Logo nos fins de setembro, quando tinham cahido as primeiras gotas

de chuva, o Canellas tratou de encetar a sua vindima. Não era cedo

já, a fallar serio. Havia duas semanas que o Garrocho começára, e

que muitos lavradores tinham aberto os seus lagares. A _novidade_

promettia. O verão ia temperado, no inverno não chovera de mais, e

d’esta moderação de clima provinha a riqueza dos cachos e a vigorosa

maturação dos frutos. Feitas as contas o Canellas devia seis moedas ao

todo. O da Vanga, emprestára-lhe tres libras para comprar o jumento

na feira da Vidigueira; devia quatro meias corôas ao boticario, da

doença da mulher; devia ao medico; devia uns _fiados_ na loja; oito

mil reis, das casitas. Se fosse feliz na colheita da uva, pagava

tudo e ainda guardava a sua tarefasita de vinho. Deus ia ajudando um

homem, dizia elle para a mulher, e quando o pequeno fosse crescido

melhor passariam. Assim, uma bella manhã, o Canellas com a mulher

e o filho, deitaram caminho das vinhas, mais o burro. Pela estrada

iam encontrando os ranchos de vindimadores; os rapazes trigueiros e

musculosos da freguezia, ceifões e polainas, os chapéos de grosseiro

feltro derrubados para diante; grupos de raparigas de sangue vivo,

grandes olhos ardentes de meridionaes, os cestos ao quadril; velhos

trabalhadores corcovados, de barrete, alforge ao hombro, atraz dos

seus jumentos vagarosos, felpudos e pacificos; pesados carros de duas

rodas calçadas em chapas de ferro, luzentes do attrito no saibro das

estradas e pejados de enormes cestões de verga, para o carrego das

uvas. A cada volta do caminho convergiam veredas por onde os magotes

derivavam, dando--boa fortuna!--aos que se dirigiam para outro sitio.

O campo n’aquelle tempo começava a perder o viço. Entre vinhedos de um

verde carregado, emmaranhado e pittorescamente confuso, alastravam-se

a perder de vista os ferragiaes amarellos, sêccos de raizes do trigo

ceifado, onde as ovelhas mansissimas, sonoras de chocalhos, pasciam

destroços, as hervagens finas dos barrancos, os fenos fibrosos dos

corregos e as gramineas deixadas nos vallados. A região sem grandes

depressões atrevidas, sem cordilheiras de arestas a prumo, offerecia á

contemplação um aspecto sereno de ondulações graduaes, moldadas quasi

na mesma curva regularissima; toda a zona abrangida n’um olhar, soffria

o cultivo solícito e amigo da aldêa proxima, branca agglomeração

de casinholas de taipa, sem estructura regular, desenhada no fundo

cinzento, metallico e um pouco triste, das grandes oliveiras de troncos

fendidos. A léste, no esfumado anil da massa de ar, linhas quebradas de

valles distantes esboçavam-se risonhamente na luz da manhã. Nos limites

da freguezia, no _termo_, a herdade assignalava-se com azinheiras

gigantes e sombrias, grandes braços pelludos de musgos, contorcidos

como n’uma desesperação sem remedio, contra o risonho céo transparente,

bordado pelo algodão das nuvens em farrapinhos tenues, como um capricho

de criança. O Canellas dirigiu-se á sua vinha, que ficava distante.

--Olha se nós recolhemos este anno um potinho de vinho!... Vendido,

dava bem para um porco de quatro arrobas.

--O vinho ha-de estar barato, disse a Luiza, a esposa.

--E eu hei-de ter uns sapatos, gritou o garoto, saltando com os seus

rijos pés immundos, na poeira da vereda. O burro, de orelha pendente,

o passo reflectido, o olhar tristonho e lyrico, ia caminhando, todo

coberto de moscardos. Á frente de todos, o cão _Bedelho_, corria e

ladrava ás perdizes. O ar aquecia, o sol rebentava no céo a cascata

da sua luz crua e candente, em quanto nos silvados e nas faias do

proximo ribeiro, os garotos dos melros, na frescura humida das folhas

espalmadas, faziam troça da companhia.

A vindima durou-lhes quatro dias, e a novidade fundira-lhes bem. Foi

um tempo alegre, o que passaram. Em quanto a Luiza toda arregaçada,

de chapeirão nos olhos, colhia os fructos mais o filho, cantando, o

Canellas com uma vara de marmeleiro dirigia o burro carregado com dois

cestões cheios, da vinha para a aldêa, e com outros dois vazios, da

aldêa para a vinha. Quando acabaram o trafego, houve jantar de carne,

para que foi convidada a visinha Monica, madrinha do rapaz. E á noite

na banca da _casa de fóra_, jogaram-se as cartas, a Padre-Nossos.

--Quando fôr tempo, disse a Luiza á comadre, ha-de provar um copinho do

nosso. A Monica arrebitou a penca, um riso guloso.

--Agora para o inverno, que é para aquecer. E vieram as confidencias,

os orgulhos do bom governo de casa, a feliz plenitude de não deverem

nada a ninguem--senão obrigações. Tinham pago ao medico, tinham pago

á botica, ao da Vanga, os oito mil reis das casas... E ainda, na

despensa, ao canto, fervia a talhita de mosto, objecto das mais caras

esperanças e base de uma abundancia de chouriços excepcional em casa

pobre, no inverno que ia entrar.

A Monica, sêcca figura de viuva pobre, seios chatos e estereis, um

grande lenço de chita preta no pescoço, as contas de louça desfiadas

a _gloriæ_ e a _Salve-Rainhas_ durante a monotonia dos serões, roía-se

de inveja, um riso amarello de comilona e de desamparada. E formulando

bons desejos que não sentia, ia pedindo a Deus désse aos compadres

tanta fortuna como desejava para si propria. O casal agradecia. O

Canellas a espaços, esfregando as grossas mãos de cavador, observava:

--_Estemos_ pagos e _sastifeitos_! _Cinco senhoras!_

--_Estemos_ pagos e _sastifeitos_! E em côro, todos formulavam

planos de futura prosperidade: a compra de uma courella á Barrada,

a acquisição de uma adega e a postura de bacello, nas terras da

Pichaleira. A Luiza tinha precisão de um capote de pano para ir á

missa; indagava da comadre qual era o preço, queria do bom!

--O meu, dizia a Monica, custou-me quatro _sobranos_. Ainda foi no

tempo do meu homem, que Deus tenha. Que hoje!... Quero um trapo de uma

saia e tenho de o ganhar.

Desde aquella festança, a Monica cresceu de desvelos para o afilhado,

vinha todas as manhãs saber como tinha passado a comadre, e como estava

o pote do vinho.

--Nada para sustancia como dois dedos de sumo. Logo pela manhãsinha,

que regalo!...

E armavam grandes palestras a respeito do tempo, das lavoiras, dos

casamentos e dos escandalos. A filha do Cardoso estava maluca pelo

Francisco da Balsa. Contavam-se cousas bonitas. O mundo ia por agua

abaixo. E por transições subtis, alludiam ao pote da despensa. Um

domingo provaram. Era todo vermelho, transparente e fluido, de um aroma

delicado de roupeiro e moscatel. Boa gota, comadre! Sim senhoras. Boa

gota! dizia a Monica, beberricando. E com um estalo de lingua: é de

rachar pedras, caramba! De tarde sentiram a cabeça pesada e foram-se

deitar muito vermelhas. No outro dia, outra. Cada vez sabia melhor.

O rapasito estava na escóla, a tractos com o _Monteverde_. Á noite,

depois da cêa, o Canellas ia logo para a cama, cançado de cavar desde

o romper do sol nas fazendas dos senhores proprietarios da terra, e

não dava pela falta. Ellas, as duas, em se apanhando sós, era aos

quartilhos. E dilatadas em narrativas eroticas de frades, de estudantes

e mulheres infieis á honra conjugal, passavam as tardes juntas e os

serões, com grandes risadas, uma profusão de gestos e de palavras,

certa licença de epithetos, reparavel.

Finalmente pelo Natal, o Canellas foi _emechar_ o seu vinho, segundo o

uso. Destapou o potito: que diabo!... Estava quasi meio. Chamou a Luiza

todo desconsolado.

--Ó mulher, não sabes? Temos o pote em meio. Quem tirou d’aqui o vinho?

A Luiza debruçou-se, muito admirada.

--Santo nome de Deus! exclamou. E com um accento choroso: ora vejam a

nossa desgraça!...

--Tu bebestel-o, mulher! affirmou o Canellas. Ella encarou-o

duramente, sem resposta. O Canellas aprumou-se colerico.

--Tu vendestel-o, mulher! A Luiza voltou-lhe as costas, desdenhosa. Á

tardinha, depois d’uma scena violenta, o Canellas sahiu. A mulher foi

logo a casa da comadre contar tudo, pedir conselho. A Monica depoz a

meia, tirou os oculos gravemente.

--Ai, não tenha receio. Esta noite, arranja-se.

--Mas como, comadre, como? Se elle sabe de tudo, ai espinhela! Foi para

casa cheia de medo. O Canellas voltou á noite para cear, taciturno,

abatido, sem dar palavra. Bateu no pequeno mal achou pretexto, atirou o

chapéo com mau modo. Ao entrar no quarto da cama, resmungava:

--Estas bebedas, senhores!... Não dormiu toda a noite, a pensar no

seu vinho e a amaldiçoar a hora em que casára. Mas não vira nunca a

Luiza _alegre_, não tinha motivos de suspeita. Havia bons annos que

não guardava vinho. O pote, de barro, estava talvez secco, era poroso,

tinha seis gatos no bojo, podia ser que absorvesse, ou deixasse sahir

o mosto. Mas tanto!... Deram dez, deram onze, deu meia noite, e elle

ás voltas na cama. De repente sentiu correr no telhado. Poz o ouvido á

escuta. Ouviu rir. Uma voz gritou: Canellas! Canellas! Riam, aos pulos

nas telhas. Canellas! Santo nome de Jesus! Era o diabo! Chamou a Luiza:

ó mulher! Não ouves? São as bruxas. Não ouves? Canellas! Canellas!

Começou a rezar o _Credo_, enganava-se no meio, começava outra vez, não

sabia concluir. Diziam:

--Vamos ao vinho! E a correria continuava. Vamos ao vinho! O pobre

estava em suores, varado de medo.

No outro dia mal luziu o buraco, saltou fóra da cama, vestiu-se ás

apalpadellas, poz a manta ao hombro, agarrou nos alforges, desprendeu

o burro e partiu para o trabalho. Tinha a cabeça em agua, não se

lhe tiravam da mente os gritos e as risadas. _Canellas! Canellas!_

Então, as bruxas andavam com elle? _Vamos ao vinho! Vamos ao vinho!_

E sentil-as-hia correr no telhado todas as noites, aos berros e ás

gargalhadas, distribuindo os seus pobres almudes pela communidade, e

ainda em cima, escarnecendo-o. Durante o dia viram-no mettido comsigo,

acabrunhado, carrancudo, dando enxadadas na terra desesperadamente, a

suar como um cavallo.

Ao cahir da noite entrou em casa; a Luiza estava ao canto da chaminé,

diante do lume de azinho, o chale pela cabeça, aspecto adoentado e

beato, o rozario entre os dois dedos. Demais, gravida de cinco mezes...

--Ora santas noites!

--Santas noites!

Reparou na postura da mulher, tão finadinha como um carapau.

--Que é isso? Estás doente?

--Deixa-me, ando morrendo, mesmo morrendo. Todo o santissimo dia com

febre, calafrios, dôres. Ai!... e nas cruzes.

--Mas o que é?--Ella disse choramingando:

--Não vivo muito, não! O Canellas commoveu-se: estás doida! E

solicitamente, achegando-se:

--E a respeito de vontadinha de comer, ha?

--Nem nada, marido. Ainda hoje me não entrou migalha n’esta boquinha de

Deus. Tudo me sabe mal.

--Mas não appeteces nada? chá e fatias; mata-se o gallo.

--Ai, não! Só appetecia uma cousa. Mas não, é melhor não.

--Dize o que é, anda. Se fôr caro compra-se: ora!...

Ella ficou calada, rezando automaticamente.

--Então, que dizes? Que appeteces? Vamos.

--Olha, o que eu comia bem agora, eram uns peixinhos da ribeira das

Sormarias. Tenho mesmo vontade, mesmo de dentro. O Canellas foi logo

albardar o burro, agarrou n’um cesto e poz-se a caminho, sem querer

ouvir mais.

--Não tenha algum desmancho! ia elle dizendo.

Apenas lhe não sentiu os passos, a Luiza correu a chamar a comadre.

Entraram ambas na despensa. Tinham mettido o resto do vinho n’um odre;

uma agarrou por um lado, outra por outro, e arrastaram o couro turgido

até á porta. Era noite fechada e ninguem passava na rua. Das chaminés

evolava-se o fumo dos lares, ouvia-se rir nas habitações das familias,

e um cão latia no campo, sem echo; em quanto, acalentadas no berço

as crianças choravam. D’alli a pouco as duas, viram chegar o Coxo,

taberneiro, pesada figura de velhaco, apopletico, gorro sebento, um

riso desdentado de patife, ironias bestiaes, navalha.

--Venha o bago! disse a Monica. O Coxo quiz roubar-lhe um beijo. A

Luiza occultára-se atraz da porta.

--Podias ter vindo mais cedo, disse a velha. Estendia as mãos ao preço

do odre, dizendo:

--São tres almudes, tinto; a quartinho, tres mil e seiscentos. Sete

meias corôas e mais um tostão. Barato como pouco. O Coxo deu o

dinheiro, pegou no odre, e foi-se depois de ter cingido amorosamente o

estafermo.

--Agora, tornou a Monica, venha a minha commissão e aqui tem o dinheiro.

A Luiza deu-lhe seis tostões.

--Vamos á ribeira, disse ainda a velha. Embrulharam-se nos chales,

fecharam a porta; á socapa sahiram para o campo, e apenas na estrada,

deitaram a correr. Era quem mais podia, por aquellas ladeiras acima, em

direitura á ribeira.

--Ai que arrebento! dizia a viuva, arquejante, a espaços. A final

chegaram ao sitio. Pararam, em conferencia.

--Tu vaes para o outeirinho de lá. Eu fico, mesmo defronte, agachada

na rocha. Assim foi. Não viam nada á roda. O céo pesava de grossas

nuvens caliginosas e tragicas. Esbarravam com as azinheiras seculares,

cahiam sobre carrascaes e tojeiros. Nas trevas, as ramas torcidas

pelo nordeste, tinham gestos aggressivos, de reprobas. Por todo o

campo, quando passava a rajada, sentiam-se risos abafados, segredos

de feiticeiras, a sombra mexia-se, ondulava, tinha transmutações

sinistras. O Canellas no entanto, estava mettido á agua, com o cesto no

braço, puxando a linha da isca. Inda não conseguira apanhar peixe; o

medo agoniava-o. Se as bruxas soubessem que estava alli!... De repente,

cahiu uma pedra na ribeira, e esboroamentos de terra foram descendo,

como deslocados por um pé em falso.

--Mau! E o anzol não prendia. Diabo!...

Pareceu-lhe que diziam segredinhos nas barranceiras, acima da sua

cabeça. Andava gente em cima, viu um vulto acocorar-se.

--Ó camarada! gritou elle, em tremuras. Tudo calado. Puxou a linha;

nada! De repente, uma voz moribunda chamou:

--Berrabaz!

Outra respondeu:

--Satanaz! O Canellas não sabia de que terra era. O que faria á sua

vida? Alli acabava n’aquella noite. Benzeu-se. Iam dar cabo d’elle,

espetar-lhe agulhas nos rins, metter-lhe á força um sapo nos dentes...

Tornou a voz:

--Vamos afogar o que está na ribeira?

--Não, que a mulher está rezando o rozario á Virgem.

--Olhem se a Luiza não tem ficado rezando ao lume, hein? Santa mulher!

Como elle estava agradecido ás suas orações!...

--Berrabaz!

--Satanaz!--Um cão uivava funebremente, no casal do Pelles. O Canellas

batia os dentes, deixára cahir o cesto. O vento dava risadas de

escarneo, dançavam as azinheiras e o céo fazia ouvidos de mercador. A

voz insistiu:

--Vamos afogar o que está na ribeira?

--Não, que a mulher está rezando á Virgem. D’alli a nada:

--Berrabaz!--Satanaz!

--Vamos a beber-lhe o vinho?--O Canellas pulou:--com mil raios!

--Vamos.

--Vamos a partir-lhe o pote?

--Vamos.

O desgraçado ergueu as mãos desesperado e murmurou chorosamente:

--Ai a minha desgraça! Ai o meu rico vinho tinto!

* * * * *

Alta noite, a Luiza enrolada sempre no seu chale, rezando sempre as

suas contas ao canto do lar, viu romper pela casa dentro o Canellas

esbaforido, sem peixes, sem anzoes, sem sapatos, sem chapéo, sem

manta, alagado em suor, trémulo de medo e morto de cansaço. Contou tudo

á Luiza:

--E vai, ouvi dizer: vamos a beber-lhe o vinho? Vamos. Partimos-lhe

o pote? Partimos. Tu sentiste alguma cousa, mulher? A Luiza

persignava-se, com os olhos em alvo.

--Eu nada, disse ella. Não senti nada: uma cousa assim!...

Foram vêr á despensa. Tinham bebido o vinho, e o pote estava em

pedaços. Entraram a chorar. Veio a comadre.

--Que é lá isso de prantos n’esta casa? disse ella, afflicta.

Contaram-lhe.

--Pois eu lhes juro, que as bruxas nunca mais os perseguem. Sei as

orações de as afugentar.

De facto, nunca mais tornaram, nem bruxas nem boas vindimas, nem potes

de vinho.

Tal foi _a idéa da comadre Monica_.

[Illustração]

HISTORIA DE DOIS PATIFES

Toda a manhã, Fernanda andou impaciente pelas casas, esperando os

gatinhos. Ao acordar, fôra aquella a sua primeira idéa--os dois

pequeninos animaes cheios de viveza e graça, em cujos olhos ria uma

innocencia travêssa e dôce. Havia tempos que a tia Consuelo lh’os

promettera, quando fossem crescidinhos. E a cada visita á boa senhora,

Fernanda levava horas e horas com elles, brancos de neve, uma finura

de pennugem que acariciava a pelle, as duas cabecinhas inquietas com

orelhas que se fitavam petulantemente, a cada ruido do gabinete.

Fernanda tinha uma paixão por aquelles dois diabitos brancos que

levavam os dias, ou sugando as tetas da mãi, grande gata de pello fulvo

e pupillas glaucas, ou rebolando no tapete os corpinhos electricos,

n’uma embriaguez de vida que fazia prazer. O gato era o mais leviano,

com as suas patinhas fôfas e os dedos rosados na planta, de que as

unhas transparentes e curvas sahiam desembainhadas, nos momentos de

irritação, se lhe pisavam a cauda. Tinha os olhos azues, cheios de

fibrilhas inquietas mais escuras, uma ingenuidade selvagem no encarar,

fitando as orelhas velludinosas, em que parecia residir toda a

petulancia d’essa cabeça infantil. O focinho côr de rosa, com barbicas

alvoroçadas sorria um pouco, mesmo quando assanhado, e das gengivas

vermelhas e humidas, os dentinhos em serra, agudos e pequenos, resahiam

gulosos, desafiando a gente. A gatinha affectava mais seriedade e mais

_coquetterie_, uma ambição contida de se fazer senhora e uma sciencia

complicada em se fazer amar do macho. Nunca era a primeira no ataque,

e zangava-se mal presentia uma offensa. Á comida exigia os melhores

pedaços, rosnando sôfrega, com a pata erriçada de unhitas curvas,

contra o primeiro que lhe chegasse ao prato. Dormitava muito, como a

mãi; ás vezes o irmãosito chegava-se, cauteloso, estendendo as patas

e movendo vagarosamente a cauda, as pupillas cheias de um clarão de

patifaria. Com um movimento destro erguia uma pata--zás!--no ventre da

sua companheira, que entreabria preguiçosamente os olhos, immovel, com

o focinho enterrado na penugem do ventre. Esta indifferença benevola,

arrojava o _gaillard_ do gatinho a maiores garotices. Chegava-se

então muito meigo, unhas escondidas, o dorso alto, as orelhas chatas e

deitadas para traz. Com as duas patas da frente, cingia o pescoço da

pequenina, e entrava a morder-lhe repetidamente o peito, os labios,

a pontinha das orelhas, em quanto com as unhas trazeiras lhe raspava

voluptuosamente o ventre e as côxas, provocando cocegas.

Ella estremecia, toda percorrida de um gozo intimo e alongando o corpo

para traz; e de ventre para o ar ficava immovel, espreitando, com a

bocca entreaberta e os olhitos reluzentes de uma caustica lasciva, de

bacchante núa. Abraçavam-se então, luctando, as caudas em espiras;

armavam saltos por cima dos moveis, iam esconder-se nas franjas

espessas dos _fauteils_ muito baixos, e suspendendo-se em cacho dos

pés esculpidos das consoles encrustadas de metal e madre-perola,

sacudiam-se, balançando os corpos como dois gymnastas em exercicios de

destreza. A tia Consuelo, impacientava-se já de semelhantes correrias.

Descobrira uma nodoa no carmezim do divan da sala e achára extirpado a

unhadas o ventre de uma antiga _bergère_ preciosa, do tempo da senhora

infanta D. Anna. Além d’isso, a estroinice dos brutinhos punha uma nota

impertinente na monotonia somnolenta da casa, antiga casa cheia de

silencio e conforto, onde o piano dormia mezes inteiros e os moveis do

salão alinhavam, como collegiaes em revista, os seus bôjos vestidos em

camisas de bretanha.

A gatarrona mãi toda insensivel ás festas, muda e impertigada como a

dona da casa, era tão indolente como esta; e ao lado de D. Consuelo,

sobre uma almofada de sêda, dormia dias inteiros, com uma colleira

escarlate de fechos de ouro. Só ella, com a sua idade circumspecta e a

sua molleza freiratica, dizia bem no salão de côres austeras em que D.

Consuelo recebia os padres de S. Luiz e as irmãs do _Coração de Maria_,

e levava as tardes sepulta na _voltaire_, toda amortalhada em velludo

negro, touca de rendas pretas e as _Meditações sobre o divino Jesú_ nos

joelhos. De fórma que, um domingo determinou expulsar do santuario os

patifes ruidosos, o que alegrou Fernanda vivamente: ia emfim ser toda

d’aquelles garotinhos gentis e ferozes.

Era domingo, luminoso dia do primavera germinadora e florida, sonoro

de rumores de gente festiva e cortado de vôos d’andorinhas meigas,

que entravam a construir os ninhos pelas cimalhas das aguas-furtadas.

Fernanda não quiz almoçar sem que os bichos viessem; conseguira dois

lugares á mesa para elles; a gatinha ficar-lhe-hia quasi no collo, o

gato mais longe, com um pratinho de porcellana provido dos melhores

bocados. E que nome lhes poriam? Foi um meditar profundo sobre o

problema.

Houvera em casa uma gata franceza, que morrera de velha e tinha um

rabo branco caricioso--_A Blanche_. Pobre querida! Estava sepultada

no jardim entre duas roseiras de todo o anno. E Fernanda recordava o

seu modo subtil de se roçar pelas saias á comida, com o _rhum-rhum_

dolente de uma beata offerecendo rezas, e o seu comer dificultoso de

desdentada, rejeitando os ossos das perdizes e preferindo bolos fôfos,

de recheios aromaticos, que ao almoço se serviam em pilhas, sobre

cabasinhos de rosas, de velho Sèvres _rocócó_. E apparecera morta uma

manhã de inverno, ao pé do lago. A gatinha devia chamar-se _Blanche_

tambem, um nome da côr do seu vestido setinoso de princeza. Mas o

Arthur, o garoto mais velho da casa, era de opinião diversa. Segundo

elle, deviam baptisar-se os dois _bébés_, na banheira de marmore do

rez-do-chão, sendo elle padrinho, mais o trintanario.

Mergulhariam os moiritos na banheira cheia de uma agua perfumada, ao

som de rezas que só elle sabia, e de umas bengaladas valentes, ao

primeiro berro que soltassem os neophytos, na banheira trasvasando.

Depois do que, seria servido vinho aos pequenos, com applicação de

pancadaria supplementar e guizadas ao pescoço--o que os tornaria

fortes, avisados e aptos á comprehensão da vida e á constancia na

lucta com as arganassas, que por acaso encontrassem nas excursões á

despensa ou ás cocheiras da casa. Fernanda magoou-se com semelhantes

opiniões, e quasi chorou pelos pobres innocentes que lhe mandava, do

fundo do seu conforto beato e egoista, a boa tia Consuelo. Quando

elles chegaram n’um cabaz de vimes, com laços ao pescoço e um pouco

assustados da jornada, Fernanda não sabia que fazer para melhor

exprimir a sua satisfação: era um côro de risos candidos e gorgeios

innocentes; ia do pai para os joelhos da mamã, e esquecida já das

maldades do Arthur passava-lhe os braços ao pescoço, cobrindo-lhe a

face de beijos. Quizera para os dois gatinhos todo um palacio de sêda e

gulodices, com o seu trem completo de cozinha, a longa bateria de peças

de folha reluzentes e pequenas, fogões installados nos respectivos

poiaes de madeira pintada, um serviço de porcelana fina, mobilia e

carruagens elegantemente forradas a pedaços de setim de todas as

côres, lavatorios e leitos, uma multidão de objectos microscopicamente

construidos, que a paciencia da mamã adquirira, durante uma semana

inteira de investigações, pelos armazens de quinquilharias da cidade. E

a installação, que encantadora e que trabalhosa!...

A gatinha saltava desdenhosamente por cima das ottomanas e das

_causeuses_ delicadas, atirava com lavatorios e caçarolas, fazendo

com a cauda desabar os guarda-louças tão ricamente providos. Quanto

ao gato, foi impossivel mettel-o no kiosque dourado onde tantas

preciosidades de mobilia se accumulavam. Ao primeiro esforço de

Fernanda para o fazer entrar, assoprou raivoso, desembainhando unhas

ameaçadoras contra a dôce protectora, que tão generosamente lhe

offertára opulencia e conforto. E apenas o largaram no _parquet_,

desatou a fugir pelas salas como um desalmado evadido. Em breve,

Fernanda se persuadiu da impossibilidade completa de fazer caseiro o

_ménage_.

E a pomposa e pequenina residencia passou a ser habitada por uma

familia extraordinaria de bonecas de todos os tamanhos. A paixão do

loiro amorzinho pelos dois maus animaes vertia agora o fel de uma

ingratidão profunda. Ella não podia comprehender realmente, o desdem

soberano dos gatos pelas magnificas provas de amor que lhes dera, no

seu enthusiasmo de pequena caprichosa. E nos primeiros dias, os seus

afagos para o gatinho orvalhavam-se das lagrimas d’um resentimento

angelico e mal contido. Elles, os dois patifes, adquiriam pouco a pouco

a sua franca e leviana liberdade; ao almoço e ao jantar subiam pelos

vestidos e pela toalha, reclamando em voz alta o seu talher de pessoas

de familia; atacavam sem a menor ceremonia os pratos que apanhavam

sem guarda no aparador e nas bancas da cozinha; iam miar em côro

por baixo das alcofas da carne crua e dos cabazes providos de peixe

fresco; escamugiam-se surrateiramente para a despensa a encherem os

bandulhos de quanto apanhavam de succulento, e umas vezes por outras,

nas noites humidas e chuvosas, tinham o pessimo costume de afiar

as unhas nos mognos polidos e nos estofos matizados dos gabinetes,

sulcando e rasgando, sem preferencia e sem attenção de preços. Fernanda

ria com elles e achava-os de uma graça captivante. E a todo o transe

defendia-lhes as velhacadas, orgulhosa de soffrer pelos que amava com

tamanha loucura.

Chegou o dia dos annos do Arthur--uma quinta-feira, em maio.

Determinaram ir passar o dia á quinta, em Carriche.

Ia a boa dama Consuelo, as pequenas Magalhães, as primas Lopes e todo

o mundo infantil da familia. Na vespera, disfarçadamente, em quanto

o Arthur estava no collegio, Fernanda sahira com a mamã á compra

de presentes para o dia seguinte. Tinha um mundo de projectos na

mente: torres ideaes de cartonagem com sinos dourados e portaes de

columnellos; jardins de cascatas surprehendentes, grandes exercitos de

chumbo formados em ordem de ataque com baterias de latão; as arcas de

Noé em que reside um mundo inteiro de bugigangas coloridas; esquadras

empavezadas de flammulas com almirantes de estanho, commandando

tripolações de madeira suissa; pequeninos theatros com figuras de

verniz e paizagens ternas de Nuremberg; tudo quanto a phantasia póde

realisar de pueril e caprichoso e quanto uma criança póde exigir, na

incoherencia dos seus devaneios côr de rosa.

A mamã aconselhava um cabazinho de dôces frescos, do Baltresqui. Era

mais delicado! Mas Fernanda tinha os olhos n’uma cathedral de madeira

branca, elegantissima de cupulas e rendilhados, por cujo portico

profundo e alto na sua escadaria de balaustres gothicos, uma multidão

de fieis ia subindo, collada com gomma arabica.

Contos(#70819) · 第 9 / 19 段