Era espaçoso o camarim da imagem, posta ao través para ser vista em

toda a sua dimensão. A parede do fundo, pintada de judeus colossaes

ornados de chifres e dentes de javali que os maraus arreganhavam por

modo insolito, ensombrava-se de manchas limosas fazendo claros na

quadrilha de algozes do nazareno.

--Eh malditos do diabo! fazia a Escholastica esgrimindo figas sobre a

cafila, em quanto gravemente o sacrista dava reviravoltas á cabeçorra

do idolo, a vêr se a desaparafusava do tronco. E quando viu a filha

descer para renovar a agua das lavagens, Manoel do Cabo destroncando a

cabeça santa, poz-se-lhe a estudar cuidadosamente a anatomia. Terminava

ella n’uma especie de parafuso tubular, tapado por uma rolha. Manoel do

Cabo puxou a rolha para si e deu com uma concavidade que se escavava na

cabeça, fazendo n’ella como um escondrijo.

--Cá está a marosca! resmungou, torcendo a venta de um modo pujante.

Deitou agua no bojo e vascolejou. A agua tingiu-se de vermelho.

--Percebo! disse elle. Não precisa mais. Tornou a metter a rolha no

tubo de parafuso, lavou a fronte do santo, e cuidadosamente restituiu

a cabeça cheia de agua ao seu lugar. Alcançára de velhas devotas uma

tunica de paninho rôxo, e com esmolas fizera concertar a enorme cruz

de pinho que de longos annos cahia a um canto, alliviando o semita

do seu peso infamante. Quando a Escholastica voltou, já o Senhor dos

Passos estava vestido e paramentado de novo, cruz ás costas, a disforme

cabeça livida pendente sobre os seios, cabelleira esguedelhada nos

hombros e o resplendor por cima, como se fôra uma mão fatidica impondo

condemnações. Com ramos de cypreste juncaram o chão da capella. Através

das ramarias esbugalhavam-se os olhos dos phariseus, com um ar de

troça que incendia as iras da Escholastica, vindo porém a achar echo

no coração do sacrista. Emfim, a mulher do hortelão trouxe flôres e

verduras, que foram postas em symetria no altar, dentro de canecas

de barro e bilhas vermelhas, de Extremoz. Accendeu-se a lampada da

capella, e diante da gente da horta que viera recolhidamente vêr os

preparos da igreja, a Escholastica leu em voz alta no seu livro de

missa, a ladainha--que era muito bom para ganhar indulgencias.

Ao cahir da noite os preparativos de recepção da senhora fidalga

estavam feitos; a residencia esfregada e as louças brilhando nos

grandes armarios do refeitorio; enormes camas de pau santo cobertas

de colchas de damascos crespos, rescendendo á alfazema das gavetas e

ao linho de Guimarães; paineis de santas risonhas com mantos côr de

laranja e maxillas de carnivoro; os tamboretes em linha mostrando a

pregaria luzente; e um velho sophá de medalhões de coiro ao fundo da

sala, de cujas paredes pendiam em molduras castanhas, lithographias

representando a vida de Dona Ignez. Na horta o mesmo aspecto cuidado e

festivo--moitas de hortensia á entrada, ruas de loureiros e chorões,

caracoleiros e heras vestindo os muros, os tanques limpos, aparada

a relva do laranjal, dhalias escarlates resahindo dos tufos verdes

da contramina, aboboras e melões de guarda em linha no telhado do

chiqueiro, espantalhos novos pelas figueiras...

--Tudo que nem um brinco! dizia a Escholastica á visinhança,

descrevendo as canceiras que tivera.

Á noitinha appareceu padre Nazareth, chapéo para a nuca, todo encalmado

de subir as escadas do balcão. Vinha mal do estomago, cheio de

seccuras, a face macilenta, ventre alto, os intestinos trovejando.

--É dos pimentos, dizia, é dos pimentos de conserva.

Tinha levado o dia mettido em casa, em mangas de camisa e chinelos, com

calma. Fizera suão; com as queimadas os ares andavam turvos e as bestas

sem força para o trabalho.

Demais um desavergonhado de Selmes recusava-se a pagar a meia moeda que

lhe pedira ahi pela esborralha. Corja de ladrões!

Manoel do Cabo philosophou então:

--Que hoje em dia, o mundo ia cada vez peor. Todos cuidando de

atafulhar o bandulho, e o diabo que levasse o nosso amigo e compadre.

Deleitava-se intimamente o sacrista, em sabendo que alguem caloteava

padre Nazareth, um fona incapaz de deitar osso a um cão.

O padre passeava d’uma banda para outra mãos atraz das costas, um

livôr bilioso na pelle. E disse sem levantar a cabeça:

--Sabe que a velha chega ámanhã?

--Assim ouvi dizer.

--Fez aquillo?

--Todo o santo dia andei mal-a rapariga a tirar estrume da igreja.

Aquillo não é dizermos que estava porca, senhores, mas tenho já visto

malhadas de cabras mais limpas. Têas d’aranha então, capazes de cobrir

o mar. Em fim, ao menos aceada, ficou. Tudo varrido, muita flôr nos

altares, azeite nas alampadas, tunica nova no Senhor dos Passos. É

imagem p’ra metter um bocado de respeito. Sempre lhe digo que Padre

Eterno era homem tamanho da torre de Beja, se tinha parecenças com o

senhor seu filho. Alentado, palavra.

--Mais respeito com essas coisas, senhor Manoel do Cabo, mais respeito

com essas coisas, advertiu padre Nazareth que tinha lobrigado a

Escholastica entre portas, á escuta.

E com um formidavel arroto abriu a velha homilia sobre o temor de Deus

e os mysterios da Trindade--Padre, Filho e Espirito Santo.

--Malditos pimentos, dizia, malditos pimentos! Deus era o espirito

creador, dotado de todas as virtudes e omnipotencias. Era o

infinitamente bom, o infinitamente grande e o infinitamente piedoso.

Para impôr-se á limitada comprehensão humana, fizera-se homem em seu

filho, que padeceu e morreu...

--Tudo para nos remir e salvar! ajudou de dentro a Escholastica, que

sabia as prosas do _Novo Catecismo de Doutrina_.

--É tal e qual, fez padre Nazareth. E vendo a rapariga de braços

arregaçados pediu agua, para lh’os vêr de perto. Quando a Escholastica

se afastou para encher o copo, o padre voltando-se, disse em voz baixa:

--É preciso dar exemplos, homem!

--Pois que duvida que é, objectou o outro com recolhimento cynico,

puxando fogo ao cachimbo.

Os olhares dos dois encontraram-se luzindo com a mesma expressão de

patifaria.

Traduzindo então os pensamentos do padre, Manoel do Cabo ia dizendo a

meia voz:

--A fidalga chega á tardinha ao convento, com as criadas. Traz homens?

--Não traz.

--Melhor. Chega e janta. Depois visita a casa, os lagares, um bocado

da cerca. E salta na igreja, já sol posto. Escuridão no altar-mór, nas

capellas lateraes, lampadas accesas, um socego de morte... Faz a sua

oração ao Senhor dos Passos, hein? E um de nós então, repara que...

Padre Nazareth tossiu, para abafar as palavras que ia a vomitar o

sacrista. E Manoel do Cabo desatou a rir. Com um geito brusco o padre

estendeu-lhe a mão.

--Até ámanhã. Vou-me deitar, que me estou a sentir peor.

Desceu as escadas do balcão, em quanto de pé no portal o sacrista

ficava olhando com o seu risinho de marau intelligente.

* * * * *

Ao entardecer do outro dia, a caleça entrou com grande estrepito na

portada da cerca. De chapéo na mão, os moços da lavoura, o hortelão,

padre Nazareth mais o sacrista, adiantaram-se para comprimentar a velha

dama recem-chegada. Esta desceu amparada ao braço do padre, e sem

baixar a cabeça a ninguem. Era quasi octogenaria e devia ter sido alta.

E toda corcovada, com um vestido de velludo preto e um capote debruado

de pelles, subiu a escada que levava ao andar de cima.

--Isto aqui é triste, pois não é, senhor padre?

--Não, minha rica senhora, não é. Em campo é do melhor que tenho visto.

Muita verdura, boas aguas, rica vista, emfim um regalo de propriedade.

E depois, a visinhança da casa do Senhor...

--Sim, sim, disse a fidalga. E com inflexão piedosa:

--É o que mais me consola.

A mesa estava posta. Pelas janellas abertas do refeitorio, via-se

morrer a tarde e esmaecerem nas cristas as ultimas tintas ineffaveis

do dia. Ao lado, as noras chiavam fazendo descer e subir sobre a

agua das nascentes, a trança dos alcatruzes de barro. Sob cupulas

verdes de nogueiras, amoreiras brancas e platanos, a agua jorrava nos

tanques quadrados; os moços da horta faziam a rega do laranjal, leiras

de pimento e carrapatos; no extenso pomar os pecegos, as maçãs e as

romeiras rubras picavam a verdura de pontos vividos, de um tom sadio.

O ar crystallisava n’uma serenidade contemplativa e corriam brizas

impregnadas do cheiro dos fenos.

A senhora fidalga tinha-se sentado á mesa, mais a governante e padre

Nazareth, que a instancias consentira tomar um caldo.

--E tem rendas, a igreja?

--Não, minha rica senhora, não tem. Os fóros de trigo apenas dão para

as despezas do culto; e inda por cima mal pagos... Os paramentos

são uma miseria e o templo faz-se ruinas. Uma desgraça, minha rica

senhora! Desejando estavamos todos que vossa excellencia chegasse.

Temente a Deus e boa christã como é, a senhora fidalga póde bem acudir

com esmolas á pobreza dos santos e ao desmantelamento da igreja.

Podia-se até fazer uma festa, a modos um arraial, todos os annos.

Sempre concorria povo com fogaças e promessas. Mas eram precisos

certos arranjos que traziam despeza. Ora não havendo fundos... vossa

excellencia entende.

--Far-se-ha o que fôr da vontade de Deus, disse a velha abrindo o seu

grande leque da China, preto, com lentejoulas e passaros exoticos.

Tinha tirado o chapéo, bandós postiços desciam aos lados da marrafa,

tapando-lhe as orelhas. Um pente de tartaruga posto ao alto dava-lhe

á cabeça um ar ridiculo. A testa abaúlada e saliente, punha como um

_abat-jour_ nos seus olhos profundos, mortiços no fundo das orbitas.

Recordava-se pouco do convento, da disposição dos altares e do numero

de imagens. Se havia throno?

--Um pequenino e dourado, todo velho.

--E santos, senhor padre, e santinhos?

--Isso muitos, minha rica senhora, muitos. Santa Rita, logo á entrada;

S. Bento, á esquerda; a Senhora do Rosario...

--Minha madrinha... fez notar a governante, dona papuda, de bigode.

Padre Nazareth comprimentou, e foi continuando a enumerar:

--O Senhor dos Passos, imagem de muita virtude e milagres; Santa

Isabel, rainha...

A velha espirrou, e todos correram a fechar as janellas, temendo

constipações. Veio a pêllo fallar-se de doenças produzidas por simples

golpes de ar. Na opinião da governante, toda a enfermidade nascia d’uma

constipação. Quando tivera o anthraz...

--Vossa excellencia é que me dizem de saude muito delicada, disse o

padre para a fidalga, offerecendo-lhe um pecego descascado.

Ella contou então os seus achaques, consultára tudo, a homœopathia,

a allopathia, os seus directores espirituaes--que, juntou, sendo

os medicos do espirito podem tambem ser os medicos do corpo, como

emissarios de Deus--que são.

--Muito bem, disse unctuosamente padre Nazareth, muitissimo bem.

--Mas poucos allivios, infelizmente. Tinha feito a peregrinação a

Lourdes no verão passado, por conselho do padre Grainha. Muito bonito

tudo, as aguas de muita virtude, a Senhora rodeada de offrendas dos

romeiros, e algumas ricas... Citava os presentes da princeza Amelia

de Brandemburgo, tocheiras de oiro maciço, corôas de rubis, calices

esmaltados e custodias gothicas--tudo valendo milhões, não faz idéa.

Em certos dias da semana, Nossa Senhora apparecia aos enfermos na

gruta, puxando-se um cordelinho... Mesmo assim passava mais alliviada

de verão; mas pouco! Tinham-lhe aconselhado a estação no convento, e

viera. Ai! Que Deus lhe perdoasse tão grande offensa--mas tinha pouca

fé. A idade era já grande obstaculo a uma cura completa.

--Todavia, acudiu servilmente a governante, sendo da vontade do

Senhor... Ella bem lhe pedia!

--E todos do coração imploramos, disse com austeridade o padre,

enchendo o calix de Porto.--E levantando-se dava boas esperanças,

dizendo a sua grande fé nos ares, nas aguas, que as havia ferreas,

muito perto. Sempre era outra coisa, a vida no campo, outros habitos,

muito socego...

--Assim, concluiu elle com um sorriso, passando o guardanapo pela

bocca oleosa dos molhos, permitta v. exc.ª que eu beba antecipadamente

a um proximo e jucundo restabelecimento.

--Muito agradecida, senhor padre, muito agradecida e que Deus o oiça,

dizia a velha, molhando os beiços nos dois dedos _lacrima Christi_,

que a governante lhe lançára no cópo. E mostrou desejos de conhecer

as terras proximas--a aldêa, como ella dizia. Se havia fé, gente de

certa ordem, fortunas... Padre Nazareth dava pormenores. Nos campos a

fé não abundava já, como no tempo dos frades. Tudo se ia infeccionando

da lepra das cidades, não havendo barbeirola que não lêsse os jornaes

e não prégasse heresias por essas vendas. Jogo, má vontade ao trabalho

além d’isso. Não compareciam á confissão, não iam á missa...--E fazendo

um gesto beato:

--Pervertidos, dizia, pervertidos!

Nas mulheres mesmo assim, não era tanto. O coração da mulher é mais

entranhavel á religião e á fé. De resto, nas escólas não ensinavam

orações. Conhecia rapazes que nem o Padre-Nosso diziam de cór.

--Santo nome de Jesus! clamava a governante, com um fervor intenso nos

olhos--vinho do Porto e devoção. A senhora fidalga lembrou predicas aos

domingos, depois da missa, sabbatinas de doutrina para os rapazes, com

um fato novo por mez ao que melhor soubesse as rezas.

Punha as mãos engelhadas como implorando clemencia, e de olhos em alvo

ia resmungando:

--Não sei onde isto ha-de chegar, meu Deus, não sei onde isto ha-de

chegar!

A governante attribuia as seccas, as guerras, as fomes e as epidemias,

ao estado impiedoso das almas. Que isto de não commungar era medonho...

Diz que appareciam as alminhas negras, com chavelhos, aos berros.

--Credo, mulher, que até faz arripiar! increpava a fidalgona, fazendo a

cruz nos seios chuchados.

E ergueu-se, tomando o braço do padre Nazareth.

--Dê-se ao incommodo de me mostrar a cerca, senhor padre. Vagarosamente

desceram a escadaria de pedra toda coberta de caracoleiros e heras, que

vinha abrir em leque ao alto de uma rua de loureiros e eloendros.

Manoel do Cabo albardava o _Ginaia_, depois de jantar brutalmente na

cozinha, mais o hortelão. Quando o padre passou rente, o sacrista

perguntou-lhe:

--Então?

--Dentro de um mez está pago em dia, tornou o outro, e foi andando.

* * * * *

A velha sympathisára de vez com o padre Nazareth, achando-lhe a

compostura grave e a palavra christã. Sómente lhe via um defeito--era

talvez um pouco camponio, mãos grossas e sem anneis, uma rugosidade de

pelle que dava contactos irritantes.

--Emfim, dizia a governante, na falta de outro...

Padre Nazareth, por seu turno, andava regalado e contente. Vinha

almoçar e jantar todos os dias, grandes cuidados com as camisas, e

barbeava-se a miudo. Nos primeiros dias tivera contrariedades. Aos

seus instinctos de agricultor brutal repugnavam as branduras da

catechese, os mellifluos conselhos ditos entre citações de Santo

Agostinho, João Chrysostomo, Carlos Borromeu e Basilio, authores por

que, valha a verdade, passára a correr, havia bons annos, no seminario.

Afizera-se desde que residia na villa, a uma vida de episodios rudes,

vindimas, ceifas e agiotagem systematica. O seu genio violento dava-lhe

intermittencias de cólera biliosa, durante as quaes rogava pragas

e dizia obscenidades. Sabia o valor do dinheiro, e conforme usava

dizer--poucos o enganavam. Adorava o dôce. Em pandegas de amigos porém,

gozava fama de gracioso e sabia beber. Como prégador era fallado nas

terras proximas--boa voz, fazendo chorar na _Paixão_, gesto dramatico e

uma emphase pouco seguida em geral nos pulpitos da provincia.

Chico Praça, poeta da villa e o que mandava correspondencias ao

_Bejense_, costumava dizer na loja do Burjaca, aos proprietarios que

alli iam palestrar, ás noites:

--Para côro o padre José Pereira, mas no pulpito o Nazareth.

E todos:

--É pena que se não dedique!

Eram succulentos e escolhidos os almoços e jantares da senhora fidalga,

vinhos de feição, boas loiças, um ar de festa, natas e doçarias

de Lisboa. Padre Nazareth gostava, e vinha dizer para a loja, aos

proprietarios:

--Bella pastelaria hoje!...

Ou então, arrotando com pompa:

--Diabo! Pois fizeram-me mal as perdizes trufadas. Aquellas basofias

excitaram ciumes na terra; muitos diziam com um riso perfido:

--O mariola achou ama a seu gosto!

E alguns cuspindo:

--Ora o estupor!...

Pouco a pouco, padre Nazareth foi-se afazendo ao novo estado, lia

o _Flos Sanctorum_ em casa para alardear de instruido, limava as

unhas e andava gordo. Na feira de Evora, trocou a mula por uma egua

castanha, comprou arreios vistosos e estribos de ferro. Ia todas

as manhãs dizer missa ao convento e ouvir a velha de confissão. Á

medida que ascendia no espirito da fidalga, tratava de complicar os

regulamentos da devoção, difficultando a entrada no reino dos céos e

pintando Deus como um rabula exigente, que embirra com as comidas dos

seus fieis, e com as palavras e vestidos das mulheres. Segundo elle

tudo era peccado; Deus vigiava das nuvens a humanidade; a vida era

simplesmente a ante-camara do grande reino da luz, onde cada mortal mal

tinha tempo para se lavar das pustulas malignas originadas da carne, e

transmittidas de Adão. E recommendava á velha as asperas penitencias

que alquebram, horas e horas de joelhos ante os altares, desfiando

rosarios bentos e lendo com voz lamentosa as biographias dos martyres e

doutores da Igreja.

Este regimen alterou a saude da velha, e ligou-a pelo terror cada vez

mais ao padre.

--Só me sinto bem, ouvindo aquelle santo! dizia ella com um escarro na

guela.--E com inflexão de grande medo:

--Oh não me desampare com os seus conselhos, não me desampare com os

seus conselhos!

De quando em quando, Manoel do Cabo interrogava padre Nazareth:

--Então o homem chora ou não chora?

--Mais tarde. Vossê entende.

--Pois até hoje, meu rico, nem lagrima.

--Com agua quente, é que é. Vossê entende.

--Só se fôr isso. A fria não dá resultado.

Depois, com ares profundos:

--Que as lagrimas são mornas. Sendo suor, já era outra cousa. Ha

suores frios! Andava mais alegre, recebera tres mezes de ordenado e

um presente de pecegos, dos melhores. E ao entrar na villa, sobre o

_Ginaia_, cantarolava brejeiramente lançando chufas ás lavadeiras--suas

maganas, com quem tinham dormido a noite passada? Que lavassem as

pernas, grandessissimas porcas!

As noites eram abrazadas e eternas. Não bolia folha na horta, os moços

do campo dormiam ao relento sobre as mantas, e tendo por travesseiro as

albardas dos jumentos. Nos aposentos da fidalga sómente, as janellas

permaneciam fechadas, não apanhasse sua excellencia alguma constipação.

As casas de cima, de baixos tectos abobadados e sobrados carunchentos,

antigas cellas de frades modificadas para residencia profana,

constituiam verdadeiras estufas no verão.

Nos corredores circulava um bafo morno, impregnado de bafio, alfazema

velha e incenso--o que recrudescia de um modo terrivel a asthma da

beata. Toda a noite a governante levava a abanal-a com ventarolas

do tamanho de sombrinhas e a enrolar-lhe em papeis de sêda, enormes

cigarros de figueira do inferno, ao som de interminaveis rezas e

custosas promessas ao Senhor dos Passos. Porque era agora cega a fé da

velhona, na _sacrosanta imagem do Redemptor_. Contára-lhe o padre a

historia do convento, sua antiguidade e virtudes. Em tempos antigos,

os frades vendiam uma especie de licôr, que curava da peste e punha

saradas as ulceras mais damninhas. Rezavam as chronicas do convento de

um almirante _do mar das Indias_, da casa dos senhores da Vidigueira,

que voltando de longinquos paizes coberto de um vergonhoso mal, se

curára de prompto tomando o benefico elixir. E junto ao tanque de

pedra tinha apparecido ao veneravel padre frei Vicente das Sagradas

Angustias, ancião que rasgava suas carnes a golpes de azorrague--a

figura de Jesus Christo, feito homem e cheio do Espirito Santo,

vertendo sacratissimo sangue de suas feridas, coroado de espinhos e

clamando:

--Faze penitencia, Vicente, faze penitencia que serás commigo no reino

dos céos...

Ainda agora se mostrava na terceira lagea do tanque, ao pé do cypreste,

o vestigio da pégada do Salvador do Mundo.

A velha derretia-se em prantos ouvindo taes prodigios, batia nos peitos

cheia de uma convicção fanatica, e bradando em guinchos de possessa:

--Oh misericordioso Jesú que eu não sou digna! Oh misericordioso

Jesú que eu não sou digna!--em quanto pelos escondrijos a governante

manducava sofregamente, aos ladrilhos, covilhetes e covilhetes de

marmelada. O episodio do choro de sangue deu como nenhum outro,

insomnias e deliquios á pobre mulher.

--Ha coisas, aventurou ella de olhos baixos, quando certa manhã ouviu

narrar o milagre, ha coisas que só vistas.

Padre Nazareth não deu resposta, mas á tarde trouxe nos alforges a

_Chronica dos Capuchos_, com um signal na passagem lida pelo sacristão.

--Eu não duvidei, senhor padre, dizia a velha. Ora Deus nos perdôe!

Assim minh’alma se salve, em como em...

E no dia seguinte, a titulo de remissão dos seus peccados, entregou

quatro libras a padre Nazareth, para esmolas e missas. Em setembro os

males da velha aggravaram-se mais, os ataques d’asthma repetiam-se,

a tosse era profunda e entrecortada de pieira estridulosa, que lhe

resfolegava nas cavernas dos pulmões. Uma noite vieram chamar o padre á

villa a toda a pressa. A velha estava a peor, lançára cóleras, fallava

em confessar-se...

Padre Nazareth mandou acordar o sacristão e disse-lhe:

--Venha commigo.

Cavalgaram as alimarias caminho do convento, e ao verem branquejar

á lua as paredes da cêrca, pelos claros da folhagem, o confessor da

senhora fidalga disse ao seu acolytho estas cinco palavras:

--Agua-quente para esta noite.

* * * * *

Era um ataque dos maiores, com silvos e espasmos prolongados. No quarto

abafava-se, na exhalação da mostarda e do stramonio.

Em saia branca e chinelos, a governante fazia cigarros e preparava

banhos.

E ante cada retabulo de santa ou asceta ardiam velas e lamparinas.

Padre Nazareth conhecia um pouco a molestia; tivera uma irmã que

soffrera d’ella longos annos. O seu primeiro cuidado foi mandar abrir

as janellas, para restabelecer a corrente d’ar. A velha jazia n’uma

poltrona ao pé da cama, o escarrador ao lado, tronco um pouco inclinado

para a frente, o hausto arquejante.

--Então como se acha a nossa doente? perguntou carinhosamente o padre,

curvando-se para ella.

A velha mal podia fallar, e fez um gesto vago.

--Ouça, disse o padre á governante, deite-lhe sinapismos no peito e nas

costas.

--Já lá os tem, disse a outra, fazendo-se doutora.

--Bem. Um vomitorio então. Agua morna aos copos; façam-lhe depois

cocegas com uma penna, nas campainhas.

E em voz alta, para que a fidalga ouvisse:

--Mandaram accender a lampada do Senhor dos Passos?

--Ha que tempos! tornou a governante.

A esse tempo aquecia Manoel do Cabo à cafeteirinha d’agua na cozinha,

disfarçadamente. E quando a viu ferver em cachões, desceu á igreja,

pela escada do côro. Havia um silencio lugubre, trevas densissimas

no santuario e piar de corujas nas ventanas da torre. Junto d’uma

fresta gradeada, á esquerda, abrindo para a horta, a folhagem de um

chorão gigantesco fazia marulhos confusos, de maré que sobe. Fóra,

nos platanos da ribeira, os rouxinoes conspiravam, e resteas de lua,

brancas e vagas, entravam pelas janellas do côro, pondo luzernas no

lagedo das sepulturas razas.

Contos(#70819) · 第 14 / 19 段