracional. E batendo nos peitos, muitos diziam n’uma especie de

uivo somnolento, entre caudaes de pranto:

--Misericordia! Misericordia!

Eram Trindades quando padre Nazareth appareceu em casa do sacrista.

Desde manhã que não sahia de casa. O calor trazia-o morto, suores

salvo seja, de jumentinho podre, uma seccura diabolica. Que ia pela

cidade?

Manoel do Cabo pôz-se a dizer--o prior tinha zurrado: _pouca vergonha_!

na loja do Burjaca não tinham _comido a pantominice_, o mulherio

fôra em chusma ao convento, havia tres mil e tanto de esmolas, afóra

azeite e pães alvos. Padre Nazareth sacudia o pó das mangas, um

fremito jubiloso de narinas e o olho nadando em fluidos de victoria. E

commovido exclamou:

--Grande povo este!

Depois, muito confidencial:

--Despejou a cabeça?

--Logo. Por esse lado não ha perigo.

O seu receio era Beja porém. Que o vigario não era para graças,

segundo ouvia dizer. Pelos modos suspendia padres com sem-ceremonia

excepcional. Pequenino como era, voz aflautada e gestos de alcoviteira,

tornava-se nos lances serios, de uma rispidez temerosa. Não lhe

conheciam empenhos, nem amigos, nem actos de benevolencia no julgamento

de qualquer melindrosa questão.

--Espirra-canivetes! resumia o sacrista.

Aquella ponderação fez porém sorrir padre Nazareth, que esboçando

attitudes de poderoso, de trunfo politico, exclamou:

--Ora adeus! Todos os grandes tem uma perna de pau.

E distrahidamente, em ar de commentario:

--Pois senhores, estão as eleições á porta!

Sorria-se com finura velhaca, mirando o outro pelos cantos dos olhos,

contente de fazer presentir a sua importancia occulta e inabalavel.

--Emfim, proseguiu a meia voz, a primeira cunha está mettida. E bem

mettida que está!

O resto, com vagar e geito. Domingo, rica festa no convento, alli a

missinha cantada, sermão de endoidecer os peixes...

--Eia, o que ahi vai!

--Vossê verá, tornava envaidecido o padre.

E batendo na testa:

--Tenho aqui o sermão todo. É d’um effeito!...

--Ah! prégador com’ó primeiro! Que não se apanha segundo por estas

redondezas.

Padre Nazareth exultava de lisonjeado.

E oleoso de gloria, o fascias ridente das consciencias repousadas, ia

aventurando ao sacrista pequenas confidencias, que espumavam de humor

como um bom champagne crepitando n’um copo.

Pouco a pouco, a voz que se lhe abafára cautelosa desenrolando

segredinhos, foi subindo. E ouviu-se distinctamente o padre dizer:

--D’aqui a conego, meu amigo, é um trote.

--Sendo a besta boa..., ponderou o outro sem o encarar.

* * * * *

Um anno depois, estavam realisadas todas as esperanças do senhor

capellão do convento. A fidalga morrera com fumos de santa, legando

rendosos bens ao templo e ao padre, ao mesmo tempo que a fama dos

prodigios da imagem rebentava para lá da pequena área das povoações

circumvisinhas, e nos dominios da lenda corria a provincia toda,

avassallando crentes e colhendo esmolas avultadas.

Todos os dias agora passavam por Villa Alva ranchos de romeiros, que

bem providos de offrendas, ante a imagem do convento vinham fazer

penitencia.

O tosco madeiro que primitivamente só chorava sangue, fazia agora

no dizer das gentes rudes, toda a casta de maravilhas. Os cegos

recuperavam a vista limpando á fimbria das tunicas bentas a ramella dos

olhos assolapados. Paralyticos, que em cadeirinhas e macas abalavam dos

seus lugarejos nataes aos hombros de carregadores, desandavam a passear

sem detenças, mal punham os olhos na igreja. Para expellir o demo dos

esqueletos da pobre gente, que exhibindo carantonhas e soltando berros,

era trazida em colletes de força até ao santuario, bastava muitas vezes

um sopapo teso de padre Nazareth, algum latim quando muito.

Contava-se de lavradeiras estereis que se punham fecundas como marrãs,

mediante alguns dias de residencia na horta, dietas mysticas e certas

rezas adequadas. E era infinito o numero de rapagões do campo roubados

á recruta, panellas de dinheiro descobertas em rochedos lendarios, e

jumentinhos alegres que depois de roubados vinham dar ás portas dos

donos, fazendo signaes maçonicos com o orelhame. Desde que no Alemtejo,

a qualquer familia se afigurava insuperavel um problema economico,

um caso pathologico mais grave, ou um casamento menos licito de

realisar, as opiniões voltavam-se logo para o Senhor do Convento, na

certeza de um exito prospero e immediato--o que punha em banca-rota os

curandeiros, as mulheres de virtude, os procuradores, os alveitares

e os medicos. D’esta cegueira absorvente de crenças, foi-se pouco a

pouco originando toda uma engrenagem de pequeninas industrias devotas.

E a villa tão pobre e tão reles, tomou de subito a importancia de um

centro activo e florente, em que se fallava com respeito. A junta

geral votou estradas que ligassem Villa Alva com os mais sertões, a

camara, por seu turno, fez abrir poços publicos e arborisar os largos.

Ao mesmo tempo, em quanto duas lojas abriam com estantes de vidraça,

e um latoeiro de Beja vinha fixar residencia na arteria principal do

povoado, as senhoras começaram a ir á missa de chapelinho e luvas,

dando-se pelintramente _dom_ e fazendo os pés pequeninos. Villa Alva,

como se dizia nos serões das Silvas, estava dando _sota e az_ ás

terras proximas. Construiu-se um chafariz com botareos e tanques, onde

até bipedes vinham mitigar-se das calmas alemtejanas. A Escholastica

assumiu a direcção de uma officina de bentinhos, medidas e retabulos

mais ou menos garridamente compostos, onde em lithographia e em

pintura, o Senhor dos Passos ostentava as physionomias mais estranhas,

barba toda ou simplesmente bigode, de corôa ou sem corôa, marchando

pela rua da amargura ou quedando-se simplesmente immovel, na posição

carrancuda de um photographado. Dando largas á sua vêa elegiaca, Chico

Praça até alli incredulo, desandou a vender pelas festas hymnos bentos

de sua composição, cantatas em pomposas estancias, no fim das quaes se

repetiam estribilhos plangentes:

_E os judeus jogando os dados

Viam-lhe os cravos pregados..._

Por seu lado, a D. Maria do Juiz que tivera um tio medico, inventou

a _Untura santa_, que vendia em latas de pinto com uma carta

de padre Nazareth, attestando que não havia segunda esfregação

para borbulhagens. E como o commercio prosperava, as rivalidades

desencadearam-se entre os vendilhões, o que determinou a falsificação

nos productos e a intriga nas familias. As Silvas fizeram apparecer

um licôr para flatos; o Burjaca oppôz a sua _Fomentação do Horto_ ao

unguento da D. Maria; outra familia determinou supplantar as estampas

da Escholastica confeccionando pequeninos Senhores dos Passos em barro,

trapo, cortiça ou faia, com resplendor ou sem resplendor, conforme os

preços. A esse tempo, inaugurava padre Nazareth uns bellos oculos de

oiro para se dar ares de homem importante. Construira além d’isso, uma

bella casa com terraço e adegas de luxo, alargando ao mesmo tempo a

cifra dos seus milheiros de vinha e deitando carros de parelhas nedias.

Estava cada vez mais fona, lia Vieira e Mont’Alverne para vernaculisar

os sermões, usava corrente de berloques e deitára criada roliça. A sua

idéa era a conezia, o poderio, muita gloria.

Desde que o viu rico, Villa Alva entrou a respeital-o, a servil-o,

a lamber-lhe a poeira das botas. Era elle quem fazia as eleições

na terra, quem orientava a opinião, quem fomentava a intriga. Ia

frequentes vezes a Beja.

--Fallar com os trunfos! cochichava-se ás noites, na loja do Burjaca.

E com veneração, referia-se aos quatro ventos a sua alliança com as

notabilidades politicas, deputados que lhe offereciam jantares, lhe

mandavam cartas de amostras, _Diarios da Camara_ com discursos e as

minutas de preços do vinho, nos mercados de Lisboa.

Aquella preponderancia fazia-o temido, e andava nas palminhas,

dificultando a sua intimidade aos menos favorecidos.

No intuito de surprehender alguma informação relativa ao negocio,

os proprietarios procediam com elle por pequenas sabujices, grande

interesse pela azia de sua reverencia, um esmero de palavras e rodeios

servis, como se fallassem a um senhor. Villa Alva queria em elle

querendo, ria em elle rindo e basofiava em elle basofiando. E a conezia

não chegava nunca! Emfim, uma tarde correu que o velho cura ia ser

transferido a exigencias da politica, para Sant’Anna, lugarejo de

algumas casas, sem recursos, sem agricultura e sem rendas, torpemente

esquecido na aridez da serra. Em casa das Silvas, padre Nazareth

mostrou-se penalisado do pobre homem, que ficava a morrer de fome. Mas

intimamente dava-se os parabens. Conseguira afastar finalmente o pulha

que se atrevia a humilhar com sessenta annos de honrada labuta, a sua

florente carreira de homem sagaz, em tirocinio para conego.

Sobre o caso, Manoel do Cabo architectou logo o seu tratado pratico de

moral caracteristica, por este modo formulada, sempre que um mendigo se

arrastava para lhe pedir esmola:

--Grande cavalgadura!

--Porque, meu bemfeitor?

--Inda o pergunta! Aposto que é homem de bem!

--Saiba o meu bemfeitor que sim.

--Pois amigo, se vossê tem feito canalhice em quanto era forte, estava

agora rico. Pedaço d’alarve! E exemplificando, estendia o braço para

o fundo da praça, onde d’um lado sorria a casa nova do capellão,

ampla, clara e toda alegre das tintas frescas, e a miseravel vivenda

empardecida e deserta, que pertencia ao parocho velho, e desde a sua

partida se não abrira mais!

[Illustração]

DOIS PRIMOS

Quando Jorge bateu, a Albertina acabava de se levantar da mesa. Era

uma rapariga alta e fina, com o typo meudinho e arrebitado, que dá á

mulher o ar _canaille_ da ribalta. A sua elegancia formulava a ultima

novidade dos armazens de modas, tinha o _chic_ do dia, a côr e a graça

da ultima revista de Paris. Vestida com uma simples saia, um reles

chale e uma cuia torta, teria passado indifferente até á policia civil,

que é quem na capital roe nos ultimos detritos da femea, que o amor

escalavrou por essas alcovas e restaurantes nocturnos. Sem o espartilho

_cuirasse_ que lhe dava o rhythmo postiço e flexuoso do busto, sem as

meias escarlates luzentes de abelhas de oiro e esticadas acima do

joelho, sem os sapatos de decote largo onde uma roseta de setim se

enroscava com volutas de serpe negra, sem o nankim das pestanas, a

_veloutine_ da garganta, o carmim da bocca e a unha crescida dos fados

electrisantes, essa boneca que tinha o ar de parir o utero á força de

comprimir as ancas, daria a simples femea lymphatica, com _folies de

cœur_ e hysterismos alambicados, ninho de tuberculos do peito e uma

genuina incapacidade para os misteres da sua condição e da sua classe.

Seria uma preguiçosa, uma gulosa, uma estupida, incapaz da maternidade,

incapaz da abnegação, incapaz da lucta pelos que amasse, da permanencia

no dever como n’um tabernaculo inviolavel, e da resignação, tão heroica

e tão santa, de certas mulheres pobrissimas, na sua labuta tormentosa e

quotidiana.

Aquella vida do palco era a unica que ella teria podido seguir sem

contrariar os seus instinctos e satisfazendo todas as suas vaidades.

Em criança tivera uma educação apurada e completa--diziam os paes.

Fallava as linguas, cantava, tocava, e implantára no pequenino craneo

a paixão do luxo e a paixão do namoro--duas lanternas que ao longe

pareciam illuminar-lhe as phantasias do futuro. D’uma vez que a

trouxeram a Lisboa e a levaram ao theatro, um subitaneo clarão se lhe

fez dentro--tornára nitida a aspiração vaga em que ardia nas suas

insomnias de virgem provinciana, descobrira a vereda que havia muito,

as suas tendencias tacteavam, como um cego em busca de uma porta para

tomar folego. Tinha sido na Trindade, n’uma noite de _première_.

As decorações da scena com os seus cambiantes tenros, as suas

florescencias singulares, as cascatas de perolas cahidas na limpidez

ideal dos lagos cortados a palmouras de cysnes, as transmutações, os

adereços, os vestuarios dos principes e das princezas, dos pagens

imberbes e das bailarinas aladas, surgindo em attitudes lascivas das

cascas de ostra giganteas, esquecidas na gruta marinha da penedia,

galvanisaram-lhe os nervos e o coração, arrebatando-a do seu ninho

de senhora nubente para a phantastica allucinação das liberrimas

existencias onde se vive em azul, se cingem as carnes em photospheras

de pedras, e se faz roçagar no mosaico hilariante das alcatifas, as

longas caudas dos vestidos de quarenta libras, amarrotados hoje e

ámanhã benevolamente esquecidos a Fanchette, nossa confidente e nossa

criada de quarto. Ah! como seria bom cantar alli, quasi nua, com os

pequenos pés inquietos calçados na chinelinha de _Cendrillon_ ou nas

botas altas do principe Jasmim, os cabellos polvilhados de loiro,

as mãos cobertas de rubis e a garganta titilante no fremito de um

trillo ou na petulancia de uma aria, escarlate de provocações!... E as

paixões desencadeadas com o impeto das procellas andinas, as supplicas

virginaes dos adolescentes loiros que lhe devessem o primeiro grito

do sexo espicaçado, as apoplexias dos banqueiros e as surdas invejas

das mulheres mordidas pela estranha aureola do seu imperio!... Não

dormiu n’essa noite. Era cerrar os olhos e encher-se-lhe logo a cabeça

de bailados, córos, transformações e esplendores, cuidando estar

diante da multidão, phrenetica ante a nudez dos bustos e abrasada

pelo calor do ambiente. O expluir das ovações como a embalava n’uma

embriaguez funesta, que lhe fazia latejar as fontes; e em circulos

de diabolicas walsas vinham-lhe as reminiscencias da vida de terra

pequena, tão insipidas de episodios e tão aridas de commoções, em que

a sua mocidade deslisára até alli, como em calmaria podre. Operou-se

n’ella então uma brusca metamorphose, uma rebellião feroz contra a

pequena roda em que vivia. A tranquilla casa burgueza dos paes, cheia

de um conforto simples e de um aconchego honrado, fez-se-lhe odiosa

e triste. Entrou a embirrar com os moveis, com os velhos criados,

com o jardim de canteiros oblongos e cheios das magnificas roseiras

que o papá cultivava, e tinham a reputação das mais bellas da terra.

As suas maneiras eram agora seccas, as suas respostas sacudidas e

imperiosas. Soffria distracções profundas, e respirava a espaços por

grandes suspiros de cansaço. Aquella tristeza sem explicação inquietou

os paes e as tias. Que era? Que não era? Depois, a phase de explosão

chegou, periodo singular de contrastes, ora alegre, ora colerico, ora

sarcastico, em que nada parava, as musicas, o guarda-roupa, os criados,

a reputação e o _toilette_ das ricas e pretenciosas herdeiras suas

visinhas. Tudo achava banal e indigno da sua attencão.

Uma crueza de palavras entrou a expluir-lhe na bocca; achava os homens

pelintras e as mulheres idiotas, e reclamou um dia asperamente do primo

Jorge as cartas que lhe escrevera, dizia--para mangar com elle. E como

estranharam, ella bateu o pé, tremula de raiva, gritando que nunca

seria esposa de um homem com tamanho nó de guela.

Um dia desappareceu de casa para não voltar lá mais--e d’alli a um mez

os cartazes annunciavam o seu debute.

* * * * *

Seis mezes que se não viam. Como o tempo passa, bom Deus! Havia tres

que ella debutára, e tinham-se passado tantas coisas, tantas!...

Quando elle entrou, Albertina sentiu um fremito pela espinha dorsal ao

encaral-o. Estava mais vigoroso e mais bonito, correcto no seu _veston_

de grandes botões, sapatos de bicos curvos e a calça azul ferrete

cahindo amplamente sobre as polainas côr de perola. Era alto, nunca lhe

parecera tão alto, realmente. E o vermelho dos beiços dava-lhe um ar

sadio que a frescura dos dentes justificava. A vida de Lisboa refundira

completamente aquelle provinciano timido, pacato e sincero, apaixonado

pela caça, leitor dos maus romances e cheio de uns acanhamentos que

realmente...

Ella soubera da nova residencia de Jorge, e uma tarde, quando subia o

Chiado vestida na sua pelliça e baixando a cabeça ás barretadas dos

folhetinistas que por alli se davam ares principescos, tinha dado com

elle, cara a cara.

Fingiu não o vêr. Tinham-se-lhe esgarçado já as primeiras illusões

faiscantes da vida nova em que entrára; sem querer até, experimentava

ás vezes n’aquella solidão em que se via, mesmo no calor da celebridade

que se arrogára, o quer que era de remorso, tristeza impregnada de

torpor, um secreto medo da morte e a ternura para os tristes velhos

que quasi aniquilára com os desvarios d’aquella vida deshonesta.

Ria-se d’estas pieguices depois. Realmente, uma rapariga como ella

era, a pensar em coisas de tão ridicula sentimentalidade!... Um

dia escreveu-lhe; queria ser perdoada, amada outra vez com aquelle

amor tão sincero e tão simples, de homem forte e cheio de mansidão

benevola dos sãos. O egoismo da gente com quem tratava, fizera-lhe

sentir a necessidade de ter como defeza um amigo leal. Estimal-o-hia

simplesmente, vertendo-lhe no seio as pequenas amarguras da sua vida

caprichosa. Amal-o não, talvez não. Além de que, Jorge podia lá amar

uma mulher de theatro, que ia cear ao José Augusto com actores e

jornalistas, dava beijos nas faces oleosas dos empresarios, e era

forçada a pagar generosidades de joias com generosidades de alcova...

Amal-o não, ai não! Conhecia-lhe bem a linha de caracter, escrupulosa

e séria. Sentira a adoração d’aquelle homem, ardente e balbuciante,

com uma especie de mysticismo estranho. Que dedicação e que lealdade!

Ah! tivesse ella conservado a sua linha casta de filha unica, reclusa

na paz da casa paterna, e seria agora a esposa d’aquelle rapaz de

hombros redondos e epiderme fina, sob que um sangue generoso em

reticulos circulava. Que vida teriam feito juntos ás noites, de serão,

sob a luz do mesmo globo e em torno da mesma banca de trabalho, os

pequenitos adormecidos n’um canto de sophá, cahidos os reposteiros

e uma paz celeste abrindo as azas sobre o dulcissimo grupo das duas

cabeças sonhadoras! Que de asneiras se fazem na vida, bom Deus! Inda

se elle a quizesse como amante... Áquella idéa, uns restos de pudor

afogueavam-na, erguia-se phrenetica amarrotando as bordaduras da

_robe_, uma vontade amarga de morrer.

Encararam-se por um instante, ella com um sorriso contraindo, elle de

imperturbavel seriedade e muito pallido. Quando Albertina lhe tocou na

mão sentiu-a abandonada, como a que se dá aos indifferentes. Seis mezes

antes, que differença!...

--Senta-te aqui, disse ella.

E passado um instante:

--E meu pai, e a mamã?

Jorge encolheu os hombros.

--Que tens tu com essa gente?

--É verdade, esquecia-me, tornou ella baixinho, com um estrangulamento

de lagrimas. Eram sete horas, e não havia espectaculo n’essa noite. O

gabinete tinha uma claridade velada, que esbatida do globo fosco do

candieiro, amaciava os aspectos n’uma penumbra vaga de entrevista.

Com as janellas cerradas--era no inverno--os perfumes dos enormes

_bouquets_ suffocavam, tepidos e langorosos. Nas jardineiras, em pinhas

de pequeninos vasos branco e ouro, as begonias espalmavam as suas

folhas decorativas e gordas, bronze raiado de escarlate, e cobertas de

um delicioso _crochet_. Cahiam pesadamente das galerias os reposteiros

amarellos, destacando no fundo claro das paredes. Pelos _fauteuils_,

na ottomana e sobre as _etagères_ douradas esqueciam-se as partituras

em voga e os papeis, trasladados pela grossa letra enfadonha dos

copistas. N’um angulo de marmore, jazia a cinza do charuto de um

outro, que estivera antes e se fôra. Jorge pôz-se a mirar em torno.

Era luxuoso aquillo, cheirando a femea. Defronte da ottomana e por uma

porta aberta, via-se um canto de toilette na penumbra: fórmas albas de

cortinados e rendas, uma luzerna de espelho, e ao canto a psyché de

marmore branco, em forma de concha. Quem pagava aquillo tudo? dizia

Jorge para si.

--Mas falla, pelo amor de Deus! disse ella puxando-lhe o braço e

forçando-o a sentar-se. E febrilmente, com voz um pouco tremula:

--Foi uma desgraça, bem sei. Tinha porém de ser e não ha remedio já.

É o destino, que queres? Fui bem má comtigo. Uma mulher como eu, era

indigna de um homem como tu. Sabia lá fazer-me do teu tamanho!...

Atirou-lhe os braços ao pescoço:

--Mas falla, falla!... dizia entre beijos.

Jorge repelliu-a devagar, com esforço. Pensava, nem sabia em que estava

a pensar. Estava magnifica, a priminha--era tudo.

--Ha seis mezes não usarias d’essa frieza commigo, murmurou ella,

deixando-lhe a cabeça no hombro.

--Eras honesta.

--És cruel, tambem.

--Ouve, exclamou Jorge violentamente, tomando-a pelos pulsos--para que

te pintas? Para que?

--Eu?

--Tu. Nos olhos, na bocca, nos hombros. E esta casa, quem paga? E este

luxo? Não respondas. Paga quem entra, bem se vê.

--Oh Jorge! gritou ella em soluços. E um pouco dobrada, deixava

escancarar com abandono provocante, a _fenêtre_ do roupão de velludo,

orlada de rendasinhas sobrepostas.

Contos(#70819) · 第 16 / 19 段