--Talvez já fosse minha inquilina, percebes? Mas entram e sahem muitas,

nem reparo.

--Sim, sim, fez o outro.

O homem juntou:

--Lá, os semestres teem vinte e quatro horas, entendes? Tornaram a

rir-se. O que era velho tinha dentes aguçados e negros de carie: quando

ria, esgares de grotesco barbaro repuxavam-lhe as maçãs do rosto

tostado, de idolo. Os annos tinham-lhe polvilhado os cabellos, hirsutos

como juncos seccos. No outro dia mal amanheceu, o pequeno entrou a

_porta do carro_[3], subiu a rampa, encostado á Escóla. No terreiro

parou para orientar-se. Á porta parava um estranho carro negro, linhas

de cofre, todo crivado de buracos, lugubre e frio como um caixão. Sobre

a tampa havia uma urna esculpida, meio coberta com um pano e toscamente

executada. Um homem sentava-se na almofada; tinha o seu capote azul, o

seu chapéo de oleado e a cara vulgar dos caleceiros nem maus nem bons,

imbecilmente honrados. Outros dois, em mangas de camisa, traziam fardos

de dentro, feitos de serapilheiras esburacadas, mendigas. O João mal

reparou n’aquillo: tinha visto a casa baixa ao fundo da rampa gradeada:

era alli que lhe mandavam deixar o _Noticias_. Foi lá. O velho estava

em mangas de camisa almoçando café, á entrada. Era um corredor

estreito para onde abriam oculos de vidro de pequenos compartimentos

claros e cheios d’ar; a luz crua da manhã cahia do alto, pelas vidraças

abertas. Ao fim do corredor, um altar negro frisado de douraduras,

sahia da parede, e em cima um Christo de pau, entre velas intactas e

cheias de moscas mortas, estendia os braços cylindricos, dourados a

casquinha.

[3] Entrada para a Escóla medica, cozinhas, lavanderia, amphitheatro e

mais dependencias hospitalares.

Um arame escuro, de algum timbre distante, riscava a brancura do

tecto e unia outros arames convergidos de cada compartimento, como

uma espinha de peixe. Oxydada e velha uma lampada de latão cahia de

cima com a sua luz inutil na claridade diurna. Tudo aquillo era de

um aspecto lugubre e frio através de que se sonhavam infortunios e

allucinamentos. O João esteve a mirar tudo: estaria alli a mãi? Era o

hospital--devia estar. E via o velho ensopar em café grandes pedaços de

pão; olhava...

--Aqui está o jornal, disse. E ficou-se. Tinha ganas de perguntar

pela mãi; acanhava-se. Ao fundo, a lampada pendia, como n’um nicho. O

altar negro e frisado de ouro lembrava uma capella de jazigo. Tirou o

barrete, reverente:

--Ó meu senhor...

--Que é? fez o velho. E tasquinhando--é o _Noticias_, hein? Aposto que

traz o caso da sopeira dos Calafates!

--Ó meu senhor, isto aqui é igreja?

--É hospital: tu não vês?

--É hospital...

E a medo, uma anciedade intima:

--A minha mãi está ahi, está, meu senhor?

Tremiam-lhe os labios, e conhecia-se a dolorida expansão d’um amor de

ave, implume e dôce, que descobriu amparo. O velho olhou-o com ironia,

depois teve dó, um dó alarve, quasi insolente.

--Procura-a se queres, respondeu.

E o seu dedo escuro e cheio de nós apontava os oculos dos pequenos

cubiculos, abertos sobre o corredor. O garoto entrou a medo, como n’uma

igreja: como era baixo, não chegava aos vidros. Havia um banco: agarrou

n’elle, assentou-o junto da primeira porta, subiu corajosamente com a

pasta debaixo do braço. Esteve a olhar, a olhar.

--É um homem, disse elle. O guarda parára de comer; na dilatação da sua

pupilla poder-se-hia adivinhar a alegria surpreza de quem vai pregar

uma boa peça.

--É um homem, é, concordou.

--Dorme, coitadinho:--e penalisado--tão magro!... Tem filhos, meu

senhor, tem?

O velho não respondeu. A esse tempo, já o pequeno tinha o banco ao pé

da segunda porta e subia.

--É uma velha, notou elle. Olhe meu senhor, está-se a rir. Cada olho!

--Ri-se de ti talvez, commentou o guarda. E para o afastar do

oculo:--Está doida; sahe d’ahi.

O João detinha-se muito pallido e nervoso, presentindo alguma cousa

horrivel. E não podia descer.

--Mas ella não mexe!--Tremia de medo.

--Meu senhor!

--O que é?...

--Aqui é o hospital?... Diga, é o hospital?

--Pois o que ha-de ser? Não vês as camas, os doentes?

O João hesitava, agitado.

Não disse nada, desceu devagar com a cabeça pendida n’uma absorpção

angustiosa. Poz o banco ao pé do terceiro oculo; subiu.

--É a mãi!--Tinha os ultimos alentos na voz; uma revolta de amores,

desconfianças e luto, impulsionára agora de subito n’essa organisação

inerme uma desusada actividade, quasi uma audacia. Saltou para o chão,

arremessando o banco. Ia abrir a porta. O guarda correu para elle,

deu-lhe um encontrão brutal:--Eh rapaz!... Diabo!--Segurava o fecho,

olhando.

--Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus! implorava o pequeno--É a mãi, é

a minha. Deixe-me ir fallar-lhe, deixe meu senhor!

E de mãos postas:

--Pela sua saude, por alma dos seus defuntos!--E com um desespero

explosivo:--Ora isto! ora isto!--Levava os punhos cerrados aos olhos;

um choro dilacerante abalava-o. Tomou as mãos do guarda:--Só pedir-lhe

a benção, meu senhor; vou-me logo embora, vou-me logo embora!--Essa

alma dura do velho, verteu compaixão.

--Mas não pódes, não tenho ordem, percebes?--E dava razões:--ella

estava com causticos, com una emplastos na espinha; tinha acabado de

tomar o remedio; era um banho forte, que fazia dormir. E que bem tinha

visto pelo oculo, pois não era verdade? Não lhe tinha visto os olhos

fechados? era somno, está claro! E que se queria vêl-a boa, não a fosse

agora acordar, a pobre velhota. Percebes?

--Ámanhã vens tu aqui, entendes?--de manhãzinha cedo, e talvez já ella

esteja capaz de te vêr; entendes? Pois isto é que é.--Elle de cabeça

baixa, reflectia.

--Vossemecê não me engana, não? Sou um pobre de Christo, vivo dos

jornaes; não vê?--E apresentava a pasta. O guarda compadecia-se.

--Não engano, homem: para que te havia de enganar? É boa!--Armava

no rosto uma sinceridade benevola e rudemente ingenua. O João sahia

vagaroso.

--Então ámanhã, meu senhor. Adeus. Seja por alma de quem lá tem.--Ao

fundo dos degraus deteve-se para voltar a cabeça. E ficou-se a murmurar

pensativo:

--Mas quando uma pessoa está doente, não apanha ar. Alli teem as

janellas escancaradas.--Ia devagar, embebido, com os jornaes na pasta.

--Elles sempre são cirurgiões, disse, entendem mais que _um_

qualquer.--E a espaços:

--Então ámanhã. Hei-de-lhe contar que estou muito obrigado á visinha;

nem que fosse minha mãi.--E chegou á rua, ergueu o pregão. Todo o mundo

era feliz e sorria. Ninguem reparava n’elle.

* * * * *

Disseram-lhe depois que a mãi morrera, e a sua vida mudou. Nunca mais

foi visto no sitio nem tornou a levar ao velho o _Noticias_, todas as

manhãs. Dormia nas escadas, de manhã vendia os jornaes, o resto do

dia passava-o nas ruas, sentado pelos bancos das praças, dormitando

canalhamente ao sol. E a suavidade de genio, a doçura implume dos seus

olhos derivaram n’uma rispidez, n’uma malicia de garoto.

Entre os da sua idade começou a ter predominio; era o das partidas

subtis, o que commandava as troças que o bando fazia aos velhos, o que

ia gritar nas escadas, o que armava intrigas, desenvolvia contendas,

e nos magotes repartia sôccos e pontapés, no meio da grita e das

risadas dos taberneiros. Durante dois annos viveu esta bohemia das

ruas, tripudiando no meio infimo a sua turbulencia e a sua alegria. Ás

vezes tinha fome: ia pedir nas ruas escuras, com o barrete na mão, a

quem passava. E o seu coração soffria todos os maus modos e todas as

humilhações, sem rebeldia. N’esta senda privou com os incorrigiveis,

conheceu os mendigos, os gatunos e as velhas de capote verde, sem

meias, que esmolam nos adros das igrejas, em lamentações dolorosas. Uma

vez a policia entrou n’uma _casa de malta_, na vespera de uma parada,

e varreu quanto lá achou para a prisão. Os pequenos foram mettidos

na _Casa da correcção_ e os gatunos no Limoeiro, por contas antigas.

Sentiu duramente o carcere, e sinceramente chorou a vadiagem dos

antigos dias, em que o seu pé vivo, forte e agil, pisára livremente as

ruas em corridas ruidosas, em pandegas de boa marca. Na reclusão, os

seus dias medidos por occupações sujeitas a uma tabella e a um horario,

foram enlutados no tedio e no sentimento da propria inutilidade:

levantava-se antes de nascer o sol com os demais companheiros

estremunhados, tiritando do frio que ao longo dos corredores se

esfusiava cantando; um sino batia horas acima das abobadas, e o echo

ondulava de cella em cella, como o soluço de uma alma penitente, a

quem não perdoam; pelas profundas janellas do antigo convento, pedaços

de céo faziam manchas lucidas, de espiritualisação ineffavel, em que

o olhar dos pupillos se dilatava com grandes tristezas de opprimidos.

Caminhavam formados dois a dois para a capella, á oração da manhã.

Depois cada um ia para a sua officina, ou para a aula de estudo. Os

rudes prefeitos passavam lugubres, lividos e cheios de consumpção, e

os seus olhos ferozes corriam sobre as cabeças humildes dos rapazes,

curvadas sobre os livros ou sobre os trabalhos de officina. Aos

domingos ouviam missa; uma charanga tocava no pateo e os jornaes

convidavam o publico a ir vêr o collegio, louvando os desvelos do

director e proclamando os resultados da instituição beneficente. Alli

tomou elle proposito, aprendendo a ter aceio, correcção e aprumo; aos

dezoito annos o Ferreira tomou-o para aprendiz: era já uma pessoa cheia

de si propria, estatura avantajada, completamente formada, que passara

incorruptivel no meio viciado do hospicio, resistindo aos vicios

morbidos e fataes da caserna, e salvo n’uma palavra, da ociodade e do

desprezo de si mesmo.

* * * * *

Resolveram encontrar-se, o João e Carolina, todas as noites, á hora

em que fechava a officina: iriam passear, fallando dos seus negocios

sem temer ditinhos da visinhança. Elle instára vivamente para que se

ligassem; era assim melhor, não soffriam tanto as saudades da ausencia

e estariam á vontade; e se a _coisa_ tinha de ser, que fosse quanto

antes. Carolina lutava um pouco; todos os seus cuidados eram o pai;

quando elle chegasse a casa e os visse, que diria? E supplicante, uma

meiguice infantil, obrigava o João a ceder, com pequeninas caricias

voluptuosas e finas. As noites eram frias e escuras, orvalhadas no

alto de scintillações de estrellas, archipelagos de luz n’um Pacifico

lobrego e sem fim. Reuniam-se a uma certa hora no largo da Estrella,

e de braço dado, estreitamente unidos, com declarações pelintras

empoladas de palanfrorio sem nexo, diziam um ao outro o seu amor

eterno, citando cantigas, pequenos versos de manjarico, procurando a

sombra, desviando-se das zonas claras projectadas pelos lampeões, como

proscriptos cônscios da sua culpa. De ordinario vinham por S. Pedro

d’Alcantara, S. Roque, até ao Chiado. Áquella hora as ruas atulhavam-se

de gente abafada em capotes felpudos, carruagens cheias de mulheres

melancolicas; um largo ruido emergia da luz, da vida e da enorme

respiração da cidade, espapando-se nos ares n’um tom indistincto e

abafado. Á porta da Havaneza um forte grupo enchia o asphalto; caras

em sombra sahiam das golas altas; de todos os lados partiam rumores de

palestras que apanhadas de relance, davam a diversidade mais curiosa

e frisante; _marialvas_ pallidos e bonitos, altas pernas apertadas em

calças prenhes de joelheiras, chupavam cigarros em grupo, provocando

as costureiras que recolhiam dos armazens; militares seccos, sonoros

de esporas, uma curva de espinha, discutiam ás esquinas. Á porta

da casa _Singer_, destacando em sombra na crua luz irradiante do

lustre, um conego forte e barbeado, envolvia-se na sua capa, baixo

perfil de javardo estupidamente grave. D’um lado e outro, a fileira

de transeuntes seguia, gente de todas as castas, mulheres embuçadas

em mantas, rapazes debeis e palreiros, velhos _dilettanti_ da opera

que faziam a digestão com charutos fortes; ao trote de grandes

parelhas, as familias iam para S. Carlos, recostadas nos cochins dos

_coupés_; e Carolina invejosa da vida que não vivia e da opulencia que

a deslumbrava, ia picando as scenas de commentarios amargos, um vago

rancor de proletaria. O João murmurava de quando em quando:

--Isto é o tom, isto é o tom!--Gente pasmada parava diante das

_vitrines_ do Seixas, admirando oleographias, porcelanas, pequenas

esculpturas suissas. Defronte quasi, no _Elie Bernard_, as amas de

toucas de renda apartavam polichinellos, pequenas arcas de Noé,

para frescas crianças de banqueiros, aconchegadas de arminhos e

louramente ideaes. No _Leonel_, as senhoras de cauda _princesse_,

perfis orgulhosos de marquezas, pallidamente altivas, viam setins

da estação, fortes velludos de pregas electricas, opulencia cara.

Sentia-se apregoar o _Jornal da Noite_. Divas de mantilha marmoreas de

riz, elegancias de figurino, vendiam-se a quem passava, com pequenas

tosses e _psts_! Elles atravessavam a multidão, isolados no ruido como

estrangeiros. A _rua Nova do Carmo_ tinha menos gente, menos luz.

No fundo do _Margotteau_, uma luz soturna agonisava sobre estofos

amontoados, pilhas de cochins, bancas de jogo marchetadas, e brilhos

de lustres, pendentes do tecto. Sobre o Rocio cahia a cupula tenebrosa

da noite, como um assombro legendario; em D. Maria, acima da arcada,

pontinhos de gaz escreviam _espectaculo_; em torno da praça rolavam os

trens; soldados risonhos saracoteavam-se na penumbra entre os grupos

de velhos celibatarios; o Martinho estava cheio de estudantes e de

litteratos; e contractadores de senhas, cauteleiros e americanos em

marcha faziam um ruido infernal e continuo, o _tohu-bohu_ das capitaes

exaltadas pela nevrose da noite. Elles iam seguindo vagarosamente.

Fechavam as lojas. Chegavam de ordinario a casa muito tarde. A

visinhança dormia. No relogio da Estrella badalavam quartos, som

lugubre. Passavam a noite amando-se, jurando a si mesmos fidelidades

eternas e amores phenomenaes, em quanto a vela de sebo posta a um

canto, deitava clarões amarellos e um cheiro suffocante de morrão.

Afinal o João fez conduzir para casa da rapariga o seu bahú, os seus

arranjos. A visinhança fallou do escandalo, nunca se vira uma pouca

vergonha assim, o mundo estava perdido.

Muitas diziam:

--Já a comadre bebe! Mas deixa que o pai saberá...

Só a Marcellina achou natural.

--Cada qual governa-se, sentenceava ella.

Os primeiros dias correram-lhes distrahidamente, nas espiras d’um amor

canino e deshonesto.

O João apparecia tarde na officina, cheio de somno e de fadiga. E

soffria as meias palavras do Ferreira, a sua grosseira rabugice

de velho rigorista, via-o atirar as cousas com mau modo, girar

nervosamente por entre os bancos de trabalho com o olhar relampejante

através dos oculos. Para o aprendiz, o melhor tempo era o recolher

do trabalho, ao cahir da noite: ia quasi a correr para casa, subia a

escada a quatro e quatro; Carolina estava de ordinario costurando,

com um casibeque de lã, lenço na cabeça, a face de uma pallidez

transparente e dôce. Elle tomava-lhe delicadamente a cabeça, com as

duas mãos; beijavam-se com uma sofreguidão provocante, e toda ella

vergava languidamente no peito do aprendiz, sonhando as divagações

mais sublimes. Nunca sahiam, senão noite feita. Diante d’uma mulher,

o João experimentava um aconchego tepido, delicioso: com ella, a sua

força, a sua fórma vigorosa e superior, acobardava-se, quebrantava-se,

cahia: era então dos sentidos. Não se lembrava de olhar em torno de

si, no desleixo da casa nua, repartida em compartimentos baixos e

rectangulares, sem luz e esfolados nas hombreiras, com laivos d’oca

barbarescos no rodapé. Pelas paredes encostavam-se moveis antigos e

côxos; leitos de ferro de varaes tortos, tinham colchões extirpados e

cobertores de uma farrapice sordida; em volta nem um objecto limpo e

cuidado, nem uma côr alegre e rutilante, em que a vista pascesse uma

satisfação honesta; todas as fórmas duras e cruas das cousas tinham um

desleixo antigo, de annos, e desmantelavam-se como bem lhes parecia.

Pelos aspectos, via-se a historia de Carolina, a sua orphandade, as

ausencias do coveiro na desolação das covas, como um desterrado. Na

cozinha, a chaminé derruia lambida da fumarada, cheia de terra e

tijolos partidos, abrindo como uma guela calcinada e pulverulenta. Têas

d’aranha, espessas e papudas, faziam prateleiras aos cantos. N’um poial

humido e cheio de covas, rimas de pratos sujos, de almoços antigos,

estavam para alli de semanas; sobre o peito da janella, uma palmatoria

de barro tinha um coto de sebo; a miseria enrodilhava-se pelas cousas,

n’uma frialdade canalha e vilissima, em que se accusava uma existencia

sem destino, sem direcção, sem o exemplo d’outra. Nenhum movel no seu

lugar, o lavatorio vazio, uma bacia n’uma cadeira, saias enxovalhadas

nos ferros dos leitos e o gato lambendo-se sobre um chale. E á medida

que passava o tempo e os dois conviviam, Carolina que no começo por

pudôr, fôra um pouco cuidadosa, entrou a entregar tudo ao acaso, para

alli, ao _deixa-te estar que estás bem_. Em quanto só, era ella quem

lavava a sua roupa, de mez a mez. Quando o João se ligou com ella,

foi impossivel continuar aquillo. Eram precisas camisas engommadas,

roupas, lenços brancos, quem costurasse, quem cuidasse com amor, sem

fadiga, sem mau estar, todos os pormenores do lar e todas as pequenas

necessidades do trajo. Carolina nunca engommára. Foi perguntar á

Marcellina como era. A velha deu explicações: que se molhava primeiro

a roupa em gomma fervida, com um trapinho, e depois se punha a enxugar

muito bem, a enxugar... Carolina lavou corajosamente as camisas do

aprendiz, mas não ficaram brancas--que birra!... E resignada aqueceu

o ferro, pôz em pratica quanto ouvira da velha; mas o ferro tostou-lhe

o pano deixando uma nodoa escura e fumegante; ella ficou toda

desconsolada, lacrimosa, temendo ralhos, quando o João viesse. Fazia um

mez que se tinham visto no arraial. E Carolina reflectindo, comparava

os dias á medida que elles se distanciavam do primeiro: as cousas não

são algumas vezes o que parecem; nem tudo o que luz é ouro--lá diz o

rifão. Era verdade! E entristecia-se. O jantar foi menos animado que os

anteriores. O João não tinha vontade, era sempre a mesma cousa... E em

conversa disse os seus pratos mais predilectos, em que havia mexilhão,

cabeça de porco, refogados. Ella estranhou a palavra.

--Refogado! disse sem perceber bem. Olhava o tecto--Refogado!

--Sim, não sabes? fez elle admirado d’aquella ignorancia. E pôz-se a

dar explicações, a dizer como era. E d’alli a pouco:

--Em cousas de cozinha, _a modos_ que sei mais que tu.--E sem mudar de

tom:--Diabo! Que te ensinaram então?--Carolina resentiu-se um pouco.

Estiveram distrahidos n’essa noite; queriam ambos disfarçar, ter

excessos, exuberancias, brincadeiras, pequenas ternuras piegas, mas

de repente esqueciam-se, e paravam sem saber porque, absorvidos. Elle

perguntava-lhe:

--Em que estás pensando?--Carolina encolhia imperceptivelmente os

hombros, um meio sorriso sem expressão.

--Nada.--E ao acaso:--em meu pai. Porque perguntas?--Estiveram assim.

Viam-se os seus esforços para entabolarem palestra e parecer como nos

outros dias, mas um tedio e uma contemplação intimas dominava-os,

atraiçoando-os.

--Ámanhã é domingo, observou Carolina. E com admiração:--Já ámanhã é

domingo, hein?

--É verdade, perguntou elle, tenho roupa?

Carolina sentiu-se empallidecer. Balbuciou:

--Tens.--O seu desejo seria aventurar uma explicação, dizer o que

succedera, afiançar a sua boa vontade, pedir perdão da sua simpleza

selvagem; mas que vergonha!... Qualquer rapariga engommava, varria,

sabia cozinhar, manter limpas as cousas, brancas as hombreiras, sadias

de traça as roupas guardadas nas gavetas e nos bahús: e só ella, a

burra nada sabia, aquelle grande cavallão! Tomou coragem:

--Olha, disse, e ficou-se; sentia-se palpitar.

--Que é?--Na calada a asthma do gato resfolegava.

--É que eu...--curvára a cabeça com a vista obscurecida de lagrimas. O

João ergueu-lhe a cabeça com a mão, tomando-a pelo queixo, com carinho

quasi.

--Que diabo tens tu, filha? Então! Que diabo quer dizer essa

aquella?--E sem obter resposta:

--Se tens alguma cousa, Carolina...--e commovido, admirado:--mas

offendeste-te do que eu disse ha pouco? Nem reparei, foi sem tenção

de te magoar.--Beijava-a repetidamente, procurando chamal-a a uma

tranquillidade conciliadora e a uma justa apreciação de palavras.

--Não vês que te amo tanto, hein? não vês? Uma pessoa, ás vezes, nem

repara nas cousas que diz; vês tu?

Ella abafava soluços, com o lenço.

--Não é nada, não é nada: isto é do meu genio _a modos_ tristonho,

dizia ella; que eu bem sei que não sirvo para nada, bem me conheço.

Para que serve um diabo assim?... Nada sei fazer, nunca tive quem me

ensinasse, por minha desgraça! Até nem roupa...

O João acudiu logo:

--Se não está arranjada é o mesmo; lá isso não tem duvida; não nos

havemos de ralar por tão pouco. Ora! Manda-se á engommadeira; alguma

vez aprenderás.--E enxugava-lhe as lagrimas.

--Sua tola! Agora a choramingar.--E dava-lhe pequeninos beijos, abraços

amigos, dispensando-lhe solicitudes paternaes.

--Vale lá a pena! resumia. Não sabes, acabou-se. Ninguem nasce sabendo,

isso é velho. Ninguem te ensinou... não tens culpa; é boa!...

Mas no seu animo encrespára-se um mau humor que o ralava, e uma

irritação sem alvo fazia-o passear com rapidez, accentuando as passadas

no sólo. Não sahiu no domingo, ficou á janella fumando. Via passar na

rua, grupos todos aceados, mulheres vermelhas e fortes, cheias de saude

e de alegria. E sem querer punha-se a comparal-as com Carolina, tão

lymphatica, tão desleixada e tão pouco limpa. Homens iam de charuto,

fumegando com pompa, bengala, suas botas engraxadas, camisa muito

branca.

E elle não tivera camisa lavada, nem gosto para dar o seu giro ás

hortas ou ao passeio.

E molestado, roído, retirou-se para dentro, foi estender-se ao comprido

na cama.

--Ai! suspirou. A gente sempre faz cada uma!--E ficou-se immovel,

reflectindo, com saudades dos tempos em que era livre e tinha camisas

lustrosas, todas brancas, cheirando frescamente a sabão.

* * * * *

Pouco a pouco o aprendiz pôz-se a reparar em tudo, na casa, nos

objectos d’uso, na cozinha, nas lavagens. Carolina não tinha nenhum

d’esses instinctos delicados e espontaneamente artisticos, que são a

revelação da mulher; nos seus menores labores era de uma incorrecção

tosca e de uma rotinice escura. Não varria a casa, ou varria-a mal;

nenhum methodo, nenhuma paciencia, nenhum amor em conservar as cousas.

O João mandára para casa uma commoda, cadeiras, um pequeno espelho,

duas jarras de louça azul, e elle mesmo tinha disposto tudo, esfregado

o sólo, as portas, concertado as bancas e o leito, nas horas vagas. Mas

dias depois o pó cobria tudo, havia signaes das mãos gordurentas de

Carolina nos puxadores das gavetas; a cama estava sempre desmanchada,

com o signal dos corpos. Elle perguntou-lhe uma vez:

--Que fazes tu, quando eu vou para a officina?

--Costuro alguma coisa, durmo. É tão triste!...

--Mas filha, deves arranjar a casa... aventurou elle.

Carolina ficou-se. A sua natureza preguiçosa, habituada aos ocios,

quebrava-se de fraquezas, bocejos e espreguiçamentos, só de lembrar-se

do trabalho que tinha a fazer. Ás vezes luctava, fazia uma grande

actividade, mexendo por um canto e por outro, mas vinha a fadiga, o

aborrecimento: atirava-se para cima dos colchões.

--Se eu não posso!...

Contos(#70819) · 第 4 / 19 段