Manoel do Cabo desceu de mansinho a escada de tijolo carcomido,

que caracolando vinha abrir-se, por baixo do pulpito. Os arcos das

capellas cortavam nos muros alvacentos da igreja, enormes boccas

escancaradas, em cuja guela, as linhas das imagens se esboçavam, sem

relevo. Ouvia-se o roer das ratazanas nos madeiramentos carunchosos,

e o rumorejo do chorão nas gradarias da fresta. Manoel do Cabo parou

diante da capella do Senhor dos Passos, á escuta. N’algum corredor

distante, batia uma porta. Havia conversinhas aos cantos, que ora se

afastavam, ora renasciam. Á bocca do camarim enramado de cypreste, o

clarão noctambulo da lampada deixava vêr um pedaço de cruz negra, e

mais na penumbra a livida cabeça desgrenhada, que pendia no peito com

um desalento de morte. Tudo o mais era confuso, accumulado e movediço,

apparecendo nas trevas com projecções colossaes, cheias de pavor. O

vento vinha a espaços, como se fôra um halito, fazer bruxolear a luz--e

despregavam-se então dos angulos formidaveis, desde a abobada até ao

pavimento, massas de espectros, que ante o sacrario deserto vinham

dançar sabbats allucinados.

Para fallar franco, Manoel do Cabo não estava muito á sua vontade, não.

Medo não era bem, realmente. E relanceando a vista, com a cafeteira a

escaldar-lhe nas mãos, disse para dentro de si:

--Olhem que bello sitio para a gente apanhar um tiro...

Veio-lhe á lembrança o _Estragado_, que por duas vezes, contra elle

puzera á cara a espingarda, e lhe promettera muito cedo noticias

frescas... E o Chico da Aroeira, que andava fugido de soldado e lhe

provára do cacete, d’uma vez em que fôra apanhado mais a Escholastica,

no palheiro.

--Além d’isso, pensava elle, isto cheira a patifaria que tresanda.

Olhou á roda, esteve quasi a voltar para traz. Mas que diabo!... Era

uma vez. Se a coisa pegasse, ninguem perdia com isso, augmentava-se a

fé no povo--que era pouca como seiscentos diabos. Não pegando, era como

se nada tivesse havido. E os proventos a gozar, o aceio da igreja, as

procissões... Até era bom para a religião, bem pensado. Andaria pago á

hora, boas gorgetas, alli estimado como um rei. E tudo por uma gotinha

d’agua quente. Ora adeus!

Subiu as escadas de mansinho, com a cafeteira. Logo á entrada do

camarim, deu de cara com um vulto. O _Estragado_. Santo Deus! Entornou

a agua a ferver pelas mãos. O vulto olhava-o, immovel, todo barbado.

Era um judeu da quadrilha, pintado na parede. Manoel do Cabo resfolegou

com força, e foi sempre apalpando--um judeu, não havia duvida. Diabo

da peça! A gente ás vezes até está parvo, senhores. E entrou a

desaparafusar a cabeça do santo. O sino deu tres horas--ás tres e

meia, no verão, é quasi dia. Nas lageas, a luzerna do luar ia-se pouco

a pouco apagando. Os cães da horta soltavam uivos.

--Cheira a defuntos que tem diabo! resmungou Manoel do Cabo. E na

escavação interior da cabeçorra chagada, ia deitando agua quente.

--Assim tambem eu faço milagres, senhor padre! trauteava o mariola, já

tranquillo.

Ás quatro horas, padre Nazareth veio ter com elle.

--Já?

--Poucochinho, mas promette.

--Bem. Vamos dizer missa, mesmo no quarto da velha.

--Então o estafermo morre ou não morre?

--Mais respeito, homem! Podem ouvir.

--Vamos a saber?

--Está mais alliviada. Dormita.

--Temos dinheiro por um sarilho, compadre.

--Venha d’ahi.

Sentindo-se mal, a fidalga quizera confessar-se--resolução que em

coisa alguma transtornava os planos de padre Nazareth. Umas poucas de

vezes, a governante afflicta pelo caracter grave que a coisa parecia ir

tomando, chamára o confessor de parte.

--Que se havia perigo, seria bom chamar o medico, mandar um telegramma

para Lisboa ao menino Tristão, fallar á senhora em testamento. Ella

tinha um medo... não queria responsabilidades; era uma serva antiga,

mais de trinta annos de casa, quasi uma pessoa da familia. E com

insistencia voltava ao tabellião, dizendo casos de pessoas que se

tinham ido sem testamento, a D. Monica, tia dos Palhas, havia de

conhecer; o doutor Mendonça, dos _Proprios Nacionaes_, sem herdeiros e

podre de rico, que ella servira dez annos ficando por fim a chuchar no

dedo... Que não dizia aquillo por interesse, mas emfim, era um descargo

de consciencia. Na penumbra do corredor, os seus olhos luziam cubiçosos

e a sua voz sahia baixa, breve, quasi sibilante.

--Havia muita prata, roupas, tres bahús de loiças do Japão. Casa

antiga. Lembrava-se de tres governadores da India, e uma quantidade de

arcebispos na familia. Ah, lá isso... Nobreza da melhor. E pondo a mão

febril no braço do padre, voltava á carga:

--Se havia perigo... Nada, nada de responsabilidades!

Por seu lado, padre Nazareth certificava que não havia motivos para

espalhafato. Um ataque mais cruel, eis tudo. Que elle sabia proceder

como homem e como sacerdote. E punha a mão aberta no peito, na attitude

austera de um illuminado.

--Como homem e como sacerdote, D. Dorothêa! dizia com força,

espaçando as palavras. Passára muito na vida, para estar precavido

contra eventualidades de qualquer ordem. De resto, affirmava com

intenção, não lhe tinha vindo a idéa do testamento, servia as pessoas

desinteressadamente, como lh’o dictava o seu coração, porque sabia ser

amigo.

E emphatico:

--_Amicus certus in re incerta_... D. Dorothêa!

--Ah, em desinteresse não está o senhor padre mais rico do que eu,

ha-de perdoar. Credo! Os modos de dizer as coisas! É perguntar á

senhora fidalga, ao menino Tristão e a todos de casa, quem eu sou e de

quanto por esta gente tenho sido capaz. Olhe que conheço a familia ha

muitos annos. Não é o senhor que me dá lições a mim.

E n’uma vertigem de narrativas para que não tinha loquela avondo, punha

em relevo a sua dedicação, o que aturava pelas doenças dos senhores,

o que merecera de confiança e estima em toda uma vida de serviços sem

preço, o seu amor pelas cousas de casa, e o trabalhão com os gatos e

cães da senhora fidalga--que lá por animaesinhos era cega, não faz idéa!

E protestando, contando, tentando fazer-se valer, andava á roda

febrilmente, com uma gula planturosa de avara, as mãos espalmadas á

altura dos olhos, onde luziam anneis chinfrins de meia libra.

Padre Nazareth nem escutava, mas dizia de quando em quando, para

acalmal-a:

--Eu bem conheço isso, D. Dorothêa, bem conheço isso! De resto, a

senhora fidalga fizera-o sciente de tudo. Quantas vezes lhe tinha

ouvido--que a Dorothêa com ser sua governante não perdia os fóros de

boa amiga! Ah, era tida em alta conta, creia isto. E por toda a gente,

palavra de honra!--que o não dizia por ella estar presente.

--Demais, acrescentava embaindo-a com a voz ejaculada e surda, de uma

discrição culposa, com que no confessionario arrancava revelações

picantes ás boas moças do campo apavoradas do inferno--demais, quem lhe

diz á senhora que no testamento da fidalga não ha um legadosito...

E vendo-a suspensa, o riso parvo de quem apanhou a sorte, sublinhava

umas poucas de vezes o alvitre proposto, repetindo:

--Sim, quem lhe diz á senhora?...

--Que? disse a Dorothêa quasi a abraçal-o, com um bocado de rolo a

despregar-se-lhe da cuia. O senhor padre sabe?

--Perdão, atalhou logo padre Nazareth, eu não disse...

E em quanto a outra ficava no corredor deslumbrada, entrou no quarto da

velha com ares de levita vergado á imposição de um juramento, hombros

altos, um geito vago de mãos e dizendo com um riso ambiguo:

--Segredos da confissão, D. Dorothêa, segredos da confissão!

Ficára satisfeito com o manejo politico que tinha posto em pratica.

Apre! que estivera quasi a acarretar o odio da governante--uma zorra

que a sabia toda! E devia ter sido bem boa! Mas estava velha, quando

não... E mais tranquillo, dizia para comsigo:

--Deixal-a do nosso lado. Não se perde nada.

Tinham já acabado de armar o quarto da velha para a ceremonia da

communhão. Defronte do leito e na mesa improvisada em altar, um

crucifixo enorme, velho marfim de lividez polida, enchia a parede do

fundo, que uma colcha de damasco azul, grandes relevos fulvos, vestia

de tons dôces, ouro e céo, á luz de castiçaes e entre tufos de renda,

dos grandes cortinados pendentes. Á cabeceira da cama e n’uma baixa

poltrona, ampla como um divan, arquejava a doente, entre almofadas

de todos os tamanhos, o escapulario branco de Santa Clara na cabeça,

destacando n’um fundo de estampas devotas e rosarios tocados em mantos

de varias authoridades celestes.

Quando o padre entrou, a velha tinha os olhos fechados e as mãos

errantes nos braços da poltrona. O escavado da face denotava intensa

fadiga, e exhaustos fundos, arrastados, difficeis e terminando em

silvo, davam-lhe um jogo angustiado ao cavername do peito oppresso.

Elle andava nos bicos dos pés para não fazer ruido; mesmo assim porém

as suas botas novas rangiam, com ruidos impertinentes de janotinha

de provincia. E sentando-se manso junto da grande poltrona da velha,

tocou-lhe na mão com os seus dois dedos suados. Cortára o cabello de

fresco, á escovinha, e aos cantos da testa alongavam-se para traz,

lustrosos de excreção gordurenta e destacando no negro luzidio dos

cabellos, dois crescentes de calva precoce, onde resaltavam relevos

complicados de veias. Visto de perfil era um pouco adunco, sobrancelha

cerrada e tons azues de barba espessa pondo-lhe no focinho como que as

linhas de um açaimo. Tinha os olhos grandes e bem fendidos, globo um

pouco injectado, estourando para diante, e um raio sagaz de pupilla

que se lubrificava todo, ante as nudezes trigueiras e turgidas das

raparigas da monda. Procurando fazer adocicada a rude voz de que

dispunha, disse para a fidalga, de olhos baixos:

--E agora? Melhorzinha?

A velha ergueu a mão para fazer um gesto. E quasi em segredo disse:

--Assim...

--Pois visto que se sente mais alliviada vamos á confissão, para

rezarmos depois a oração do Cyreneu que é infallivel, infallivel!

Dava explicações sobre a oração do Cyreneu. Tinha lido na _Chronica

dos Capuchos_, de curas miraculosas obtidas pela reza em triplicado,

de certa oração mandada ao convento por S. Simão Cyreneu residente não

se sabia em que parte, e a instancias de nosso veneravel prior frei

Antonio de Nossa Senhora, _para uso de grande cópia de enfermos dos

arredores_. Para que da recitação da prece podessem tirar-se seguros

resultados, urgia fazel-a recitar em voz alta e ainda de manhã, por

tres pessoas ao mesmo tempo, sendo duas femeas e um macho, todas de

crucifixo alçado e prostradas em joelhos ante a hostia consagrada.

A doente por cuja intenção se fizesse a reza, seguraria o sudario,

em quanto a espaços, um padre lhe iria chegando aos labios a esponja

embebida em vinagre, arremedo do que fôra praticado com Jesus Christo,

durante a agonia.

Ouvindo a ultima palavra, a velha tremia sem responder. Mesmo assim

macerada de rezas e praticas devotas, sentia no intimo o terror

invencivel da morte.

Era verdade que as almas, escapando-se dos corpos como perfumes de

amphoras, em ondulações suaves iam subindo aos dominios da luz, a

crystallisarem-se na eterna graça, sob a unção dos threnos e no

reverbero da immortal pureza. Mas o corpo que ella podia palpar e

sentir, o que tinha dôres, anceios, cansaços, appetites e suores

fetidos, esse que ella facultára nos seus tempos de dama do paço ás

excitações de recua, do senhor D. Miguel e seus companheiros, e nos

minuetes langorosos se tinha requebrado com meneios de affectada

galanteria, na tenebrosa algidez do sepulcro buliria todo negro, n’essa

viscosidade da podridão sinistra, que é a ultima infamia da carne!

Vendo-a inerte e muda, padre Nazareth tratava de aclarear-lhe bem as

origens da oração proposta, no intento de lhe extinguir os terrores e

as sombras funestas. Simão Cyreneu fôra o fiel amigo que nas ruas da

amargura consentira tomar sobre os seus hombros robustos a cruz, sob

que o Christo vergava, no trajecto para o supplicio. Elle conhecera

passo a passo os transes da Paixão, tinha fallado com o Salvador,

participado da sua angustia e chorado das suas lagrimas. Era o grande

confidente do Filho de Deus, e tinha sido elle o author da benefica

oração, que até grandes já tinha resuscitado. Era forçoso pois

experimentar, para bem cumprir os preceitos do Senhor.

--Pois sim, sim, dizia a velha a final.

E pondo as mãos, balbuciava a confissão.

Havia já sol quando a oração do Cyreneu acabou. Fatigada por toda uma

noite de soffrimentos, e sob o predominio moral da complicada reza, a

velha tinha conseguido repousar um pouco. Abafára-se-lhe mais a pieira,

e a respiração readquiria-lhe um rhythmo placido. A Escholastica,

avisada por Manoel do Cabo, tinha vindo logo de manhã com o seu chale

de ramos e lenço de sêda escarlate, o livro de missa na algibeira da

saia. Em acção de graças pelas melhoras da senhora, padre Nazareth

celebrou a missa d’esse dia, na capella do Senhor dos Passos, a que

vieram assistir todos os homens e mulheres do convento.

Terminado o sacrificio, em quanto Manoel do Cabo ia buscar a um canto

o apagador, o padre erguendo a voz pediu uma _Estação_ pelo inteiro

restabelecimento da fidalga, de quem fez o panegyrico em grandilocas

palavras--_mãi de raras virtudes, boa protectora dos interesses de Deus

e benemerita da graça divina_.

E todos rezaram a meia voz a _Estação_ pedida, em quanto abrazada em

fervores mysticos, a governante unia a face ás lageas da capella,

desatando em prantos e suspiros, toda de preto e mordeduras de pulgas

no pescoço tisico.

Aquella exaltação commovera a Escholastica, que disse para a mulher do

caseiro:

--Se não ha-de ter amor á fidalga, vivendo ha uma quantia d’annos na

sua companha!

E a outra, arrebentando nas unhas um piolho que lobrigára na trunfa do

filho, durante a reza:

--Com uma certeza, apoiava, com uma certeza!

Mal o padre sahiu da igreja, a Escholastica ergueu-se para ir fazer

oração ao camarim do Senhor dos Passos, a depôr-lhe no sacratissimo pé

o beijo convencional.

Subiu a escada com o livro de missa nas mãos, de olhos baixos, as

mulheres da horta atraz de si. E ajoelhando todas á roda da imagem,

entoaram a ladainha, por que a Escholastica tinha grande paixão.

Era a filha do sacrista quem entoava os louvores ou vozes; todas as

outras mulheres respondiam atabalhoadamente:

--_Ora, ápornobis!_

E ao _Agnus Dei_, como as burras se enganassem, a Escholastica

reprehendeu-as com a sua voz birrenta de sabichona. Então o filho

do caseiro que andava á roda bulindo, erguendo a tunica da imagem e

dando-lhe puxões na guedelha, gritou de repente com o dedo estendido

para a face do idolo:

--Mãi, sangue!

A caseira, que estava de lado, alongou um pouco a cabeça na direcção em

que o rapaz apontava, e pôde vêr uma lagrimasinha vermelha, que cahida

da palpebra do Senhor, vinha pela face livida fazendo um traço de

sangue miraculoso.

A pobre mulher nem pôde dar palavra, levou as mãos á barriga

abaúlada por uma prenhez medonha, revirou os olhos e cahiu para traz

barafustando. Ao mesmo tempo, a Escholastica que da palpebra do seu

lado vira cahir tambem a sua gotinha de sangue, abalou pelas escadas,

largando o livro e fazendo cahir a rapariga do caseiro. E possessa,

berrava igreja abaixo em direitura á horta--que acudissem, aqui

d’el-rei, não era cousa boa, ia acabar-se o mundo!

Foi o sacrista quem primeiro acudiu á berraria, e picando o charuto

para a cigarrada de ripanço:

--Qual acabar-se o mundo, nem qual diabo! O mundo não dá fim, em quanto

houver santos que façam milagres e desavergonhadas que creiam n’elles.

E n’uma expansão de riso cruel, tomando assento na borda do tanque:

--Malandros e bebedas! É o que ha.

* * * * *

Ao meio dia divulgava-se em Villa Alva o milagre, e a população

em chusma, n’um borborinho de cortiço, abandonava a terreola

caminho do convento, toda inflammada em fanatismos e psalmejando

orações e ladainhas. Á medida que se adiantavam na estrada, os

magotes reproduziam-se e augmentavam, pelo concurso da gente que

iam encontrando a trabalhar nas fazendas. As beatas ricas tinham

aproveitado a occasião para fazer toldar os seus carros alemtejanos,

puxados a mulas e cobertos de um toldo primitivo, de lona e caniçados.

Algumas em jumentos, de cadeirinha, chouteavam adornadas de cordões

de oiro, mitenes de retroz nas mãos osseas, e leques hereditarios

pintados de escudeiros e reis. As do Silva, um ricaço da terra, levavam

mantas de lã azul, de borlinhas, pregadas em escapulario, com ganchos

representando malmequeres. E semelhante luxo fazia sensação na romaria.

Chico Praça com risos scepticos de homem que lê, fôra tambem no

machinho do pai, inspirar-se e mangar um bocado _d’aquella saloiada_

ignorante. E espetado n’um charuto de vinte e cinco, fumo de merino

enorme no côco dos domingos, manta verde com perinhas bordadas, calça

curta arregaçando sobre os elasticos das botorras e o atilho da

ceroula á mostra, comprimentava fidalgamente os ranchos procurando

informar-se do modo de vêr geral ácerca do prodigio. As raparigas

voltavam-lhe a cara ouvindo-o escarnecer dos santos.

--Judeu! diziam. E umas para as outras, como se fallassem de uma

universidade:

--É o que elles vão aprender a Beja!

Atraz da chusma arrastava-se cacarejando a gente pobre, mendigas

velhas e descalças, physionomias de cera abrazadas por esses olhos

chammejantes do meio-dia, em que se repinta em clarões a effervescencia

das indoles calidas e insoffridas; velhos pastores invalidos, cobertos

de pelles safadas, polainas de feltro, cajados nodosos, e um anguloso

secco de mumias, e rapariguitas rotas, vivendo do rolão corneo das

esmolas e que a lama cobria de crostas pardacentas. E todos n’uma

passividade receosa, eternos vergados á penuria que envilece, lá iam

custosamente, parando nos cotovêlos da estrada para detalharem os

commentarios suggeridos pelo caso, ou recomeçar com voz quebrada o

terço lugubre da penitencia. Muitas mulheres levavam azeite para as

lampadas do convento, offertas de pão cozido, fogaças de gallinhas e

borregos novos. E corria em segredo que as Silvas tencionavam offerecer

ramos de pennas comprados em Setubal, nos banhos do anno passado.

Porque no grosso beaterio da villa, a surpreza do milagre vinha de

feição, com os seus embevecimentos mysticos e esse brumoso de legenda

que dá, febre ás imaginações sobre-excitadas. Havia duas semanas que

escaceava thema para as parlendas de soalheiro. O ultimo caso de aborto

tivera lugar havia já um mez--velharia em que mal se faltava já. E em

casa das Silvas e na loja do Burjaca, ás noites, arrotando sob a azia

do _ensopado_ das cêas, a boa gente lamentava n’um fundo de saudade e

desespero:

--Maldita terra! Nem ha em que se converse... O mulherio acreditava

fanaticamente no sangue do Senhor do convento, uma lição a esses

herejes que vinham do estudo fallando mal dos santos e rindo da

confissão e da missa. Deus não era pois uma palavra vã! Vivia, amando

sempre a humanidade e chorando pelas suas loucuras e crimes, no fundo

melancolico de um templo, que a guerra civil profanára e derruira,

nas suas contorsões de bacchante. Iam começar os bons tempos de fé

absorvente e sincera, em que as almas vestem a gaze da innocencia para

os esponsaes da bemaventurança. Então, por esses campos verdejantes,

no fundo d’esses olivaes contemplativos ou sobre as collinas e

charnecas em que ora esbravejavam selvaticos, piorneiros e tojaes,

erguer-se-hiam de novo os eremiterios alvinitentes, cruz erguida nas

fachadas, um cordão de tilias no adro e a porta aberta como refugio

aos vergastados pela miseria, ou pelo desalento. Viria o bom tempo das

procissões do campo e das festas a orgão, em que as vozes dos frades

entoariam a missa n’um extasi seraphico, do fundo dos seus capuzes

bemditos. E essa azinhaga lugubre que conduzia ás ruinas, o claustro

transfeito em lagar de azeite e as cellas aproveitadas para residencia

de gente mundana, regorgitariam novamente de fradinhos gordos, olho

dôce e dentes gulosos, que em tardes de primavera, das grades do côro,

lançassem cantigas bréjeiras ás roliças lavradoras engorgitadas de

desejo e devoção erotica--como n’outro tempo. Muitas velhas ainda, eram

do tempo dos frades; algumas mesmo tinham dado guarida a guardiões

varrascos, por noites chuvosas, em quanto os maridos na adega resonavam

espapaçados no vinho d’essas bebedeiras do Alemtejo, que chegam a

durar semanas. E voltadas para o passado em que se reviam frescalhonas

e vivas, as pobres davam suspiros de mágoa, lamentando a falta de

crenças de hoje, e batendo com as cabeças nos toldos do carroção,

a cada solavanco do eixo. Nos homens era menos sincera a crença no

milagre. Iam poucos na romaria, e esses mesmos seguiam o femeaço para

namoriscarem a torto e a direito.

Padre Nazareth contara discretamente o prodigio na loja do Burjaca,

palavras simples, sem paixão e sem commentarios. Não lhe convinha muito

tornar-se heroe do caso. Velhaco como era, tinha fé em que os animos se

accenderiam por versões mais escandecidas e pelos exageros e mentirolas

que na bocca da gentalha usam acompanhar os episodios de força, como

aquelle. Effectivamente corria já na villa que a Escholastica cahira

de cama, faniquitos a cada instante, um esbracejar de endemoninhada

debatendo-se nos pulsos de dois sapateiros vorazes, que a tinham de

olho havia muito.

Ao mesmo tempo, o sacrista referira na venda do _Salta-Pocinhas_, á

malta que alli se juntava para beber fiado, a historia circumstanciada

da velha, as suas peregrinações a Lourdes, a sua grande fé e a sua

caridade, uma carinha de santa, muitas esmolas... E transfigurado,

tinha descripto a imagem do Senhor dos Passos, chagado e de olhos

abertos, de cujas pupillas fixas parecia sahir a claridade de

além-tumulo, o quer que era que dava terror e fazia arrebentar de

paixão. E as opiniões começaram a desfilar através das conversas,

fuzilando, luctando, fazendo contraste. Uns criam no milagre, impondo

condições. Outros andavam perplexos. Alguns riam.

--Pode lá ser!

Já se contava que o chôro do idolo, não era de hoje. Até alli ninguem

reparára. Inda se o santo désse berros!... Mas calado como era, não

attrahira as attenções de ninguem.

--Quem havia de dizer!... ponderava a D. Maria do Juiz. Um Senhor de

pau como outro qualquer! E havia quem tivesse já desconfiado.

Algumas velhas até, sonhavam todos os dias com a imagem, resplandor na

cabeça, cruz ás costas e a fazer-lhes signaes. E as outras escutando,

ganiam de olhinhos piscos:

--Tambem a mim! Tambem a mim!

Mas o carreiro das Silvas, que ouvira tudo muito calado, largou esta de

chofre:

--Ponho a mão n’umas _Horas_, em como é pouca-vergonha dos padres!

Ameaçaram-no logo. Pedaço de bebedo, grandissimo traste, que já queria

ter opinião nas conversas das suas amas, o malcriado!

E em quanto ellas ralhavam da petulancia do moço, a mais gente nos seus

carros e nos seus jumentos, ria maganamente, pondo uma nota rutilante

na pratica escura de sacristia, das senhoras devotas imbecilisadas e

seccas.

Assente pois que a lagrima de sangue, segregada directamente por Deus,

e escorrida da palpebra ossea do idolo, mantinha particulas divinas,

gemeas das que ficavam no calix, durante a missa e á invocação do

celebrante, toda a gente estranhou que o prior da villa não mandasse

repicar os sinos, marchando logo com a irmandade sob o pallio rico, a

buscar em procissão solemne o Senhor dos Passos.

Ao subir para o carro, paramentada de sêda roxa e toda de véo pela

cara, a D. Maria do Juiz dando com o parocho a passear na praça, inda

lhe perguntou o que tencionava fazer.

O velho olhou-a por um bocado muito serio, e disse:

--E a senhora?

--Ora essa, senhor padre! Cumprir com o meu dever de christã. Vou

penitenciar-me diante de Nosso Senhor. E seraphicamente:

--Que estão chegados grandes dias!

--Pois felicidades.

E sem mais amens, o velho continuára a passear, batendo na caixa de

rapé. Era homem de cincoenta e tantos, calado e grave, com a bondade

rude que nasce da misanthropia aldeã em perpetua contemplação do mesmo

horisonte e das mesmas arvores. Velho leitor da _Revolução_ e liberal

de tempera, viam-no sempre prompto a bramir contra os escandalos que

manchavam o sacerdocio, violencias, seducções, roubos, toda a casta de

vicios. Intimamente rosnava contra a penitencia, a confissão e essa

idolatria das imagens, que torna mais alvar ainda o povo das freguezias.

Em geral vivia recolhido, longe dos fócos de opinião da terra, dizendo

missa na matriz ao romper do sol, percorrendo á tarde as fazendas entre

um cajado e um cão amarello, e passando as noites em casa do medico, no

seu interminavel voltarete.

Quando lhe fallaram no milagre, o prior bateu na mesa iracundo e

tremulo, exclamando rudemente:

--Nunca se viu pouca-vergonha maior!

E logo todo pallido, receoso de ter concorrido para o descredito da

batina, agitava o lenço vermelho trovejando:

--Homem, é melhor que me não façam fallar!

Contos(#70819) · 第 15 / 19 段