--Que lindo, mamã, que lindo! dizia ella, pousando devotamente as duas

mãosinhas _toute roses_, no magnifico zimborio com ventanas de espelho

e ornatos de cartão representando faunos engalfinhados. E imperiosa,

impertigada nos tacões dourados dos seus sapatinhos de verniz, declarou

que escolhera, e que o Arthur deveria ficar muito encantado de um

presente de tal modo original. A cathedral foi conduzida na carruagem

com extremas cautelas, ao lado de um chapéo que para a pequenina a mamã

escolhera na Emilia d’Abreu. Recolheram cedo a casa, antes do pequeno

voltar, e á noite n’um gabinete fechado e sobre a larga mesa coberta de

tapete, os presentes da familia e dos amigos do Arthurinho ostentavam,

n’um soberbo bazar, as suas fórmas pittorescas e os seus matizes

originaes. Eram os cabazes de camelias vermelhas bordadas de heras e

pequeninos _bouquets_ de violetas de Parma; as bocetas de côres vivas

e esmaltes garridos, turgidas de doçarias caras; grupos de porcelana

e _terre cuite_ n’uma infinidade de posições ingenuas ou garotas. A

Laura deixára a sua photographia risonha de cherubim pensativo, um

rostinho dôce coroado de uma bella cabelleira loira, em anneis. E os

amigos todos, o Alfredo, o José e os dois gemeos Nogueiras, tinham

vindo trazer uma lembrança amavel, chicotes, capacetes, cavallos de

molas, magicos em caixas, o diabo! Ao centro a cathedral de Fernanda

com as suas torres severas, de um gothico amaneirado, e o seu zimborio

de columnellos flexuosos, erguia-se magestosamente no meio da cidade

de camelias e violetas, e das pinturas vívidas dos cofres, cheios de

rebuçados e pastilhas e aromatisados das mais finas essencias.

Por entre as _corbeilles_ extravasando côres e perfumes, os _gitanos_

de _terre-cuite_ dançavam aos pares, e as pastorinhas de louça com os

seus trajos coloridos e os seus rostinhos frescos, pareciam de antemão

celebrar a formosa manhã a desabrochar no anniversario do dia seguinte.

Como o Arthur ficaria contente, quando ao outro dia abrissem á sua

curiosidade, aquelle profuso mundo de brinquedos e gulodices!... E

Fernanda, nos bicos dos sapatinhos e sem fazer ruido, arrumava e

dispunha tudo, ao lado da mamã, tocando com as pontas dos dedos as

cousas, como n’uma capella, absorta n’um extasi profundo de sonhos

innocentes, como se o seu espirito viajasse por um grande paiz de

quinquilharias ideaes e maravilhosas.

Quando acabaram a tarefa, a mamã sentou-a no collo, commovida por

aquella dedicação fraternal e solicita que tudo queria para presente

d’annos do Arthur; beijaram-se ambas, por muito tempo.

--É verdade, disse Fernanda, e o chapéo?

A mamã foi buscar o chapéo: era um delicioso _bijou_ de palha

amachucado á banda, com um ramilhete de myosothis adoravelmente perdido

n’um tufo de gaze fina, tão fina que mal se apertava na mão, parecendo

espumar por entre os dedos, como Champagne vertido de uma torneira.

A pequenina quiz pôl-o: ficava graciosamente, um pouco tombado sobre os

olhos.

De sob as abas, em caprichosos rodopios, rebentava a cabelleira loira

de cherubim, que adquiria contra a luz transparencias de oiro fino,

emquanto uma onda de tule branco ia cingir-lhe o pescoço, como aragens

tecidas por mão de princezas mouriscas, das que fallam os contos do

Meio-dia.

O desejo de Fernanda era não tirar mais esse pequenino e fresco chapéo,

cuja aba tombada enchia de uma sombra humida os seus grandes olhos.

Mas era forçoso esperar o dia seguinte, quando fossem para a quinta. A

pequenina exigiu que o chapéo ficasse sobre a banca, entre os presentes

d’annos do Arthur, descoberto e aninhado na sua onda fofa de tule

branco. Esteve ainda a olhal-o: os myosothis com as florinhas miudas,

de uma contextura paciente e nitida, dispostas n’um forte cacho azul,

entre folhas verde baço, davam um encanto ingenuo á copa conica, um

pouco extravagante talvez. Visto de lado, parecia um ninho de pennugens

tepidas, de que os passaritos houvessem partido um minuto antes. De

repente a sineta tocou: voltava o Arthur do collegio. Fecharam a porta

do gabinete muito depressa, não desconfiasse elle. No dia seguinte,

quando lhe mostrassem tudo, dizendo:--_ahi tens, é para ti_...--que

loucuras e que jubilos não commoveriam esse vermelho endiabrado, de que

os velhos criados tinham já medo! Apenas o gabinete ficou só, a gatinha

trepou para cima da mesa, e pôz-se a mirar tudo, dando passadinhas

leves, toda cautelosa pelo meio dos presentes accumulados, cheirando e

lambendo aqui e além. Nos seus olhitos garotos, um clarão de malicia

ingenua, parecia beber enlevadamente os matizes: farejava os cofres

por todos os lados, baixando a cabecita, como quem reflecte. Diante

da cathedral o seu pasmo pareceu crescer, porque se deteve de pescoço

estendido, a medir a altura das cupulas, de patas firmes nos primeiros

degraus da escadaria, com prejuizo de dois devotos de cartão, que

esmagou com uma indifferença soberana. Deu com o chapéo de Fernanda

enroscado na facha de tule branco, e a passadas lentas foi para elle,

com o dorso alto, espiralando a cauda, toda contente do achado. A tarde

cahia, e o gabinete carregava-se de sombra.

Pela vidraça, a paizagem ganhava manchas sombrias e grandes

esbatimentos de um vago picado a pontinhos de gaz rutilante. Subia do

bairro commercial e das grandes ruas de transito um _tohu-bohu_ de

labutas que esmorecem, e carruagens que se perdem, circulando. Um sino

tocava. No gabinete, faziam-se deslocamentos confusos de fórmas e de

aromas, e os olhos da gata phosphorecentes, luziam como dois faroes

em fluctuação, na penumbra alastrada em torno. A palha do chapelito

gemeu: a gata acabava de enroscar-se no ninho da copa, fazendo posição

para dormir. Nunca sentira cama mais macia e mais dôce que n’aquelle

fundo de chapéo forrado de sêda branca, onde o tule enrolado dava

uma molleza preguiçosa de cochim, de _edredon_! Inda porém não tinha

cerrado os olhos, e já o irmãosito, dando um salto agil, cahia em cheio

sobre a ampla aba do chapéo, amachucando o precioso cacho de myosothis.

A _coquette_ então ergueu a cabecinha ironica, com um meneio creoulo de

amante benevola. De cima da aba curva, como de cima de um muro, pendia

a patinha do gato, toda branca e nervosa, desafiando.

Essa pata estendeu-se, estendeu-se, e subtil, como n’um jogo de

prendas, deu uma sapatadasita no craneo da femea, retrahindo-se logo.

Mas a gatinha parecia querer dormir e aninhou-se de novo no seu fundo

de copa, onde a sêda punha a alvura cariciosa de uma alcova.

A tactica do gato, mudou então: rebolando-se lascivamente pelo declive

da aba, o marau pôde attrahir a si todo o tule da facha livre, que

Fernanda enrolára ao pescoço, um momento antes.

Uma vez envolto nas ondas de espuma do tecido, entrou a arrastar o

chapéo atraz de si, pela mesa fóra. Foi o signal: a gatinha sacudiu

rapidamente a somnolencia, espreguiçou-se com uma distensão prolongada

de patas e de espinha dorsal, escancarando a guela e distendendo as

unhas. Esse movimento largo desenhou vigorosamente o corpinho da fera

contente, que desperta. O dorso, de uma alvura singular de arminho,

teve um lampejo brusco de scentelha, quando o craneo chato e muito

curto, de maxillas ferozes, roçou com um deleite perfido de volupia, as

pennugens imperceptiveis das patas, armadas terrivelmente de alfanges

curvos. Com um pulo agachou-se na copa do chapéo, como n’uma caverna,

á espreita. O seu olho inquieto fusilava. Todo o corpo encolhido,

percorria-se de pequeninos fremitos de impaciencia, que as orelhas

continuavam, imprimindo á cabeça um grande cunho de astucia recalcada.

O gato vinha de rastos apagando o som dos movimentos, garrido no

seu tule como um pagemzito aventureiro. E á medida que elle vinha,

o pescoço da gata, do outro lado da aba, alongava-se, escorregando

dôcemente pela sêda do forro. Por fim as patas encontraram-se, e cada

qual disputou o tule, ás unhadas, a dente. A facha, que se desenrolava

do corpo d’elle, acabou em frangalhos, nas unhas dos dois.

Um golpe desunira porém duas fibras de palha, da aba derrubada. O

gatinho metteu a cabecita pela abertura, radiante de maldade, e foi

morder o cacho de myosothis. Do seu lado a gata continuou a obra,

descobrindo os dentinhos brancos. Mas em breve o destroço se propagou

aos presentes d’annos do Arthur, com uma rapidez de saque premeditado.

As _corbeilles_ viram-se despojadas das suas cintas de hera, reluzentes

e excentricamente recortadas, e dos seus maciços de camelias reaes.

Na vertigem do _can-can_ desenfreado, que os dois diabitos armaram

por cima da banca, todos os objectos leves eram arrojados para a banda

n’um rodopio constante; os _gitanos_ partiram braços e pernas, as

pastorinhas ficaram sem cabeça, algumas bocetas violentadas cederam,

e foi um destroço geral de natas, especiarias e recheios. Um rebuçado

d’ovos ficou pegado á cathedral de Fernanda, obstruindo o portico por

onde os devotos de cartão começavam a entrar, envernizados e festivos.

E a walsa extraordinaria continuava sempre sem respeito e sem cansaço.

Na manhã do dia seguinte, em quanto no pateo o cocheiro punha o

landeau, e as carruagens chegavam trazendo os priminhos e as numerosas

tias, Fernanda com uma deliciosa tunica azul céo e um largo collar de

marinheiro bretão, foi chamar o Arthur que acabava de vestir-se.

--Bons dias, disse ella, beijando-o. Tens alli muitos bonitos, vem vêr.

O pequeno não quiz saber de mais; foi ás carreiras abrir a porta, e

entrou cheio de avidez, no gabinete onde estavam dispostos os presentes.

Ao principio, Fernanda e o irmão entreolharam-se n’um desolamento

indescriptivel, vendo os dois gatinhos abraçados que dormiam

tranquillos, no meio das ruinas do soberbo bazar construido na vespera.

E tão socegados como se nada lhes pezasse do que haviam feito!

--Olha, balbuciou Fernanda sentindo as lagrimas na garganta, estragaram

tudo!

--É verdade, fez attonito o Arthur.

Veio-lhe um impeto de raiva sanguinea contra os dois patifes, que

pareciam zombar com os seus tranquillos olhares, da assolação que

haviam feito. E com o primeiro chicote que viu, descarregou nos lombos

do grupo uma vergastada sibilante, que arrancou um berro ás duas

gargantas contrahidas.

Diante do esqueleto do gracioso chapéo de palha, tão pittorescamente

ornado do seu cacho de myosothis, a pequenita cruzando as mãosinhas

pallidas, de uma esculptura fina e reticulada de vêas microscopicas,

chorava silenciosamente as perolas de uma dôr serena e de um amor

espesinhado de ingratidões--porque amára com paixão os ingratos

pupillos.

--Seus maus! dizia ella sempre que os via na cozinha, já crescidos,

dormitando na mesma cadeira.

Mas quasi sempre, a sua mão esquecida e meiga, lhes ia afagar

as cabeças somnolentas e chatas, como de dois pequeninos tigres

preguiçosos.

[Illustração]

A DESFORRA DE BACCARAT

O conde não acompanhou sua esposa n’essa noite.

Era quinta-feira.

O inverno rigoroso, céos continuamente emburelados em forros plumbeos,

chuvas eternas que não davam guarida, lama pelas ruas, bocejos

pelos gabinetes, aspectos constipados, a bronchite tripudiando a

sua impunidade pelos narizes das familias, e em S. Carlos a Varezi

trillando divinamente, com aquelle sorriso que parecia uma esperança e

que se tornou desde que ella partiu, n’um desespero. No Gremio, Alberto

de Selvas esperava o conde; além d’isso apostára no Club a queda do

ministerio; e por fim, elle não queria dizer, mas Fatime esperava-o,

queria cear com elle, a Fatime do corpo de baile, uma loira picante,

de carnes friamente impuras, cujo olhar, de um pardo inerte, possuia

nos accessos de cólera, fulgurações de adoravel maldade. Razões que

impuzeram resistencia ás supplicas da condessinha e diante de cuja

teimosia ella fez beicinho, com uma expressão de candura inimitavel.

De modo que, mal Charmille, o velho criado grave, serviu o café no

pavilhão chinez, e o conde bebeu o seu velho _cognac_ digestivo, pediu

o prussiano, accendeu um _carvajal_ pequenino, de um aroma penetrante,

e beijando a condessa partiu.

No pateo ouvimol-o cantarolar as coplas dos _Sinos_, e as suas botas

rangerem no xadrez do atrio. Depois o coupé rodou e ficamos sós. A

tarde cahia, e sobre o terraço para onde rasgavam as janellas do

gabinete de trabalho, um raio do sol peneirado através das moitas de

trepadeiras, tinha uma luz harmonica, ineffavel, discreta, em que

se sentia a confidencia, em que se sonhava o idyllio, de uma pureza

archangelica, nas regiões phantasticas do incommensuravel, sobre o

dorso de cometas desgrenhados. Uma arara monotona chalreava, suspensa

por um só pé a um supporte metallico, patenteando no arrojo das pennas,

de brilhos ardentemente metallicos, matizes inconcebiveis, divinos

cambiantes de um mordente estranho, tons apaixonadamente fulvos, em

todas as gradações do espectro, com saturações vivas de escarlate

e violencias de verde, de um caustico exaltado. A condessa fechou

o livro e olhou para mim. Era uma criança anemica, fina belleza

aristocratica, crescida como uma avenca australiana, no molle ambiente

impregnado de essencias, dos _boudoirs_, dos salões e das largas

galerias claras, em que antepassados graves, olham dos seus quadros

poentos, ridiculos ou funereos nos seus vestuarios de todas as idades.

O seu typo bourbonico, pallidamente senhoril tinha um cunho real que

feria, e sentindo-a respirar e sorrir, todo o mundo se abalava por ella

n’uma sympathia enthusiasta, n’um vasto amor infinito e terrivel como

a morte. Umas religiosas irlandesas haviam-na educado no Bom Successo:

por toda a parte grades, a austeridade da clausura, frias pedagogas

embiocadas em negro, o sino batendo as suas pancadas cortantes, as

preguiças de levantar cedo, as tristes harmonias que lhe ensinavam nas

harpas douradas, e em que pareciam soluçar tormentosas legendas de

amores mythicos, e rolarem pelas escadarias dos cadafalsos vermelhas

cabeças palpitantes.

Sahiu de lá fallando menos mal as linguas, bordando jardins suspensos

em almofadas de apparato, com um vicio, o piano, e um vacuo diante da

sua alma--a vida em que ia entrar. Sua mãi, uma rainha de bailes, lia

romances dias inteiros, em chambre, deitada n’um divan opulento, o

cabello por cima das mesas, perfumes caros na epiderme e meias de sêda

esticadas acima do joelho.

E ella afez-se tambem ás leituras.

Belot, que uma amiga lhe emprestára, poz em vibração na sua alma uma

corda mysteriosa, e pela primeira vez na sua vida de virgem, se abrasou

em impetos. E o seu sangue impetuoso teve allucinações candentes, em

que passavam homens brancos, virginaes, athleticos, nús e vívidos, que

lhe estendiam os braços.

Desceu com o visconde Ponson, com o scelerado Capendu e com o

patife Zaccone, aos pavores dos subterraneos em que se despenhavam

protogonistas heroicos; quiz sofrer com elles as inclemencias dos

carceres e as agonias da tortura, escamugindo-se quando pôde pelas

sahidas mysteriosas em que molas occultas fazem girar portões de

rochedos; subiu as escadas de corda, mascarada de velludo negro,

com um frasquinho de saes no bolso e um punhal nos dentes; penetrou

conclaves lobregos em que conspiradores avançam solemnemente para

fazer phrases, e se pronunciam juramentos terriveis com as espadas

núas sobre braseiros consagrados, á luz de tochas de cêra amarella. E

romanticamente decorou phrases pomposas das heroinas, teve attitudes

theatraes de uma exhibição ridicula, esgares e lyrismos. Pintava de

_bistre_, olheiras sentimentaes, e sobre os hombros semi-nús em gaze

vaporoso, deixou revolutear os cabellos turbulentos, seccos, crespos,

em tons hilariantes.

Mas uma tarde parou uma carruagem á porta.

Um rapaz que ella vira em S. Carlos, de luneta de oiro, na Havaneza

puxando punhos de apparato, nos chás do ministro d’Allemanha

declamando theorias, no parlamento pedindo caminhos de ferro em nome do

progresso e da civilisação, entrou com um velho.

Vinham pedil-a em casamento.

O pai de Beatrice fazia politica, pedia tambem caminhos de ferro e

moralidade nas provincias da publica administração, mal sabia o nome

dos filhos e só ao jantar estava com a familia, não obstante lamentar a

decadencia da sociedade portugueza, nos artigos de fundo.

A mãi por causa d’ella, não podia installar commodamente os amantes,

tinha por isso birras, rogava pragas em voz alta. Vida do diabo! Raio

de filhos!

Um dos apaixonados, o conego D. Venancio, queixára-se até ás criadas,

que aquillo não podia continuar assim, que nem uma pessoa era senhor de

levar a sua capa de trazer e os seus solidéos de retroz preto, com uma

borlasinha na nuca.

De modo que o casamento fez-se.

O _Illustrado_ fallou com boas orações incidentes explicativas e

adjectivos novos, da festa, dos convidados, _a fina flôr_, das

_toilettes_, tudo de aprimorado gosto, publicava com pompa.

E havia dois annos que Beatrice era condessa, a condessinha, e que

eu, o melhor amigo do conde, assistia ás suas _matinées_ e ás suas

desillusões.

Na bocca pequenina d’ella, vermelhamente lasciva, uma contracção

ironica dizia as suas impaciencias, os seus arrebatamentos, as suas

fluctuantes predilecções, os seus languores e os seus desdens. Amava

os vestidos decotados e os largos collarinhos de _cretone_ azul,

que permittem a viagem mystica do olhar artista ou sacrilego, até á

promessa, aos esplendores de um seio...

O meu olhar casualmente, innocentemente--dou a minha palavra de

honra,--como uma ave ferida, foi de manso e pouco a pouco, como quem

quer reter o vôo e não tem forças, cahir tambem n’esse abysmo de

alabastro, e ao reparar attonito no sacrilegio, viu a condessinha

sorrir, um risinho lancinante que dizia:

--Então... que é lá isso, tambem...

A carne é fragil. Fragil e petulante.

N’aquelle momento quizera ter cegado. Depois--não vão dizer nada--senti

pena de não ter olhado melhor. Mas era _shocking_!

Lançava as culpas para a condessinha; para que punha aquelles

collarinhos? E olhando-me aos espelhos das paredes, via-me chammejante,

em tons apopleticos de lagosta, o _frisson_ das grandes culpas pela

espinha dorsal.

Assim chegou aquella tarde.

* * * * *

Beatrice continuava abandonada no _fauteil_, a sorrir.

E o maldito collarinho aberto, o sicario, aberto, aberto!...

A tarde esmaecia nos longes, sobre o mar, e no silencio a noite

condensava escuridades no ar com um methodismo severo, imperturbavel,

gradual.

O relogio feriu cinco horas.

Por uma janella aberta o rumor da cidade entrava; carruagens sentiam-se

ao longe, e no vasto negro, pontinhos de gaz bordavam evoluções

caprichosas, marcando as curvas das ruas, o afunilamento dos beccos, as

dilatações das praças lamacentas.

Não pedimos luz.

Eu fumava na _causeuse_. A condessinha distrahida agora, absorta e

com o olhar perdido nos relêvos do tecto abandonava-se; e na penumbra

das coisas, o seu busto adquiria linhas ideaes de visão benigna, a

morbideza calida de certas organisações doentias.

Ergueu a voz:

--Meu marido...

--Para que diabo vem agora o marido? pensei phrenetico, com um embate

audaz no cerebro.

--Meu marido diz-me sempre ter em si, Armando, o seu melhor

amigo.--Curvei-me.

--É uma honra...

--Cale-se, é apenas gratidão. O conde é sincero.

E mudando de tom:

--Armando, que idade tem?

--Vinte, condessa, bem monotonos na verdade.

--Vinte annos!--E a sua voz, de uma inflexão musica, era suave como uma

caricia.

Eu sentia-me todo levado para ella...; mas de subito lembrei-me do

conde, o meu melhor amigo.

Pobre Carlos! Áquella hora, jogava talvez no Gremio com os seus

intimos, e perdia. Bello rapaz! Tinhamos sido condiscipulos no

collegio, elle era casmurro nos seus significados de latim, levava

puxões d’orelhas.

De uma vez, lembrava-me, haviamos jogado a tapona; elle tivera um gallo

na testa, feito com um compendio de logica, a que nunca pudera chegar.

E tinhamos ficado mal, _indifferentes_, todo o anno. E via-o magro e

bonito na sua blusa de riscado cheia de tinta de escrever, um molho de

chaves de bahús na algibeira, tilintando.

Ás onze horas ia ao club fallar em politica, altivo na sua opinião

respeitada, entre conselheiros graves de calva e suiças claras. Á meia

noite, Fatime, o vampiro, esperal-o-hia n’um coupé, a S. Roque, para

irem ao _Restaurant Club_ cear, e fazer depois a digestão entre beijos

e champagne até madrugada, hora em que a bailarina costumava receber um

trintanario loiro, trescalando a cavallariça.

E reatando a palestra, para dizer alguma coisa, perguntei:

--E a condessa, quantas primaveras?--Olhava de soslaio o seu largo

collarinho azul e vinham-me suspiros evaporados d’uma grande

indolencia.

--Dezoito, respondeu, mas estou velha, sabe?

--Uma aurora! disse eu com a petulancia de quem lapidou uma phrase com

o meu tom de mais effeito, de que usava nos grandes momentos. O meu

olhar cahia sobre ella, como uma má sina. Na penumbra, brancuras de

seios empallideciam. E continuando:

--Quem tem dezoito annos é sempre feliz, innocente; aos dezoito annos a

vida é uma benção, um aroma, uma perola... E queria ser eloquente, mas

estendia-me, fazia má figura. Ella ria com os seus dentinhos brancos

que recortavam de alvuras gulosas o escarlate lascivo da sua bocca

humida.

E grave, passado tempo:

--Sabe, Armando, que essa sua prosa sujeita a rimas, dava bellos

endecasyllabos?

Fiquei todo corrido, uma larga desconsolação espasmodica, as fontes aos

baques.

--Oh! condessinha, é cruel. E sentia-me córar como um cabula.

--Olhe, quer que sejamos francos? A minha vida é bem triste. O conde

é um rapaz adoravel. Vestidos, quantos appeteço. Manda vir joias de

Paris. Não me recusa cousa alguma. Eu não queria tanto sim, vê? Porque

isto mostra-me que elle me esqueceu cedo, que se não interessa por

mim, que se não preoccupa dos meus caprichos, entende? Que me deixa ir

assim, _ao Deus dará_. E juro, Armando--eu não lhe merecia isto.

Chispavam scentelhas do meu olhar na ampla dobra azul do collarinho.

A sua tunica branca, immensa, apertada na cintura sem esforço,

quebrava-se toda em dobras á roda, aos seus movimentos rapidos. E

contra a luz os seus cabellos crespos, cortados em borla na fronte,

lembravam fios de ouro sem liga. A sua voz tinha uma resignação

penitente, afogada n’uma tristeza passiva e sem resolução.

Commentei:

--Oh! é injusta. Não é isso que o conde me confessa todos os dias.

O labio teve um escarneo cheio de meigas censuras.

--Realmente? Olhe cá. E elle diz então que me ama? Entendo. Armando

pensa que o amor que elle lhe narra é consagrado a sua mulher? Porque,

diga, Carlos nunca pronunciou o meu nome durante essas expansões. Seja

franco, vamos. Mas diga então.

--De certo que pronuncía, condessa: é bem claro, é lógico.

Ergueu-se vivamente, a mão crispára-se-lhe.

--Mente, Armando, mente! Perdôe-me a injuria, mas falta á verdade. Elle

ama apenas estas coisas, ouça:

E contava pelos dedos.--O seu cavallo arabe, o jogo de fundos e... digo?

Ria-se nervosa, desafiando.

--Condessa!

--Fatime. A dançarina judia.

Exaltava-se.

--Oh illude-se, juro que se illude. O conde está no Gremio.

--Armando, olhe bem para mim. Ousa enganar-me, então? E rapida,

suffocada, risonha:

--Hoje á meia noite, elles cêam ambos. Quer saber aonde?

--Mas...

--É desleal occultando-me a verdade, repare.

--Como soube...

--Comprei os criados. Póde ir dizer a meu marido. Quando se é trocada

por uma bailarina, fica-nos o direito de chegarmos até onde nos

aprouver. Não lhe parece?

E atravessava-me com o olhar. O seio batia. Fugitivamente, os meus

olhos iam casar-se na côr do seu collarinho. Curvei a cabeça sem

responder. A condessinha insistiu com doçura, quasi em segredo:

--Não acha?

Fechei os olhos sem dar palavra. Sentia-me perturbado. Onde ia ella

chegar? E depois lentamente, respondendo á sua pergunta, os meus labios

disseram _não_, mas todo eu affirmei _que sim_.

Podem clamar quanto quizerem, mas a condessinha desejava-me, queria-me,

ella, a esposa do meu melhor amigo, e a minha fragilidade sentia-se

attrahida para ella, como uma aza de penna para um iman, sem remedio,

sem consciencia e sem destino. Para que nos deixava o conde todas as

noites sós? Para que a desgostava a ella, pobre criança innocente e

caprichosa?

Contos(#70819) · 第 10 / 19 段