serpente dos retabulos da Virgem, um sorriso divino de bacchante nos
labios emmurchecidos. Morrera.
* * * * *
Uma palavra de confidencia. Não procurem na sociedade a _contessina_:
seria ridiculo! O amor moderno, despido dos atavios romanticos e
das consagrações immoraes, tornou-se fóra da familia, o que é na
sciencia e referido ás outras especies animaes: a excitação fatal,
regida por leis physiologicas, que attrahe e liga, dois sêres da mesma
constructura organica e da mesma conformação anatomica, posto que de
sexo differente. O mesmo que para os cães, que para os elephantes, que
para os peixes, que para as aves, que para os insectos: instincto,
exacerbado na raça humana talvez, pela depuração do systema nervoso.
Degradante porém n’este caso, por improductivo. Actualmente ha só
duas mulheres: a da familia, a mãi, a esposa, a filha; e a da viella.
Esta ultima, comprehende-se, se chega a amar um funambulo, ama-o
caninamente, pela sensação que lhe arranca. Se o funambulo morre,
esse amor despertado, não transforma nunca a _cocotte_ n’uma artista,
qualquer que seja o seu grau de educação, de gosto e de talento.
Se quizerem vêr passar por instantes a _contessina_, tal como a
sonhamos, vão a um _atelier_ onde trabalhe um pintor de genio, e onde
se curve um esculptor sobre a pedra ou sobre o tronco, ou observem um
poeta que febrilmente escreve os alexandrinos do seu poema. Em qualquer
dos tres, poeta, pintor ou esculptor, pousou o beijo da _contessina_.
Não é uma mulher, meus caros, mas o sopro abrazado que passa e se
extingue, depois de haver creado tambem, o seu _funambulo de marmore_.
Chama-se a _Inspiração_. Devemos-lhe o machado de silex e o desenho
rudimentar gravado em certas cavernas sepulchraes; viveu já na cidade
lacustre, onde fazia collares de dentes de carnivoros para ornar o
peito dos vencedores; passados seculos, ergueu a _Acropole_ grega, o
Pantheon e os circos, fez o Colliseu e a Capella Sixtina; tudo quanto é
grande alevantou-o ella, amou os artistas da Renascença, os architectos
piedosos da meia idade, levou ás fogueiras os apostatas, guiou Luthero,
descalço e faminto, através da Allemanha, impoz Savonarola na Italia,
e Christo obedecera-lhe muito tempo antes. Na sciencia, da mesma fórma
que na religião e na arte, tudo lhe pertence e tudo lhe obedece; foi
amante de Archimedes, de Newton, Laplace, Tyndal, Cuvier e Owen, e
sempre a mesma frescura de tez e a mesma suavidade de fórma, a mesma
scintillação no olhar e o mesmo braço immortal e correcto, que rasga no
incognito um sulco palpitante e magnifico.
1877.
[Illustração]
O MILAGRE DO CONVENTO
Ficava o convento a meio das vinhas, n’uma larga planicie florente e
verde, em que as oliveiras punham a tristeza biblica das suas comas
cinzentas, como de zinco oxydado.
A léste corria o enorme espinhaço da cordilheira, alteroso e pavido,
cuja nudez aggresiva de linhas se coloria de manchas plumbeas e
vermelhentas, de que os penedos destacavam selvaticos, lembrando ruinas
de monumentos celtas. N’um campo de visão esplendoroso e infinito,
alargava-se para o sul o horisonte azulado na massa d’ar, semi-circulos
de planicies que mais e mais se iam perdendo no esfumado das exhalações
longinquas.
Do campanario da igreja, o olhar que se alongasse, transpunha d’aquella
banda livremente, a fronteira de Hespanha, no seu vôo silencioso de
andorinha inquieta.
Em torno ao velho casarão, a ruina dos muros da cerca, uma alta cruz
truncada, e dois ou tres arcos d’um antigo aqueducto de abastecimento,
assignalavam a expulsão violenta dos pobres capuchos, primeiros
senhores da casa até ás luctas da ultima guerra civil. O edificio e a
cerca, vendidos a um fidalgarrão da Vidigueira, derruiam vagarosamente,
á mingoa de reparos. O fidalgo arrendára tudo, abandonando a provincia
onde só voltava de anno a anno para vender herdades ou hypothecar
pastagens e azinhaes. Na cerca, os amplos tanques de pedra estavam
desconjuntados e seccos, cobertos de cicutas viridentes; a canalisação
atulhava-se de raizes e moitões de lôdo das ultimas enxurradas; cahira
o aqueducto; e á bôcca lobrega das cisternas, as figueiras bravas
irrompiam alongando os troncos brancos, em que rebrilhava o verde de
largas folhas de recortes duros, como antigas faiences de Coblentz.
Debaixo das nogueiras, cujo aroma rescendia morno a cada respiração
da aragem, torciam-se as heras nos bancos de granito, estendendo
tentaculos no seu deboche de vegetação verde-bronze, e subindo como um
desejo, pelas fibras das arvores colossaes. Uma estatua de apostolo
martyr cahira de encontro a um castanheiro enorme, cujas palmas
faziam cupula sobre essa cabeça vergada, de granito. Ao longo da
ribeira, os platanos e as faias postavam-se como avançadas, n’um surdo
murmurio intimo de seiva. E para além o laranjal espesso, vergado até
abaixo, alargava-se embalsamando o ar, onde as pombas fugiam no azul
pallido, como almas, que purificadas penetram os hombraes serenos da
bemaventurança. O convento, de paredes cinzentas, telhados cobertos
de herva e janellinhas de cellas, desamparadas como orbitas sem olho,
pesava na paizagem viva, com um ar de mendigo que esmola, á beira
dos caminhos. Acima da grande massa oblonga de muros, fortalecidos a
gigantes de cantaria, as duas torres sem cupula, encimadas de pequenos
obeliscos de alvenaria musguenta, de cujas cristas o furacão cuspira os
cataventos, erguiam-se tristemente, com um desenho tosco e primitivo.
Nos claustros, o feitor da propriedade estabelecera tulhas do lagar
de azeite, cobrindo de taipa uma das faces do quadrado de arcarias,
rasgadas sobre o pateo central--onde os limoeiros vinham espalmar toda
uma tapeçaria de folhas curvas e espinhosos troncos, salpicada pelo
oiro baço dos fructos, ovalares e rescendentes. Uma legião de passaros
vivia n’esse pateo, na ebriedade festiva dos aromas; ao centro o poço
de pedra, de relevos brutos, especava no ar a roldana negra que tinha,
ao anoitecer, um perfil de forca viuva. No tempo dos frades, as festas
cheias de rumores do velho orgão, de incensos e flôres, chamavam dos
arredores as aldêas e farta colheita de esmolas. Agora a devoção
por essa velha igreja em ruinas, de altares carunchentos e abobada
fendida, esmorecia lentamente. Fallavam de _medos_ errantes pelos
claustros, soluços pelas escadas de pedra, e vozes que vinham gargalhar
blasphemias á bocca do poço quadrado do pateo. Apparecera mãi uma filha
do eremitão. E os santos, toscamente esculpidos e miseraveis nos seus
farrapos de tunicas, não inspiravam respeito. O Senhor dos Passos, com
uma enorme cabeça de marfim, estava alliviado a um canto, do peso da
cruz, que o sacrista bebedo partira uma noite, depois da procissão.
Andavam aos pontapés pelo craneiro, amolgadas e sujas, as lampadas de
latão, verdentas de azevre; os castiçaes coxeavam cobertos de cera
pingada e moscas mortas. E por um buraco do côro, alta noite, piando
escarninhamente, as corujas entravam para os ninhos da capella-mór,
famintas do azeite das lamparinas. Duas vezes por semana, domingos e
quintas, Manoel do Cabo sacrista mais o padre Miguel de Deus sahiam da
aldêa, para celebrarem missa no convento, a que só assistiam o eremitão
e a filha, os moços da horta mais o feitor, gente sombria com o ar
estupido dos ignorantes maus.
Uma noite, padre Miguel de Deus appareceu morto na cama e ficou vago
o lugar de capellão do convento. Só depois de instancias repetidas
é que padre Nazareth aceitou o cargo. E torcendo o focinho bilioso
de egoista, dizia para Manoel do Cabo, uma quinta-feira, apontando a
igreja:
--Isto não deixa nada, mas com reformas...
* * * * *
Manoel do Cabo que era lido em autos, historias de Carlos Magno e
princezas Magalonas, não deixou sem commentarios a sentença do snr.
padre Nazareth--_um finorio_, como se dizia na loja do Burjaca.
_Mas com reformas_... meditava elle á lareira, em quanto a filha
Escholastica, junto da candêa fazia renda, pensando em ganhões de
braços robustos. Que diabo de reformas seriam? A igreja não tinha
rendas, nem alfaias, nem concerto sequer. A miseria ia, esfrangalhada e
immunda, das toalhas dos altares aos doceis desbotados da capella-mór.
Começava a estalar a carnação dos martyres; nosso padre mestre S.
Domingos perdera pouco a pouco as orelhas; havia um S. Luiz carunchoso
em cujo ventre os ratos faziam residencia segura, por todo o anno. E
fallar o padre Nazareth em reformas!...
Chegou o verão d’aquelle anno, tempo das romarias.
Cada domingo era consagrado a sua ermida--á Senhora de Guadelupe, a
Santo Antonio, a Santa Clara, a S. Pedro das Cabeças, a S. Thiago,
á Senhora das Reliquias... E as aldêas vestidas de galas, raparigas
de chales escarlates e tranças postiças, cavadores de calças curtas,
enormes pés e grosseiros chapéos de borla nas nucas, velhos e crianças
nos seus burros, nos seus machitos e nos seus carros de mato, iam
em chusma depois do jantar e meio dia batido nos sinos da parochia,
estrada fóra, através as searas maduras, e das vinhas verdes opulentas
de cachos, trepando collinas e chapadas de olival, em direitura ás
igrejinhas brancas, abertas com um encanto de fé ingénua nas alturas, e
em contemplação perpetua de horisontes sem termo. Cada uma d’aquellas
imagens de bemaventurados, toscamente esculpidas e de uma pintura
barbara, possuia para a raça crente dos campos, a especialidade de um
prodigio, um ramo de milagre original.
Santo Antonio, por exemplo, de tres palmos de alto e o rostinho garoto
de um alumno desinquieto, adorado n’um cerro enorme de montado, e
visinho de um moleiro borrachão, protegia os namoros. Era o mais
querido dos arredores. Nas tardes bonitas de primavera o nos domingos
abafadiços de verão, a gente moça vinha bailar-lhe e cantar-lhe no
adro, com um desejo de nupcias traduzido em clarões de olhar. Uma a
uma, as raparigas iam cozer-lhe no manto surrateiramente, pequenos
bilhetes escaldando de fé e de peccado tambem, em que se supplicava a
intervenção da bemdita imagem no bom exito de uns amores que qualquer
dia rebentavam em escandalo grosso--não tinha duvida nenhuma!
S. Pedro abria as portas do céo, e o seu cortejo compunha-se de
velhas beatas supersticiosas e antigas fandangueiras alegres, cuja
fé lhes chegára com rugas e cabellos brancos, após annos e annos de
rasgada pandega. E todos esses solitarios, invocados a proposito de
sêccas insistentes, colheitas ruinosas, implacaveis invernos, doenças,
sezões, maus olhados, bruxedos e raios, gozavam no verão da sua festa,
com musica e fogo de vistas, sermão, tourada e procissões garridas á
roda da igreja, ou as mais das vezes até ao povoado e ao som d’uma
foguetaria atroadora. Os santos do convento, nada! _Mas com reformas_,
dizia padre Nazareth. Qual reformas, nem qual diabo! acabava Manoel do
Cabo por acrescentar.
Um dia, descendo da torre onde fôra descobrir um rico ninho de pombos
bravos, reparou n’um cubiculo do côro, a um canto, n’uns alfarrabios
esquecidos, poentos e rendilhados pelas arganassas. Curioso como era,
nunca para tal olhára. Agarrou n’um dos cartapacios e veio para baixo.
Torceu primeiro o gasnete aos borrachos do ninho e á pomba mãi que
surprehendera.
Que rica fritada não faria a Escholastica d’aquella _gentinha_ toda,
hein? Um almoço de rei! dizia Manoel do Cabo, sacudindo a poeira do
livro com as fraldas de uma cruz partida a um canto, e n’outro tempo
alçada á frente da communidade dos capuchos, pelos campos fóra, em dias
de festa.
Abriu a grossa capa de pergaminho e leu: _Chronica dos Capuchos_, em
largas letras vermelhas.
--Escuso de lêr, ponderava o desdenhoso Manoel do Cabo; amigos de
raparigas, de vinho e rapozeiras ao sol, de pansa para o ar. Medo aos
tiros, latim por qualquer coisa, e uma _cantarolação_ do inferno nas
missas. Malta! Conheci o guardião:--que grandessissimo bebedo!
Como entardecia, fechou a porta da igreja, metteu o livro no alforge
mais as alvas sujas de padre Nazareth, e montado no _Ginaia_,
jumentinho podre e pelludo, desceu para a villa. Era pelas eiras;
a perder de vista, de ambos os lados da estrada, alongavam-se
sinuosamente pelas collinas, as courellas ceifadas, cujos torrões,
seccos dos calores tropicaes, esboroavam ao menor attrito. Os rebanhos
percorriam, de banda a banda, os largos trechos de campo, fazendo um
concerto de chocalhos e uma floresta de chifres.
No horisonte formidavel, murchavam dôcemente as ultimas efflorescencias
da luz. De todos os lados as arvores, com os seus braços de cyclopes
negros, pareciam curvar-se n’uma saudação benevola, que os melros,
os melharucos, os papa-figos, as calhandras e os verdelhões repetiam
ampliando, vocalisando, n’um côro estrondoso, sonoro, harmonico e
incomparavel. As vinhas forravam de espessos tapizes a terra calcinada,
de que se erguiam as figueiras de largas folhas e troncos brancos,
n’um espreguiçamento de sésta. Desenhavam-se para o longe em curvas
francas, os pendores das serranias agras, afogados na exhalação serena
da tarde; de todas as veredas sahiam para as eiras récuas de possantes
machos carregados de espigas, e pelas clareiras estalava em notas vivas
o rumor das cantigas imaginosas. Manoel do Cabo ia dando boas tardes,
aos ranchos de ceifeiras que encontrava. Á entrada da villa, encontrou
padre Nazareth chupando um cigarro, em quanto no calçadouro da eira os
moços retraçavam as espigas, a malho. E á noite, depois da cêa e acceso
o cachimbo, lembrou-se de folhear o alfarrabio, a passar um bocado de
tempo. Leu n’um cabeçalho de capitulo:
«_De como Jesú Nosso Senhor se mostra prodigiosamente aos seus humildes
servos capuchos, e da narração dos milagres succedidos no convento de
Santo Antonio de Villa Alva_».
--Pois sim, sim! disse Manoel do Cabo, com desdem. Mas leu sempre.
--«_E além dos muitos prodigios em que a misericordia divina se
patenteou aos nossos irmãos, sarando grande copia de leprosos, curando
enfermos e fazendo sahir o Inimigo do corpo de varias mulheres, a
supplica do nosso padre-mestre, fr. Antonio de Nossa Senhora, se relata
um assombroso milagre que deixou prostrados em fé quantos tiveram a
gloria de o presencear. Não poupa Deus os peccadores do mundo, nem
retira aos que se arrependem e conquistam a graça, suas mercês e
favores, que unicos são verdadeiros n’este viver de desenganos..._»
--Tá! tá! fazia Manoel do Cabo, como quem conhece o terreno que pisa.
Malandrice no caso!
--«_Em o anno de mil quinhentos e setenta, por uma noite de janeiro,
estando no convento de Santo Antonio de Villa Alva todos os nossos
irmãos recolhidos em suas cellas e entregues á guarda de Deus, pois
como disse o bemaventurado S. Francisco de Salles..._»
--Pr’ó diabo, mais elle! commentou Manoel do Cabo, voltando a folha sem
olhar a citação.
--«_Se ouviu grande grita na igreja e a modos rugidos de besta féra,
no meio de copiosos prantos. E despertada a communidade, se ouviu uma
voz que dizia:--Ide-vos, tentador! E todos se prostraram em oração,
para que Deus Nosso Senhor não desamparasse seus humildes servos em
tamanha agonia e perigo, a fim que suas almas podessem desfrutar a
bemaventurança, que gozam no seu reino tantos santos e patriarchas,
pois como disse..._»
--Esta cambada mettia tanto latinorio nos livros, como vinho no bucho.
Ora a sucia, senhores!...
--«_Mas o guardião fr. Antonio de Nossa Senhora, de virtuosa pratica
e varão inspirado do céo, veio a elles para que cobrassem animo, e
encaminhando-se todos para a igreja viram um grande cão preto, lançando
fogo pelos olhos e bocca, que fazia pavor, tão furibundo estava de vêr.
E no altar da milagrosa imagem do Senhor dos Passos, um leigo notou os
castiçaes derribados, o frontal desfeito e coberto de babas malignas.
E vindo todos, foi visto agarrado á cruz do Redemptor um noviço entrado
de pouco, por nome Seraphim, que prostrado em extasi dava graças a Deus
por se haver escapo das garras de Satanaz, que outro não era o tinhoso
cão negro, que fôra visto em fuga._
«_E todos em joelhos deram graças por tamanho prodigio. Aproximando
então uma lampada da veronica da sacratissima imagem do Senhor dos
Passos, notou fr. Antonio que esta chorava um choro de sangue de agonia
milagrosa. E erguendo a voz ordenou a todos os irmãos que alli estavam,
se prostrassem de novo, e fizessem por observar em tudo, quanto
recommendam os sabios doutores da Igreja, cultivando a fé e espalhando
a virtude quotidianamente..._»
--N’aquelle tempo chorava, ia dizendo velhacamente o sacristão. Hoje,
qual!... Partem-lhe a cruz e não abre bico; rasgam-lhe a tunica, e
moita! Como diabo fariam elles a choradeira?...
N’isto bateram, e entrou padre Nazareth. Deu logo com os olhos no
livro, e foi observar o trecho.
--Então vossê agora dá-se á leitura de coisas antigas, hein? Chronicas
de frades, etc...
--Hum! Pouco. Era p’ra chamar o somno.
Padre Nazareth poz o dedo no capitulo do milagre, e olhando de esguelha
o sacrista, disse vagarosamente:
--Quanto lhe devem a vossê do convento?
--Seis mezes certinhos--faz hoje. Nove mil reis! Se os apanho, nem
acredito! Chiam-me no papo.
--O mesmo cá por casa. Leu isto?
--Não tinha outra coisa...
--E que diz, que diz?
--Eu? e vossemecê, padre Nazareth?
Olharam-se. Manoel do Cabo ria com a sua finura podenga de camponio,
olhinhos de malicia precavida, um tamborilar de dedos na tampa da arca.
--Que grande milagre! fez com emphase untuosa o padre Nazareth.
--Que grandessissimo! juntou Manoel do Cabo, não se sabendo se fallava
do prodigio, se do capellão.
--Como já se não fazem hoje, echoou saudoso padre Nazareth
repotreando-se, com os bogalhos dos olhos nos seios da Escholastica,
toda entretida a esburgar ervilhas seccas.
--Pouca virtude hoje! disse o sacristão. Os tratantes são como agua de
pedra... E com profundeza convencida, dando uma risada bronca:
--Mas n’aquelle tempo eram maiores, vá com Deus!
--Hum! opinou padre Nazareth. Puzeram-se a fallar no enterro d’aquelle
dia, da velha D. Isaura, uma ricaça da terra. A Escholastica quiz saber
se tinham distribuido esmolas e de quanto.
--Tostão!
--Não se alargaram muito, a bem dizer.
--Vamos com Deus, não foram más. Quando foi do doutor Bentes, nem cheta
appareceu.
--Esse sim! Tomára a mulher mais p’r’ós amigos. E desdenhosa:--que
segundo me contaram...
--Não diga asneiras, sua tola, não diga asneiras clamou azedamente
Manoel do Cabo, que amava a discrição e a harmonia reciprocas.--Vossê
viu?
Deram nove horas, no relogio da torre. E o sino da camara correu,
segundo a velha usança.
Padre Nazareth levou o sacrista para a porta da rua e disse em voz
cautelosa, aproximando muito a cara da orelha do outro:
--E se o Senhor dos Passos chorasse ainda?
--Está lá p’ra isso! Nem á pancada, esteja certo.
--Homem, ás vezes...
--E então? fez Manoel do Cabo, á espera que elle dissesse tudo.
Padre Nazareth descreveu então n’uma linguagem arrastada e molle a
rodilhagem em que se via o convento e os objectos do culto.
--Vossê bem sabe, homem. Não ha frontaes, nem banquetas, nem toalhas,
nem alvas, nem vestimentas para os santos. É uma vergonha! accentuava
com força. Tudo que mette nojo! Aquellas galhetas, aquella patena, as
duas sobrepellizes, as alvas, tudo aquillo, senhores, tudo aquillo!
Além d’isso, não sei se vossê tem reparado. Uma invernia tesa, temos a
abobada em terra. Sabido! Vossê conhece-me. Sabe que cousa a meu cargo,
tem de andar limpinha, arrajadinha. Senão passe muito bem...
Ora se o Senhor dos Passos... vossê entende?
--Tinha hoje pensado n’isso mesmo, observou Manoel do Cabo, que medira
o alcance da patifaria proposta.
--Ah, tinha? Entendido! E n’uma expansão:--Assim muda tudo, vossê
entende. Quando correr que o Senhor dos Passos chora, não faltará cão
nem gato que não queira vêr; calcule as esmolas e prendas a seguir.
Vossê entende... São velas, azeite, tunicas, castiçaes, dinheiro,
legados por testamento, o arraialito todos os annos, missas aos centos
e gorgetas de estalo. Concerta-se a igreja, aceia-se, pinta-se,
caia-se, vossê entende. No verão, bailarosca na cerca, fogo de vistas,
gente assim...
E com os dedos em pinha, fazia movimentos de agglomeração opprimida.
--Sim senhor, sim senhor, resmungava Manoel do Cabo.
--Ahi pela quaresma, faz-se procissão até á villa, missa cantada, o
costume, sermão... E vossê verá, que se despovôam ahi as aldêas todas
para a romaria. Selmes não falta.
--Olha quem, Selmes! Aquillo são brutos como jumentos.
--A Vidigueira, a Cuba, Villa de Frades... Vossê entende.
--Essas não comem, parece me cá.
--Qual! Qual! O povo é crente, o povo tem muita religião ainda. Veja
vossê, quando levam a Senhora das Reliquias, pelas seccas, alli na
Vidigueira. Veja! É um choro, que nem que as moessem de pancadaria. Que
nome tem aquillo senão fé? E aprumando a estatura desgeitosa, de uma
obesidade glutona, invectivava:
--Sim, que nome tem? E não é tudo. Vossê verá, que as mais romarias
hão-de morrer por causa da nossa. Homem, sempre é um choro de Senhor
dos Passos. E depois, os sermões. O que se póde dizer da imagem--vossê
entende. E o dinheirão nas festas... Vendem-se estampas, bentinhos,
medidas--um chuveiro! Isso fica pr’ós alfinetes da Escholastica. E as
fogaças, e tudo!...
--É uma rica idéa. Mas se entram a fallar, se o vigario percebe...
--Ora, deixe! A elles tambem lhes faz conta. Em Beja fazem o mesmo, os
taes letrados.
--Bem. Eu cá, prompto! Póde chorar em querendo.
--E aproveita-se uma bella occasião agora. Vossê sabe que a mãi do
fidalgo vem passar um mez para a horta. Grande devota, segundo me
contaram. Em Lisboa, diz que leva a vida pelas igrejas a commungar, a
confessar-se, a encommendar reliquias e bentinhos. Excellente senhora,
e para mais, oitenta annos! Veja vossê...
--Está na conta.
--Como anda adoentada, vem a mudar d’ares. O sitio é bello, um ar _na
propia_, verdura... Faz-se o milagre: se melhora, corre logo uma fama
de seiscentos demonios.
--Não melhorando... tumba!
--É capaz de legar rendas para o culto. E vossê entende.
--Entendo. Em ambos os casos, lucro. E quando chega?
--Mesmo depois d’ámanhã.
--É preciso então mandar acear a igreja, que parece um chiqueiro, não
offendendo quem está.
--Claro que é preciso! Amanhã trata-se d’isso.
* * * * *
No dia seguinte ia grande faina no convento.
O hortelão varria do laranjal as folhas cahidas, os moços aparavam o
buxo das estreitas ruas do jardim, as mulheres caiavam os muros da
cêrca. Ao mesmo tempo, Manoel do Cabo mais a filha, empoleirados pelos
altares da igreja destruiam com os varejões enormes, que serviam pela
azeitona, as pontes suspensas e negras que alguns milhares de aranhas
haviam fabricado, em pelo menos vinte annos de secreção. Os santos
tinham sido apeados dos nichos e cuidadosamente lavados n’umas poucas
de aguas. A cada passo, a Escholastica passando o rodilhão molhado
pelas barbaças de um martyr, dizia compungida:
--O santo me perdôe, mas estava que mettia nojo!--E em cóleras de
christã fervorosa:
--Estas bilhardeiras da horta nem ao menos agua teem, p’ra lavar os
santinhos! Velhacas!...
--Oh rapariga!... dizia o sacristão reprehensivo. Foi impossivel
arrancar ao seu nicho, o Senhor dos Passos. Era uma imagem maciça e
tosca, talhada quasi a machado, a quem faltavam dois dedos. Tinha a
cabeça quadrada de um idolo pelasgico, marfim amarello salpicado de
feridas negras, cabelleira comida de traça e encimada de um resplendor
de lata, dentado e torto. A tunica cahia pedaços, n’uma miseria
mendiga, d’onde sahiam tornozêlos gigantescos e pés formidolosos.
--Mette respeito! dizia a Escholastica molhando o esfregão no alguidar.
Os cuidados de Manoel do Cabo convergiam especialmente sobre a capella
do Senhor, soturna e alta, com columnellos de talha e esculpturas
selvagens representando seraphins e emblemas da Paixão. Do fecho do
arco, cahia uma lampada de chumbo por tres cadêas de ferro; o pulpito
ficava defronte com balaustrada negra e azulejos no portal; e traçando
caminho de capella para capella, uma linha de sepulturas razas
arremendava de pedras alvacentas e tortuosos epitaphios, o ladrilho
esboroado do pavimento.