que os seus collarinhos de serão eram cada vez mais largos, e que o
seu seio de um marmore fatal, em que destacaria bem o sangue d’uma
punhalada, arfava impetuoso, se proximo de mim. As minhas noites
entraram a ser riscadas com a phosphorescencia d’aquelle desejo, como
um profundo mar entenebrecido e sombrio. Os seus olhos fixos e humidos
de ancia, grandes como dois mundos, estavam sempre diante da minha
vista. E o peor não era isso.
Mas aquelle diabo do collarinho...
--Armando, disse ella, bem sabe como eu sou supersticiosa. Vai
acontecer desgraça por certo.
Olhe. Hontem, uma borboleta negra entrou-me no _boudoir_, em quanto
tomava o meu banho tepido. Tudo estava fechado, as cortinas e as
vidraças unidas, os stores pendentes. De modo que da rua, aquella fatal
mensageira não veio, com certeza. Digo-lh’o eu, Armando, vai succeder
desgraça. Não dormi esta noite, pensando horrores. O conde veio tão
tarde!...
E baixinho, só para eu ouvir:
--E sabe, trazia no fato um aroma que não era o dos seus _sachets_.
Eram os beijos de Fatime. Escusa de olhar para mim, Armando. Não tenho
ciumes nenhuns. Ainda ha poucas noites, na walsa do _Roberto_, eu
atirei flôres á bailarina. Porque é uma artista. E que belleza!
E lenta:
--Não tenho ciumes, não. Pobre conde! faz o que póde. Todos fazem o
mesmo. Fosse eu homem, t’o cantaria...
E feito um silencio curto, os olhos baixos:
--A minha vingança é outra!
E lentamente, deixando cahir as palavras:
--Pena--de--talião!--Apre!
Ouvia-se o tic-tic da pendula. Eu erguera-me agitado, a tremer, sem uma
palavra, sem uma idéa, sem uma resolução. Estavamos quasi ás escuras, e
mesmo assim, eu via o seu collarinho decotado e a scintillação caustica
dos brincos. Accendi sobre o fogão, duas serpentinas de bronze.
A condessinha immovel, de pé na sua pallidez fascinante, o penteado
desmanchado, tinha um sorriso vago; e vendo a impressão que as suas
palavras violentas me causavam, disse:
--Se o offendessem, Armando vingar-se-hia.
Eu ia protestar; ella juntou logo:
--Sou filha dos marquezes de Penha Longa; dez vezes mais orgulhosa por
isso, que qualquer outra.
--Orgulho fatal! exclamei eu.
--Quero a desforra! Estou cançada de humilhações.
Eu avancei e disse com força:
--Seria indigno!
Beatrice resentiu-se, os olhos encheram-se-lhe de grandes lagrimas
sublimes. Balbuciou:
--Armando!
Tornei asperamente:
--Seria cobarde!
E aproximando-me com voz curta, rapida e vibrante, como a d’um vingador
colerico:
--É loucura ou crime? Hein?
Cahiu aniquilada no _fauteil_, terrivelmente pallida, os labios
tremulos, dizendo imperceptivel:
--Oh Armando, Armando!... Fui amparal-a. Meu Deus! O peso do seu corpo
enlouquecia-me; eu amava-a, eu queria-a! Atirei-me chorando a seus pés.
Ah! que infame, que infame eu era!
* * * * *
O relogio deu meia noite. Áquella hora, o conde ceava com Fatime,
n’um gabinete côr de rosa, do _Restaurant Club_. Bebiam talvez o seu
champagne; o conde teria ditos de uma mordacidade equivoca; a judia
gargalhadas sonoramente soltas. Resoaria um beijo... Nós ambos, a
condessinha e eu, sentados no mesmo _fauteil_ ceavamos alguma coisa
excitante e bebiamos pelo mesmo copo, aos golinhos.
Beijos quentes, prolongados e devoradores, uniam os nossos labios
impuros. De sobre o fogão, o retrato de Carlos olhava sorrindo o grupo.
E um perfume mysterioso fluctuava.
Beatrice lembrou-se de repente:
--E o conde?
--Ora! Tenha juizo. Tambem, para que foi cear com Fatime? E
rindo:--compraste então os criados; peça bem pregada! Nada de dar
cavaco, percebes, nada de dar cavaco... Shut!
--Amo-te tanto, tanto! Aborreço o conde por tua causa. Quando elle
apresentou aqui os seus amigos, lembras-te? Trazias as tuas polainas de
caça, um _nickerbokar_ de Pool, n’uma bonita e fresca manhã. Iam caçar.
Eu fiquei á janella, em roupão, os cabellos despregados.
Bebia devagar, e ao cabo:
--Ah! Esta liberdade inebria-me, meu Deus; não póde ser um crime. Amar
um homem que se viu depois de casada!... E muito baixo, phrenetica:
--Os teus cabellos, a tua bocca tão fresca, a tua pelle tão fina!
Deixa-me morder, uma dentadinha pequena, para não fazer sangue.--Eu
deitava champagne.--Mas perturbas-me, convulsionas-me, Armando!
Um beijo: cala-te, cala-te, meu Deus! É preciso que me sintas:
quereria morrer comtigo, no mesmo instante, dormir no mesmo caixão,
n’um cemiterio de grandes arvores e sombras frescas. Endoudeço,
enlouqueces-me!
E com os seus brancos braços de esculptura, fortes, sinselados e
quentes, enlaçava-me o pescoço, um rubor febril na face, os olhos
afogados n’um languor amoravel. E dizia-me terna, ternissimamente,
como só as mulheres dizem na noite de nupcias:
--Tenho tanto peso na cabeça, Armando! Um somno tão grande!...
E toda ella vergava pesando sobre mim, a cabeça decahida no meu hombro.
--Vês como sou tão humilde, tão tua, nem eu sei... uma escrava.
Abandonava-se, suspirando. Os meus beijos desciam pouco a pouco pelo
seu pescoço, em direcção ao seu collo.
Repetia:
--Uma escrava!...
--Mas ha pouco, louquinha, dizias-me tu tão altiva: _Sou filha dos
marquezes de Penha Longa, dez vezes mais orgulhosa por isso, que
qualquer outra mulher._ E agora? Incoherente...
E torcia-lhe o labiosinho amuado, côr de rosa.
Ella bebia. E fazendo estalar a lingua:
--Ah! Não repares no que eu disse. Nós fallamos sempre em orgulho e
antepassados, quando não temos que dizer outra cousa. O papá era assim:
nós aprendemos.
--Oh condessa! disse eu espantado.
--Ora! De mais o sabes tu. Dá-me champagne!
--Olha. E um beijo, outro, outro...
O conde ceava com Fatime, provavelmente.
[Illustração]
QUATRO ÉPOCAS
(CONTADO POR UM MISANTHROPO)
Por detraz da nossa casa, passado o laranjal, ficavam as oliveiras,
manchando de pardo o terreno ondulante que uma herva espessa e florida
cobria. As primeiras sezões que tive, por um verão de ha quarenta
annos, agradeci-as aos calores insupportaveis a que durante uma semana
me expuz sem chapéo, sem véstia e sem sapatos. No campo, segundo o
costume patriarchal da gente pobre, mal o sino da igreja dá meio dia, o
pai senta-se á mesa, defronte da mulher, os filhos á roda, e janta-se.
Findo o jantar, a familia levanta-se conservando o seu lugar e cada
qual põe as mãos. O pai e a mãi rezam em voz baixa, emquanto os filhos
recitam alto a oração de graças pelo alimento d’aquelle dia. «_Muitas
graças e louvores sejam dadas ao meu Senhor Jesus Christo, pelos muitos
bens e esmolas que me faz, tem feito e tem para fazer em quanto fôr
servido._
_Padre Nosso..._»
Depois, o chefe abençôa os pequenos e manda-os tratar da vida; os mais
velhos para o trabalho, os mais novos para a escóla. O mestre que tive
era um relapso sem emenda. Dia sim, dia não, gazeta sabida! Que jubilo
o meu quando, ao chegar com a pasta e a cantarinha d’agua, ouvia pelo
taboado da escóla o sapatear rebelde dos rapazes e as vozes bramirem
n’um côro estridente que dizia:
--Não ha escóla, não ha escóla!
Iamos em bandos depois, cantando praça abaixo, aos sôcos, aos empurrões
e aos berros.
Uma vida de bezerros circulava nas nossas arterias sadias; uns atiravam
com terra á cara dos outros, com pedras e com as pastas. Alguns dos
mais graciosos arremedavam o mestre, fazendo carantonhas de estoirar
de riso. Vários ainda, dos que moravam perto, iam jogar o botão,
arrancando sem piedade as marcas das ceroulas e das calças e os botões
das jaquetas e colletes. D’uma vez que appareci sem botões, minha mãi
deu-me açoites com tão aspero chinello que nunca mais tive vontade de
jogar. Aquella sova explica por ventura o asco que ainda hoje sinto
pelos jogos--tão abençoada foi ella!
Já n’aquellas idades, que uma alegria embebeda de exuberantes e puras
phantasias, armavamos panelinhas de tres, quatro e cinco, para a
brincadeira. Succedia ás vezes, que essas pequenas sociedades eram
surprehendidas pelo mestre em pagodes reaes. Levavam todos com a regoa
ou iam de joelhos todos, conforme.
A minha era composta, do Chico Rato cujo pai era feitor em nossa casa,
do Manel da Pomba, um loiro de olhos sinceros, mau como os demonios, e
do Zé Estrello, hoje pastor.
Em dias de feriado ou de gazio toca para o olival dançar nos baloiços,
fazer caça aos ninhos ou atirar pedrada velha aos telhados das adegas
fronteiras.
D’uma vez apanhámos um gato que todas as noites nos ia roubar as crias
dos coelhos. Atámos-lhe um baraço ao gasnete, pendurámol-o n’uma
oliveira e foi pedrada até que morreu. Eu chorava de pena.
--Oh minha lesma! dizia com desprezo o Manel da Pomba, descarregando ás
tres e ás quatro, sobre o pobre animal meio morto.
Mas o que mais nos divertia era o baloiço. Atavamos as arreatas das
mulas umas nas pontas das outras; Zé Estrello, que era o mais possante,
dava o laço na pernada solida de uma oliveira secular.
As pontas pendentes da corda eram atadas a uma cortiça rija, que servia
de assento.
E estava prompto--um! dois! tres!
Começava a frescata.
Durante os cinco ou seis annos que serviu aos nossos prazeres, a
velha arvore nem por um instante nos trahiu. A cortiça do baloiço era
occupada ás vezes por tres rapazes. Quebravam-se as cordas e vinhamos
ao chão; a arvore porém nem nos mettia susto, estalando. Boa e velha
amiga que parecia feliz deixando-nos pender dos seus ramos metallicos,
como esses cachos vivos de que fallam as historias maravilhosas!...
Uma noite, depois da cêa, estando todos ainda sentados á roda da
mesa, meu pai fazendo a voz solemne, disse-me que eu estava um homem
e precisava cuidar do futuro. Eu tinha uma forte admiração pelos
carpinteiros, n’aquelle tempo. A arte com que elles punham branca,
nova e polida uma velha tábua com que o meu canivete nada podia!... A
habilidade para tudo ajustar e o gosto com que arranjavam os carros com
que brincavamos, arrastando carretadas de trigo, pelas eiras--davam-me
um pasmo sem limites e um desejo serio de lhes seguir a profissão.
--Eu cá quero ser carpinteiro! disse eu todo grave.
Meu pai bateu na mesa, e o senhor prior que estava presente, riu da
minha ambição.
--Estás tolo, ou que diabo tens? disse meu pai de sobr’olho hirsuto,
olhando-me.
--Vaes mas é para o collegio, como os meninos do cirurgião, ajuntou o
prior com bondade.
Eu abri os olhos sem entender, ou tremendo de entender. Ir para o
collegio, n’uma terra distante onde ninguem me queria, deixar o Manel
da Pomba e o Zé Estrello, e a horta, a casa, o olival, o baloiço e a
arvore amiga e tolerante? Que? De cabeça baixa, minha mãi não dizia
nada. Puxei-lhe a sáia devagarinho, ferido de grande medo:
--Não quero ir, mãi, não quero ir!
Os olhos d’ella fecharam-se, e aos cantos das palpebras comprimidas,
lagrimas silenciosas cahiram, de uma saudade que ainda hoje me
entristece.
Tinha já nove annos e parti.
A lembrança que no collegio, á noite e após todo um dia de aulas, que a
dureza dos prefeitos me enlutava de amargos desalentos, me vinha mais
viva, mais inconsolavel e mais triste, era a da arvore velha do olival,
que sem queixa me aturára tanto!
Bons tempos da infancia purpureados de risos e cheios do casto aroma da
innocencia--que vos não verei mais!...
* * * * *
No collegio, á medida que os annos corriam e enraizava d’essas
leaes estimas que servem para toda a vida, as puerilidades da aldêa
apagavam-se-me pouco a pouco, como lampadas sem oleo em templos
desertos. Da segunda vez que vim a ferias vestido como um pequeno
senhor, de luvas e relogio, pareceram-me despreziveis as minhas velhas
affeições. Fui uma tarde á escóla de chapéo na cabeça e bengalinha de
junco. O mestre tratou-me por senhor e sentou-me a seu lado, córando
da superioridade desdenhosa que eu mostrava. Os rapazes ergueram-se
respeitosamente como se tivesse chegado o commissario dos estudos.
Aquella gentalha de sapatos cardados, véstias de saragoça e camisas de
pano crú fez-me nojo, e tive humilhação pensando que fôra assim tambem,
por tanto tempo. Lá estavam nos seus bancos de pinho o Zé Estrello, o
Manel da Pomba e o Rato, de cabello hirsuto, punhos sebentos e livros
amachucados, olhando-me com esses grandes olhos dôces que certos cães
d’agua fitam nos donos em os vendo a comer. Pouca gente entrára de
novo na escóla. De vez em quando, o mestre batia com a regoa na mesa e
gritava:
--Ólá do canto! Temos paulada não tarda um instante.
A casa immunda, cheia de cuspo e papeis rasgados, era de uma nudez
ignobil.
--Aqui não aprendem francez? perguntei eu com uma superioridade que os
meus dez valores na disciplina não justificavam muito.
E n’essa noite á cêa, em quanto meu pai olhava para mim n’um extasi e a
ternura de minha mãi orvalhava de lagrimas o casto lenço branco que se
lhe encruzava no seio, disse passando a mão pela testa e cabello, como
via ás vezes fazer aos de Mathematica, no collegio:
--Lá fui á escóla, fazer o meu bocado de troça.
Aos quatorze annos estava um homem, espigado e pallido, com as olheiras
symptomaticas da transição de idade. Era bonito e meigo, com mãos de
mulher que veios azues reticulavam, como em certos marmores sagrados.
As gengivas tinham-se-me descarnado um pouco, fazendo mais compridos os
dentes.
Ardia na aspiração intensa de usar cabello crescido e fatos de
casimira clara. O uniforme negro do collegio e o cabello á escovinha
da ordem, torturavam-me o orgulho de rapazinho elegante. O meu grande
desejo era ser externo, fumar e ir ao theatro. Um de Introducção já
crescido, cahira uma vez d’um cavallo e a queda fizera-o idolo da
rapaziada. Quem pudera tambem gozar de semelhante triumpho!--pensava
eu por vezes, sentindo um ciume ardente do heroe. Uma magica das
_Variedades_, onde fomos todos n’uma noite de carnaval, patenteou para
mim o amplo scenario de um mundo com que o meu temperamento nervoso já
sonhára confusamente. O de Introducção emprestára-me um binoculo, o
que me permittiu observar meudamente as decorações, os figurantes e os
camarotes. As bailarinas e os deuses vestidos de malha apertada, que
lhes desenhava todas as linhas dos corpos, fizeram mo palpitações de
arterias e seccuras de garganta. Havia um principe loiro de uma belleza
sem rival. Amei-o cá fora, annos depois, quando já perdera a frescura e
subira em preço--ai de mim! Era uma actrizita de dezesete annos, bocca
vermelha e fallas musicaes, vestida de rapaz. Nada mais gracioso que
os seus pequenos pés ligeiros que pulavam ondas, rochedos, abysmos e
perigos--tudo de lona, é claro. A sua cinta era fina e flexivel, e as
ondulações do seio scintillavam n’uma armadura de galão, ás escamas.
Essa noite foi uma febre para mim, impetuosa, allucinada e tremenda.
Que revolta, Santo Deus! Estendido no leito do dormitorio, onde seis ou
sete dos meus condiscipulos tranquillamente dormiam, eu experimentava
dentro de mim o quer que era de um desabamento. Faltava-me o ar e tudo
me andava á roda. Que miseravel aquella clausura regulada a sopa,
vacca, arroz e duas peras verdes! E dez horas de estudo, madrugadas
peniveis, reprehensões, oppressões e malquerenças!... Sim, para além
do collegio com a sua monotonia de claustro, as suas apostillas, as
quintas, os domingos de folga e a roupa lavada duas vezes por semana,
outra existencia auriflammante tumultuava em amores, em pompas, em
perigos, e doidas phantasias preconcebidas e logo realisadas. E aquelle
principe loiro, aquellas fadas azues, e as apparições que o magnesium
idealisava de uma fascinação irresistivel, viviam, cantavam, amavam
a seu bel-prazer assim vestidos, lançando á roda o cheiro da carne
viva e sadia que chama os famintos de deleites, e faz rolar as libras
dos perdularios. O candieiro apagou-se por noite velha. Ergui-me
cautelosamente, em camisa de dormir.
--Que anda ahi? perguntou com voz de porta-machado o Carvalho,
prefeito, que fôra de lanceiros.
Aquella voz enregelou-me, e tornei para traz como se por mim houvesse
passado a maldição de Israel. O de Introducção trouxe-me romances.
E a leitura fructificou no campo que a magica das _Variedades_ havia
irrigado. _A Filha do Parricida_--que esplendido!--Já léste? dizia eu
a toda a gente. _O Filho do Diabo_ fez-me sonhar. E os _Bastidores do
Mundo_, o _Doutor Negro_, e os _Mysterios de Londres_! Todo eu era
escadas de corda, alçapões, raptos, personagens mascarados e juramentos
solemnes.
No quintal ás vezes, reproduziamos as scenas terriveis que iamos lendo
ás escondidas. Fingindo irmos a cavallo, encontravamo’-nos n’um recanto
de rua.
--Quem sois? perguntava um.
--_A lua romperá_, respondia outro.
--_Deixai passar, irmãos_, fazia o primeiro, e cada qual seguia o seu
destino.
D’outras vezes ao chá, um de nós exclamava arremessando ao outro um
lenço:
--O senhor é um cobarde!
O insultado erguia o trapo, bramindo:
--Ah, que essa affronta só se póde apagar com sangue. Ámanhã no Bosque
de Bolonha, ás sete.
--Lá estarei, senhor!
E iamos dormir em seguida, com o maior socego.
Estes devaneios eram positivamente um estado pathologico. Estavamos
magros e pallidos, adoravamos as noites de luar e as inglezas de olhos
claros e tornozêlo masculo, que nos domingos de inverno viamos sahir
da missa dos Cyprestes, loiras e frescas, apanhando os vestidos. Um
piano, uma voz de mulher, qualquer namoro e o menor promenor da vida
das ruas, era para nós um thema de sentimentalidade. Suspiravamos
por cousas ethereas e por aventuras trovadorescas. Estudavamos pouco
e tomavamos oleo de bacalhau e ferro em pilulas. Aos quinze annos
acabei os preparatorios, e nas ferias grandes que se seguiram, meu
pai falleceu. Nas cidades, a morte do chefe da casa, chega a ser um
episodio sem consequencias mais altas que o luto da praxe e duas
missas rezadas--quando a familia não fica a morrer de fome. Muda-se
logo de casa por via de regra, os filhos alargam a esphera dos seus
habitos livres, e fazem acquisição dos vicios que não tinham. Em quatro
mezes, o fim de cada membro da casa destroncada é comer alegremente
as rendas que um trabalho agro por ventura accumulou, no espaço de
uma existencia de acerrima labuta. O campo porém, conservando muitas
das virtudes patriarchaes, dá a esta perda um caracter de fatalidade
sem conciliação. A viuva envelhece de lagrimas e estiola como uma
trepadeira queimada; um dos filhos se é homem, emprehende e continúa
a tarefa do pai, adquirindo nos habitos, no amor e no respeito da
familia o mesmo grau de fervor cego e de obediencia dedicada. Senta-se
á cabeceira da mesa nas refeições, dirige os trabalhos do campo,
recebendo as rendas, ordenando as colheitas e levantando-se mal o
buraco luza. Mas o seu governo é todo nominal. Quem alli impera, quem
a tudo preside, quem julga tudo e tudo ordena, é o velho, o marido, o
pai, o _outro_, querido phantasma evocado a toda a hora e a proposito
de tudo, cujo sudario até, vem estender-se de noite, n’uma alvura de
nebrina a encher de fecundante orvalho as vegetações que elle proprio
plantou. Quando meu pai fechou os olhos, eu estava bem pouco apto a
retomar o arado que a sua mão exhausta deixára cahir. Era franzino
e branco, de um temperamento irritavel á menor emoção, medroso,
phantasista e indolente, a quem as duras profissões repugnavam como
uma vileza, e a idéa da vulgaridade enchia de um terror supersticioso.
Minha mãi chorava a toda a hora com dois irmãositos ao collo. A casa
silenciosa parecia um tumulo profanado. Pobres como eramos, se um dia
não velassemos a horta e o olival, a miseria bater-nos-hia á porta. E
justamente quando eu ia entrar na Polytechnica!... Não sei como aquelle
tempo passou. Ha coisas que até em idéa são sinistras. Lembro-me que
perdi o anno e amei minha prima Martha, uma loira diaphana que viera
para nossa casa, da herdade em que nascera.
Esse amor que era dôce, sincero e casto, deu a nota mais alta na escala
romantica d’aquelle periodo da minha vida. Envergonho-me de o dizer,
mas lemos _Paulo e Virginia_, _Raphael_, e o _Atala_ em commum, ella
vestida de branco porque eu lh’o pedia, eu de cabellos crescidos e
grande lustro de pomada nas poupas.
Martha com a sua natureza contemplativa e triste, propendia áquelles
lances patheticos da minha imaginação de collegial. Era de uma
simplicidade dôce e de uma serena belleza, que os seus olhos azues
enchiam de esplendores religiosos. Em ella olhando para mim, eu
córava. Toda a minha ambição agora era fazer-me bonito e cidadão para
me impôr á sua ingenuidade. Que primavera a d’aquelle anno! Depois do
jantar iamos de braço dado através dos laranjaes em flôr, n’um tapete
de campainhas, fumarias e malmequeres, ao rumor das noras e sentindo
cahir a agua nos tanques da horta. Meus irmãos corriam adiante, com
chapéos de palha, fazendo chiar os seus carros de pinho. Nós devagar,
sentiamos no aroma nupcial das arvores o quer que era de benção que
vinha em golfadas, sobre nossas cabeças. E debaixo da velha oliveira
secular que já me protegera os brinquedos de garoto e cujas ramarias
artisticas, de tons cinzentos, abriam ao sol o seu toldo amigo, o nosso
amor efflorescia tranquillo como se de cima o olhasse, das folhas e dos
ramos, o bom Deus de bondade com que os pequeninos sonham a sorrir.
* * * * *
Aos vinte annos o meu espirito soffrera mais uma transformação. Creára
amor pelo estudo e sentira a necessidade de um ponto de vista em
sciencia, que lhe permittisse sugar dos seus asperos labores um certo
numero de noções praticas para a vida de cada dia. O curso de sciencias
naturaes conseguiu destruir todo o mundo romanesco e labyrinthico que
eu idolatrava em arte, dando-me um certo gosto a final pelos estudos
de observação. Comecei por queimar todos os romances inverosimeis dos
snrs. Terrail, Reynolds, Feval, Montepin e Zaccone. Depois executei os
snrs. Feuillet e Feydeau; em seguida fui-me aos poetas e vendi-os a
oitenta reis o volume--por escarneo. Nas ferias herborisava com um amor
de que um anno antes me julgaria incapaz; partia de manhãsinha levando
os cadernos de dissecação na bolsa de caça, e um estojo de tubos de
vidro munido de compridos alfinetes no bolso--para as collecções de
insectos. Ao cahir da noite voltava com duas perdizes á cinta e alguns
coelhos, os tubos cheios dos coleopteros caçados, uma multidão de
plantas curiosas esmagadas no album.
Minha mãi que não comprehendia o meu interesse pelos bichitos, muita
vez me olhava surpreza, vendo-me estar horas esquecidas com um aptero
no alvo de um microscopio de Raspail que eu adquirira no leilão de
um classificador. Como se ergue lentamente o store colorido de uma
janella, através de que um panorama vivo se enxerga, assim os estudos
de analyse erguiam de sobre o meu cerebro as phantasias bizarras e
piegas permittindo-me palpar e surprehender a natureza no drama da sua
gestação colossal. Longe de me deseccarem as faculdades creadoras e as
aspirações saltitantes da imaginação, aquelles trabalhos minuciosos,
pacientes e nem sempre coroados de exito, davam-me ás vezes concepções
delicadas, de larga elegancia artistica. Adquiri na phrase uma precisão
incisiva, de pensador.
E cheguei a classificar um homem ao primeiro golpe de vista, como fazia
a um insecto posto no foco de uma bella lente de _crown-glass_. A
aridez das primeiras tentativas não me arrastou a essa tristeza morna
e aborrecida de certos padecentes de dyspepsias chronicas. Por esse
tempo era eu um _grand gaillard_ vermelho e forte, com mãos solidas e
afeitas indifferentemente ás argolas do trapesio, ao cabo da enxada e
aos escalpellos do amphitheatro. Comia, como vulgarmente se diz--como
um alarve, tinha o sangue vivo e sadio, casto além d’isso. A residencia
no campo, após a morte de meu pai, operára a metamorphose do individuo
anemico, secco e propenso aos delirios da imaginação voluptuosa, no
util primate de sangue quente e respiração pulmonar, capaz de derrubar
a Sé com um socco e ser levado á morte pela mão de uma criança. A
reclusão dos livros reporta o homem a uma simplicidade dôce e austera
de habitos e emoções, e fal-o bom depois de o haver feito grande.