O aprendiz dera-lhe vestidos novos, uma pequena capa de xadrez, mantas,

roupas de patente com abertos. E tudo andava pendurado pelas portas, á

poeira e aos encontrões, desmazeladamente. Passava horas penteando os

seus cabellos ruivos, annelados e finos, de lustro macio e espessura

abundante, phantasiando penteados, ensaiando laços, cuias arrebitadas,

vaidadesinhas de criança. Outras vezes amanhecia preoccupada,

taciturna, nervosa, salivando pelos cantos; fazia o almoço muito cedo.

O João ainda ficava ás vezes na cama: ella ia devagarinho olhal-o;

aproximava-se curiosa, absorta no vulto do aprendiz que arfava sob

as roupas mornas. E cheia de vertigens, de subitaneas paixões que

rebentavam do seu temperamento em espiraes de desejos, lançava-se a

elle, abraçando-o como doida, fazendo as protestações mais vivas e os

amuos mais dôces, tentando vender-se sob uma face nova, inventando

mesmo ardores, manias e excentricos phrenesis inexplicaveis. No meio de

tudo isto, e afóra estes arrulhos, o seu desarranjo era o mesmo; não

lhe passava pela cabeça que captivaria o seu homem, tornando-lhe o lar

alegre, limpo, fresco, fazendo luzir a boa ordem, a boa administração

e o decoro nos mais simples pormenores da residencia. Fóra do peccado

mortal, não tinha prestimo, nem imaginação, nem proposito.

E n’este meio o seu corpo desenvolvera-se um pouco; os seios

ampliaram-se n’uma curva graciosa, de contorno quasi casto; e esmaltado

de pallidez morbida, lasciva e um pouco scismadora, o seu rosto era

dôce, de uma harmonia dolente, como certas pinturas de virgens martyres

que oram em attitudes pias, no fundo das capellas da arte gothica.

Um dia o João achou-a fetida, cheirando a saias velhas; nunca mais lhe

sahiu esta idéa da mente; entrou a achal-a esqueletica e cançada; ao

deitar-se fazia um esforço para não parecer saciado, mas os seus beijos

eram frios, convencionaes, espaçados. Ella reclamava, cobrindo-o da sua

paixão como de um caustico, querendo reapoderar-se d’um amor que lhe

sentia fugir e padecendo em balde, ciumes de todo o mundo. E começou

a desconfiar, a seguir o João á officina, a furtar-lhe as voltas. Nas

menores palavras que elle dizia encontrava dois sentidos, o apparente,

e o occulto que parecia envolver sempre um sarcasmo, uma ameaça, um

insulto. Foi uma lucta tremenda; a sós fallava alto, altercava comsigo

mesma, dizia pragas, architectando projectos de vingança e planos de

seducção.

Havia horas em que a sua vontade era morrer, tomar qualquer corrosivo,

precipitar-se da muralha de S. Pedro de Alcantara; outras vezes

estalava de afflicçoes, contorcia-se em desvairamentos supremos,

querendo chorar, soluçar, pôr em evidencia a sua sorte. Quando elle

vinha, affectava rosto sereno, uma certa despreoccupação feliz: mas

a sua gana era apertar-lhe as guelas, para que outra o não gozasse.

Em quanto o João comia, ella encostada á porta da cozinha punha-se a

fital-o do fundo da sua paixão damnada, cheia de idéas tragicas. Uma

noite agarrou-o pela cintura, os olhos envidraçados:

--Tinha mesmo vontade de te matar! disse sofrega. O João riu-se,

olhando-a; mas ficou logo todo serio, abrazado n’aquella ancia, e uma

corrente galvanica percorria-o, nascida no olhar d’ella, sequioso e

feroz, cheio de gula e de fel.

Vieram então as pequenas especulações, as pequenas ciladas sujeitas

todas a um plano geral de má indole, de reserva e de ciume--da parte

de Carolina. Umas vezes, era o jantar que não estava prompto a horas,

outras reclamava bugigangas de adorno, fitinhas, meias de riscas

escarlates.

O João satisfazia tudo, ouvia tudo, mas era-lhe indifferente esta ou

aquella deliberação; tudo achava capaz, assisado, justo.

Já não era o mesmo. Emmagrecera nas faces e andava pallido, com os

olhos fundos de cansaço. Tinha agora para mirar as mulheres uma

attenção persistente, uma fixidez de olhar que as percorria todas,

desde os cabellos até aos pés. E muitas vezes na rua voltava-se para

traz, seguindo as que lhe passavam perto. As suas predilecções eram

todas para as roliças, e sentia furores pelas trigueiras, em cujo labio

superior via ensombrar-se a penugemzinha de um buço, denotativo de

vivacidades de temperamento e escandecencias de sangue.

--Mulher que se sinta nas mãos! notava elle rudemente.

Esta transição demarcava o homem feito e precocemente liberto das

ultimas infantilidades, homem com caracteristicos de appetite,

phrenesis e vacillações de caracter.

A cara emborbulhára-se-lhe de barba, tinha-lhe engrossado a voz e

accentuava-se um cunho imperioso no seu modo de dizer.

Na officina, quando de manhã apparecia em algum d’aquelles desalentos

profundos, nascidos da desordem das noites, os collegas riam-se

cobrindo-o de chufas e apoquentando-o com perguntinhas velhacas.

Do seu banco, o Ferreira não dava palavra, mas de quando em quando

sahia-lhe um canto nasal, espaçado por grandes silencios, que era a sua

fórmula de raiva brusca, recalcada por sessenta annos de prudencia.

Os intimos porém queriam da bocca do João saber por força como tinha

sido, se adormecera tarde e se a lua de mel continuava. Entre risadas

apupavam-no dos bancos de trabalho:

--É o mez dos gatos, não admira, diziam.

Elle dava cavaco em ouvindo estes dichotes. Ficára mal com os dois

ou tres mais atrevidos, jurando que faria alguma ainda. O seu genio

concentrava-se n’um silencio reflexivo, quasi triste. Era muito exacto

ás horas do trabalho, pacientissimo aos ralhos da rapariga, vivia pouco

em casa, recolhia tarde. Ella uma vez observou-lhe:

--Tu já não és o mesmo rapaz, João!

--Ahi vens com tolices, tornou elle.

Carolina invadia-se de um terror desconhecido, toda entregue a uma

desconsolação.

Uma tarde a Marcellina appareceu:

--Adeus, filha, adeus.--E notando a commoda, as cadeiras:--Viva! Isto é

que é! isto é que é!... Viu-se tafularia maior?--E mirando Carolina:

--Que senhoraça, que senhoraça! Toda no chefe. Sua espiguilha no

casibeque, sua cruz ao pescoço... Ai! quem tem homem não sabe o que

tem. Vejam como tudo está mudado.--E baixo:--Quanto custou cada

metro?--Apalpava a fazenda do vestido, esfregando-a, estudando a

espessura. E expluiu logo em narrativas, que a mulata tornára para

o hospital, e morrera! Minhas ricas quatro moedas, que fiquei a vêr

navios. E azorragando os caloteiros abria a caixa de tartaruga, tomava

rapé com os dedos em leque, sorvendo com grande delicia, o olhar

piedoso.

--Como te vaes dando com elle? inquiriu, passado tempo.

--Bem; então como? É muito bom rapaz, lá isso sempre o direi.

--Bom genio, hein?

--Bom genio...--E vencendo uma repugnancia, affectando grande franqueza

para com a velhona:--Olhe, todos nós temos as nossas cousas, percebe?

--Está visto, está visto. Que bom, só Deus.--Fizeram um silencio beato.

A Marcellina desconfiava já que tinha havido _mócada_. Interrogou cheia

de curiosidade:

--Mas houve alguma cousa?

--Não. O que havia de haver? Hoje em dia, uma mulher precisa saber de

tudo. Eu confesso a verdade: de engommados não sei. Quem é pobre não

usa certas cousas.

--N’isso fui eu sempre, com’a primeira. Não é por me gabar. Que engommo

encanudados ainda hoje, como poucas--e explicita:--e que é uma das

cousas mais custosas de fazer bem, o engommado!... só o polimento!...

--É verdade, é verdade, dizia Carolina.

--Mas o que? Elle disse alguma _piada_ por isso?

--Estranhou. Elle nunca se zanga.--Armava no rosto uma soberania

indomavel.--Zangar-se? Oh!... tenho-o aqui fechado--e estendia o

punho--mas...

--Ora dize a verdade: tu queres contar-me alguma. Co’os diabos! Bem

sabes como eu sou. Falla á vontade. Se eu te puder valer... p’r’ás

amigas estou ás _ordes_.

--Olhe, é verdade. O João nos primeiros dias, eram excessos que nem eu

sei. Andavamos sempre aos abraços, ás festinhas, nunca nos separavamos.

Mas ha uns dias que o vejo apoquentado, mettido comsigo; come e vai-se

com Deus; hoje não gostou do jantar; passa as noites fóra, recolhe-se

altas horas; a minha desgraça!--A velha pasmava.

--Pois olha, fartou-se cedo, o melro! Então será de má bocca? Mas não

desconfias de nada? Não lhe déste tu motivo?

--Que eu saiba, não. Talvez se aborreça por eu não saber bem governar

a casa. Sempre disse: nunca Deus me dará fortuna em cousa nenhuma!--A

Marcellina reflectia. E d’alli a pouco:

--Queres tu experimentar as cartas? A vêr o que dizem.--Carolina

estremeceu.

--Credo! Tenho medo.--E mais baixo:--Dizem que apparece o diabo!...

Ficaram caladas. E depois:

--A mim, ninguem me tira da cabeça que o João anda de _olho_ com alguma

_gaja_.

Puzeram-se a fallar no tempo. Marcellina ergueu-se para sahir.

--Se elle te não quizer, filha, não morrerás de fome por isso. Graças a

Deus, em quanto houver homens, qualquer mulher se governa. Tive muito

d’isso, tive. Ai!... Tomára-me n’esse tempo!--Desceu a escada. Á porta

observou, piscando maganamente o olho:

--Não fui das que gozei menos, não. Que até condes beijaram este

palminho de cara. Ai! Bom tempo!--E serviçal:--Eu indagarei, eu

indagarei a cousa.

A rapariga não dormiu n’essa noite. Ergueu-se inda lusco-fusco,

cabeça pesada, uma fadiga enorme nos membros. Sentia que a sua vida

oscillava na noticia que a Marcellina trouxesse, como n’um fulcro de

aço uma agulha magnetica. Ao meio dia de feito, a velha voltou, olho

arregalado, agilidade de alcoviteira no andar, rebolando-se, co’as

barbicas assanhadas.

--Sabes tu, sabes tu? Vai todas as noites ao Moinho de Vento palestrar

com uma sirigaita do primeiro andar, mesmo á esquina do pateo, por cima

da loja de louça. Está alli horas ao relento, a _tomar argarejos_: só

com uma carga de pau!

--Por isso elle vem tarde!...

--Vejam as habilidades do Santo Antoninho de quinta, hein? Ahi está

para que elle se empenhou tanto commigo, para chegar á tua falla;

vês tu?--Atafulhava as ventas de simonte. Carolina ficára morta de

surpreza, de terrores, e desesperação.

--A minha desgraça! repetia. A minha desgraça!...

--Quem me contou tudo foi a Mathildes, uma que engomma para fóra; eu

estava mesmo parvinha de todo, nem o queria crêr, vê tu lá. A gente vê

caras não vê corações: é certo. E para mais é todo amigalhaço do irmão

_da dita pessoa_; andam sempre de sucia, grandes chalaças, sim senhor;

franquezas de tabaco; para onde quer que vão, vá de vinhaça, _comes e

bebes_, com toda a grandeza! Ai! hoje _presentemente_, minha rica, nem

uma creatura sabe para o que está guardada. Algum dia em acontecendo

uma d’estas, parece que até _ia tudo raso_. Havia justiças, muita

obediencia; então com quem brincavam elles? Hoje... Eu até fiquei sem

vontade de comer: t’arrenego! e depois veio-me a dôr.--Dava um estalo

com a lingua.--Mas deixa estar, que t’o cantarei.--Carolina nem ouvia.

--E agora? disse ella com um gemido, atirando-se com uma grande

angustia sobre os colchões, miseravel na sua decepção.

A Marcellina tentava fazel-a sentar, compondo um rosto compungido. E

dizia a espaços:

--Ó filha, pelo amor de Deus! Isso não é agora morte de homem. Ha

muitos modos de governo. Estavamos servidas se fossemos agora a morrer

por todos os malandros que se _raspam_, em nos apanhando.

E como achando o modo de tudo solver, em quanto a outra chorava:

--Olha, pódes-te empregar na fabrica, dois tostões por dia;

leva-se _lunch_.--E muito baixo:--para quem quer _reinar_, nada

melhor.--Piscava o olho:--percebes, percebes?--E desenvolvia projectos,

propunha expedientes.

Encontras logo arranjo; nas fabricas então é _como passastes_. Conheço

lá muitas que andam alli mais estimadas, que eu sei; ellas bem

vestidas, bem _doiradas_, arranjo de seu, alli o jantarinho de carne

todos os dias...

--Gente sem vergonha! commentou Carolina, com voz cantada pelo pranto.

--Ora historias, filha, historias!--E sentenciosa:--Que n’isto de

vergonha cada qual toma da que gosta. Em se evitando fallas do povo,

deixa andar. Dois dias que a gente anda por cá...--E generalisando a

doutrina que prégára:--se vamos assim, então não ha ninguem de vergonha

no mundo.--Carolina abanava a cabeça. A velha com ademanes de mestra,

cuspia-lhe no animo a sua piedade de estafermo.

--Ainda estás muito verde, minha rica! dizia.

Cahiram em silencio. Ás vezes soluços fundos, estrangulavam a garganta

da rapariga.

--E eu que cri em tudo! lamentava ella.

--E não queres vêr? Eu iria pôr a mão nos livros sagrados. Não me

salve, se julguei que succederia isto.--E com voz cantada:--vamos nós

agora a vêr o fio da meada. Como diabo sahirá elle d’esta?

--Como sahirá? casando com a outra. Vejam como. Lá tem o irmão que a

defenda. Só eu não tive quem me aconselhasse.--E desfazia-se n’um choro

intimo, dizendo a sua infelicidade.--Morre quem faz falta, só Deus me

não chama p’ra si...

Havia tempo que homens altercavam na rua, entre sons de guitarras. De

repente, uma voz avinhada disse um _fado_ choroso, em que se despediam

almas e se davam facadas, em verso. Rameiras de grandes caudas de gomma

riam com estrepito, dizendo doçuras roucas, de uma vadiagem canalha.

Carolina gemera:

--Ai vida, vida! Só aquellas nunca estão tristes!

A velha tinha-se erguido, interessada na algazarra da rua, curiosa de

espreitar a pandega como um antigo commensal expulso. A voz dizia:

_Pobres donzellas honradas,

Quanto de vós tenho dó!_...

..........................

Carolina de cabeça um pouco erguida, tinha ficado a escutar; toda a

gente ria quando ella chorava!... Em que coração acharia interesse?--E

via de pé a sua desdita envolta em fumos negros, olhal-a cheia de

rancor inquebrantavel. Queria recordar-se da sua meninice, como quem

se refugia, mas diante d’ella desfilavam recordações lugubres, surgiam

grupos de mortos, filas de cyprestes, um coveiro encanecido que erguia

a enxada, cantando.

Não tinha a menor idéa do que fosse ter mãi ou ter amigas. No

seu contacto com a gente, entrevira apenas o tenebroso fundo de

bestialidade que referve em cada homem, com um fragor de luxuria

cruel. Vivera sempre em si propria, sem a reminiscencia de um carinho

que alma piedosa lhe houvesse prodigalisado. Quantos beijos deixára

roubar aos moços do cemiterio e quantas palavras tinha merecido aos

gatos pingados, todas vinham hervadas da mesma idéa e do mesmo intento.

E assim crescera n’aquella incultura de espirito sem guia, sentindo

dentro avigorentar-se-lhe apenas uma tendencia--a da cadella fertil,

que vai entregar-se. Através da sensação rudemente nascida olhára

o mundo, esfaimada e torpe como se fôra um verme descommunal das

sepulturas, incapaz pelos desolados scenarios que tinha contemplado nos

seus dias de criança, de dar accesso na sua alma ás multiplices emoções

e susceptibilidades hystericas, que fazem da mulher o precioso receptor

das cousas mais subtis, que a lingua não exprime e os olhos mal sabem

formular.

Tinha-se dado ao primeiro que chegára, sem condições e sem receios de

pudor. Fôra a Marcellina a causa de tudo. Para que lhe viera contar de

padres babosos e varinas amancebadas?

E detida, conscia de um desalento mortal, sentia na penumbra os olhos

de Marcellina, cahidos sobre a sua cabeça com um brilho fatidico. Fóra,

riam com estrepito no meio de disputas sordidas. A velha tomou-lhe a

mão, aproximaram-se ambas da janella.

--Queres um conselho mesmo cá de dentro, queres?

--Que é? fez a rapariga.

A outra estendeu o braço na direcção das janellas de taboinhas, e o seu

dedo engelhado apontou as cabeças de altos penteados, que destacavam

com relevo negro no tom vermelho dos quartos alumiados da casa

fronteira.

--Olha, disse ella. E com gesto de quem se impõe, de quem se mette

por uma pessoa dentro:--Lembra-te do que te digo hoje.--A sua voz

insistia, escolhendo os tons persuasivos, dôces, sinceros, e ao mesmo

tempo as suas palavras discretas, ditas no fundo d’um segredo, vinham

com uma intenção perfida, cheia de depravação. Carolina ficou hirta

perante aquellas insinuações, olhando com os seus olhos cheios de

febre, a cara franzida, esperta, d’essa megera que dominára o seu

destino impellindo-a na perdição e apontando-lh’a como um fim logico,

consequente e feliz. Grandes desvairamentos pulavam-lhe no craneo,

exagerando-lhe os sons, tornando-lhe as figuras sarcasticas e as

sombras lugubres. E as fontes pulavam-lhe, como molas premidas que

reagem; e o seu espirito dilacerado de afflicções saturava-se de alguma

coisa estranha, como o indifferentismo ou a idiotice.

* * * * *

N’essa noite o João entrou a deshoras; cambaleava de bebedo,

cantarolando todo cheio de terra, como quem tivesse cahido pelas ruas,

á porta das tabernas. Ella viu-o chegar sem se mostrar surpreza, como

quem esperava mais. Mas disse ao metter-se na cama, estas palavras sem

nexo:

--A fabrica...

E com um movimento imperceptivel de labios:

--O collegio...

E ficou a pensar, immovel, com os olhos fitos na luz.

* * * * *

Estas duas palavras representaram d’alli em diante o seu destino,

guiaram-na por um caminho espinhoso que sonhara ridente, em horas de

contemplação e plenitude.

Ao João era manifesto o tedio d’aquella vida e o mau estar d’aquella

união. Pouco a pouco, com transições insensiveis, as palavras

d’elle adquiriam notas asperas, grandes phrenesis inesperados, uma

taciturnidade crescente, moedora e constante. Ella experimentava

por seu turno uma altivez ferida e rebelde de mulher espesinhada e

esquecida por outra; em certos dias estrangulava de raivas surdas em

que resfolegava a espaços, a ancia de humilhar, infamar, perder alguem;

fazia arias estrondosas pelas casas fóra, garganteando pelintramente

como no theatro; mas a noite vinha gradual; ficava logo invadida

mortalmente de uma grande tristeza, de uma inexplicavel passibilidade

indifferente ao estimulo, dominada de presentimentos e architectando

toda tremula futuros famintos, esfarrapados e enfermos. Não passava

uma tarde sem vêr a Marcellina; juntas, parolavam durante horas,

desenrolando planos mysteriosos e discutindo futuros. A velha revelava

pormenores de officio, as subtilezas de que lançam mão certas mulheres,

o segredo de provocar, chamar, sorrir, andar na rua, mostrar as

riquezas do busto, conservar a face rosada, mesmo depois de uma noite

de orgia. Carolina reagia com monosyllabos apenas, a esta insinuação

torpe; mas abandonada pelo João, a fallar a verdade, que faria? Foi

assim que ella determinou entrar na fabrica, em Alcantara. O João não

oppôz resistencia; via o meio de afastar aquella rapariga importuna

que o estorvava nos seus projectos, nos seus namoros. Ia todas as

manhãs muito cedo, com o seu passo miudo e rapido, saracoteada e

risonha, com a sua manta de borlas, uma capa de escocez verde, saia

de folhos, o _lunch_ n’um cabazinho da Ilha. No caminho encontrava

as companheiras, moças alegres e desembaraçadas, cheias de risos,

largando chalaças de mordacidade equivoca. E iam todas por alli fóra.

Os merceeiros dirigiam-lhes afagos perfidos, apupavam-nas os gallegos

sujos, os estudantes e os soldados. Que pandega! Respondiam a tudo

com grandes risadas bebedas. Uma então, a Jeronyma, trigueira, a face

picada de bexigas, até dava encontrões nos policias, piscando os olhos:

e todas se divertiam a valer. Á entrada da fabrica, os operarios

davam-lhes abraços, com grande intimidade; tratavam-se todos por tu,

com uma algazarra incorrigivel, até que o fiscal, de barba branca, o

seu casacão amarello, um cachimbo preto de nogueira, abria as portas

da officina. No corredor, os operarios dividiam-se em turmas; uns iam

para o empapelamento dos cigarros; outros iam picar o tabaco; alguns

cortavam rotulos para as caixas de charutos. Se o borborinho crescia em

torno das longas mesas de trabalho, o fiscal erguia a voz:

--Nada de algazarra! Parece que estamos n’alguma feira!--E todos

fallavam baixo, contando historias pagãs de gente sem vergonha, de uma

sordidez de viella. Sem grande esforço Carolina aceitou estes habitos

que se lhe afiguravam de uma naturalidade legitima, tão sincera e tão

commoda. Affeiçoára-se á Jeronyma, participando das suas opiniões, dos

seus ditos, da sua fama. Ao escurecer o fiscal dizia, dando uma grande

palmada na mesa:

--Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo!--E todos largavam o

trabalho, tomavam os seus chapéos, os seus chales, os seus capotes; na

escuridão do corredor estalavam beijos, pares canalhas escorregavam

nas escadas, havia gritos, e a chusma em tumulto, n’uma desordem

vadia, atulhava rapidamente o pateo, combinando cêas, encontros,

relações impuras. Foi a vida melhor que Carolina viveu. Aquella grande

liberdade, infiltrára-lhe uma alegria espontanea, uma grande destreza,

um vigor manifesto. Ganhava dinheiro além d’isso; cabida nas graças

do fiscal, obtinha sempre uma feria bem favorecida, sua gorgeta para

alfinetes. Teve a partir d’aqui, pelo menos, uma duzia de amantes,

amantes de uma semana, de um dia, preferidos á noite, esquecidos no dia

seguinte, e concorrendo todos para a sustentação d’um luxo que pouco a

pouco se ia manifestando em Carolina. Um domingo appareceu em casa da

alcoviteira, toda penteada á moda, com um chapelinho de fitas verdes,

um casaco bordado de contas, meia de riscas, leque. A velha discutia

com duas raparigas o preço de um vestido de fazenda, que mostrava com

largos elogios.

--É um ovo por um real, minha rica, dizia.--Um vestido como novo!

--Mas seis mil reis é muito bom dinheiro, santinha!

--Pois olhem que da peça é o triplo do custo. Agora façam lá o que

quizerem.--E voltada para Carolina:

--Viv’ó luxo! Viv’ó luxo! Vaes _óservando_ que eu tinha razão no

que dizia.--E com insistencia:--tendo tino não ha cousa melhor, meu

anjo.--E baixo, tomando-a de parte:--E elle?

Carolina encolheu os hombros desdenhosa, um ar de desprezo. A velha

disse-lhe ao ouvido:

--Quem paga a renda da casa?

--Meu pai. Ha dois mezes que o não vejo, por tal signal.

--Pois filha, se o João não te serve para nada que se ponha ao fresco,

quanto antes. Primeiro, o teu governo.

--Sim, sim, disse ella pensativa.

E dirigida pela alcoviteira, começou a viver só.

Desde esse dia, as aventuras vieram-lhe por centenas. Conheceu todas

as especies de homens a quem se impingia ás horas, por baixo preço. As

gengivas tinham-se-lhe descarnado, pintava os beiços com carmim e para

o giro da noite cobria-se toda de pó d’arroz. Forçava-a a profissão

a pequenos sacrificios, no intento de agradar aos que a buscavam.

Comprimia os pés em sapatinhos altos, golpeados no peito para deixar

vêr a meia de côres.

Apertava a cintura e os flancos com espartilhos que a estrangulavam

em duas metades, deixando-lhe o thorax afunilado e hirto, o figado

oppresso e a respiração entrecortada. Á hora dos theatros, quando nas

ruas da cidade baixa fervilha inquieta a multidão dos que digerem, e

giram buscando par os velhos viciosos e os rapazes definhados, ella

descia do seu bairro obreiro mais a Jeronyma, paramentadas ambas de

arrebiques pelintras--_á pingadeira_, como lhe chamavam. Tinham horror

á policia, procuravam as sombras da rua chegadas uma á outra, e olhando

quem ia com o riso postiço das rameiras de profissão. A espaços,

automaticamente quasi, segredavam aos homens amabilidades sordidas,

desenrolando toda a giria do officio.

E ao pararem para apertar as mãos dos cocheiros e dos trolhas

circumvagavam a vista de um modo inquieto a vêr se--andava algum.

As noites assim passeadas até deshoras fatigavam-nas de morte. De

manhã nem se podiam mexer, uma paralysia de musculos, as articulações

endurecidas, um travor na bocca saburrosa, das más digestões

desordenadas. Succedia por vezes amanhecer-lhes pelas escadas, no outro

extremo da cidade, ou nas hospedarias de má nota onde vão anichar-se

as ultimas excoriações da torpeza. Expulsavam-nas então com o nojo que

nasce da saciedade, escada abaixo, sem lhes pagarem muitas vezes.

Se retrucavam, era sempre a mesma ameaça que as ia fazer calar--a

policia e o livrete. Aquellas duas palavras punham-lhes baques nas

fontes, suores de rins e um calafrio mortal pelo dorso.

Na rua, os dichotes dos vendilhões e dos gallegos cuspiam-lhes na

face obscenidades de tremer. Riam-se, retrucando algumas vezes. Mas

a humilhação era frisante e seguiam sempre sob o terror da chacota

ou da prisão. A indolencia de Carolina era agora mais refinada que

nunca, deixou de ir á fabrica, passava os dias na enxerga da pocilga,

dormitando.

E d’uma vez teve fome, sabbado por signal. Contrahira já os ultimos

vicios supplementares da devassidão, fumava, bebia, e nas tabernas em

estando bebeda punha-se a dizer com voz rouca fados ignobeis, no meio

dos cocheiros excitados e ao som dorido da guitarra.

Contos(#70819) · 第 5 / 19 段