Nenhum tonico mais efficaz á saude do espirito que a saude do corpo.

Uma enformatura de athleta tem de ordinario um rouxinol por alma.

De fórma que eu sentia a bondade extravasar de mim como nos tempos

biblicos o oleo de naphta da urna da santa mulher, que ajoelhada ungia

os pés de Jesus. Os violentos exercicios em que o esforço muscular se

despende, a carreira, a gymnastica e a caça, faziam a minha paixão

dando-me o culto da minha propria fórma. Erguia verticalmente os dois

braços, tendo em cada mão sentado um dos meus irmãositos--cousa que

assombrava o Zé Rato e fazia contentes os garotos. Diante dos grandes

espectaculos em que a natureza expende a mãos plenas o jogo icaro

das suas forças harmonicas, a minha alma tinha fremitos d’azas como

as andorinhas que vão atravessar o oceano. A vacillação fatalista

do periodo lamartmiano fôra substituida por uma comprehensão logica

dos factos, por uma tranquillidade honrada á idéa do futuro e pelo

testemunho da mais sã consciencia. Entrei a fazer religião do trabalho,

o que me permittiu não pensar mais em Deus, tendo-o sempre no coração.

As mulheres eram concordes em que a minha belleza era superior á minha

amabilidade. Uma senhora achou-me uma noite a conversação de um lente.

E algumas diziam de mim:

--Pretencioso!--porque lhes não fallava das locaes amorosas e das

revistas de modas.

Comprehende-se que o meu enthusiasmo puritano por tudo quanto era

grande, não sobrasse para o espartilho das serigaitas que se me

agitavam no caminho.

Assim modificado, tinha agora o mais completo desprendimento pelo que

se chama gozar. Apagára-se-me o ideal pelintra de muito folhetinista

imberbe, que consiste em ser comprimentado á porta da Havaneza por tres

burguezes que passem, mostrar todos os invernos tres pares de calças

novas sobre dois de botas velhas, e um _plastron_ vistoso n’um seio

tuberculado.

A ostentação e a exterioridade enfastiavam-me como certos cheiros de

acidos vegetaes. Odiava em geral o ruido e o luxo, não achando digna de

um homem serio qualquer das languidas que nos passeios e nos theatros

via desfilarem, monotonas e sorvadas, por diante de mim. No seio dos

meus papeis ou na intimidade flagrante da natureza em festa, sentia-me

outro homem, respirando saudavelmente e digerindo ás mil maravilhas;

uma alegria penetrava-me com essa entoxicação anodina do gaz

hilariante, nos organismos nervosos, e eu crescia e revigorava sentindo

a vida como um beneficio sem preço. Foi durante esse tempo, o mais

laborioso, o mais infatigavel, o mais util e o melhor de toda a minha

vida, que pude realisar as collecções de insectos que hoje pertencem á

Escóla Polytechnica e me valeram os emboras dos grandes trabalhadores

da Europa, e estudar quasi completamente a flora continental que

Brotero deixára lacunosa. N’estes trabalhos depurára-se a minha

sensibilidade ao extremo de me commover perante uma bella arvore ou

ao cabo do estudo de qualquer complicado coleoptero. Um individuo

vegetal captivára o meu amor ardente, apaixonado e ingenuo. Era ainda

a oliveira que desde a infancia me offerecia a sua sombra benefica, a

sua ramaria frondente e a enorme corpolencia secular do seu tronco.

Que grandeza, a d’esse gigante que uma especie de bondade envolvia e

divinisava!...

* * * * *

Aos cincoenta annos tinha os cabellos brancos e a pelle rugosa.

Minha mulher, de compleição doentia dera-me filhos sem saude e de

sensibilidade estranha. Eram pequenos pallidos de grandes olhos

ardentes e mãos febris, frageis e curiosos, cujo futuro me fazia tremer.

Estava cançado e velho. Toda a vida sentira pelo dinheiro um desprezo

sem limites, não lhe dando a honra sequer de o accumular. Perdera a

vista do olho direito, aos trabalhos do microscopio. Era mais pobre que

no tempo de meu pai--tinha apenas de meu o olival. Para economisar,

dirigia eu mesmo os trabalhos do campo e andava vestido de saragoça. Ás

vezes, vinha-me o remorso de não ter alcançado uma fortuna para essas

pobres crianças, que a perpetua contemplação do mesmo panorama parecia

enlutar de melancolias negras e de presentimentos funestos. Pouco a

pouco, á medida que os annos me polvilhavam de neve os cabellos, ia

experimentando uma irritação surda pelo meu passado laborioso, mas

esteril d’essa cousa vil e preciosa chamada moeda. Não tinha senão

despezas; lucros, raros! Então reneguei da heroica abnegação de

outros tempos, tornando-me vulgar, macambuzio e cheio de admiração

pelos lavradores opulentos da visinhança, que recolhiam vinho ás

adegas e trigo aos celleiros. Os filhos d’elles espesinhariam talvez

um dia os meus filhos, vingando a imbecilidade dos paes da orgulhosa

superioridade com que eu os tratára. Os filhos d’elles seriam felizes,

cheios de confortos e prazeres, com a faculdade de estudarem onde bem

quizessem, e de fazerem fortuna como bem lhes parecesse. E os meus,

mal enroupados, doentios e invejosos--quem sabe!--se conhecendo um dia

a minha historia maldiriam a intransigencia do meu caracter e a pouca

solicitude com que lhes tratára dos interesses!

Os meus dias então eram levados em percorrer o olival, no calculo dos

litros de azeite que me renderia a colheita. Que desalento aquelle

meu! As arvores não carregavam todos os annos: enchia-as de pragas, e

maldizia a minha vida.

A oliveira secular sómente, comprehendendo a minha situação e

adivinhando a angustia d’aquelles passeios solitarios, procurava com

fructos abundantes compensar o modesto tributo que as outras arvores

tão custosamente me pagavam. Fôra para mim a eterna mãi affectuosa, de

cujos ramos pendera criança, a benevola confidente que cobrira do seu

docel de folhagens o meu amor por Martha, o esplendido e victorioso

vegetal diante de que o meu extasi de botanico tantas e tamanhas vezes

tinha exultado. O amor que eu lhe votára soffrera as quatro phases de

todos os amores da vida humana, em transigencia sempre com a orientação

do caracter e com o progredir dos annos. Fôra primeiro, o amor de

criança incoherente e doido; fôra mais tarde o amor de adolescente,

idealista e _reveur_, representativo da idade em que o homem desaggrega

da alma as crenças innocentes e começa a participar da influencia dos

primeiros instinctos masculos. Transfeito no amor de sabio elevára-me

até regiões altivolas.--Depois, no inverno da vida, aquella emoção

archangelica primeiro, impregnada de poesia radiosa depois, e tornada

sublime por fim, decahira no vil egoismo que mais prefere aquillo

que mais rende, impressão sem grandeza e sem ideal, derradeira

efflorescencia da alma obcecada pelos interesses, pelas amarguras e

pelas oppressões!

[Illustração]

O FUNAMBULO DE MARMORE

A contessina sentiu-se triste n’essa manhã, aborrecida da quietação

languida do seu _boudoir_, da falsa pompa de vegetação dos seus

salões-estufas, da vida contemplativa dos aquarios de crystal-rocha,

da atmosphera perfumada dos salões e das alcovas, onde o oxygenio

vivificante se corrompe, por entre a subtileza das exhalações de

_opoponax_ e _verveine_, contidas nos frascos bohemios, todos facetados

e scintillantes. Mandou pôr o coupé, um pequenino coupé estofado de

carmesim, grandes fivelões de madre-perola floreteados; escolheu um

vestido claro, de um estofo liso, grandes laços vermelho e branco,

apertado em longa _cuirasse_, com uma cauda aristocratica, que deixava

no ouvido um dôce _frou-frou_ inebriante.

E com um gorro de pennas, de fórma excentrica, uma tira de gaze a meio

rosto, atada na nuca, penteado simples, em que destacavam contra a

luz uns pequeninos anneis dos seus cabellos castanhos, sobre a fronte

de castidade sonhada, com uma camelia branca no seio, a _contessina_

saltou para o carro. Era sabbado, nos dias lucidos de maio. O cocheiro

teve ordem de seguir ao longo dos _boulevards_, atulhados de gente

activa que tumultuava nos passeios, nos armazens, nas casas de modas e

nos _ateliers_, vivamente, alegremente, raça de gigantes e de artistas

que ia fecundando as industrias com o poder da sua violenta actividade.

Na bolsa, á porta, junto do guarda-vento, viu o conde de M. que

argumentava com o judeu W. sobre questões de fundos. Mais adiante

comprimentou a joven C. que apartava n’um livreiro as ultimas

publicações de critica e de esthetica. Parou no _atelier_ de Carlo

Borgio, o pintor de quinze annos, que fizera ruido com um quadro

impressionista, repudiado pelo jury de uma exposição artistica em Roma.

Encontrou lá a fina flôr do mundo culto da cidade: o medico F. a quem

um trabalho sobre doenças cardiacas abrira as portas das mais celebres

academias europêas; Henrique de R. o folhetinista mais delicado da

Italia; Raymundo Conti o critico por excellencia que dictava a lei do

bom gosto, com um bom senso admiravel, e mil personagens celebres do

grande mundo illustrado e do grande mundo elegante.

O pintor tinha olheiras--a _contessina_ reparou n’isso--não apartára

o cabello ainda e o seu traje de manhã, cheio de negligencia, o seu

largo e branco collarinho decotado, deixavam adivinhar pela curva do

seu pescoço forte e levemente sanguineo, côr de rosa claro, um corpo

esculptural de athleta, vigoroso e saudavel, creado á larga no puro ar

balsamico dos campos, ante a vastidão contemplativa do mar. Não havia

no _atelier_ nenhum quadro novo. Apenas sobre o cavallete, um cartão

esboçado em traços. Carlo fumava cachimbo: a _contessina_ achou-o por

isso detestavel, e sahiu sem lhe haver sorrido como costumava. Sem ella

reparar, a camelia branca que levava esfolhou-se ao sahir, maculando

a alcatifa escura do _atelier_ com as petalas immaculadas, brancura

lactea, cheia de pequeninos veios caprichosos, como as ruas do mais

intrincado labyrintho.

Deixou-se cahir outra vez nos cochins do coupé, e mandou rodar para a

galeria Medicis, no extremo occidental da cidade.

Ia fatigada, nervosa e indisposta. Quanto vira lhe pareceu vulgar

e indigno da sua attenção. Mirou no espelho que ficava defronte,

atraz da tábua do cocheiro, a sua flexivel figura, magra e branca, o

seu rostinho fresco, o seu bello perfil raphaelesco, de uma finura,

de um contorno verdadeiramente singulares pela sua pureza, pelo

seu conjunto, a um tempo audaz e timido. Uma ruga imperceptivel

se avincava verticalmente na sua testa. E impacientou-se, achou

que estava feia, trigueira, mal vestida. Então inclinou a cabeça

para traz, sobre os cochins, deixou pender o corpo tambem, com um

abandono, uma _morbidezza_ tentadoras, estendeu-se quasi no coupé,

indolentemente, sem vontade, sem palpitação e sem coragem, com desejos

de se espreguiçar, de sonhar coisas extraordinarias e phantasticas, de

correr aventuras sobre o mar, n’um _cuter_ ligeiro pintado de branco,

com jovens marinheiros escocezes, loiros e athleticos, de uma candura

virginal, que cantassem as arias das montanhas, balladas suaves e

frias, onde a manhã rompe e os gallos cantam, e se ouve bater horas o

sino do castello em ruinas, ao descer da velha ponte levadiça, quando o

couraceiro phantasma recolhe de lança ensanguentada, no meio dos córos

das victimas.

E sob o dominio da sua aurea phantasia cerrou os olhos e começou a

viver n’aquelle devaneio que interiormente ia bosquejando. O coupé

parou emfim, desceu lesta no atrio de mosaico e penetrou nos salões

abertos á curiosidade dos amadores.

Sobre os cavalletes, sobre degraus e pelas paredes, patenteavam-se

os _capi-d’opera_ dos grandes mestres da Renascença, do Perugino,

de _senza error_, de _fra_ Angelico, de Sanzio, do Buonarroti, do

Ticiano, do Tintoreto, de Dominiquino, de Julio Romano, dos Carraches,

de Montagna, e todos os primores das escólas allemãs e flamengas:

scenas de interior, trechos de _ménage_ e cervejaria, as paizagens

realistas dos hollandezes, de céos humidos e flocos de nevoeiro,

onde o verde alcança todas as gradações vegetaes, e o sol como uma

braza mettida em oleo, se extingue vermelhamente, entre fumaradas que

passam. Roçagando a sua cauda elegante, a _contessina_ passava sem

parar diante d’essas soberbas telas, que resumiam todo o ideal de mais

d’uma raça, demarcando as tendencias e aspirações, um pouco modificadas

havia muito, na evolução social do ultimo seculo. A cada passo, lhe

sorriam dentro de molduras de pau-rosa, de prata, de sandalo, bronze

ou talha, uma _madona_ casta, com o _Bambino_ nos braços, um martyr

amarellecido e chagoso, uma Venus concupiscente e nua, um Christo

dolorosamente livido, atado ao madeiro da ignominia, um guerreiro sob

a armadura scintillante das grandes idades heroicas. E movendo o seu

leque de frias plumagens, todo constellado de scintillações preciosas,

com o binoculo d’ouro na pequenina mão calçada em _peau de Suède_, o

olhar distrahido passeando sobre os aspectos sem os distinguir nem os

fixar, a _contessina_ perdia-se entre os amadores officiosos, entre

os artistas obscuros de ambos os sexos, que tiravam copias, vestidos

nas suas tunicas talares de _atelier_, o olhar attento e perscrutador

cravado nos modêlos, com uma concentração nervosa e extatica. Não tinha

já admiração para queimar, como um perfume enervante, ante tamanhos

primores accumulados. Desde pequenina conhecia aquellas magnificas

pinturas, e escutára as exclamações de uma admiração mais ou menos

convicta, soltadas pelos entendidos ou pelos pedantes, ao longo dos

vastos salões esplendentes da galeria. Mas a verdade é que os modêlos

classicos, as sacras familias de colorido _eclatant_, sempre na mesma

_pose_ e compostas das mesmas figuras, as scenas biblicas repassadas

de unção convencional e mysticismo fradesco, não iam direitas, pela

sua _maneira_ e pela sua idéa symbolica, ao seu coração modernamente

educado de artista, á sua alma expansiva de meridional, tão cheia de

amor pela verdade e tão penetrada da seducção exquisita das pompas de

uma natureza luxuriante e escorrendo de côr, e dos caracteristicos,

habitos, e indoles pittorescas de uma raça vigorosa, cheia de culto,

de fórma e de ideal. A sua predilecção artistica era alguma coisa

como o aroma exhalado por quanto contemplára em viagens, estudára em

bibliothecas, e sentira em convivencia, aroma que rescendia em espiras

balsamicas e suavissimas, n’uma palpitação de borboleta irisada, n’um

hausto de liberdade sublime, extraordinaria e sonora. Comprehende-se

que o seu temperamento lhe exigisse uma arte que se pudesse admirar

sem profanação, e se pudesse amar sem remorso, que fallasse ás suas

exigencias e aos seus caprichos, sem incluir a recordação dos velhos

martyrios, apotheoses entre seraphins e nuvens, mysterios idiotas e

theologicos, em que se contrariam por principio de carolice, as leis

mais logicas e simples da sciencia, da creação e da especie.

E n’uma disposição rebelde, fatigada das saturações da côr, das

exuberancias systematicas de musculatura, das garridices da fórma, da

abundancia de pinturas, voltou para traz antes de chegar ao fim, entrou

no carro cheia de _spleen_ e abatimento, e mandou rodar para casa.

Atirou o chapéo mal entrou no _boudoir_; a camareira trouxe-lhe o

roupão de linho de Manchester com que costumava trabalhar; e envolta

no tecido de listas graves a fresca figura de uma pallidez serena, foi

tomar assento no seu _atelier_, diante da estatua de marmore branco,

que começava a sahir ainda indecisamente, da bruta massa de pedra,

ferida pelo seu sinzel phantasista de uma graça e de uma originalidade

captivantes.

* * * * *

Havia tempos que trabalhava n’essa obra, e com que amor!...

A vida das outras mulheres era-lhe irritante, apertada n’um pequeno

cinto de conveniencias e vulgaridades. Pouco conhecera da familia,

não sabia admirar o que nas mães se chama _uma missão heroica_, e nas

mulheres em geral, os _deveres proprios do sexo_. Tinha percorrido o

mundo sósinha. A quantos a amaram n’esse periodo, sorrira sempre. Á sua

natureza excentrica appareciam deformados em esgares ridiculos, os

galans modêlos. Fatigava-se depressa. Demais tinha um intuito finissimo

d’artista, altivo de mais para aceitar lugares communs. Mas havia na

sua vida este episodio--uma noite, n’um circo de Napoles, vira fazendo

equilibrios n’um globo, um rapaz vestido de meia, agil e elegante.

Nunca pôde esquecer aquella figura que surgia pela primeira vez á sua

imaginação, como efflorescencia rara, sonhada entre incoherencias de

febre.

Procurou depois, mais perto, essa soberba organisação que fizera na sua

sensibilidade como um lampejo instantaneo, a fascinação sombria e fatal

do _jettatore_. Pouco a pouco, a sua mente apoderou-se d’aquella imagem

fascinante, correcta como não vira outra, juvenil como não sonhára

igual. Todas as noites ia ao circo vêr trabalhar o equilibrista:

dominava-a a soberba attitude do funambulo, livre, impetuosa e

colossal. N’ella sentia-se de facto, toda a opulencia d’uma seiva que

irrompe, em circulação vigorosa e regularissima; todos aquelles fortes

membros elasticos, flexiveis e aptos aos movimentos mais contrastantes,

se sentiam palpitar de saude, de vida e de belleza, rhythmo sonoro,

cheio de presteza e propriedade.

E aquella appetitosa figura de adolescente trigueiro, os olhos

esmaltados de uma serenidade de deus, plastica irreprehensivel e firme,

apoderaram-se da _contessina_, com um impeto, uma violencia que tocavam

os paroxismos da loucura.

Começou então uma existencia nocturna, roubada de alegrias, cheia de

sobresaltos, terrores e prazeres. Zampa, o funambulo, levava os dias

cahido entre garrafas de _cognac_, e fumaças de charuto. Além d’isso,

tinha gordos pedidos de dinheiro, teimosias de parasita e surdas raivas

de vadio. Era exigente como um _facchino_ e brutal como um barqueiro:

a devassidão exasperada que busca viver fóra do tedio adquirido por

longos dias de desordem, e mediante phantasias realisadas á custa de

grandes despezas. Ella adorava-o; ás vezes tinha medo.

Sentia-lhe as mãos grosseiras, callejadas do trapezio, a voz rouca, o

halito alcoolisado, um cheiro a charuto que se mettia pelas mucosas

dentro. Gostava porém de o agarrar pela cintura, de lhe pender do

pescoço nu com todo o peso do corpo, de se entregar com um grande

soluço dilacerante, vergada para traz, cabellos soltos e a tunica

rasgada de alto a baixo, com a folha d’um punhal. E era com uma delicia

inexplicavel, aguda e cheia de fremitos, que lhe tirava a capa, quando

Zampa chegava do circo, ainda com os fatos da arena, couraçado na sua

belleza superior e intangivel.

O espectaculo de um corpo fortemente creado, embriagava-a de uma

aspiração criminosa e de uma animalidade fatal: queria-o! Algumas

vezes Zampa não vinha, e as horas da noite deslisavam para a pobre

leviana em supplicios atrozes e vacillações eternas. Então sahia a

procural-o, só, envolta n’uma d’essas mantas de côres vivas, que

Livourno produz, um punhal no cinto e pallida como uma esperança

pisada á beira d’um esquecimento. Já podia entrar nos lugares lobregos

onde tilinta o dinheiro dos vicios cobardes, para arrancal-o do jogo,

embriagado e vil, fallando uma aravia brutal. Os convivas faziam-lhe

_toasts_, cobriam-na de sarcasmos, prenhes de insolencia de bordel.

N’estas luctas supremas, parecia que a sua paixão se avigorava;

queria explicar a si mesma por que razão esse palhaço a dominava e a

prendia, fazendo d’ella uma escrava; reflectia então insurgir-se contra

semelhante envilecimento, readquirir a sua liberdade de outr’ora, a

sua franca alegria de criança: impossivel! Quando tratava de expulsar

de si o ebrio, com desprezo vehemente e indignação explosiva, como

se levantava diante d’ella a esplendida figura de archanjo que era

o seu desejo, o seu gozo, o seu deslumbramento e a sua perdição; e

era sempre o mesmo olhar placido que ella contemplava, a mesma carne

vigorosa, de uma tonalidade opulenta, a mesma linha soberba do perfil,

a mesma postura de academia, altiva e forte, como a de um gladiador que

triumpha, na arena onde espadana o sangue dos martyres e se espedaçam

corpos frementes de victimas obscuras e tragicas. Em outros dias, á

força de supplicas, Zampa ficava: era uma festa. Sahiam de carruagem

para o campo, lá passavam a tarde no meio da poderosa efflorescencia

dos arbustos, no silencio das _villas_ brancas, em torno de que

se alastravam vinhedos, sob os nogaes de um verde quente ou entre

perfumes acres de pinheiros que gemem o seu cantico desolado. Jantavam

sobre a relva, como bons lavradores: elle não bebia então. Tudo em

roda estalava de risos metallicos, finamente timbrados; era bom viver

assim. N’aquella affinidade de sensações tranquillas, a alma d’elle

parecia irradiar uma delicadeza poetica. A _contessina_ descobria-lhe

predilecções de paizagem, observações sentidas, fortes destaques de

inspiração, uma docilidade de caracter, mesmo. E era feliz, esquecida

das angustias de outras horas, com a mente povoada de sonhos de ouro.

Se fosse assim sempre! Se fugissem para um paiz remoto, o Oriente,

n’um mosteiro em ruinas!... E figurava minaretes tartaros, as grandes

tulipas das cupulas, rendas frageis dos porticos arabes, o céo profundo

e calido, onde a miragem inverte os panoramas, palmeiras seculares,

erguidas entre casas quadradas como dados colossaes, albornós brancos,

barbas ponteagudas e tez parda--como nos desenhos de Bida. Ou n’uma

herdade perdida no seio dos Appeninos, longe do bulicio e á beira d’um

lago, n’um _chalet_ vermelho, entre arvores. E pelas madrugadas roseas

iriam tomar os leites perfumados de turinas brancas; os sinos das

ermidas tocariam o _Angelus_, no meio d’um côro de passaros; a natureza

seria de uma sonoridade crystallina, perlada de orvalhos frescos e

calices de jacinthos, côr de rosa.

O seu lyrismo abstrahia-se em idealidades azues, em grandes e

nebulosas viagens, em que destacava o grupo formado por Zampa e por

ella--um pelo braço do outro.

Um domingo, elle não voltou. No dia seguinte, encontraram-no apunhalado

na casa de jogo. Foi quando começou a estatua. Dentro de poucos mezes,

o marmore desbastado, realisava a creação mais lucida que se possa

sonhar. Era uma obra prima realmente, esculpida com verdade profunda

e inspiração fogosa. Sobre um plano inclinado, via-se um grande globo

polido, retido a meio caminho do declive. Sobre o globo, n’uma posição

agilissima e graciosa, o funambulo com os braços abertos, as pernas

quasi unidas, a face risonha, juvenil e um pouco ironica, procurava

conservar resolvido o seu problema de equilibrio pelo maior espaço

de tempo possivel: e toda aquella obra resaltava de vitalidade, de

arrojo, e de elegancia. Uma lufada de genio passára por alli. Quasi se

esperava vêr oscillar o globo, moverem-se os pés de Zampa, erguer-se

um pouco o travessão de balança que elle fazia com os braços para

deslocar imperceptivelmente o centro de gravidade a fim de o fazer

subir ou descer, andar ou desandar, dentro da base de sustentação, e

vir descendo, descendo conforme quizesse, pelo declive geometrico e

dôce do plano obliquo, sempre sobre o seu globo humilde e no meio das

ovações estrepitantes de alguns milhares de espectadores. Era Zampa

tornado estatua; as mesmas soberbas linhas, a mesma irreprehensivel

musculatura, a perna firme, retesada e direita, de uma elegancia

unica, os fortes encontros, a larga espádoa de heroe, de uma curva

severa, o braço sem grandes nós articulares, o pulso athletico e

ricamente modelado, um peito leonino em que subiam ondulações viris

de seios, a cabeça um primor de sinzel e um prodigio de distincção,

alta, cabellos revoltos, a audacia dominadora, olhando em face a turba

presupposta, com o ar superior de quem se faz admirar.

Era Zampa. Ninguem que o tivesse visto na arena podia desconhecel-o.

* * * * *

Ao acabar o trabalho, quando n’uma contemplação palpitante ergueu

os olhos sobre a sua obra, o sinzel cahiu-lhe das mãos e os soluços

estrangularam-lhe a voz.

Toda a sua alma estava alli, como talvez nos primitivos dias do mundo,

a alma do bom Deus, nos corpos dos primeiros homens creados. Nada fôra

omittido: era elle, bem o estava vendo, risonho e vivo como outr’ora,

os labios quentes de beijos e o olhar scintillante de raios. Bem o

estava vendo! Os dias que mediavam entre a morte e a resurreição

d’aquelle homem tinham-lhe centuplicado o amor, tornado candente o

desejo e calcinado as ultimas fibrilhas de receio. Era sua, era d’elle

para sempre. Passariam diante de todo o mundo, abstrahidos um no

outro, com o olhar errante nas estrellas.

E de rastos no xadrez do _atelier_, cabellos soltos em espiras

procellosas, o olhar faiscante de loucura, semi-nua, agonisante,

branca, cingia com os braços a sua obra immortal, tentando aquecer com

a lava dos seus beijos a gelida indifferença do funambulo de marmore.

Contos(#70819) · 第 12 / 19 段