--Está preso! em quanto retiniam nas pedras, com pompa de entremez, as

espadas dos senhores cabos de policia. A Francisca que se interpuzera

de cabellos soltos, arrastava-se abraçada aos joelhos do marido,

pedindo clemencia com a voz arrastada e baixa, em que havia um fundo de

miseria e de dôr. Os pulsos sahiam-lhe das mangas da roupinha tisicos

e inabalaveis; por mais que fizessem não lhe arrancavam as mãos das

calças do _Estragado_. Os maus tratos, as bestialidades e as fomes com

que aquelle homem a trucidára desde o primeiro dia de casados, haviam

enraizado no seu coração uma cega obediencia, uma necessidade fatal

d’aquelle imperio torpe; mesmo assim gostava d’elle, pai de seu filho,

o que partilhava o seu catre e lhe déra esse primeiro beijo, que é como

a annunciação da maternidade á mulher virgem.

Das escadas do adro então, as duas crianças ergueram ao mesmo tempo as

cabeças, despertando ao alarido dos prantos.

--O que é aquillo? disse o Ricardo.

--Olha, é muita gente. Não ouves a chorarem? notou o Manel.

--Oh vamos a vêr! insistiu o mais novo.

E como o Manel cambaleava estremunhado de somno, o outro passou-lhe o

braço ao pescoço a segural-o.

E com ares protectores dizia-lhe:

--Vê se partes as ventas, vê...

Todo abafado no casacão, o senhor prior saciado das novidades

fresquinhas sahia de casa da viuva, pensando que era ainda uma rica

moçoila.

Por outro lado, a morte do Jerolmo irritava-o: fôra depois de cinco

annos o mensageiro das suas labutas vinicolas, o que lavrava a seu

gosto, o que fazia _uva á siranda_ com mais desembaraço.

Não bebia, não fumava, não era exigente nos preços... Assim pensava sua

senhoria quando deu com os pequenos, que iam a passinhos preguiçosos

e esfregando os olhos com os punhos, em direitura ao tumulto. E ao

vêl-os tão unidos cresceu-lhe uma raiva de dentro, biliosa e vingadora.

Separou-os com um safanão furibundo.

--Sucia de marotos, que os enforco!

E dirigindo-se ao Ricardo:

--Vossemecê não tem vergonha em andar com o filho do ladrão que matou o

seu pai, hein?

E para o Manel que chorava aterrado d’aquella aggressão:

--A minha vontade era frigir-te, podengo!

E deu-lhe um puxão de orelhas teso.

No dia seguinte foi o enterro. Era d’esses dias ardentes em que, nos

troncos das oliveiras as cigarras cantam, e as rôlas se abatem por

dezenas sobre as ultimas poças verdenegras dos ribeiros. Apenas o sino

chamou a padres e o prior appareceu precedido do sacrista de cruz

e caldeirinha, viu-se sahir de casa da Joanna o cortejo. Adiante o

sacrista ia de cruz alta e campainha na mão--velho marau de sapateiro,

de olho patife e calva luzidia, dos que sabem quantos escandalos usam

acompanhar toda a gente do berço ao sepulchro.

Fôra noviço de capuchos, adquirira habitos de glotão e de bebedo,

aprendendo a negar a mulher decente. Rosnava-se um pouco das suas

relações com a snr.ª Magdalena do prior, e temia-se em geral do seu

cynismo correlacionado, segundo se affirmava, com o do diabo, pelo

desfastio com que pisava rosarios bentos e fatias de pão torrado. As

beatas fulminavam contra elle exorcismos temerosos, porque á sahida

de uma missa de finados ourinára na pia da agua benta, estando bebedo.

De cruz alçada e opa escarlate, Zé do Ó caminhava piscando o olho ás

mulheres, que em saia de estamenha e sapatos de couro crú viam da

soleira marchar a procissão da morte, lacrimosas e trocando lamentos.

A partir d’elle, duas filas de homens do campo seguiam com os fatos de

aspera saragoça dos domingos, chapéos de Braga nos olhos, ornados de

uma borla redonda, e os capotes de baetão das mulheres nos hombros.

Alguns ainda novos, que tinham sido amigos do Jerolmo e como elle

destinados sem resistencia ou vacillação, de pequenos, para cavadores,

iam com os olhos vermelhos voltando a cara, envergonhados de serem

vistos em pranto pelas mulheres que vinham ás portas e ás esquinas das

ruas, rodeadas dos filhos descalços. Viam-se os altos pescoços curtidos

pelas calmas do estio e pelas ventanias do inverno, no convivio dos

trabalhos de picareta, de arado e de fouce.

As mãos de enormes dedos coreáceos e palmas rugosas de callos, tinham

curvas unhas, disformes de martelladas e entalões. Nos dorsos, as vêas

de uma espessura consideravel ramificavam-se-lhes em arvore saliente,

pondo em pregas a epiderme de poros largos, de que sahiam cabellos.

Alguns eram já velhos e curvados, contando trinta, quarenta e cincoenta

annos de labuta em charneca, nas lavouras, nas ceifas, nas ferras

do gado, no córte dos azinhaes e na recovagem de noite por caminhos

terriveis, de matagal em matagal. Tinham as cabeças brancas e o passo

vago, e olhavam com esse olhar vazio de quem nunca teve esperança e de

quem jámais teve fortuna. Haviam ganho toda a vida o mesmo salario,

cobrindo-se de filhos constantemente e fazendo da fecundidade uma

distracção, a unica, que lhes era dada, e que ainda assim caro pagavam.

Dois ou tres nunca haviam possuido um fato novo. Quasi todos tinham

andado descalços e rotos até aos vinte annos.

Havia n’essas faces, mesmo fóra dos enterros, o mesmo ar lugubre e

suspenso que alli mostravam; pareciam seguir como se aguardassem alguma

cousa retardada de ha muito, boçaes e emparvoados, não dando pela carie

dos dentes e pelo espasmo de humildade que os ia bestificando. Proximo

á tumba os irmãos da Joanna e os tios do Jerolmo iam affectando grande

mágoa com as golas dos capotes erguidas, cabeças baixas e amarradas

em lenços. Depois o padre: era alto, possantes hombros de tambor-mór,

a barba de cinco dias negrejando de espessa, um carrancudo alarve na

face. Como a volta era apertada, o seu pescoço extravasava gordurento

fazendo uma rosca de carne, que pendia reflectindo um rubor sobre a

pelle do queixo e da cara, d’onde o suor borbulhava. Tinha as orelhas

de um guardião, ar imperativo e voz grossa, em que a nota surda dos

desejos que se refreiam, dominava. Era um pouco agricultor e um pouco

musico e nas recitas da terra fazia papeis de tyranno, esbracejando

com furia para todos os lados. A tumba ia por fim, aos hombros de

quatro mendigos, e um rapaz após levava o banco de pinho para a fazer

descer, nos responsos.

Era um esquife de pau preto com balaustres delgados, tendo o ar d’um

berço. Na villa causava horror. Era com que mettiam medo ás crianças:

via-se-lhe pregada na cabeceira uma cruz preta, e um Christo de ferro

com resplendor de lata que tremia, agonisava pessimamente fundido,

mostrando os olhos vazios. No fundo via-se a enxerga coberta de paninho

preto em farrapos, onde deitavam os cadaveres, havia muito. Esse pano

tinha nodoas gommosas, á altura da cabeça. Os _va-nu-pieds_ abatidos

para a valla durante os ultimos quinze annos haviam alli impresso o

seu _remember_ de mucus sanguinolento, de que tresandava um fetido em

baforadas. Era onde ia o Jerolmo, vestido no seu fato de saragoça, com

sapatos de bezerro enormes nos pés, os dois pulsos unidos por uma tira

de chita negra a premir as mãos cruzadas no peito, na attitude de uma

imploração derradeira.

--Ainda hontem a estas horas estava são e vivo! era o pasmo da

villa.--E vinha todo um volume de ponderações sobre a fraqueza da

creatura de Deus.

Aos solavancos dos velhos que tinham desiguaes alturas, o corpo pendera

mais para uma banda; á menor anfractuosidade do caminho então, os

sobrecarregados rogavam surdamente as pragas mais torpes,--que nem

valia a pena levar um boi d’aquelles pelos seis vintens da esmola.

O mais ratão dos quatro era um velhito baixo, que mostrava escarlate

uma orbita sem olho e já cahira numa contramina de horta. Dizia elle

com bella emphase, todo serio:

--Como estas bestas morrem sem derreterem os toucinhos, senhores!

O garoto do banco escandalisou-se e resmungou:

--Vossemecê não tem vergonha em fazer mangação dos defuntos?

Os outros riram, e o mais alto:

--Caluda, filhote! Que ainda te havemos de levar adiante.

Mas o prior voltou-se, e da frente o sacristão veio correndo de cruz ao

hombro, em ar de clavina, com a caldeirinha estendida para o responso.

Os quatro da tumba pararam, o garoto estendeu o banco.

--Abaixo! ordenou o prior enfastiado.

O esquife desceu. Uma vida fecundante de atomos impalpaveis vibrava

na luz, metallica na irradiação da cupula amplissima. O enterro tinha

parado e todos se voltavam para traz, olhando o prior que espargia agua

benta sobre o corpo do Jerolmo. Estava-se quasi fóra da villa, ao meio

da rua ultima d’aquella banda, que entre filas de casebres caiados

corria, corcovando-se bruscamente depois sobre a azinhaga.

Como o sol batia de chapa, os trabalhadores faziam tecto com as mãos

em arco, á altura das sobrancelhas, abrindo a bocca e premindo as

palpebras, por uma contracção inconsciente de musculos faciaes. Sobre

os balcões das portas, as mulheres olhavam alongando saudosamente os

grandes olhos pretos, humidos de lagrimas. Abaixo da orla das saias

de chita viam-se os tornozêlos de algumas, calçados em meias de linha

azul. Muitas faziam meia, com os cabellos oleosos de azeite e a marrafa

separando as madeixas em duas pastas symetricas e alisadas. Na terra

das soleiras as crianças seminuas rolavam-se rindo; um fumo raso subia

das chaminés. Na ultima porta tinham acabado de jantar e via-se a malga

na mesa baixa, os garfos de ferro com tres dentes apenas, restos do

enorme pão da amassadura da semana, e em torno inda sentada a familia,

onde o chefe, velho pastor de polainas altas e ampla calva, rezava de

mãos postas e labios mexendo, com o chapeirão nos joelhos.

O Jerolmo era muito estimado. Todos diziam --coitadinho!--lagrimejando.

E enumeravam as suas virtudes, o seu bom genio, a sua economia, a sua

temperança. Os bons leva Deus, que são do céo, dizia uma velha. Mas

a voz do prior ouviu-se imperativa e cheia de sabedoria em ruminação

de latins, e fez-se um silencio piedoso. Toda a gente ajoelhou, que

ninguem ouvia latim n’outra postura na villa. A recitação grave e n’uma

lingua estranha dava aos espiritos simples a profunda emoção de um fim

proximo e a lembrança de almas que partem para as regiões serenas da

bemaventurança com o seu peculio de graças adquiridas e azas brancas da

innocencia. O prior ia dizendo:

--_De profundis clamavit ad te Domine. Domine exaudi vocem meam; nec

aspiciat me visus hominis._

_Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison! Pater noster..._

E as vozes rezavam baixo n’um côro murmurado, que ia como o som do

vento n’uma fenda, alternadamente agonisando e subindo até se perder,

á ultima aspersão de agua benta do prior. De pescoço estendido as

mulheres brancas de pavor, olhavam ao meio da rua o esquife envolto na

luz, onde ia o corpo do trabalhador, retesado na rigidez que antecede

a podridão. Descahira-lhe a cabeça para traz por haver escorregado

um pouco a cabeceira da enxerga, e o bordo da queixada, de uma linha

parabolica, repuxava-lhe angustiosamente os tendões do pescoço

esverdinhado, em que fazia corcova o nó da guela inutil.

Corria-lhe das ventas um fio de sangue negro que os moscardos vinham

beber zumbindo, e por entre os dentes a espaços, na bocca que se

abrira na convulsão da ultima hora, gotas de gaz podre faziam crepitar

globosinhos, da intima fermentação que progredia.

Os amigos d’outro tempo tiravam então o lenço do bolso das véstias e

sahiam aos dois e aos tres do seu lugar, para piedosamente virem limpar

a cara e os labios do Jerolmo.

--Bemdito seja Deus! diziam, apavorados pelo fervilhar da corrupção

cadaverica que a torridez do sol activava prodigiosamente.

O prior tinha acabado o responso e abrira o seu enorme chapéo de sol.

--Carreguem, ordenou sua reverencia aos quatro homens. E o enterro

entrou na azinhaga que ia dar ao cemiterio.

Cada qual sentindo-se um pouco á vontade no campo, teve a necessidade

de fallar na sua vida, cousas alegres e capazes de afugentar os maus

pesadêlos da cova.

--Quem teve seara guapa foi cá o mariola!--ia dizendo um homemzarrão, e

depunha os grossos dedos no hombro de um secco, de olho desconfiado.

--É p’ra que saiba. E ainda temos hoje um calcadouro de tremez.

--E quando chega esse casorio? quiz saber um rapazola louro, riso boçal

de pobre diabo.

--Está p’ra tarde. Antes da vindima não, diziam.

O de olho desconfiado não dava palavra, deixando que respondessem por

elle.

--E moça de estimação. Desenxovalhada e mais branca!... Seio de encher

olho e golpelha, c’os diabos!

--Pódes lá com uma vacca d’aquellas, meu poeta!--diziam-lhe. Aquillo é

mulher p’ra te bater, ó Rato!

O de olho desconfiado ria, e disse pachorrentamente:

--Quatro mil cruzados em terras, está dourada que nem uma princeza,

rica saude e vinte e quatro annos. Um sobr’olho preto; que mais quero?

O louro conhecia-a e o seu riso abria-se sensualisado, com uma

reminiscencia gulosa.

--Está bem de vêr! Está bem de vêr!

A calma picava. Sentia-se zumbirem os insectos, e ao longe nas

oliveiras o ciciar das cigarras punha um ruido secco. Do outro lado

discutia-se a Joanna, ainda frescalhona; apesar dos dois filhos aquillo

vinha a casar ainda.

--Não seria eu que casasse com ella. Entrando só com o corpo e ter de

aturar dois diabos! Olha a fortuna!

--Cá p’ra mim, dizia um barbado, mulher que casa duas vezes é capaz de

pregal-os ao marido.

--É a _minha_ systema! Mulher só p’ra um homem! O mais, cabras!

--Homem, que hão-de ellas fazer? perguntava um benevolo.

--Mas a Joanna fica mal, coitadita. Elles não tinham fazenda. Teem o

burro, as casitas, uma geira de terra além ás Taypas...

--Demais, o irmão do Jerolmo quer partilhas.

--Qual! tornou um viuvo, entendido.--Ha filhos. Só se levar a cinza da

lareira, que é boa p’ra barrelas.

--Como ha-de a pobresita governar os pequenos?

--Ora! Como? Como as mais, no campo. E a Rita Santinha e a Thereza

do Mudo, não vivem? Á monda, á empa, á vindima, á ceifa. Pois onde?

Avezada a tudo como está, póde bem fazel-o.

--E nada má, fazia surdamente um amarellento, com certo riso.

Os vallados prolongavam agora a facha da rua que findára, e eram alli

altos os silvados e tão robustos os cachos de amoras, que os rapazes

mais novos sahiram do renque para fazer provisão. Estavam ao cimo da

collina. O cemiterio ficava a meia encosta, cintado em muros brancos,

com uma cruz de ferro na fachada. Do ponto do caminho em que iam,

a paizagem era da mais plena largueza de horisonte e da mais bella

disposição de promenores. Convergiam de ambos os lados as courellas

ceifadas, sobre a garganta do valle, que ia perder-se a pouca distancia

junto do ribeiro e aos pés de uma antiga orla de choupos e faias.

Das ouvielas dos ferragiaes e das vinhas irrompiam seccos os pastos,

cammomillas, malmequeres, grizandas, maravilhas e enormes cardos de

calices espinhosos. Para a esquerda ondulava n’um mar verde vivo,

quasi sem gradações, fatigante e sadia, a região das vinhas. Figueiras

gigantes abriam até ao chão parasoes metallicos de largos folhedos,

sobre que revoava a pardalada. Aqui e além as hortas abriam na grande

symphonia chromatica, uma cadencia graciosa de tons bronze e verde

salsa; as nogueiras junto dos tanques ensombravam sofregamente as nóras

e cisternas, usurarias da frescura. Á direita era olival, tristonho e

abrazado. No ribeiro á sombra dos canaviaes, as lavadeiras batiam as

roupas, cantando. O fio d’agua era tenue como de uma vida que pouco a

pouco se desprende, e serpeando por baixo do arco da ponte, onde um

tufo de eucalyptos novos bolia, ia expirar lentamente na arêa, sob as

raizes sequiosas das junças e escalrachos.

Era junto dos eucalyptos mesmo, que o Ricardo mais o Manel estavam á

pesca das rãs, quando o enterro appareceu em cima. De entretidos nem

deram por tal. Haviam conseguido de manhãsinha logo, escapulir-se de

casa em quanto as mães soluçavam e as comadres iam prodigalisando

lamentações e consolos de momento.

--Não sabes o que a mãi disse, ó Manel?

--Que foi?

--Que em ella me vendo andar comtigo me havia de dar sova.

--É mentira, deixa fallar, é mentira.

--Olha, o pai morreu, tornou o Ricardo. Já não ralha, pois não?

--Nada que não! Em fazendo trovões.

--Oh vamos brincar?

--Eu cá dispo a véstia. Peço um pedaço de pão á minha mãi e não

appareço senão ás Trindades, expoz o Manel todo resoluto da idéa.

--E eu cá tambem.

--Olha, disse o Manel abrindo os olhos espertos, que um embevecimento

clareava. Vamos ás rãs?

--Oh vamos.

As rãs eram a paixão dos dois, o seu sonho, a sua coisa mais

ambicionada na vida. Tinham construido sobre ellas as lendas mais

extraordinarias e feito, por copia do que ouviam ás mães, uma

quantidade de promessas aos santos se um dia conseguissem apanhar uma

viva, das grandes.

Á tardinha, quando os olhos vigilantes da Joanna por um instante os

largavam, corriam logo para o ribeiro. Á chegada dos dois as rãs

saltavam de todos os lados, da espessura dos juncos e mentrastes,

sobre a agua dos charcos com um sonoro _plhau_! na profundeza dos

pégos. Calavam-se logo agachados no tufo de eucalyptos, esperando

pacientemente a occasião. N’uma circumvolução do regato, pensando-se

sósinhas algumas das rãs coaxavam á flôr d’agua, erguendo acima do

nivel tranquillo as chatas cabeças verdes, olhos estourados de iris

côr de ouro, a enorme bocca semi-elliptica aberta ao ar n’uma especie

de sorriso extatico, e a fila de pequeninos dentes corneos um pouco

curvos, dispostos para a apprehensão dos animalculos. Erguiam-se então

com grandes precauções e subtilezas, acautelavam extraordinariamente

o ruido das passadas, promettendo baixinho na febre do desejo, duzias

de padre-nossos a Santo Antonio se _fosse servido_ entregar-lhes

algum dos animaesinhos que faziam a sua paixão e o seu desespero. Mas

precipitados como eram não conseguiam jámais aprisionar os elegantes

anuros, e cahindo a noite das montanhas azues alinhadas em decoração ao

fundo da paisagem ridente, voltavam cheios de tristeza e cansaço para

as cêas da familia, acabando por adormecer um ao pé do outro. Na volta

sentiam com surda raiva o côro de rãs unisono e forte, magnificamente

instrumentado de ironias, que parecia de proposito erguido para lhes

saudar a retirada e escarnecer do desalento e pouca arte que empregavam

na pescaria. Tal côro, na penumbra mysteriosa e vasta dos campos, tinha

a concentração harmonica e a poesia nubigava de um threno--hymno de

liberdade de uma colonia que de subito readquire a sua independencia.

O Manel, especialmente, embirrava com a troça. E com mão rapida, fazia

chover nas poças d’agua mais sonoras, grandes pedras talhadas em cunha

e seguidas de pragas adequadas ao caso e á solidão do lugar.

Tinham ouvido aos rapazes que as pernas das rãs tinham uma carne

excellente e branca, tenra e fina como a de gallinha. Nenhum d’elles

comera ainda: mas era magnifico! Tinha-lhe contado o _Coxo_, um idiota

da terra, que uma vez apanhara uma rã muito grande. E vai abriu-a, e

tinha na barriga um canivetinho de duas folhas, muito bonito. Para

os dois pequenos, ter um canivete de duas folhas era uma opulencia

inestimavel. Em qualquer d’elles, nos dias de desavenças ou amuos,

querendo fazer sombra ao outro, já dizia:

--Deixa estar que eu hei-de ter um canivetinho de duas folhas e tu não!

--Ha-de, uma figa torta! dizia logo o outro.

Porque traziam as rãs canivetesinhos na barriga? Não sabiam. Mas

traziam, traziam!

O Manel que era o mais imaginoso, entrava a explicar que as rãs faziam

buracos pelo chão, furavam, furavam... e iam ter á loja do Vieira para

roubarem as navalhinhas. Então o Ricardo ria.

--Mentira!

E com a vózita gaguejada, phantasiava por seu turno uma theoria sobre

os canivetes. E ambos á borda das poças se interrogavam de vez em

quando, surprezos:

--Mas como será que ellas teem canivetes lá por dentro? Aquillo é cousa

que os engolem.

--Qual!

Como o calor era intenso, os anuros andavam no fundo da agua, por baixo

de limos reticulados com a delicadeza de frócos. O tufo d’eucalyptos

lançava porém sobre o pégo mais proximo da ponte uma sombra alongada:

alli sentia-se coaxar. As duas crianças agachadas quedavam-se, á

espreita:

--Que cantoria que fazem! dizia baixinho o Ricardo.

--Deixa! resmungou o outro com ares fanfarrões. Eu dou cabo d’aquelles

diabos.

Piscava os olhinhos com intenção, tirando do bolso um pedaço d’arame

aguçado.

--Ellas apparecem, eu vou com isto estendido e tancho-as por uma perna.

E com profundo desdem:

--Hoje _não é cá preciso_ padre-nossos!...

Foram-se aproximando do pégo, de gatinhas. Viam-se os tornozêlos do

Ricardo, grossos e de ligamentos inabalaveis, e o pé polpudo e forte,

bom para firmar o corpo. Devia ser de estatura mediana e muito robusto,

de rico sangue. Pela camisa aberta e rasgada via-se o contraste da

carne branca do tronco com a epiderme fulva da cara e das mãos. Solido

como um novilho devia ter a indole ingenua e boa do Jerolmo, como lhe

herdára a enformação animal. O Manel era esguio e secco, anguloso de

ossatura. Tinha os cabellos corredios e as mãos estreitas, com unhas

que revestiam quasi o dorso das phalanges terminaes. Era já teimoso e

de nervos susceptiveis. A sua organisação sensibilissima, presentida,

daria mais tarde o typo physicamente inhabil para a labuta da enxada

e em construcção perpetua de estratagemas. Tinha os olhos grandes e

lucidos como dois onyx molhados, e a linha do nariz sem proeminencia,

fazendo lembrar na cara _olivatre_ e comprida o que quer que era de

_masque_ egypcia. Áquelle tempo, o sino da Misericordia mandava o

ultimo dobre de finados. E o som badalado de quebrada em quebrada

chegou ás crianças.

O Ricardo parou, erguendo a cabeça. Alongava os olhos com essa tristeza

vaga dos que de outra fórma não conseguem formular uma commoção

interior. Lembrava-lhe o pai morto que iam metter na cova. Como essas

naturezas que a musica enche de soluços e de invencivel angustia,

o sino com aquella toada grave e preguiçosa--Tlão! Tlão!--Tlão!

Tlão!--dava-lhe como uma reminiscencia lugubre.

A esse tempo o Manel erguera-se tambem, esquecido da pesca. E os seus

olhos deram com o enterro. O Zé do Ó ia entrando já pelo cemiterio, a

opa escarlate parecia de longe uma papoila cortada que o vento impelle.

Na meia-laranja da porta depois, os homens de escuro apinhavam-se para

deixar passar a tumba, muito alta aos hombros dos velhos, em que o

Jerolmo de mãos postas oscillava penetrando os muros brancos.

--É o teu pai! fez o Manel.

--Vai pró céo, então não vai?

--Está visto!

--Elle não gostava do teu, então gostava?

--Não gostava! O meu anda sempre bebedo. É tão mau!... Dá com a corda.

--Ó Manel! Manel!

--Que é?

--A _gente havemos_ de ser amigos sempre, então não havemos?

--Havemos.

--E brincar sempre, então não havemos?

O outro não respondeu. Em quanto o Ricardo de gatas se adiantava para

o pégo com o arame na mão, os olhos do filho da visinha acompanhavam

de longe os movimentos da massa de gente negra que viera ao enterro.

Toda a noite a mãi chorára, miseravelmente abatida sobre a enxerga que

servia tambem para albardar o burro.

O pai fôra levado entre cabos de policia para a cadêa de Evora, com

as mãos atadas nas costas e o fato roto. No puxão de orelhas e nas

palavras desprezivas do prior sentira que estava filho de um assassino.

Ouvia n’uma toada fatidica os signaes da Misericordia. Então as

suas narinas palpitaram, sentiu na garganta como um novello que se

engrossava para o estrangular. Uma cousa abateu-o todo, percorrendo-o

de uma estranha galvanisação de mágoas.

Entrou a chorar alto, com profundos soluços que n’um jogo brusco lhe

alevantavam as pobres costellas esburgadas.

--Deixa, dizia o Ricardo puxando-lhe as calças, deixa lá. A mãi não

ralha, não.

E esquecidos, innocentes, recomeçaram a pescaria. Do outro lado da

ponte as lavadeiras tinham cessado de bater roupa. As suas vozes

cobriam de pragas o _Estragado_, assassino, bebedo e ladrão, que Deus

confundisse na outra vida e as justiças degredassem n’esta, para càsa

do inferno.

[Illustração]

O TIO DA AMERICA

Contos(#70819) · 第 7 / 19 段