banda, de bigodes retorcidos e tirando o chapéo armado ao povo, no meio
dos hymnos das bandas marciaes. Ou então na procissão de S. Jorge, de
manto e debaixo do pallio, iria descoberto, acertando o passo, com ares
magestaticos. As beiras dos telhados deixavam cahir as suas lagrimas
monotonas com um ruido methodico e gelado. No céo escuro e forrado por
igual, nuvens brancas, como de algodão fofo, esbarravam, acossadas
pela nortada. Os passeios desertos, nús de transeuntes, offereciam
á claridade triste do gaz o seu esguio e pallido espinhaço, que
recordava o d’um peixe antigo, dos que se fazem admirar em esqueleto,
fossilisados, nos museus. Recortavam vagamente no ar os tectos negros
a sua dentadura de pentes partidos; nas fachadas imbecis que os
reflexos mosqueavam de um livor doentio, cortadas por filas escuras de
janellas toscas, as taboletas faziam nodoas de luto, ensanguentadas
por letreiros vermelhos, de modistas e de armazens de fazendas. Ao
fundo da rua, n’um terceiro andar, uma parteira tinha uma lanterna
rubra, d’aviso. Dois gatos seguiam ao longo das paredes, miando a
sua paixão nervosa e excentrica. E por sobre a cidade os aguaceiros
esfarrapavam-se lentamente na sua caminhada fatal, fazendo nos confins
dos edificios afastados, longes indecisos e lugubres, linhas frias
de mausoléos--um abandono de campo santo, desconsolado e fatidico.
João poz-se a andar vagarosamente, cabeça baixa, as mãos remexendo o
forro das algibeiras, transido do ar da madrugada. Não tinha senão um
pensamento--não ir para casa. O mais que lhe importava? Mas sentia-se
cançado e triste, como quem vai partir para um paiz ignorado, dos
Brazis. Sentiu uma cousa dura no bolso das calças; não se lembrava do
que seria. Tirou para fóra: era um vidro cheio de facetas, uma rolha de
garrafa que encontrára na rua. Com a curiosidade natural de criança,
applicou o olho a uma das faces e poz-se a mirar a luz d’um candieiro,
através do polyedro. Experimentou deslumbramentos.
A luz multiplicava-se no seio do crystal em centos de imagens fulgentes
e irisadas, vívidas n’uma saturação de amarello pallido. E o crystal
dilatava-se como uma arcaria phantastica em mil sentidos oppostos, onde
scintillas cruzavam as suas linhas coriscantes, com uma abundancia
embriagadora. João nunca olhára cousa assim: era como um mundo de
diamante e de luz, salas desertas e immensas, illuminadas como para um
sarau. A sua alma como uma borboleta fascinada, ia, em lufadas de gozo,
penetrar essa vasta habitação principesca e oriental, feita do que ha
mais puro e mais commovente: a luz, a alegria, a gloria... Novamente
appeteceu ser rei e viver n’aquelle palacio, n’um throno. Tinha fome,
desde pela manhã não comia, as pernas vergavam-lhe.
Encostou-se ao umbral de uma porta, olhando sempre os seus salões
magicos vestidos de tapeçarias iriantes, em que a luz incidia
polvilhada em atomos de gloria. Mas a fadiga opprimia-o. Curvou os
joelhos na pedra humida de chuva, absorto na luz. Os olhos carregados
de chumbo, cerravam-se. Mas abria-os devagarinho, para mirar. E sem
sentir, uma tranquillidade emolliente nos membros, adormeceu.
De manhã acordou, admirado de haver dormido fóra de casa e surprezo
mesmo da proeza heroica, que o expunha ás cóleras do pai intractavel.
Corria um arzinho cortante que esburacava a nevoa do rio e dava
commoções phantasticas ás nuvens humidas do ar. Uma parte da cidade
envolvia-se em grandes vapores translucidos, em que se perdiam as
torres das freguezias. No mac-adam gasto e revolvido, rugosidades de
lama cinzenta faziam hieroglyphicos interminaveis, gastos por vezes
na profundeza dos sulcos dos carros e no remoinho de pégadas dos
vendilhões descalços. Começavam a passar carroças de hortaliças, para
o mercado. Jumentos tristes e felpudos, de uma resignação christã,
seguiam lentamente carregados de roupa. Uma leiteira forte vestida
de azul, grossas botas de cano, conduzia as suas vaccas meigas e
emmagrecidas, todas malhadas de branco, com velhos cobertores no dorso,
e as grandes tetas pendentes e cheias, batendo as pernas. Defronte no
chafariz, os aguadeiros enfileiravam os barris vermelhos, cintados
de negro, a _fazer carreira_; e todos sujos, aparvoados, de uma
ingenuidade sordida, chalravam a sua gallegagem brutesca. No emtanto
as janellas fechadas dos predios, tinham uma passibilidade somnolenta
e morna; as aguas-furtadas agudas e revestidas de telhas escarlates,
recortavam acima das platibandas pardas, vagas triangulações idiotas.
Nas altas varandas corridas dos quartos andares, arbustos rachiticos
e estiolados pela estreiteza dos vasos e pela humidade sulphydrica da
atmosphera debruçavam pelos buracos da gradaria, para a rua, tristes
flôres esmaiadas, velhas corollas de uma sentimentalidade doente;
pelas janellas, trepadeiras resequidas enroscavam-se em caniçados,
bordando jardins suspensos de amanuenses mediocres. O dia aclarava-se
no concavo da abobada. A espaços, no bocejo das vaporisações longinquas
acossadas do vento, esmaltava-se o azul lavado e fino, de uma grande
paz commovente. E sentia-se despertar a população. Os moços de padeiro
enfarinhados e tiritando de frio, passavam com os cestos, a correr;
um sino afastado dava matinas n’uma toada cheia de melancolia. João
ergueu-se, com espreguiçamentos, quebrado da friagem da escada. O que
se teria passado; para onde iria agora; o que seria d’elle, sósinho,
por ahi?...
A verdade é que não estava para aturar o bebedo do pai: isto é que era!
Com a venda dos jornaes e das cautelas sempre ganharia para comer.
Podia dormir nas escadas. Ás vezes tinha venda de ganhar dois tostões;
havia dias de menos tambem: era _conforme calhava_. E contando pelos
dedos punha-se a calcular:--um pão, um pataco e chega para todo o
dia; dez reis de caldo; um vintem de sardinhas; dois decilitros... ao
todo gastava seu tostão. O mais era para fato e extravagancias _cá
da pessoa_. Afinal era uma bella vida. Melhor que um padre de missa!
affirmava. E seria livre, costado sem pancadaria, indo ás hortas
quando tivesse na vontade--que _uma pessoa_ não póde andar sempre no
trabalho; lá chega um dia... E repetindo phrases que ouvia ao pai,
para a si mesmo parecer homem, lembrava-se irritado das brutalidades
do pedreiro. Bem sabia que elle era seu pai e lhe podia bater por ser
mais velho; mas as suas costellas não eram nenhum folle de ferreiro.
Alto lá! Era de mais, tambem! E que elle era muito bom sim senhor,
mas em lhe fazendo chegar a mostarda ao nariz--_está quieto_! Mas
sua mãi, aquella pobre mulher pallidamente martyr, tão soffredora e
tão resignada, que seria d’ella, sem o filho? Como poderia a pobre
creatura, de uma fragilidade triste, supportar as brutalidades do
marido? E lembrava o seu perfil engelhado e secco de privações, os
seus olhos amortecidos de dôres antigas e o seu peito esphacelado de
tosses, concavo e velho, de que elle pendera pequenino, guloso da mama
e envolto em mantilhas frescas. Quantas lancinações rasgavam, havia
tantos annos, a alma d’essa obscura macilenta, d’essa trémula escrava
de um canalha convicto?... E como uma chamma cantante, palpitava-lhe
dentro aquelle amor honesto e cheio de castidade infantil, côr de
rosa. D’uma vez estivera doente com sinapismos nas pernas, um febrão
desabalado; e em delirio descobria-se no leito, cheio de agonias, vendo
dançar no tecto os _Populares_ e os garotos do seu conhecimento. E em
torno da enxerga, na penumbra do quarto abafadiço, de cada vez que lhe
vinham momentos lucidos, descobria o rosto anciado da mãi, batido de
vigilias e escavado de lagrimas, d’uma expressão que fazia dó. Todas
essas lembranças atiravam a sua pequena alma a uma tristeza em que o
seu coração se sentia boiar, como n’um lago acido e corrosivo. Deixar a
mãi, apparecia-lhe como um peccado funesto e impenitente, dos que fazem
bailar Satanaz.--Nem os brutinhos, dizia, nem os brutinhos fazem tal. E
sem resolução, ruminando a sua incoherencia estupida, com as mãos nos
bolsos das calças em frangalhos, foi comprar os jornaes do dia. A luz
alastrava-se pelo céo, e no oriente lavado de nuvens agora, os feixes
do morno sol, riscavam nas fachadas, polyedros amarellos e emollientes,
de um agasalho caridoso e bom.
N’esse dia, acabada a venda, foi a casa. Encontrou a janella fechada e
a porta unida; uma grande quietidão fluctuava nos quartos. Entrou de
manso: o gato dormia sobre a commoda, ao lado do oratorio; em torno
quebravam-se na meia luz do recinto, fórmas hirtas de velhos moveis
mutilados, cadeiras sem palhinha, mesas sem gavetas, esqueletos de
bahús escancarados e vazios, com o forro em tiras. Viu a mãi cahida
sobre um colchão, respirando alto. Na chaminé não havia lume, nem
louça; o cesto vazio de pão, abandonava-se sobre o poial de tijolos.
O João percorreu devagarinho os quartos. No saguão e sobre o peito da
janella, um vaso de salsa esverdeava; mais alto, n’uma cana, uma camisa
velha estava a enxugar com as mangas pendentes como n’um desalento
miseravel; um chinelo humido e proscripto, sorria como um queixo sem
dentes, á borda da sargeta, e tudo aquillo soluçava um desconforto
triste, como a nudez d’uma tumba. O pedreiro não estava em casa--ainda
bem! O João chegou-se á mãi.
--Mãi!--Ella gemeu alguma cousa confusa, mas a sua cabeça cahiu outra
vez, n’uma prostração desolante. Enrolava a cabeça n’um chale; um
sulco negro descia-lhe da testa á face, inflammada e ardente. O labio
escorria sangue, rasgado por alguma pancada. O João descobriu docemente
a cabeça da pobre mulher, procurava com beijos dizer a sua pena. E em
supplicas balbuciadas, de afflicção sincera, dizia que lhe perdoasse,
contava as asperidões da noite anterior, as suas miserias, a perda das
cautelas, entre gente indifferente e cynica, que lhe chamava vadio.
--Triste de quem é pobre, lamentava elle, triste de quem é pobre! Com
as mangas da _blusa_ limpava as lagrimas, e vibrante n’uma solicitude
amoravel e leal, toda feita de grandes dedicações, inquiria a historia
dos golpes que rasgavam a cara da mãi. Ella mal podia fallar. Tinha
esperado pelo filho até fóra de horas: quando o pedreiro recolheu, não
havia cêa--pão e agua! E entrou logo a barafustar, a dizer insolencias;
que andava a trabalhar como um mouro para aquella grande bebeda, que
havia de fazer um dia _alguma_ de rachar pedras. De resto tanto se lhe
dava ir para a costa d’Africa, como ficar no _Limoeiro Novo_; em toda
_a parte se ganha pão_, com seiscentos diabos! Ella queria convencel-o,
prestava-lhe contas da semana; pouco recebera da feria, elle bem o
sabia; como era possivel tornar o pouco em muito? E esboçava roes:
tanto de pão, tanto de arroz, panno para uns remendos, concerto das
botas... O marido nem deu palavra; cambaleante, tocado de vinho, sahiu.
Ella quiz retel-o, que se fosse deitar, que não fizesse disturbios,
pelo amor de Deus, por tudo quanto tinha de mais sagrado!... Mas
cortou-lhe a palavra uma bofetada crua que a derribou, com um gemido.
Atravessou a rua, desceu á taberna. Das bancas gordurosas saudavam-no,
como a uma pessoa intima e querida. Ella, coitadinha, chorava atraz da
janella, em quanto na parede do fundo, a lamparina do oratorio, posta
atraz d’uma cesta, enchia de sombra o papel desbotado, cheio de manchas
escuras e fatidicas.
Á uma hora viu entrar o marido, chapéo á banda, a tosca physionomia
viciosa, com angulos de vertices sinistros, sombriamente cortados
em sombra, os olhos absortos, fixos n’um pasmo selvagem, feramente
imbecil--como a incarnação do crime! Ella cosia-se com a sombra,
sustendo a respiração. A rua estava dormente, a visinhança recolhida;
viam-se passar os gatos de escada para escada, n’um silencio lugubre e
frio. O pedreiro agarrou n’uma cadeira e esmigalhou-a com estrepito, no
meio de pragas. E não tendo resposta, agarrou no oratorio. Os martyres
mutilados e cheios de fitas, os seus rostos de pau pintado cheios de
inchações vermelhas, cahiam com uma resignação biblica no meio da casa.
Ella então sahiu da sua sombra discreta e disse-lhe com os dentes
estralejando de medo:
--Manoel, anda deitar-te, homem. Tem hoje paciencia, ámanhã se fará o
que queiras.
O pedreiro cresceu contra a pobre, com um pé da cadeira quebrada na
mão; agarrou-a pelas guelas com uma força de salteador, e torcendo-a,
rangendo a queixada, ebrio na sua ferocidade surda, descarregou-lhe
pancadas furibundas nas costas, na cabeça, contra o peito. E ergueu-a
inerte, como morta, para a lançar no chão moida de pancadaria. No
emtanto a visinhança acordava pelo reboliço; apitos soaram na rua;
duas mulheres em saias brancas gritaram--ó da guarda!--e policias
arquejantes da corrida, enfiaram pela casa com os chanfalhos em riste.
O pedreiro queria luctar, esbracejava furiosamente entre os pulsos
cabelludos dos agentes, blasphemando. Pelos grupos, uma velha suja,
olho de coruja, andava tomando informações, de uns para outros, com
lamentos de uma piedade desenxabida. Tinha-se alastrado na rua o
borborinho. Alguem trazia arnica para as contusões da _prove_. Uma
rapariga aconselhava cerveja preta, cousa de quatro dedos, que não
havia nada melhor para maçadas de arrocho. E varios narravam casos
do pancadaria com pessoas tesas, que desarmavam a patrulha, com tres
tabéfes. O pedreiro amarrado, entre dous policias, passou entre as
mulheres curiosas, no meio de pragas. E explicavam-se as feridas da
_mártyle_; havia uma na cara com’a dois dedos, e já aquillo vertia
sangue!... Uma rapariga trigueira, de uma prenhez disforme, tinha suas
desconfianças que havia costella partida. Outros gesticulavam, tentando
elucidar com figuras e arremedos, a narração que iam fazendo de _como a
gente era cá por dentro_. Mas ouviu-se a voz da patrulha que descia a
rua.
--Nada de ajuntamentos aqui! Nada de ajuntamentos aqui!--E cada um
foi para a sua banda, dando boas noites. A triste espancada nem dava
accordo de si. Corridas as primeiras curas das feridas, cada um foi
dormir descançadamente e ninguem se lembrou de chamar o medico.
Sem o filho, sem uma pessoa que velasse por ella, a triste mulher
revolvia-se nas enxergas ás escuras, em gemidos de dôr e desvairamentos
de febre.
E como de costume a manhã rompeu d’alli a cinco horas, annunciando uma
terça-feira de inverno.
* * * * *
O dia correu em meio de tristezas carregadas. A casa emergia n’um
torpor abafado. Na rua dois ou tres pequenitos brincavam semi-nús,
com lama. O João andava d’uma banda para a outra, sem poder socegar.
Desde as onze horas que a mãi perdera o tino e mergulhara no delirio.
Sentia-se sepultar n’um horror sem limites, como se fôra um ponto
suspenso no centro d’uma grande esphera vazia, inerte, sem fim, em que
eternamente se gira e embalde se chora, sem echo. Fôra de mansinho e
descalço, cheio de uma ternura lacrimosa, chamar por ella, dar-lhe
agua: a sua pelle sêcca, de um contacto aspero, ardia de febre intensa.
Os olhos, de um azul apagado, escancaravam-se n’um pasmo doloroso;
um sulco parvo distendia-lhe a bocca, sêcca e fetida; a respiração
cortada, longa, lenta e difficil, soava por toda a casa, com um ruido
de serra. O João parava então em frente da cama, absorto e diluido em
presentimentos tragicos. A alcova era estreita e núa, de tecto muito
baixo, toda pespontada das moscas. Uma cruz negra pendia á cabeceira,
com uma palma sêcca, ao través. N’um canto, um caixote cheio de
ferramentas manchava cruamente as faces rectangulares do recinto.
Umas saias esfiadas pendiam n’um cabide, com um capote verde, e em
torno, moscas aos magotes, zumbiam famintas, como quem se aborrece
da ociosidade. D’alli a nada entrou a senhora Joaquina, a visinha
do lugar. Trazia um caldo, duas maçãs, cobertas com um guardanapo.
E curvada para a doente perguntava como tinha passado a noite, mas
calou-se logo empallidecendo, com a chicara na mão.
O olhar do João collava-se n’ella como um borracho sob a aza da mãi,
um terror ullulante penetrava-o, com profundeza gelida e cheia de
allucinação. A senhora Joaquina olhou para o pequeno e disse isto:
--A cousa está mal!--E sem uma palavra ergueu-se e sahiu. Elle ficou
pregado na parede, sem resolução: ouvia os baques do coração convulso,
mas não pensava nada, não se lembrava de nada; ficára para alli, como
se o atirassem. E media as palavras no ouvido:
--A cousa... está... mal! O que seria?--Tentava fazer um supremo
esforço, queria por força voltar á sua disposição habitual, respirar
livre, mover-se elasticamente, marchar firme, com os seus rijos
pés plebeus, mas experimentava uma cousa, inexplicavel talvez: era
como se o seu corpo se alongasse muito n’uma facha elastica, e lhe
tivessem esmagado a cabeça entre laminas de ferro, depois de o haverem
adormecido com chloral, em grande dóse. E no fundo do seu peito
dobravam como n’um enterro, aquellas quatro palavras lugubres:
--A cousa está mal!--Os seus olhos erravam pelo tecto, pelo cabide
de que pendia o capote em contornos de mortalha, amplas dobras de um
funerario abandono. E casualmente, desceram contra as roupas da doente,
que arfavam ao tic-tac da respiração. O dia estava triste e forrado
de burel; ouvia-se cahir a chuva nas telhas, com um compasso monotono
e fino. Á alcova mal chegavam franjas pardas e mal definidas de luz,
que não conseguiam contornar as cousas e em triangulos colossaes,
amontoavam penumbras ondulantes, de um pavor febril. No animo do João
tambem, enormes scenarios de trevas desciam, e obelisco de bronze, o
infortunio como o aniquilava sem appello. A sua imaginação viva e de
uma excitabilidade supersticiosa e audaz, fazia surgir como no alvo
de um phantascopio, grupos nubivagos de defuntos e velhas historias
diabolicas de enforcados que ouvira ás visinhas: e tudo eram olhos pela
parede, pelas enxergas e pelo chão, na sombra, na treva, na incerta
claridade da porta, que o fitavam escancarados, com uma teimosia
agoureira e uma surpreza cubiçosa. E parecia-lhe que alguem o ia a
tomar pelo gasnete, que velhas sardonicas, cheias de feitiços, afiavam
estyletes para o rasgarem, e um papão de grandes barbas revoltas,
capuz profundo de asceta, levantava sobre elle os braços prenhes de
maldições e castigos. Os seus ouvidos resoavam interiormente, n’uma
vibração confusa de archeus; sentia as fontes baterem com uma onda de
sangue convulsionado, e todo o seu desejo era fugir d’alli e correr
para fóra; mas tinha medo de voltar-se; o silencio gelava-o, como de
crypta secular, em que se tropeça em ossadas de cavalleiros, e se
abrem caixões de velludo preto, ao gemer estranho do orgão. Pela tarde
adiante a visinha chegou, com uma garrafa, mostarda, lençoes lavados.
E poz-se a fazer sinapismos, esfregações, toda repartida em desvelos
amigos. Ao lado, o João immovel abria os seus ingenuos olhos azues, uma
admiração tosca e vagamente reconhecida. A Joaquina ageitava as roupas,
desembaraçada, mangas de lã vermelha e um lenço de ramos sobre os seios
murchos, como fructos sorvidos. E dizia:
--Isto é lá cama nem minha avó!
E alto:
--Vossês não teem um quarto com janella? Mudava-se para lá a cama,
sempre ha mais ar.
--Ha, ao pé da cozinha. É o meu.
Foram ambos vêr. Era um casinholo arruido. Quasi no tecto uma fresta
pyramidal e profunda, sem vidros, dava uma claridade amarella:
ouviam-se ratazanas roer no forro, familiarmente.
A vizinha resmungou:
--Peor a emenda que o soneto!--E com um ar distrahido:--Doenças
d’estas, ou bem tratadas ou então...
As ultimas palavras fizeram calefrios na espinha do rapaz. A Joaquina
corria-lhe a mão pelos cabellos, com ternura de mãi. E olhava-o
esquecida, uma tristeza contemplativa cheia de presentimentos e
emoções. Uma lagrima cahiu na mão do rapaz. Elle então quiz olhar
firme, com a coragem de um homem, mas alguma cousa estrangulou-o, e
deixou escapar um soluço...
Quando acabou de chorar, a Joaquina tinha-o no collo, dava-lhe beijos,
dizendo-lhe consolações banaes e cheias de mimo. E d’alli a nada:
--Olha, filho, se ella pudesse tratar-se no hospital...
Elle ficou afflicto, todo desconsolado:
--Mas ficava aqui só. Não a via nunca, objectou.
--Qual! Aos domingos dão licença para visitar as enfermarias, lá isso
dão.--E explicava: havia muita caridade, boas roupas, tudo de linho, e
quanto a medicos... a mestrança... upa!
O João com as pernas apoiadas na parede, a cabeça no avental da
visinha, resistia tremendo. Cortava-lhe a resolução, como uma lamina
frígida, esta idéa excentrica e rubra:
--Se ella morresse...
Tinha os olhos cheios de lagrimas limpidamente angelicas e uma pallidez
definhada, retocava de um mimo casto a graça correcta do seu rostinho
ingenuo. Por mais esforços que fizesse deixava-se ir vencendo por um
quebramento pesado de fatalidades lividas. A Joaquina fazia tambem
grande esforço querendo parecer forte, exteriormente alegre, e a cada
passo o seu ar tranquillo e descuidoso, obscurecia-se de angustias, que
o seu coração de burgueza bolsava em golfadas. E dizia como para si:
--Mandei chamar o medico para vêr a minha visinha. Se elle fôr de
parecer que vá para o hospital, agarramos n’ella e toca! O meu homem
é muito dos enfermeiros. Um d’elles, o Bento, é afilhado; o Zeferino
é até compadre de aguas bentas. Ia bem recommendada, não tem duvida.
Lá isso... tratada que nem uma princeza, ólá!--E circumvagando a vista
pelos andrajos dos quartos:--que n’esta possilga, meu rico, até morrem
os que tem saude. Nem sei como vossês aqui viviam e lidavam.--Cuspia de
nojo, e resentida:
--Ai! Tudo por causa d’aquelle negro d’aquelle bebedo, Deus me não
castigue pela sua misericordia!
Ao anoitecer, a doente empacotada n’uma maca, foi aos hombros de
quatro gallegos para o hospital. Era um cortejo doloroso. As mulheres
chegavam ás portas, arregaçadas, no meio de filhos descalços. Algumas
diziam--coitadinha!... D’uma janella, a costureira explicava o caso
para o segundo andar, e duas ou tres tinham lagrimas e torciam os
aventaes, lamentando as cousas d’este mundo. A maca era velha e
rangente; o vento da noite erguia a espaços o oleado carcomido e
apparecia então na caixa do leito o corpo immovel e morto da velha,
coberta com o capote, indecisamente esboçado. Ia atraz o João,
descoberto e afflicto, triste na sua pobreza descalça e orphã, como
um cão fiel que esqueceram. A Joaquina parada á porta, chorava. Uma
ovarina passou, inquiriu do pranto. A outra mostrou-lhe com o dedo a
maca, que desapparecia no cotovelo da rua, e disse:
--Aquella já cá não volta.--Escurecera de todo. Um homem de blusa
accendia os lampeões.
* * * * *
No hospital, a maca pousou. Dois moços vieram para expulsar o
pequeno, que queria ficar com a mãi. Sósinho, abandonado e partido
de soluços, foi-se acocorar n’uma porta: ficava diante, com uma
grandeza sepulchral, a parede branca do edificio, glacial e esburacada
de janellas, onde uma luz vaga, mortiça, esmorecia. Junto da porta
a sentinella girava, e no pateo através das grades, figuras de
apostolos, enfileiravam a sua magestade de pedra junto da parede, em
pedestaes geometricos e frios. Alli estava a mãi! O que iriam fazer
d’ella? Nunca entrára na enfermaria: como seria? E figurava camas de
palha cheias de podridão, em que se estorcem corpos de gallegos e
mulheres tisicas, n’uma promiscuidade canalha. Sentia suffocações no
peito: nem podia chorar! E a rua no entanto, sonora de passadas de
transeuntes, operarios que recolhiam, garotos felizes que vadiavam
gritando, offerecia aspectos alegres e scenas de vidas bem alimentadas,
no quente aconchego dos ménages probos e robustos de labor. Uma saudade
lacerante entrou no coração do garoto; e como nunca, encarou a sua
vida miseravel. Quando entrou em casa teve medo: uma solidão mortal
na cozinha, as ratazanas tripudiando no saguão; abandono, pobreza em
tudo. E seria assim sempre! O pai na prisão. A velha no hospital. Que
desgraça, que desgraça a sua!...
No dia seguinte era preciso comer. Por conselho da visinha foi vender
os jornaes, para não perder os freguezes. Ao meio dia foi saber da mãi.
Expulsaram-no de novo, com uma vara. Perdeu a vontade de comer, voltou
para casa aniquilado, amarello e vazio.
--Se ella morreu! dizia. E pavores immensos, soturnos phantasmas de
uma transparencia madida, surgiam-lhe de noite aos portaes, gemendo
_Credos_ de monges, e mostrando dentuças formidolosas. Uma tarde estava
no lugar da Joaquina, com os pequenos. Entravam uns e outros a beber
vinho: ao balcão um grupo conversava, entre a fumarada dos cachimbos. A
voz da visinha gritou:
--João!
Elle foi. A Joaquina disse:
--D’ámanhã em diante, has-de levar o _Noticias_ a este
senhor.--Apontava um velho secco, olho morto, ar veterano, de blusa
azul.
O João olhou timidamente.
--Pois sim, meu senhor, pois sim, disse elle. Seja pelo amor de Deus.
Em que rua é, meu senhor?
--Não é rua, fez o homem. Tu entras pela _porta do carro_, percebes?
É no hospital de S. José. Vaes por alli dentro, percebes? Tudo por
alli fóra. Ha umas grades, entendes? Vaes por alli adiante e vês uma
casa baixa, entendes? Tem uns degraus: é ahi. A porta está aberta para
quem quer. Renda barata, entendes?--Ria-se, um riso enorme, adunco, de
carnivoro.
Os mais tinham gestos comprovativos. Um até disse isto:
--Livra-te de lá morares, rapaz.
O João não percebia nada. Como era no hospital, observou:
--É onde está a mãi?
O velho tossiu cavamente.