cabellos ruivos. Havia um coronel reformado que lhe dava dinheiro para
sapatos catitas. Era um velho gordo, de oculos, todo grave na sua
sobrecasaca preta. Gostava d’ellas bem calçadinhas, meia esticada, e
começava sempre pelo pé, acariciando-o de diminutivos ternos.
Era o seu melhor amigo, aquelle senhor tolerante, e d’uma vez
desapparecera. Vieram os maus dias então, a policia vigiava as casas de
má nota, e prendera a Jeronyma uma noite...
Carolina lembrou-se de voltar á fabrica. Sentia-se doente, fatigada
d’aquella vida de acaso que lhe não tinha dado senão fomes, maus
tratos e terrores. Mas encontrou já occupado o lugar, que deixára na
officina. Quando descia ao pateo, deu com o fiscal que se pôz a olhar
para ella muito tempo. E d’alli a nada lhe disse, voltando a cabeça:
--Como vossê anda já...
Aquella commiseração affligiu-a cruelmente, e chorou todo o dia mirando
no espelho a cara chupada e amarella, onde entre circulos rôxos luziam
dois olhos febris. Dias depois, a policia que a espreitava conseguiu
surprehendel-a em flagrante, e d’alli a nada era inscripta no livro de
cinco mil nomes, uma das glorias já hoje, d’esta florescente cidade que
passa os seus dias enchendo de moeda falsa os Brazis, e servindo oleo
de bacalhau ao melhor de cem mil tuberculosos.
* * * * *
Datam d’aqui todos os episodios da existencia que teve o seu epilogo
ha tres dias, n’uma das camas da enfermaria de Sant’Anna, no Desterro.
Foi o _tio Farrusco_ quem cobriu de terra, sem commoção nem saudade, o
corpo espedaçado pelo meu escalpello, da rapariga corroida de podridões
sinistras, abandonada do berço ao tumulo, e pasto unicamente de desejos
infames e de desvairamentos vis. Tenho sobre a minha banca n’este
momento, a sua caveira fria, limpa de pelliculas e cartilagens, branca
e escarninha, cujas maxillas escancaram diante de mim n’uma careta
tragica, a sua concavidade cheia de sombra. Este despojo inerte,
rendilhado e esponjoso pelos estragos do hydrargyrio, embalde interroga
a meditação que me abysma, sobre as causas provaveis da grande
desmoralisação actual.
1878.
[Illustração]
SEMPRE AMIGOS
Joanna tinha já dois pequenos.--O Ricardo de cinco annos, fulvo como um
novilho e o João, pequerrucho de peito. Era uma rapariga alta, musculo
duro e sobrancelha espessa, cujos punhos podiam amassar sem cansaço
alqueires e alqueires de pão, e cujos quadris agitados na marcha sob
as saias de baetilha, avivadas de azul, revelavam a solida enformatura
montanheza das primitivas mulheres, tostadas e laboriosas. Casára havia
seis annos com o Jerolmo, por uma vindima mais fertil. E ambos pobres,
ella filha mais nova de um maioral do conselheiro e elle ganhão da
herdade de Valparaiso haviam gostado um do outro, bailando depois nas
romarias do verão, procurando-se instinctivamente nas ceifas e mondas
e aos domingos á hora da missa conventual. Não estava arrependida de
haver casado, não. O Jerolmo era trabalhador incansavel e sadio; Joanna
começára por namorar-lhe o peito cabelludo e trigueiro e a forte caixa
de pulmões dilatada a cada esforço de trabalho; captivára-a além d’isso
depois, a sua mansa maneira de dizer as coisas, sem notas altas na voz
e sem impaciencias nervosas de bilioso, a sua vida toda regulada por
habitos e a condescendencia tida para os velhos.
De uma vez vira-o erguer-se de punho cerrado e olho torvo a desancar
n’uma malta que primeiro o espicaçara de bestialidades. Até alli,
todos de boa saude, louvado Deus! Seis annos de ventura decorrida sem
attritos e sem nuvens. E os dois rapazitos!... Lembrava-se dos terrores
do primeiro parto e das alternativas de humor caracteristicas, os
suores dorsaes e frios, a dôrzinha vaga primeiro e intensa depois, em
toda a região dilatada.
Em certos momentos, um mundo de phantasias projectando-se-lhe do
phantoscopio da mente, innundava-a de photospheras de luminosa
essencia--se seria um pequeno, valentão capaz de ajudar o pai se seria
uma rapariga de calcanhar quadrado e dentes solidos que enchesse
de cantigas e de actividade o ninho!... Todas as noites á hora da
cêa, o casal accumulava e destruia planos, fazendo e desfazendo
receios--perdidas evocações d’esse primeiro tempo de esposa!... Mirando
a casita e as cadeiras de Evora da _casa de fóra_, as prateleiras
de louça e as quatro garrafas de vidro branco postas em symetria,
olhando no quintalorio a méda de azinho para os lumes do inverno e
o bacoro para a fartura do anno, Joanna sentia, no meio dos filhos
e dos labores constantes da sua vida azafamada, um bem estar de
consciencia satisfeita, um como jubilo intimo. O seu trabalho caseiro
luzia: viam-lhe sempre o ladrilho varrido e as cadeiras arrumadas,
um esteirão algarvio ao canto para as visitas, cobertas de retalhos
lançadas sobre a mesa e dorsos dos bahús, o pequeno espelho redondo
pendendo ao lado de um Francisco José, d’Epinal, brancas as paredes com
rodapé de almagre em torno, e a cinza do lume constantemente varrida
do lar. Dando largas á sua iniciativa de negociante creára além d’isso
no quintal um exercito de gallinhas e gansos, cujos ovos o Ricardo ia
vender todas as manhãs em altos pregões, pelas ruas da villa.
Manhã clara, era a primeira a erguer-se na rua e a encetar a labuta
inquebrantavel e voluntariosa.
Paredes meias vivia a Francisca, casada com o _Estragado_, um bebedo.
Joanna tinha amizade a essa pobre mulher macilenta e soffredora,
semanalmente espancada pelo marido, que para mais lhe impunha o
sacrificio de fomes e farrapos.
Dissera muitas vezes, vendo-a passar para o pégo com trouxas de
roupa á cabeça, envelhecida e estupida pelo contagio das miserias e
brutalidades soffridas, com o filho semi-nú agarrado ás saias e o
engeitadinho ao peito:
--Nem sei como vossemecê póde, coitadinha! A outra não se queixava;
tinha as miseraveis resignações d’uma cadella expulsa; com um geito de
hombros e a voz sumida retrucava sempre:
--Então, paciencia! Deus não quiz...
E Francisca era reconhecida á visinha, que bastantes vezes a livrára
das brutalidades do bebedo e das frequentes penurias da casa.
A Joanna, comparando a sua sorte á da pobre engelhada, sentia da
comparação, exaltar-se a sua felicidade, abençoando a hora em que
lhe nascera o primeiro impulso para o Jerolmo. Quando este chegava
do trabalho, com o largo e velho chapéo braguez deitado para a nuca,
a manta e a enxada ao hombro, ceifões já pellados pelo convivio dos
asperos attritos, o burro e o borrego atraz, fartos de herva e alegres
da jornada, Joanna não se continha sem lhe referir os soffrimentos da
pobre mulher e a pancadaria do _Estragado_.
O marido então encolhia egoistamente os hombros, farto da eterna
lamuria e repetindo:
--Deixa-os lá. Que se avenham.
O _Estragado_ era dos seus tempos de rapaz, pudera seguir-lhe a vida
ponto a ponto e observar-lhe a predisposição fatal para a vadiagem e
para o vicio. Aquella indole de desordeiro repugnava-lhe, que sentia
um tedio pelos que não tinham como elle a infatigavel actividade
productiva e a repousada consciencia dos deveres cumpridos. Áquella
hora os trabalhadores recolhiam em bandos dando santas noites; uma
poeirada suffocante erguia-se na ladeira sob os grossos sapatos
cardados dos cavadores e das patas dos jumentos carregados de alforges
e feno; a tarde morria enlaivecendo de um ouro fulvo o poente; pelos
campos fóra os grillos, as rãs, os ralos e os mochos preludiavam a
longa sonata nocturna, em quanto defronte da casa o Ricardo mais o
filho da visinha, descalços e ferozes, jogavam os touros, rolando na
relva com um vasto prazer inexhaurivel.
--Sabes o que me convinha? disse d’uma vez o Jerolmo para a mulher.--Ir
p’ra feitor d’uma casa. Não anda uma pessoa a estragar-se pr’áhi a
cavar desde manhã á noite, e sempre ganha algum vintem melhor.
--Pois está visto que era o que te convinha! Um homem de trabalho como
és...
--Diz que o conselheiro precisa. Fui-me a fallar com elle, mas ha
pretendentes. Mal sabes quem, mulher?
--Algum alma ruim... disse a Joanna.
--Aqui o nosso visinho _Estragado_, nem mais nem menos. Oh senhores,
que eu ri de maior quando o Galante me contou!
--Aquillo, que nem lhe chega o tempo para as tropelias que arma á
pobresinha da mulher... Excommungado, o Senhor me perdôe! Mas é só esse
que pedincha?
--Só! Fiquei de ir ter esta noite com o conselheiro. Talvez se arranje
a cousa.
--Era grande fortuna, homem. Casa farta, boa paga, elle uma bella
pessoa. Mas o _Estragado_!... Ora não vi!
Estavam na cozinha. O Jerolmo á cancella, limpava da lama as polainas
de saragoça e o ferro da enxada, em quanto a Joanna de avental,
refogava a cêa e ia pondo a mesa, ao fresco, no quintal. Sentiram
passos na casa de fóra, a Joanna foi vêr. Era o _Estragado_ que sahia
surrateiramente.
--O visinho é bem confiado, não ha duvida, disse a Joanna toda zangada.
Não ha maior atrevimento! Quem escuta de si ouve, e é bem certo.
--Diga ao seu marido que m’as não fica a dever.
--Deixa-o lá, disse pachorrentamente o marido.--Está bebedo, coitado.
Deixa-o ir!
Cearam; o Jerolmo á cabeceira da banca vigiava o filho, advertindo-o a
cada partida do garoto. Entre os dois ficava o cão.--Da outra banda a
Joanna, com o pequenito adormecido no regaço, migava sopas na malga.
Por cima, o céo um pouco escurecido e todo picado d’estrellas, tinha um
arfar de penumbras profundas, em que os olhos se perdiam, divagando.
Um ventinho fresco, impregnado de fenos, fazia agitar com murmurios
finos as folhas metallicas da figueira verdeal. O bacoro no chiqueiro
resonava espapaçado no charco. Tempo das eiras. Puzeram-se a fallar
nos trigos; as searas tinham fundido bem, mas os tremezes menos. Então
o Jerolmo contou as suas esperanças no trigo ribeirinho que semeara na
courella das Taypas--um palmo de terra que valia um milhão, segundo
elle.
--E estava lindo, ahi pelo tempo da fava! disse a Joanna.
--Do que precisavamos era de uma vinhita--tornou o Jerolmo após um
momento de pausa.--E partia o pão trigueiro em grandes pedaços.
--Nada como a vinha p’ra render.
--Apesar das molestias.
--Com alguns _sobranos_ tinhamos ahi um ou dois milheiros. Estava a
calhar.
--Ou mesmo bacello que puzesses...
Elle então enumerou projectos de futura prosperidade--comprar um carro
com parelha de mulas na feira de Villa Viçosa, ter vinhas e olivaes,
a abundancia de uma horta com aguas correntes e nóras rumorosas, n’um
pedaço de valle profundo, com a sua barraquita sob nogueiras verdes.
E para se animar citava de memoria os casos de fortuna accumulada pinto
a pinto por homens activos e poupados; o snr. Joaquim das Nogueiras que
estava _pôdre de rico_, o _Fandango_ que seu pai conhecera a carregar
estrume, o _Baleizão_ que fôra da tropa e até estivera preso. Não havia
muito que visitára o monte do compadre Nazareth.
--O meu padrinho! gritou Ricardo.--E a cado passo interrompia:
--Elle é meu padrinho, não é, pai?
--Pois senhores, continuava Jerolmo, aquillo é que é lavoura, aquillo
é que se chama seara!--E dilatado accumulava pormenores--quarenta
moios nos celleiros, roças de palha do tamanho das torres da igreja,
juntas de bois mais gordos que eu sei lá! E as carretas da vindima,
as tapadas, a casa dos arados, o moinho sobre rochas e dependurado no
Guadiana--um encanto!
--Casa que é um ovo! argumentava Joanna embalando o pequerrucho nos
joelhos.
--Pois mulher, ha trinta annos não passava d’um ganhão do Francisco do
Cabo. E honrado, honrado como Deus!
--O que se quer é saude, deixa lá. Deus ajuda quem trabalha, resumia a
mulher.
E entre risos:
--Muito me havia de rir se ainda vinha a ser a _senhora lavradora_!
--E eu cá hei-de ter uns sapatos e andar a cavallo, exigiu o Ricardo,
que molhava os punhos da véstia de cotim na malga ratinha da cêa.
--A dizer a verdade não temos sido dos mais infelizes.
--Está de vêr que não, apoiou Joanna. E deixa correr! Este anno talvez
se peça pouco emprestado. Para o anno que vem já se pede menos, para o
outro nada, e depois toca a ajuntar p’r’á fazendinha.
--Pois vou-me ao conselheiro, a vêr o que decide.
--Até logo.
Á porta voltou-se e disse a rir:
--O que tinha graça era agora o amigo _Estragado_ fazer-me uma espera e
armarmos de garreia.
--De tudo quanto ha ruim elle será capaz, o carga d’ossos. Peste!
Apenas sahiu, o Ricardo pulou logo a parede para o quintal da visinha á
cata do Manel, que tasquinhava pão secco de pansa para o ar.
--Vamos pró adro, o pai abalou.
Não foi preciso mais.
Foram ambos ás carreiras. No quintal, a Francisca roía o seu pão secco
e negro, de semanas. A amassadura por pagar, uns fiados na loja do
Vieira, trapos por toda a banda... Ao chegar a casa, o _Estragado_
atirára-lhe um sôco ao vazio, pedindo o jantar para que não tinha
dado feria. E cobrira-a de injurias obscenas diante dos filhos,
exprobrando-lhe a fealdade e fraqueza.
Puxára-lhe até pelos cabellos, gritando com voz avinhada de cobarde:
--Grandessissima porca! grandessissima bebeda!
Dera-lhe bofetadas com a aspera mão ignobil de assassino, clamando
que estava farto, que seria até capaz de a matar a punhadas. A
pobresinha abatida e com o gesto errante, nem podia chorar. Aquella
vida de vilezas e insultos roubára-lhe até o refugio das lagrimas,
embotando-lhe pouco a pouco a razão. Abria os olhos sobre o bebedo n’um
pasmo tremulo, dizendo baixinho:
--Não me batas mais, pelo amor de Deus, não me batas mais!
Resumia-se para ella tudo na sova e na escravidão muda do martyrio.
Não tinha já mãi nem pai, haviam-lhe morrido os parentes.--Sua irmã
fôra assassinada pelo marido n’uma azinhaga sinistra e de noite para
os lados do Moinho Branco. Era a ultima representante d’uma raça de
vergastados incapazes de resistencia e não sabendo na vida outro fim
mais que a obediencia ao algoz e a procreação animal das marrãs de
montado.
--Visinha, gritou a pobre mulher do quintal, para a Joanna que acabava
de levantar a mesa.
A outra subiu á lenha para debruçar-se na parede, sobre o quintal do
_Estragado_.
--Que é?
A esse tempo já a Francisca trepára do outro lado, com o chale de
baetilha pela cabeça.--E disse n’um tom choroso:
--Perdôe-me pelo amor de Deus, que não me esqueço de quem me faz bem. É
a minha desgraça, aquelle homem, a minha vergonha...
--Houve pancadaria de moiro, aposto!
--O costume, Nosso Senhor nos ajude. E se fosse só isso...
--Então que mais temos?
--O meu homem não entrou na sua casa ha pouco?
--Entrou, para escutar o que cada um está dizendo na sua casa; foi pró
que elle entrou! Mas ouviu-a toda!
--Ai filha! Veio de lá como uma féra. Puxou-me pelos cabellos, quebrou
os cantaros da agua, bateu no rapaz com uma corda; que eu é que tinha
a culpa, que ia tudo a tiro, que haviam de saber quem era Joaquim
Antonio. Perdôe-me pelo amor de Deus, perdôe-me tanta mortificação.
Pelos modos ouviu fallar no lugar de feitor do conselheiro... E está
com a pinga!
--Sempre gostava de saber se é peccado cada um agenciar a sua vida! O
meu homem vai fallar com o fidalgo; o seu quer o lugar--que vá tambem.
O outro escolhe, e ninguem tem de que se ficar queixando. Esta é a
_rezão_!
--Tudo lhe disse, visinha, tudo lhe disse! Homem, o visinho Jerolmo
não lhe parece mal que tu queiras ser feitor e pretendas o mesmo nicho
que elle! Vai e fallas. Fallando é que uma pessoa se entende. Agora o
vereis! Ainda me deu mais. Visinha, perdôe-me pelo amor de Deus, mas
eu queria dizer-lhe... é que... Olhe, estou a tremer que nem varas
verdes, nem me tenho nas pernas, veja lá. Mas é que elle sahiu com más
intenções, que se havia de pagar, que ia dar cabo d’elle... Perdôe-me,
filha, perdôe-me por alma de seu pai, mas elle é mau e capaz de fazer
alguma, em estando bebedo. Não deixe sahir seu marido esta noite, não o
deixe sahir.
--Mas se elle se foi agora mesmo! disse a Joanna, de subito abalada.
D’um pulo saltou da lenha, deitou pela cabeça a pobre saia de chita
azul, sem mais pensar no Ricardo que brincava no adro, e com o pequeno
ao collo deitou a correr para casa do conselheiro. Eram mais de nove
horas. Os homens estavam nas eiras, fóra da villa; aqui e além,
deitados ao fresco junto das portas escancaradas e escuras, alguns
vultos dormiam. A penumbra da noite picada de estrellas, errava nas
embocaduras, em cones movediços de uma indecisão phantastica. O campo
dormia, e sómente a espaços, no como silencio absorto dos restolhos,
latia um cão, ou tilintava a esquilla d’algum jumento de trabalho. A
casa do fidalgo ficava no outro extremo da villa, isolada dos casebres
por uma alameda de freixos enormes. Á roda era a horta, e por detraz
dos laranjaes o olival sem fim. Joanna corria quanto lhe era possivel,
arrastada por presentimentos funestos e cheia da idéa do seu homem que
era o seu deus.
Nos casinholos d’aquella banda tudo dormia já; a alameda em frente,
escancarava a bocca de trevas, que á menor lufada de vento parecia
ficar ruminando alguma cousa penivel, n’um segredar entrecortado.
A casa do conselheiro mal apparecia ao fundo, com a sua linha de
grandes janellas morgadias, cujas pesadas cimalhas avultavam n’uma
facha confusa de granito. Em outra occasião Joanna não teria ousado
atravessar o caminho áquella hora--que errava por alli o vulto do
doutor Soiza á procura do seu inimigo. Muita gente lhe tinha já ouvido
os brados roucos, depois de corrido o sino da camara[4], e contava-se
que um homem o encontrára havia annos, perdendo a falla no mesmo
instante.
[4] Conforme uma antiga usança, ainda agora nas villas do Alemtejo,
toca a recolher, nove horas dadas, o sino da camara.
Á entrada do arvoredo Joanna deteve-se a escutar junto de um tronco.
Estalavam as ramas por cima, com ruidos seccos. Applicando o ouvido,
sentia-se na horta o correr da agua no tanque. Ninguem estava ainda
em casa do conselheiro. Joanna resfolegou mais tranquilla: não tinha
havido nada! E rapida, aconchegando a criança, percorreu a alameda e
foi puxar a sineta do portão, que deu um som vibrante no silencio do
edificio. Perguntou pelo marido; não tinha lá ido ainda. Fecharam-lhe a
porta com fracasso sem mais resposta. Joanna então ficou hirta e muda,
encostada á hombreira, com as fontes latejando.
Onde estava então o Jerolmo, não estando a fallar com o fidalgo? Não
era homem de sucias, nunca fôra visto em tabernas, não trabalhava
nas eiras, não era cantador noctivago... Era a primeira vez que ella
ignorava o seu destino; que fazer? Então relanceando a vista á roda
sentiu um calafrio, dos rins á nuca; á forca de perscrutar a sombra as
imagens falsearam-lhe, deslocando-se lhe á vista desvairada; parecia
que os troncos iam e vinham rojando caudas de folhagens como espectros
evocados de campas; os estalidos abriam um murmurio de risinhos
sofreados; ondulavam sem nexo bandos de fórmas estranhas e o rumor da
agua era de uma conspiração sinistra...
Joanna sentia no peito o coração em sobresaltos e um zumbido perfido
enchia-lhe os ouvidos. E cheia de um medo algido, olho atraz olho
adiante, como se legiões de genios maus a seguissem, percorreu a
alameda arrumada aos troncos e cozida com a sombra. A meio caminho
deteve-se. Vira da outra banda um corpo mover-se. Escondeu-se por
detraz d’um tronco, com os olhos fitos no ponto em que a fórma bulira.
Julgava já ter-se enganado. Mas o vulto tornou a apparecer, cortando em
transversal o caminho. Bem depressa passou por diante de Joanna, que
tomada de pavor não fazia um movimento, de collada ao freixo.
Viu um homem de barrete preto e em mangas de camisa caminhar aos
solavancos. Bebedo por força; fallava só, com palavras entrecortadas e
torvas.
--Outro que fosse, regougava, outro que fosse... quero lá saber! Tudo
se paga. Arre!
Mais além já, parou um instante cantarolando:
N’esta rua cheira a sangue,
Alguem n’ella se sangrou:
Dizem que foi meu amor,
D’uma sova que levou.
Essa voz rouca e difficil como coada por uma garganta sem cordas,
fez tremer Joanna. Era o _Estragado_. Vinha do conselheiro? Mas se o
Jerolmo não fôra lá, que recear? O bebedo ia já longe quando a pobre
mulher se resolveu a abandonar o escondrijo. Apressou o passo; era
tarde e talvez que o Jerolmo estivesse em casa já... se estivesse,
bom Deus! Esta esperança dissolveu-lhe um pouco os terrores, que era
animosa como uma filha de herdade. Mentalmente prometteu logo uma missa
á Senhora da Boa Morte se nada tivesse havido. Saltou do vallado para
a estrada e receosa de magoar o pequenito apoiou-se n’um pedregulho,
mas a mão teve um contacto humido e molle que cedeu, ao pousar. Joanna
agarrou n’aquillo: era um farrapo de lenço; puxou, e uma cousa dura
cahiu dando na pedra um som metallico.
Era uma navalha cheia de sangue. Perdeu completamente a cabeça; o
seu coração dilatou-se effervescente de agonias e ourada de lugubres
evocações a sua imaginação bolsou presentimentos funestos. Poz-se a
correr sem destino pelas ruas da villa, clamando em altos gritos contra
o _Estragado_, contra Deus, contra a sua desgraça! Na calada do povo
adormecido a sua voz resoava com uma sonoridade alta e rapida a que o
desvairamento imprimia uma nota febril e sincera, que commovia.
Alguns postigos abriram-se, por onde cabeças somnolentas e avidas
escutaram. Depois, sapatos ferrados bateram as pedras e os balcões
das casas, e os vultos embuçados nas mantas foram seguindo Joanna.
Ella contava a quem vinha, que o seu homem estava morto, que os
filhos estavam sem pão, que fôra o _Estragado_. Começava trinta vezes
a narrativa ao ultimo que chegava, com a voz velada de choros e
estrangulada de soluços. Mas onde estava o Jerolmo? Um trabalhador que
recolheu tarde dera nas escaleiras do adro, com o Ricardo e o filho da
visinha Francisca, adormecidos um ao lado do outro. Vira a porta aberta
e luz na casa de fóra.
Então foram todos vêr a casa do Jerolmo, batendo fortemente os sapatos
de trabalho. Algumas mulheres atemorisadas, de chale pela cabeça e em
grande abatimento, seguiam Joanna resmungando lamentações. Em breve a
terra estava em alvoroço, e quando a pobre rapariga chegou á soleira
a rua ia já cheia. A casa estava vazia. Recomeçaram os gritos e os
commentarios, o prior veio saber o que era, com o largo capote nos
hombros e o chapeirão descido. Todos contavam; a algum pormenor menos
fielmente emittido, vozes diziam:
--Não foi assim! A coisa começou...
E punham-se a dizer como tinha sido.
--Mas lá por se encontrar a navalha suja de sangue não se segue que
haja mortes, objectou o prior.--E a sua voz de um timbre ingrato e
cheia de authoridade fazia peso na roda. Muitos eram da opinião de sua
senhoria, concordando:
--Está bem de vêr, está bem de vêr.
--O que devem é ir rebuscar bem a alameda e os meloaes que ficam á roda
da horta do conselheiro. Talvez até o Jerolmo esteja nas eiras.
--De lá venho eu agora, disse um.--Não dei noticia d’elle.
Varios trabalhadores então, partiram a esquadrinhar a alameda.
--Se passarem lá por casa digam á senhora Magdalena que lhes dê uma
lanterna, disse o prior.--A Joanna quiz tambem ir, mas as mulheres
oppuzeram-se. E sentadas na casa de fóra, embiocadas nos chales ou com
saias pela cabeça, jaziam silenciosas e curvadas, como se um vento
de assolação as vergasse. No silencio lugubre, os soluços da Joanna
vinham a espaços como um estribilho magoado. A um canto discutia-se
o _Estragado_, com pormenores recentes. Segundo muito boas opiniões,
enforcado devia elle estar havia muito tempo--peste ruim! Algumas
tinham palavras de dó para a Francisca--que tinha o corpo como um
fungão, da pancadaria. Ao fundo da rua, a voz avinhada ouviu-se:
N’esta rua cheira a sangue,
Alguem n’ella se sangrou...
Ao mesmo tempo a calçada soou do outro lado sob os pés de muitos
homens. E pela porta da Joanna quatro moços do campo entraram
carregando uma escada, onde vinha estendido o corpo do Jerolmo. Toda a
gente se tinha erguido fazendo um ruido indescriptivel de prantos; uma
rapariga cahiu com um flato, algumas fugiram para o quintal, aterradas
do cadaver. Joanna só, estendida nos ladrilhos e resistindo a todos
os empuxões que lhe davam para a afastar d’alli, Joanna só não tinha
medo. Passára os braços ao pescoço do homem, enchendo-lhe de beijos
a cara e a bocca aberta, de que um sangue viscoso corria. Uma enorme
paixão rebentava d’ella sobre aquelle corpo que arrefecia pouco a
pouco, retesando-se, com um sinistro desenho, anguloso e livido. Fóra,
o regedor conseguira agarrar o _Estragado_ por um braço. Vozes clamavam
rudemente: