toda a sua dimensão. A parede do fundo, pintada de judeus colossaes
ornados de chifres e dentes de javali que os maraus arreganhavam por
modo insolito, ensombrava-se de manchas limosas fazendo claros na
quadrilha de algozes do nazareno.
--Eh malditos do diabo! fazia a Escholastica esgrimindo figas sobre a
cafila, em quanto gravemente o sacrista dava reviravoltas á cabeçorra
do idolo, a vêr se a desaparafusava do tronco. E quando viu a filha
descer para renovar a agua das lavagens, Manoel do Cabo destroncando a
cabeça santa, poz-se-lhe a estudar cuidadosamente a anatomia. Terminava
ella n’uma especie de parafuso tubular, tapado por uma rolha. Manoel do
Cabo puxou a rolha para si e deu com uma concavidade que se escavava na
cabeça, fazendo n’ella como um escondrijo.
--Cá está a marosca! resmungou, torcendo a venta de um modo pujante.
Deitou agua no bojo e vascolejou. A agua tingiu-se de vermelho.
--Percebo! disse elle. Não precisa mais. Tornou a metter a rolha no
tubo de parafuso, lavou a fronte do santo, e cuidadosamente restituiu
a cabeça cheia de agua ao seu lugar. Alcançára de velhas devotas uma
tunica de paninho rôxo, e com esmolas fizera concertar a enorme cruz
de pinho que de longos annos cahia a um canto, alliviando o semita
do seu peso infamante. Quando a Escholastica voltou, já o Senhor dos
Passos estava vestido e paramentado de novo, cruz ás costas, a disforme
cabeça livida pendente sobre os seios, cabelleira esguedelhada nos
hombros e o resplendor por cima, como se fôra uma mão fatidica impondo
condemnações. Com ramos de cypreste juncaram o chão da capella. Através
das ramarias esbugalhavam-se os olhos dos phariseus, com um ar de
troça que incendia as iras da Escholastica, vindo porém a achar echo
no coração do sacrista. Emfim, a mulher do hortelão trouxe flôres e
verduras, que foram postas em symetria no altar, dentro de canecas
de barro e bilhas vermelhas, de Extremoz. Accendeu-se a lampada da
capella, e diante da gente da horta que viera recolhidamente vêr os
preparos da igreja, a Escholastica leu em voz alta no seu livro de
missa, a ladainha--que era muito bom para ganhar indulgencias.
Ao cahir da noite os preparativos de recepção da senhora fidalga
estavam feitos; a residencia esfregada e as louças brilhando nos
grandes armarios do refeitorio; enormes camas de pau santo cobertas
de colchas de damascos crespos, rescendendo á alfazema das gavetas e
ao linho de Guimarães; paineis de santas risonhas com mantos côr de
laranja e maxillas de carnivoro; os tamboretes em linha mostrando a
pregaria luzente; e um velho sophá de medalhões de coiro ao fundo da
sala, de cujas paredes pendiam em molduras castanhas, lithographias
representando a vida de Dona Ignez. Na horta o mesmo aspecto cuidado e
festivo--moitas de hortensia á entrada, ruas de loureiros e chorões,
caracoleiros e heras vestindo os muros, os tanques limpos, aparada
a relva do laranjal, dhalias escarlates resahindo dos tufos verdes
da contramina, aboboras e melões de guarda em linha no telhado do
chiqueiro, espantalhos novos pelas figueiras...
--Tudo que nem um brinco! dizia a Escholastica á visinhança,
descrevendo as canceiras que tivera.
Á noitinha appareceu padre Nazareth, chapéo para a nuca, todo encalmado
de subir as escadas do balcão. Vinha mal do estomago, cheio de
seccuras, a face macilenta, ventre alto, os intestinos trovejando.
--É dos pimentos, dizia, é dos pimentos de conserva.
Tinha levado o dia mettido em casa, em mangas de camisa e chinelos, com
calma. Fizera suão; com as queimadas os ares andavam turvos e as bestas
sem força para o trabalho.
Demais um desavergonhado de Selmes recusava-se a pagar a meia moeda que
lhe pedira ahi pela esborralha. Corja de ladrões!
Manoel do Cabo philosophou então:
--Que hoje em dia, o mundo ia cada vez peor. Todos cuidando de
atafulhar o bandulho, e o diabo que levasse o nosso amigo e compadre.
Deleitava-se intimamente o sacrista, em sabendo que alguem caloteava
padre Nazareth, um fona incapaz de deitar osso a um cão.
O padre passeava d’uma banda para outra mãos atraz das costas, um
livôr bilioso na pelle. E disse sem levantar a cabeça:
--Sabe que a velha chega ámanhã?
--Assim ouvi dizer.
--Fez aquillo?
--Todo o santo dia andei mal-a rapariga a tirar estrume da igreja.
Aquillo não é dizermos que estava porca, senhores, mas tenho já visto
malhadas de cabras mais limpas. Têas d’aranha então, capazes de cobrir
o mar. Em fim, ao menos aceada, ficou. Tudo varrido, muita flôr nos
altares, azeite nas alampadas, tunica nova no Senhor dos Passos. É
imagem p’ra metter um bocado de respeito. Sempre lhe digo que Padre
Eterno era homem tamanho da torre de Beja, se tinha parecenças com o
senhor seu filho. Alentado, palavra.
--Mais respeito com essas coisas, senhor Manoel do Cabo, mais respeito
com essas coisas, advertiu padre Nazareth que tinha lobrigado a
Escholastica entre portas, á escuta.
E com um formidavel arroto abriu a velha homilia sobre o temor de Deus
e os mysterios da Trindade--Padre, Filho e Espirito Santo.
--Malditos pimentos, dizia, malditos pimentos! Deus era o espirito
creador, dotado de todas as virtudes e omnipotencias. Era o
infinitamente bom, o infinitamente grande e o infinitamente piedoso.
Para impôr-se á limitada comprehensão humana, fizera-se homem em seu
filho, que padeceu e morreu...
--Tudo para nos remir e salvar! ajudou de dentro a Escholastica, que
sabia as prosas do _Novo Catecismo de Doutrina_.
--É tal e qual, fez padre Nazareth. E vendo a rapariga de braços
arregaçados pediu agua, para lh’os vêr de perto. Quando a Escholastica
se afastou para encher o copo, o padre voltando-se, disse em voz baixa:
--É preciso dar exemplos, homem!
--Pois que duvida que é, objectou o outro com recolhimento cynico,
puxando fogo ao cachimbo.
Os olhares dos dois encontraram-se luzindo com a mesma expressão de
patifaria.
Traduzindo então os pensamentos do padre, Manoel do Cabo ia dizendo a
meia voz:
--A fidalga chega á tardinha ao convento, com as criadas. Traz homens?
--Não traz.
--Melhor. Chega e janta. Depois visita a casa, os lagares, um bocado
da cerca. E salta na igreja, já sol posto. Escuridão no altar-mór, nas
capellas lateraes, lampadas accesas, um socego de morte... Faz a sua
oração ao Senhor dos Passos, hein? E um de nós então, repara que...
Padre Nazareth tossiu, para abafar as palavras que ia a vomitar o
sacrista. E Manoel do Cabo desatou a rir. Com um geito brusco o padre
estendeu-lhe a mão.
--Até ámanhã. Vou-me deitar, que me estou a sentir peor.
Desceu as escadas do balcão, em quanto de pé no portal o sacrista
ficava olhando com o seu risinho de marau intelligente.
* * * * *
Ao entardecer do outro dia, a caleça entrou com grande estrepito na
portada da cerca. De chapéo na mão, os moços da lavoura, o hortelão,
padre Nazareth mais o sacrista, adiantaram-se para comprimentar a velha
dama recem-chegada. Esta desceu amparada ao braço do padre, e sem
baixar a cabeça a ninguem. Era quasi octogenaria e devia ter sido alta.
E toda corcovada, com um vestido de velludo preto e um capote debruado
de pelles, subiu a escada que levava ao andar de cima.
--Isto aqui é triste, pois não é, senhor padre?
--Não, minha rica senhora, não é. Em campo é do melhor que tenho visto.
Muita verdura, boas aguas, rica vista, emfim um regalo de propriedade.
E depois, a visinhança da casa do Senhor...
--Sim, sim, disse a fidalga. E com inflexão piedosa:
--É o que mais me consola.
A mesa estava posta. Pelas janellas abertas do refeitorio, via-se
morrer a tarde e esmaecerem nas cristas as ultimas tintas ineffaveis
do dia. Ao lado, as noras chiavam fazendo descer e subir sobre a
agua das nascentes, a trança dos alcatruzes de barro. Sob cupulas
verdes de nogueiras, amoreiras brancas e platanos, a agua jorrava nos
tanques quadrados; os moços da horta faziam a rega do laranjal, leiras
de pimento e carrapatos; no extenso pomar os pecegos, as maçãs e as
romeiras rubras picavam a verdura de pontos vividos, de um tom sadio.
O ar crystallisava n’uma serenidade contemplativa e corriam brizas
impregnadas do cheiro dos fenos.
A senhora fidalga tinha-se sentado á mesa, mais a governante e padre
Nazareth, que a instancias consentira tomar um caldo.
--E tem rendas, a igreja?
--Não, minha rica senhora, não tem. Os fóros de trigo apenas dão para
as despezas do culto; e inda por cima mal pagos... Os paramentos
são uma miseria e o templo faz-se ruinas. Uma desgraça, minha rica
senhora! Desejando estavamos todos que vossa excellencia chegasse.
Temente a Deus e boa christã como é, a senhora fidalga póde bem acudir
com esmolas á pobreza dos santos e ao desmantelamento da igreja.
Podia-se até fazer uma festa, a modos um arraial, todos os annos.
Sempre concorria povo com fogaças e promessas. Mas eram precisos
certos arranjos que traziam despeza. Ora não havendo fundos... vossa
excellencia entende.
--Far-se-ha o que fôr da vontade de Deus, disse a velha abrindo o seu
grande leque da China, preto, com lentejoulas e passaros exoticos.
Tinha tirado o chapéo, bandós postiços desciam aos lados da marrafa,
tapando-lhe as orelhas. Um pente de tartaruga posto ao alto dava-lhe
á cabeça um ar ridiculo. A testa abaúlada e saliente, punha como um
_abat-jour_ nos seus olhos profundos, mortiços no fundo das orbitas.
Recordava-se pouco do convento, da disposição dos altares e do numero
de imagens. Se havia throno?
--Um pequenino e dourado, todo velho.
--E santos, senhor padre, e santinhos?
--Isso muitos, minha rica senhora, muitos. Santa Rita, logo á entrada;
S. Bento, á esquerda; a Senhora do Rosario...
--Minha madrinha... fez notar a governante, dona papuda, de bigode.
Padre Nazareth comprimentou, e foi continuando a enumerar:
--O Senhor dos Passos, imagem de muita virtude e milagres; Santa
Isabel, rainha...
A velha espirrou, e todos correram a fechar as janellas, temendo
constipações. Veio a pêllo fallar-se de doenças produzidas por simples
golpes de ar. Na opinião da governante, toda a enfermidade nascia d’uma
constipação. Quando tivera o anthraz...
--Vossa excellencia é que me dizem de saude muito delicada, disse o
padre para a fidalga, offerecendo-lhe um pecego descascado.
Ella contou então os seus achaques, consultára tudo, a homœopathia,
a allopathia, os seus directores espirituaes--que, juntou, sendo
os medicos do espirito podem tambem ser os medicos do corpo, como
emissarios de Deus--que são.
--Muito bem, disse unctuosamente padre Nazareth, muitissimo bem.
--Mas poucos allivios, infelizmente. Tinha feito a peregrinação a
Lourdes no verão passado, por conselho do padre Grainha. Muito bonito
tudo, as aguas de muita virtude, a Senhora rodeada de offrendas dos
romeiros, e algumas ricas... Citava os presentes da princeza Amelia
de Brandemburgo, tocheiras de oiro maciço, corôas de rubis, calices
esmaltados e custodias gothicas--tudo valendo milhões, não faz idéa.
Em certos dias da semana, Nossa Senhora apparecia aos enfermos na
gruta, puxando-se um cordelinho... Mesmo assim passava mais alliviada
de verão; mas pouco! Tinham-lhe aconselhado a estação no convento, e
viera. Ai! Que Deus lhe perdoasse tão grande offensa--mas tinha pouca
fé. A idade era já grande obstaculo a uma cura completa.
--Todavia, acudiu servilmente a governante, sendo da vontade do
Senhor... Ella bem lhe pedia!
--E todos do coração imploramos, disse com austeridade o padre,
enchendo o calix de Porto.--E levantando-se dava boas esperanças,
dizendo a sua grande fé nos ares, nas aguas, que as havia ferreas,
muito perto. Sempre era outra coisa, a vida no campo, outros habitos,
muito socego...
--Assim, concluiu elle com um sorriso, passando o guardanapo pela
bocca oleosa dos molhos, permitta v. exc.ª que eu beba antecipadamente
a um proximo e jucundo restabelecimento.
--Muito agradecida, senhor padre, muito agradecida e que Deus o oiça,
dizia a velha, molhando os beiços nos dois dedos _lacrima Christi_,
que a governante lhe lançára no cópo. E mostrou desejos de conhecer
as terras proximas--a aldêa, como ella dizia. Se havia fé, gente de
certa ordem, fortunas... Padre Nazareth dava pormenores. Nos campos a
fé não abundava já, como no tempo dos frades. Tudo se ia infeccionando
da lepra das cidades, não havendo barbeirola que não lêsse os jornaes
e não prégasse heresias por essas vendas. Jogo, má vontade ao trabalho
além d’isso. Não compareciam á confissão, não iam á missa...--E fazendo
um gesto beato:
--Pervertidos, dizia, pervertidos!
Nas mulheres mesmo assim, não era tanto. O coração da mulher é mais
entranhavel á religião e á fé. De resto, nas escólas não ensinavam
orações. Conhecia rapazes que nem o Padre-Nosso diziam de cór.
--Santo nome de Jesus! clamava a governante, com um fervor intenso nos
olhos--vinho do Porto e devoção. A senhora fidalga lembrou predicas aos
domingos, depois da missa, sabbatinas de doutrina para os rapazes, com
um fato novo por mez ao que melhor soubesse as rezas.
Punha as mãos engelhadas como implorando clemencia, e de olhos em alvo
ia resmungando:
--Não sei onde isto ha-de chegar, meu Deus, não sei onde isto ha-de
chegar!
A governante attribuia as seccas, as guerras, as fomes e as epidemias,
ao estado impiedoso das almas. Que isto de não commungar era medonho...
Diz que appareciam as alminhas negras, com chavelhos, aos berros.
--Credo, mulher, que até faz arripiar! increpava a fidalgona, fazendo a
cruz nos seios chuchados.
E ergueu-se, tomando o braço do padre Nazareth.
--Dê-se ao incommodo de me mostrar a cerca, senhor padre. Vagarosamente
desceram a escadaria de pedra toda coberta de caracoleiros e heras, que
vinha abrir em leque ao alto de uma rua de loureiros e eloendros.
Manoel do Cabo albardava o _Ginaia_, depois de jantar brutalmente na
cozinha, mais o hortelão. Quando o padre passou rente, o sacrista
perguntou-lhe:
--Então?
--Dentro de um mez está pago em dia, tornou o outro, e foi andando.
* * * * *
A velha sympathisára de vez com o padre Nazareth, achando-lhe a
compostura grave e a palavra christã. Sómente lhe via um defeito--era
talvez um pouco camponio, mãos grossas e sem anneis, uma rugosidade de
pelle que dava contactos irritantes.
--Emfim, dizia a governante, na falta de outro...
Padre Nazareth, por seu turno, andava regalado e contente. Vinha
almoçar e jantar todos os dias, grandes cuidados com as camisas, e
barbeava-se a miudo. Nos primeiros dias tivera contrariedades. Aos
seus instinctos de agricultor brutal repugnavam as branduras da
catechese, os mellifluos conselhos ditos entre citações de Santo
Agostinho, João Chrysostomo, Carlos Borromeu e Basilio, authores por
que, valha a verdade, passára a correr, havia bons annos, no seminario.
Afizera-se desde que residia na villa, a uma vida de episodios rudes,
vindimas, ceifas e agiotagem systematica. O seu genio violento dava-lhe
intermittencias de cólera biliosa, durante as quaes rogava pragas
e dizia obscenidades. Sabia o valor do dinheiro, e conforme usava
dizer--poucos o enganavam. Adorava o dôce. Em pandegas de amigos porém,
gozava fama de gracioso e sabia beber. Como prégador era fallado nas
terras proximas--boa voz, fazendo chorar na _Paixão_, gesto dramatico e
uma emphase pouco seguida em geral nos pulpitos da provincia.
Chico Praça, poeta da villa e o que mandava correspondencias ao
_Bejense_, costumava dizer na loja do Burjaca, aos proprietarios que
alli iam palestrar, ás noites:
--Para côro o padre José Pereira, mas no pulpito o Nazareth.
E todos:
--É pena que se não dedique!
Eram succulentos e escolhidos os almoços e jantares da senhora fidalga,
vinhos de feição, boas loiças, um ar de festa, natas e doçarias
de Lisboa. Padre Nazareth gostava, e vinha dizer para a loja, aos
proprietarios:
--Bella pastelaria hoje!...
Ou então, arrotando com pompa:
--Diabo! Pois fizeram-me mal as perdizes trufadas. Aquellas basofias
excitaram ciumes na terra; muitos diziam com um riso perfido:
--O mariola achou ama a seu gosto!
E alguns cuspindo:
--Ora o estupor!...
Pouco a pouco, padre Nazareth foi-se afazendo ao novo estado, lia
o _Flos Sanctorum_ em casa para alardear de instruido, limava as
unhas e andava gordo. Na feira de Evora, trocou a mula por uma egua
castanha, comprou arreios vistosos e estribos de ferro. Ia todas
as manhãs dizer missa ao convento e ouvir a velha de confissão. Á
medida que ascendia no espirito da fidalga, tratava de complicar os
regulamentos da devoção, difficultando a entrada no reino dos céos e
pintando Deus como um rabula exigente, que embirra com as comidas dos
seus fieis, e com as palavras e vestidos das mulheres. Segundo elle
tudo era peccado; Deus vigiava das nuvens a humanidade; a vida era
simplesmente a ante-camara do grande reino da luz, onde cada mortal mal
tinha tempo para se lavar das pustulas malignas originadas da carne, e
transmittidas de Adão. E recommendava á velha as asperas penitencias
que alquebram, horas e horas de joelhos ante os altares, desfiando
rosarios bentos e lendo com voz lamentosa as biographias dos martyres e
doutores da Igreja.
Este regimen alterou a saude da velha, e ligou-a pelo terror cada vez
mais ao padre.
--Só me sinto bem, ouvindo aquelle santo! dizia ella com um escarro na
guela.--E com inflexão de grande medo:
--Oh não me desampare com os seus conselhos, não me desampare com os
seus conselhos!
De quando em quando, Manoel do Cabo interrogava padre Nazareth:
--Então o homem chora ou não chora?
--Mais tarde. Vossê entende.
--Pois até hoje, meu rico, nem lagrima.
--Com agua quente, é que é. Vossê entende.
--Só se fôr isso. A fria não dá resultado.
Depois, com ares profundos:
--Que as lagrimas são mornas. Sendo suor, já era outra cousa. Ha
suores frios! Andava mais alegre, recebera tres mezes de ordenado e
um presente de pecegos, dos melhores. E ao entrar na villa, sobre o
_Ginaia_, cantarolava brejeiramente lançando chufas ás lavadeiras--suas
maganas, com quem tinham dormido a noite passada? Que lavassem as
pernas, grandessissimas porcas!
As noites eram abrazadas e eternas. Não bolia folha na horta, os moços
do campo dormiam ao relento sobre as mantas, e tendo por travesseiro as
albardas dos jumentos. Nos aposentos da fidalga sómente, as janellas
permaneciam fechadas, não apanhasse sua excellencia alguma constipação.
As casas de cima, de baixos tectos abobadados e sobrados carunchentos,
antigas cellas de frades modificadas para residencia profana,
constituiam verdadeiras estufas no verão.
Nos corredores circulava um bafo morno, impregnado de bafio, alfazema
velha e incenso--o que recrudescia de um modo terrivel a asthma da
beata. Toda a noite a governante levava a abanal-a com ventarolas
do tamanho de sombrinhas e a enrolar-lhe em papeis de sêda, enormes
cigarros de figueira do inferno, ao som de interminaveis rezas e
custosas promessas ao Senhor dos Passos. Porque era agora cega a fé da
velhona, na _sacrosanta imagem do Redemptor_. Contára-lhe o padre a
historia do convento, sua antiguidade e virtudes. Em tempos antigos,
os frades vendiam uma especie de licôr, que curava da peste e punha
saradas as ulceras mais damninhas. Rezavam as chronicas do convento de
um almirante _do mar das Indias_, da casa dos senhores da Vidigueira,
que voltando de longinquos paizes coberto de um vergonhoso mal, se
curára de prompto tomando o benefico elixir. E junto ao tanque de
pedra tinha apparecido ao veneravel padre frei Vicente das Sagradas
Angustias, ancião que rasgava suas carnes a golpes de azorrague--a
figura de Jesus Christo, feito homem e cheio do Espirito Santo,
vertendo sacratissimo sangue de suas feridas, coroado de espinhos e
clamando:
--Faze penitencia, Vicente, faze penitencia que serás commigo no reino
dos céos...
Ainda agora se mostrava na terceira lagea do tanque, ao pé do cypreste,
o vestigio da pégada do Salvador do Mundo.
A velha derretia-se em prantos ouvindo taes prodigios, batia nos peitos
cheia de uma convicção fanatica, e bradando em guinchos de possessa:
--Oh misericordioso Jesú que eu não sou digna! Oh misericordioso
Jesú que eu não sou digna!--em quanto pelos escondrijos a governante
manducava sofregamente, aos ladrilhos, covilhetes e covilhetes de
marmelada. O episodio do choro de sangue deu como nenhum outro,
insomnias e deliquios á pobre mulher.
--Ha coisas, aventurou ella de olhos baixos, quando certa manhã ouviu
narrar o milagre, ha coisas que só vistas.
Padre Nazareth não deu resposta, mas á tarde trouxe nos alforges a
_Chronica dos Capuchos_, com um signal na passagem lida pelo sacristão.
--Eu não duvidei, senhor padre, dizia a velha. Ora Deus nos perdôe!
Assim minh’alma se salve, em como em...
E no dia seguinte, a titulo de remissão dos seus peccados, entregou
quatro libras a padre Nazareth, para esmolas e missas. Em setembro os
males da velha aggravaram-se mais, os ataques d’asthma repetiam-se,
a tosse era profunda e entrecortada de pieira estridulosa, que lhe
resfolegava nas cavernas dos pulmões. Uma noite vieram chamar o padre á
villa a toda a pressa. A velha estava a peor, lançára cóleras, fallava
em confessar-se...
Padre Nazareth mandou acordar o sacristão e disse-lhe:
--Venha commigo.
Cavalgaram as alimarias caminho do convento, e ao verem branquejar
á lua as paredes da cêrca, pelos claros da folhagem, o confessor da
senhora fidalga disse ao seu acolytho estas cinco palavras:
--Agua-quente para esta noite.
* * * * *
Era um ataque dos maiores, com silvos e espasmos prolongados. No quarto
abafava-se, na exhalação da mostarda e do stramonio.
Em saia branca e chinelos, a governante fazia cigarros e preparava
banhos.
E ante cada retabulo de santa ou asceta ardiam velas e lamparinas.
Padre Nazareth conhecia um pouco a molestia; tivera uma irmã que
soffrera d’ella longos annos. O seu primeiro cuidado foi mandar abrir
as janellas, para restabelecer a corrente d’ar. A velha jazia n’uma
poltrona ao pé da cama, o escarrador ao lado, tronco um pouco inclinado
para a frente, o hausto arquejante.
--Então como se acha a nossa doente? perguntou carinhosamente o padre,
curvando-se para ella.
A velha mal podia fallar, e fez um gesto vago.
--Ouça, disse o padre á governante, deite-lhe sinapismos no peito e nas
costas.
--Já lá os tem, disse a outra, fazendo-se doutora.
--Bem. Um vomitorio então. Agua morna aos copos; façam-lhe depois
cocegas com uma penna, nas campainhas.
E em voz alta, para que a fidalga ouvisse:
--Mandaram accender a lampada do Senhor dos Passos?
--Ha que tempos! tornou a governante.
A esse tempo aquecia Manoel do Cabo à cafeteirinha d’agua na cozinha,
disfarçadamente. E quando a viu ferver em cachões, desceu á igreja,
pela escada do côro. Havia um silencio lugubre, trevas densissimas
no santuario e piar de corujas nas ventanas da torre. Junto d’uma
fresta gradeada, á esquerda, abrindo para a horta, a folhagem de um
chorão gigantesco fazia marulhos confusos, de maré que sobe. Fóra,
nos platanos da ribeira, os rouxinoes conspiravam, e resteas de lua,
brancas e vagas, entravam pelas janellas do côro, pondo luzernas no
lagedo das sepulturas razas.