e deixa andar. Vossês não sabem do mundo; ainda hontem largaram os
cueiros. O primeiro que nos regala, é o unico aceado e de quem toda a
vida se tem saudades. Que os mais--tudo _gajões_ que a pregam na menina
do olho!... E que visse, que estudasse a cousa: quando se tem na mão
o passaro, é que se não deve deixal-o fugir. E rindo, dilatada n’uma
hilaridade de velhaca, de rameira bebeda, mãos nos quadris, roncava
affectando lubricidades:--Ai!... Tivesse ella os seus vinte, e quem o
lograva era ella. Só aquellas carnes, em que se podia lamber mel.--E
sordidamente mordida de appetites, agarrava-se a Carolina, fazia-lhe
cocegas dizendo muitas vezes:
--Ricas filhas, ricas filhas!--E rolavam ambas pelos sepulchros rasos
rindo soltamente, com um prazer de barregãs.
D’alli a pouco chegou o João. Trazia a blusa de riscado vestida
debaixo do jaquetão, e os cabellos crescidos e encarriçados, cheios de
aparas de casquinha. Era quasi imberbe ainda, branco e sanguineo, de
uma compleição herculea em que se adivinhava a seiva fertil e jámais
esbanjada, dos corpos encouraçados na propria virilidade, e no trabalho
absorvidos até á idade dos loucos amores de bordel. O seu typo era de
criança e presentia-se o fadista mais tarde, ámanhã mesmo.
--Ora graças, começou a Marcellina, graças que nos apparece! Uma
cousa assim! Fazer esperar esta menina!--E recriminava-o, enchia-o de
censuras: que para o futuro queriamos homem mais aquelle; que quem
esperava desesperava; era uma verdade! Mas nada d’aquillo era morte
de homem, louvado Deus!--E fazia as apresentações.--Carolina, não t’o
dizia eu? Um rapagão, capaz de arrombar o Castello; e que lindo, mesmo
de regalo!--Mencionava pormenores, nunca tinha tido uma doença, benza-o
Deus, nunca tomára remedios de botica, nem sequer uma purga. E que mãos
de prata! Fazia cadeiras de polimento como o primeiro; um armario que
acabára pelo S. Pedro, tinha sido vendido a um homem de fora--tinha
aquella de francez, uma falla a modos _esquesita_----por bellos _mel_
reis. E mais cousas ainda que se não diziam.
O João, inchado, meio confuso sorria, dizendo com inflexões
variadas:--_Hom’essa!_ _Hom’essa!_... E aquecido, trescalando a
carrascão, a perna bem desenhada na calça de bocca de sino, cambada
um pouco para dentro e afeita ás _escovinhas_, chapéo arremessado com
um piparote para a nuca, fitava Carolina, mordendo-a com os olhos e
resmungando:
--Deixe fallar, deixe fallar, que isto sabe-a toda.
A Marcellina declarou que estava com a _telha_, uma alegria mesmo lá de
dentro, e dizia:--Viva a borga! em estrepito. E tomando Carolina pela
cintura e agarrando o braço do aprendiz para aproximal-os:
--E que _canta_ vossê cá da pequena, seu petiz? olhe que nem mandada
vir de encommenda. E então esta carinha, que parece de seda...
Maganão! Bem sabia que a não merecia, um chichisbeco d’aquelles! ai!
Mas queria ser generosa... E que tratasse de a estimar, melhor que o
pai a tinha estimado; que a queria vêr uma senhorita toda de fitas
a voar e casibeques de pano fino, pelo inverno; conhecia casadinhos
que era mesmo uma gracinha, mais unidinhos e mais guapos que era uma
providencia. E que fossem assim toda a sua vida. Ambos elles sorriam,
córados.
Nos seus olhos humidos, em cujas iris de inquietas fibrilhas havia um
contrahir de commoções refreadas, luzia a caustica lasciva do desejo
incendido.
Carolina sentia um quebramento fundil-a toda; era do calor, da fadiga
da tarde, talvez da contemplação do sitio. E a sua alma perdia-se em
grandes esquecimentos; alongava o olhar de encontro ás vastidões do
céo e da paizagem, como se toda ella se expandisse n’aquella área
sem termo, alada no vago do uma impressão que até alli não soubera
formular. Viu-o preguiçosamente estendido na pedra branca de um
tumulo. Era n’uma das ruas afastadas. N’aquella posição de madraço,
a vigorosa expansão do seu corpo resaltava em linhas magnificas, de
animal contente e são, que descança. Tinha-lhe cahido o chapéo, e
deitada para traz nas duas mãos sobrepostas, a cabeça parecia-lhe
esbatida no fulvo dos cabellos, que á luz poente faziam um desenho de
juba. Via-se-lhe o tronco oscillando, a camisa tufada por baixo do
collete, uma das pernas flectida sobre a coxa e a outra estiraçada com
bestial franqueza, para diante. Carolina devorava-o: era assim que ella
sonhára o _outro_, nos seus delirios hystericos de virgem reclamando
direitos de mulher fecunda, em noites de entrecortada allucinação. E
via-o deslocar-se aos circulos por diante dos olhos, sentindo um tremor
de mãos e frialdade mortal nas pontas dos dedos. Por seu lado, o João
fitava-a com furias de novilho que desperta.
E velhacamente, um riso nervoso nos cantos da bocca, piscava-lhe os
olhos, desafiando.
A noite tombára das encostas, pelo céo, e uma sineta batida pelo guarda
do cemiterio, mandava sahir. Barras de nuvens tranquillas, estendiam-se
ao oriente, aspectos esbatidos, de vaga melancolia contemplativa. A lua
de um branco baço fluctuava como uma boia de cristofle, e tristes raios
chimericos mal podiam coar-se pelos galhos corpulentos dos cyprestes
antigos.
Via-se pouco pelas ruas do cemiterio; na ventana da capella um mocho
narrava sarcastico em notas vibrantes, legendarios terrores; um vento
passava vagaroso, como vigia de arraial adormecido, varrendo o pó das
brancas sepulturas glaciaes. A Marcellina ergueu-se para pôr o chale
rico e ia andando.
Carolina ergueu-se para seguil-a. Mas o João agarrou-a pela cinta e
com voz alterada, quasi guttural, dizia-lhe attrahindo-a a si, corpo a
corpo:
--Olha lá, espera, olha lá.
Erguera um pouco o busto, e com inabalavel teimosia puxava as saias da
rapariga.
--Esteja quieto, podem vêr. Mau!
Elle porém não a escutava.
--Não te vaes d’aqui, não te has-de ir d’aqui, murmurava-lhe ao ouvido.
Todo o seu esforço era para apanhar-lhe a cara; tinha a respiração
sifflante, e um tumulto de sangue turgecera-lhe as cordovêas do pescoço.
--E o beijo que me deves, o beijo que me deves? Dá-m’o!
Tinha-a agarrado pelas costas, mettendo-lhe as mãos por debaixo dos
braços, e com uma força cruel conservava-a apertada sobre o peito, em
quanto lhe premia os seios crespos e redondos, de mulher inviolada.
Carolina tentava em balde arrancar-se ao amplexo. Conservava os olhos
cerrados, um bater de narinas, a bocca escarlate como a ferida de um
fructo torrido, palpitações. E dizia:
--Mau! Olhe que eu chamo, olhe que grito!
E n’um tom choroso:
--Ora isto, ora isto!
Elle não dizia palavra; apertava-a na cinta uivando com fome, e
beliscando-a na redondeza dos quadris e na curva marmorea das espádoas.
A sua exaltação crescia, e luctava a serio, com arrancos de besta na
quadra fatal do cio. E erguendo de repente o braço forçou-a a voltar a
cabeça para traz, despenteando-a um pouco na frente.
--Mau! dizia ella. Rasgar não vale! Olhava-o com os seus olhos velados
que tinham uma condensação de amor voluptuoso, essa expressão parada e
lubrica que nasce dos espasmos profundos e desolantes.
O João dobrou-a vigorosamente, como se quizera partir-lhe os ossos.
--Cala-te, cala-te! dizia-lhe.
Os seus olhos resaltavam, havia um arripio de fibrilhas nos angulos das
orbitas e sentia-se o estertor da sua respiração estrangulada. Então
curvando-se sobre ella, com os seus labios ardentes sorveu-lhe a bocca
palpitante, e furioso tirou-lhe o lenço para metter-lhe as mãos no
seio. Ao contacto das epidermes a descarga dos fluidos deu um fremito
de corpos, e Carolina esticando os braços atirou-lhe as duas mãos aos
hombros, murmurando:
--Oh! matas-me...
E como na corrente murmura de um rio que vai fugindo, entregou-se-lhe
toda, sonhando com esses _fiords_ serenos e brancos, das regiões onde
os extasis, como as noites duram mezes, sempre illuminados por um iris
de aurora polar.
João agarrou na rapariga ao collo, como a uma criança, foi pela rua
adiante ao encontro de Marcellina, que não estranhou se houvessem
demorado. O João dava-lhe quatro pintos de commissão; era para comprar
aviamentos para um vestido de fazenda, azuloio, que tinha ganho quando
fôra do alferes Sarmento. Andava precisada de botinas; as dos domingos,
de polimento, tinham uma fendasinha no joanete e via-se a meia. Não
podia ir a parte nenhuma que se não envergonhasse. Fallára n’isso ao
João, mas elle enfadava-se. Já lhe tinha dado para umas camisas e para
a ajuda d’uma medalha, e certas miudezas, lenços de sêda, um casaco de
pano bordado a trancinha, que tinha comprado á Francisca adela, com
geito no olho, um pouco gaga. Fora a sua tagarellice, mal apanhou quem
a escutasse, entrou a estafar a paciencia alheia, de commentarios nunca
levados ao fim, historietas afogadas no prologo e logo preferidas a
outras não menos interessantes.
--Ai filhos que se vai fazendo noite, negro tudo como breu.--A
mulata devia estar em cuidado já. E não comprára os carapaus para o
bichaninho, o _Pimpão_, eram mais de sete horas! Não tinha sustancia
no estomago, mas havia sua vontadinha de comer. Tivera fressura para o
jantar, umas ervilhasinhas com presunto que as podiam comer os anjos.
Mas a fructa cara; a hortaliça estava para a gente rica. E então as
mulheres da venda pelas portas; uma pouca vergonha! Quarteirão de
laranjas, dous tostões! Nunca se vira tal n’esse mundo de Christo.
É com a guerra, dizia, é com a guerra. E que andavam os papeis
cheios d’essas cousas, mais de duas mil pessoas mortas cada dia na
Estranja, a tiro. E que Deus nos livrasse, que Deus nos livrasse,
cá de levantamentos. Quando fôra pela _revolta do quatro_, ainda os
dois não eram nascidos, tinham corrido rios de sangue, gente fugida
por esses campos, até os santos andaram n’uma alhada. Nosso Senhor
nos perdôe pelas suas cinco chagas! E persignava-se dando beijos na
unha do pollegar, com ruido. Sahiram do cemiterio. Carolina não dizia
nada, apertava o braço do aprendiz. A velha estava mesmo a cahir, e
queixava-se. Estavam-lhe lá por dentro a resmoer, a resmoer; a modos
que cousa assim de bicha. Tinha tomado as pevides de abobora--nada de
resultado! Ai, mas ia mesmo mortinha; e que fossem enxugar uma pinga,
com uma iscasinha _semelas_... Já não estava em idade de folias,
bem lh’o estava dizendo aquelle esfalfamento. E os seus intestinos
roncavam ameaçadores. Tinha sina de morrer cedo; então!... Toda a
sua gente _marchára_ ainda nova. Seu pai, um homemzarrão com’a um
raio, tinha sahido bom, com uma capa de briche novinha, para casa do
regedor, e á noitinha dá-lhe a febre amarella, e agora o vereis a
vomitar... mandaram chamar o medico Cançado--parecia-lhe que o estava a
vêr--luvas de casimira, um caixa-d’oculos corcovado, barbicas loiras,
arrastando d’uma perna...--Receitou para alli umas berundangas,
ella foi á botica, noite fechada. Enterros por cada canto, padres a
cantarem responsos. Nem ella sabia dizer bem. Quando chegou a casa,
a mãi estava n’um berreiro:--Ai meu _home_ da minh’alma! Ai meu rico
amor do meu coração!... E escarapellava-se pelos cantos em saias de
estamenha, sapateando as grossas solas cardadas pelo sobrado. Sua mãi
fôra lavadeira da infanta, muito estimada das açafatas e aias; levava
e trazia segredinhos, bilhetinhos, do Ramalhão para a Bemposta e da
Bemposta para o Ramalhão. Chamavam-lhe a _Angelca_; um cabo da guarda
apaixonára-se pelos seus bellos olhos e cantava-lhe modinhas. Mas ella,
esperta que tinha raio!--moita carrasco! D’uma vez n’uma deveza, dois
ganhões atiram-se a ella. Mas _éna pai_!... se vossês querem vêr o que
era dar lambada, com os ceirões; andava tudo n’uma dobadoura, quando
veio gente que apaziguou a faina. Quando não, era mulher capaz de dar
cabo d’elles. E havia de se ralar muito. Emfim, filhos, emfim era de
faca na perna, resumia com pompa, cheia de vaidade.
--Manda Nosso Senhor os bons á sua santa vista, que dos maus nem quer
saber o diabo. Uma tarde minha mãi appareceu com tosse, tossinha
de gato engasgado, dôres pela espinhela, calafrios... veio-lhe uma
pulmonia da fortuna... pulmonia foi ella que a raspou até hoje. Foi
em quinta-feira de Corpo de Deus, moravam ahi para as bandas da Sé,
n’uma barraquinha velha; todo o dia a musica a tocar; tropa para cá e
para lá; a pretalhada _tá_--_ti_--_ti_--_tá_: _tá_--_ti_--_ti_--_tá_:
_tá_--_tá_--_taratá!_ Gentalha de pagode, o rei, os ministros, a
procissão, o S. Jorge; e a mãi para alli amortalhada em chita velha, á
espera do padre, para ir para debaixo da terra. Nem um coto de cera,
nem uma fita, nem um véo de escumilha. As bilhardeiras das fidalgonas,
em quanto a _Angelca_ pôde servir-lhes de alcoviteira, fizeram-lhe
festa, sim senhor. Mas quando fechou o olho--diabo que te carregue!
São uma cousa que eu cá sei, aquellas peças. Não é lá dizermos, andam
na _berzundella_ um dia ou outro, mas sempre, sem nunca parar.--E
cheia de reticencias procurava incitar o interesse. Baixava a voz, com
uma confidencia obscena em que figuravam infantas de capote e lenço,
passeando pelo Campo de Sant’Anna com o Chico Bellas, charuto na bocca,
uma gazua no cinto do vestido e viva a _reinação_!... E fulana e fulana
que ahi estão casadas com sicrano e sicrano, sonsinhas d’uma figa, já
se não lembravam de quando escreviam cartas a este e aquelle, para que
viessem ás tantas horas... sempre se viam cousas n’este mundo! Uma
lastima, filhos, uma lastima! E que havia secia que era mesmo para
alli, para quem queria vêr, na cocheira com os trintanarios. Conhecia
boa meia duzia d’essas _typas_; algumas eram damas do paço. E que o
mundo era todo assim. Mas o que a raivava era quererem ser grandes
santarronas, que nem quebram um prato, e no cabo deitavam abaixo a
cantareira! Iam passando diante do _Pescada_. A casa estava cheia de
gente; rumores de guitarras bordavam finos arabescos sonoros, de fados
corridos; vinha lá de dentro um borborinho de gente avinhada; o fumo
dos cachimbos azulava o ambiente, empestando, e grossos risos estalavam
brutaes entre historias alegres do arraial, e largas digestões de
mexilhão e pimentos. Via-se a tia Lauriana, papuda e quente, encostada
ao balcão, entre bojos de garrafas pretas e taboleiros de queijos
frescos. Um aguadeiro deitava ao longe o pregão monotono; para o
interior da cidade, rumores de carruagens amorteciam gradualmente, na
morna somnolencia quebrada da hora. O João lembrou que fossem comer
alguma cousa. E mais aberto com as mulheres contava os seus appetites e
as suas valentias; d’uma vez tinha tosado um _gajo_, na Perna de Pau;
já aquillo _chuchou cascudos_!... E vai quando mal se descuida, o outro
tinha _passado as palhetas_.
Era agora d’uma sociedade _Esperança e Harmonia_; tinham alugado casa
na rua do Quelhas e tratavam de arranjar philarmonica; elle tocava
pratos. Havia um barbeiro na rua das Trinas, o Lopes, que fazia
comedias, gallegos que namoravam as sopeiras e cantavam versos da
sua terra: era reinadio! E elle fazia de policia, tinha comprado uns
bigodes de crepe... E dizia as suas boas intenções--em que se havia
uma pessoa de entreter; andar para ahi perdido de bebedo? Assim sempre
era mais decente. E que ella Carolina, havia de ir ás comedias; não
era verdade? Para o verão queriam dar bailes campestres n’uma horta,
com balões de côres. Iam entrar no _Pescada_, mas Carolina puxou a
manga do aprendiz, pediu que não fossem para alli; tinha lá o pai, se
elle visse, santo Deus, era capaz de fazer alguma.--Aquillo, juntava
Marcellina, em estando pingado, era o diabo mais ruim da christandade.
E prudente aconselhava o Manel do Altinho; ia alli gente mais pacata,
havia quartos particulares, seus reposteiros de chita, um rico
cozinheiro, e em quanto ao _sumo_, era por conta do lavrador, sem
confeição. Uva e mais nada! resumia.
Carolina sorria benevolente, sem dizer nada. Entraram no Manel do
Altinho, para um quarto. O João bateu com ostentação de ricaço, na
mesa, perguntou ás mulheres o que queriam; a Marcellina appetecera um
bifesinho, Carolina não tinha vontade e o João quiz salada de camarões.
E rindo todo córado, olhava para a pequena, abanando a cabeça, e dizia
vagamente para achar palestra:
--Com que sim senhor, com que sim senhor! E confidencialmente,
inclinado para Carolina:
--Não come mesmo nada, mesmo nada?
--Mesmo nada, dizia ella sorrindo, embebecida n’elle.
--Nem tanto como isto? e mostrava a ponteira da bengala.--_Hom’essa!_
Olhe que entisica.
Piscava o olho. Riam baixo.
--Velhaco! segredava ella vermelha, tocando-lhe a face.
--Pois ha-de comer, ha-de comer por força!
E lentamente:
--E camarões, para abrir o appetite.--O olhar do aprendiz penetrava
n’ella como um estylete. Miravam-se com curiosidade petulante,
adivinhando-se. O olhar d’ella afogava-se n’um langor amoroso e
humido, de uma sympathia impura. O João chegou-se mais e com voz quasi
imperceptivel:
--Hoje, lá para tarde, vou, sim? disse elle.
--Hoje não, disse ella.
--Porque? Que tem?
--A visinhança deita-se altas horas. É gente má, percebe? Podia
fallar-se, meu pai sabia... Hoje não. Depois.
--Mas se eu não posso, vê? supplicou o João, com voz piegas de
criança.--Então?...--E timido, uma doçura insistente na bocca:
--Vou sim? Não póde recusar. É má!
Carolina deixava-se penetrar d’aquella imploração toda incendida de
amor deshonesto. E sem resolução:
--Pois sim, pois sim, disse ella, mas ás duas horas, ouça bem, ás duas
horas, quando não houver luz nas janellas, das taes.
A Marcellina um pouco afastada, tinha adormecido.
O rapaz chegou com a cêa. Carolina gostava mesmo muito dos camarões. E
bebia, toda palreira já.
* * * * *
Ao outro dia o aprendiz appareceu mais tarde na loja, tresnoitado
e cheio de fadiga. Era a primeira vez que elle faltava aos seus
deveres e o patrão, o Ferreira, velho direito e tostado, physionomia
vulgarmente honesta, nada lhe disse. O João era d’estes filhos que
os paes, viciosos e desleixados, abandonam pequenos, a uma vadiagem
perigosa. Aos dez annos metteram-lhe umas cautelas na mão. De manhã
cêdo, ainda escuro, ia descalço e cheio de lama ás redacções, comprar
os jornaes do dia, n’uma pasta sebenta, que encontrára n’uma escada. E
caminho dos bairros distantes e ainda adormecidos sob a luz vacillante
dos lampeões, lá ia apregoando o _Diario de Noticias_ e o _Popular
que sahiu agora a dez reis_. Gastava assim a manhã. Algumas vezes,
pequenino e todo roto, a carne suja transida de frio, deixava-se dormir
nas escadas, com a pasta por travesseiro. E esquecia-se no somno,
da venda dos _Populares_. Recolhia a casa carregado, com os jornaes
intactos; davam-lhe tareias monumentaes, com uma corda molhada, nos
rins. D’uma occasião perdeu as cautelas, pôz-se a chorar na rua,
cheio de medo. Quem passava queria saber o que era; elle, soluçante,
dizia a sua desgraça, estorcendo as mãos. Alguns davam dez reis.
Mulheres de ricos vestidos de cauda, compadeciam-se:--Coitadinho,
coitadinho...--As crianças olhavam-o commovidas, esmolando-o. Um velho
alto, barba toda, de bengalão, ao passar disse azedamente:
--Parece impossivel que a policia consinta este desaforo, n’uma cidade
civilisada!--E elle envenenava o seu animo n’uma afflicção profunda,
expressa em lagrimas sem remedio. Ninguem tinha achado as cautelas;
ia passando cada vez menos gente, menos gente; perguntava a todos;
uns riam-se, outros diziam que não, alguns nem respondiam: todos iam
andando! As lojas fechavam: uma tristeza parda fazia-se na rua, obscura
e fria. Os pianos choravam, nas salas mediocres dos terceiros andares,
velhas _romanzas_ de Bellini e Weber, em desafinação sentimental,
e através das janellas unidas, vozes de meninas lyricas diziam em
italiano barbaresco, affectos candentes de heroinas tisicas, com gestos
cavos e ballatas entorpecedoras, cheias de peccado e offensas á moral
publica. Elle sentia no meio da felicidade dos outros, pesar-lhe a sua
miseria, como um globo de chumbo do _pesa-mundos_.
Era bonito e loiro; os cabellos crescidos, annelados, revoltos e cheios
de terra, davam-lhe uma doçura tranquilla e casta, cheia de encanto
e innocencia, o ar d’um leãosinho amamentado n’um viveiro. Tinha nos
olhos um azul escuro de saphira, de uma profundeza de Bambino, no
fundo dos quaes se sentia dormir a sua almasinha angelica, soffredora
e crystallisada, como uma fina joia, desconhecida e brilhante. Não
conseguira fazer com as esmolas nem metade do custo das cautelas; todo
o mundo era feliz e sorria; muitos gastavam em ninharias, em bonecos e
em fitas, um dinheiro louco. Só elle não tinha ninguem que lhe désse o
quartinho dos seus bilhetes perdidos. Mas um homem vinha envolto no seu
casaco de inverno; elle chorava! Encheu-se de valentia e chegou-se ao
transeunte:
--Meu rico senhor, começou, eu tinha umas cautelas, que meu pai me
tinha dado para vender. E vai, alli na calçada dos Caldas, perdi-as,
meu rico senhor. Se eu não levar o quartinho, meu pai é capaz de me
enforcar, meu rico senhor. Tenha compaixão...
--Passa fóra, gatuno! O que tu querias n’esse espinhaço bem sei
eu.--Elle recuou aterrado, convulso.
E varado por aquella violencia ficou soluçando no meio da rua solitaria.
Se fosse para casa, o pai, um pedreiro incorregivel e bebedo, tinha-lhe
preparada a corda, n’um alguidar cheio de agua. Lembrava-se que a mãi,
triste creatura amarella, resignada, loira e cheia de privações, era
meiga para elle e clemente, occultando-lhe as faltas, vestindo-lhe a
nudez com os seus trapos, contemplando-o em certas noites com um amor,
uma tristeza e uma suavidade, toda feita de sacrificios, de dôres e
apprehensões. Essa pobre mulher imploraria de joelhos o seu perdão,
quebrando nas suas costellas, as pancadas que o pedreiro atirasse
ao filho, calada e paciente, de uma humildade evangelica e de uma
vileza sublime! E uma idéa cortava-lhe de repente este referver de
recordações, de vacillações, de receios--se elle não fosse para casa? A
tunda adiar-se-hia para o dia seguinte com accumulação de juros; a mãi,
tão mesquinha e tão boa pagaria por elle, levando puxões de cabellos,
picadas com alfinetes, sôcos pelo vazio e pimenta pela bocca, que o
pedreiro, em estando _com ella_, era um dragão em casa. A visinhança
ás vezes apitava; elle quebrava vidros, dizia improperios, atirava-se
á patrulha, á dentada, como um damnado. Era no inverno, altas horas.
Começou a chover, a chover. O vento encanado pelas ruas, ao longo das
altas casas, agitava os lampeões com estralidos seccos. Dois ou tres
_coupés_ passaram a toda a força. Um d’elles levava crianças e era
tirado a quatro. Era o rei que voltava de S. Carlos, com a familia.
João ficou parado a seguir aquelles trens opulentos, de gente que podia
perder cautelas sem levar tareias, e sem passar noites fóra de casa,
com medo das cordas molhadas. Ser rei era para elle muito mais que ser
Deus; e phantasiava uma existencia inaudita e phenomenal, se fosse rei.
Teria camisas de chita, de quadradinhos, camisolinhas de flanella, boas
botas de inverno, um relogio, cadêa com pingentes, mais cara ainda que
a do visinho Mauricio--o da tenda de S. João da Praça. E dir-lhe-hiam:
--Vossa real magestade senhor rei, vossa real magestade... E elle daria
a mão a beijar, com um grande annel, melhor que o do senhor Parreira,
o commissario de policia do seu bairro. E ajoelhariam diante d’elle
repetindo:
--Vossa real magestade, vossa real magestade...