CONTOS
PORTO: 1881--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
62, Cancella Velha, 62
FIALHO D’ALMEIDA
CONTOS
[Illustração]
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON, EDITOR
Porto e Braga
1881
A
Camillo Castello Branco
Acabo de relêr toda a sua obra. Quanto no artista e no escriptor, o
talento tem de malleavel, de voluntarioso e de grande--a ironia na sua
expansão facetada e cortante, o estylo na elastica elegancia nervosa
dos seus moldes plasticos, e a observação no seu processo tenaz de
analyse e de critica--tudo nos seus livros se encontra, a mãos plenas,
com uma opulencia que deslumbra.
Não sei negar admiração aos homens do seu tamanho, nem lh’a recusarão
com sinceridade e justiça os que, como eu, tiverem passado em revista
os seus trinta annos de gloriosa e efflorescente actividade.
Peço-lhe que aceite a dedicatoria d’este livro mediocre, que pude
elaborar nos ocios de uma vida, cortada de trabalhos e dissabores. Duas
cousas me levam a consagrar-lh’o--o intento de amortisar uma divida de
gratidão pelo que nos seus livros me foi salutar, e o dever honesto de
tirar o chapéo diante do que é superior.
INDICE
Pag.
A Camillo Castello Branco 5
A Ruiva 9
Sempre amigos 119
O tio da America 157
A idéa da comadre Monica 175
Historia de dois patifes 189
A desforra de Baccarat 205
Quatro épocas 221
O funambulo de marmore 241
O milagre do convento 257
Dois primos 323
A expulsão dos jesuitas 341
O ninho d’aguia 357
A dôr 373
PARTE I
OS DOENTIOS
[Illustração]
A RUIVA
A taberna do _Pescada_ ficava mesmo em frente ao cemiterio dos
Prazeres, e era frequentada pela gente do sitio, especialmente de
noite, á hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus
trabalhos e entram na cidade, em ruido.
Tratava-se então de levantar um muro de cantaria que fosse como a
fachada opulenta da gelida cidade de cadaveres; na planura que medeia
entre o cemiterio e as terras, o terreno via-se revolto; os carros
de mão jaziam esquecidos; os montes de pedras miudas e de argamassas
antigas tornavam penoso o transito. Na lama constante do caminho, eram
profundos os sulcos que as seges de enterro deixavam até á porta do
cemiterio, escancarada sempre, como a guela d’um plesiosauro faminto.
Em anoitecendo, tudo aquillo era de uma contemplação lugubre e
mysteriosa, em que se adivinhava o trabalho de milhões de larvas;
o ladrar dos cães tinha um echo desolado, que tornava depois mais
sinistro o silencio; a porta fechava-se sem rumor, girando em gonzos
discretos, e uma luz esmaecia na treva, no fundo dos cyprestes e dos
tumulos, diante de um santuario deserto, onde o Christo, do alto,
olhava vagamente o guarda-vento.
Começavam então a chegar á tasca os guardas encanecidos no mister de
receber enterros, graves nos seus uniformes fatidicos, os coveiros
angulosos e vesgos lançando de si um fetido deleterio; e cada um,
dando boas noites á tia Lauriana, ia sentar-se á banca, no seu lugar,
chupando pontas de cigarro e pedindo decilitros. Todas as noites a casa
se enchia, e o aspecto era sempre o mesmo.
Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Lauriana, mulher
de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pasteis de
bacalhau, e pernas masculas sahindo de grosseiras saias de baetilha; ao
canto, o cego de chapeirão derrubado, attitude fria, faminta, dolorida
e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao hombro, a eterna
noite nas feições. O grupo dos trolhas junto da porta, discutia o preço
das couves e o numero de ventres perfurados com facas de ponta, durante
a semana. Zé Claudino tinha a palavra; a sua authoridade indiscutivel
de orador popular, fazia-lhe cahir dos labios, como um rosario de
sons, as palavras graves, indecorosas, chulas e poeticas, em mixto
turbulento e intelligente.
Bebedos extraordinarios fallam de tudo e descrevem parabolas no sólo,
com a sombra de seus copos embrutecidos. Dous ou tres embirram com a
sombra.
--Mette-te commigo, resmungam; cahe n’essa, minha tyranna!
--A velhaca, commentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta
manhã era atraz. Mas não me larga! Bebeda!
--Era o que me faltava! Sucia de marmanjos!
E insistentes, aos zig-zagues:
--Persegue-me anda, persegue-me, que levas dois _butes_.
--Lá isso, ouve-se outro dizer na rua, lá isso, não digo eu... Que elle
ha um Deus que nos governa: é boa!
Eu entrava, comprimentando os velhos conhecimentos.
--Ditosos olhos, estudantinho! dizia um.
--Ó seu casaca! fazia outro.
--Seja bem apparecido e pague-nos dois dedos de _marufo_.
Um velho fressureiro, com o olho esgazeado de sicario experiente,
tocando-me o braço com a sua mão ensanguentada, ia aconselhando baixo:
--Prove-me do branco, doutor; prove-me do branco que é uma _reinação_!
Com um pastelinho, não lhe conto nada...
Aquelles eram os meus amigos, perigosos amigos contrahidos na
intimidade do vicio e no surdo deboche das tascas.
Sentava-me. A Lauriana vinha, sorrindo, servir-me; e o seu olho
pardo, sequioso, acariciava a brancura do meu pescoço, appetecia
os meus cabellos de um louro claro, tons insipidos, sob as abas do
chapéo esburacado. O seu halito empestava a dez passos, trazido nas
azas do seu amor quente e brutal, de uma infamia cheia de mercancia.
Ouvindo-me pedir qualquer cousa, o olhar adoçava-se-lhe como o d’essas
gatas a quem coçamos o craneo; e eu sentia exhalar-se d’ella um fartum
de gorduras fundidas, que me perturbava. N’essa noite chegou o tio
Farrusco.
Era coveiro e o mais asqueroso,--o da valla; aspecto repellente, perfil
aspero e cortante, descarnadas as faces, as mãos aduncas e gastas,
cheias de terra e de cabellos.
Sobre a testa, de uma pollegada de largo, cahiam grenhas fermentadas;
as orelhas desappareciam-lhe sob a lã sebacea d’um barrete cinzento;
por um rasgão da camisa, furava uma moita de cabellos hirsutos,
brancos como um pé de junco sêcco, nascido entre as pedras d’um muro
arruinado de azenha decrepita. Quasi lhe ficavam pelas esquinas a que
se encostava, os farrapos em que embrulhava o corpo esqueletico e
lustroso, como de couro curtido.
Um cabouqueiro tostado, perfil adunco de coruja, bateu-lhe no hombro.
--Tio Farrusco!
O outro tentou aprumar a estatura, lassa na molleza da embriaguez e
resmungou:
--Que é lá isso, patêgo?--O seu olho envidraçado não podia fitar; fios
de baba desciam-lhe lentos, aos cantos da bocca.
--Olá, fez o cabouqueiro; a maré encheu. E sacudia-o.
--Mais bebedo é vossê, grande cavalgadura!
Tentava caminhar; a sua sombra oscillava amplificada na parede, como a
d’um ante-diluviano phenomenal, e quasi se não comprehendia bem como
aquella cousa era um homem. Arrastou-se custosamente para um canto; ao
passar por Zé Claudino tomou-lhe o copo, levou á bocca o vinho e esteve
bebendo devagar. As gotas, d’um roxo sujo, cahiam-lhe pelas barbas. O
nó da garganta subia-lhe e descia com vagarosos movimentos de embolo no
cylindro d’uma bomba. Pousou o copo com ruido, com a manga da jaqueta
limpou os beiços.
--E a filha? perguntaram-lhe. A _Ruiva_... O tempo tem estado famoso
para doentes. Um sol quentinho que é um forno.--Do fundo, alguem disse
para Zé Claudino:
--A _Ruiva_ inda é viva?
E um trolha curioso:
--Não era essa que deitava sangue pela bocca? Na tenda do Malaquias vi
eu... foi pelo Santo Amaro, faz agora annos...
Mas cada um procurava informar-se:
--Uma _gaja_ de grenha encarnada, um signalzinho de cabellos no
pescoço... o que? Era filha d’aquillo? E apontavam o coveiro.
--Bem sei, diziam; que peça! A que estava com o Nicolau das seges
d’enterro. Contem-me cá quem isso era. Bebeda, como ratos! Ora esperem.
Ella era tambem da sucia da Panasqueira. Lembras-te, Zé Claudino?
--Bons tempos, fez o interrogado do fundo da sua saudade dissoluta,
aquella noite no palheiro do Panellas. Vinte raparigas dos casaes,
todas pimponas, vieram dormir á granja. Alta noite, piscava o olho;
alta noite...
--Não ponhas mais na carta. _Tosquei_ tudo! Que _bailões_! E a _Ruiva_
tambem era...
--Uma mulher dos diabos! Enfezadita dos nervos, mas coragem que tinha
diabo. Quando ella se deitou ao Nicolau, aquella vez pelo Entrudo, além
ao Quintalinho! Prega-lhe duas _taponas_, que nem eu sei como o não
_virou_!
O coveiro olhava, sem comprehender, um pasmo idiota na face. Na
penumbra da taberna, aquelle asqueroso vulto tinha uma expressão
rembrantesca e crua, que fazia medo. O deboche nunca se concentrára
tanto, podia-se jurar.
--Mas, tio Farrusco, a _Ruiva_ vai melhor, hein?
--Melhor, melhor, gaguejou elle. Esta manhã vi-a estar dormindo... mais
branca!--Pagas _cambrainha_[1], ó tyranno? Uma pessoa, c’os diabos,
gosta de molhar a palavra. Quero lá saber!...
[1] Aguardente.
Tentava apoiar-se na banca, com as duas mãos tremulas. Ouviam-no
cantarolar baixo, babando-se:
Foi fazer uma caçada
Á serra de Montalvão!
E com risadinhas pequenas e cruas, geladas, doidas, que produziam como
o _grito_ do estanho, aconchegou-se ao canto, para dormir, com circulos
de cão vadio que se anicha. Todos procuravam espicaçal-o com uma chufa.
Blasphemava-se em voz alta, uma riqueza inultrapassavel de obscenidades.
--A minha filha, resmungava o tio Farrusco. Querem saber da minha
filha, da Ruiva... Sucia de tarimbeiros!...
Foi fazer uma caçada
Á serra...
Ainda hoje, o Nicolau que atira á valla as rezes que se abatem no
hospital[2], me disse que a trazia alli. É boa! Se eu bem vi o
sacco... e cosido que elle vinha.
[2] É no Alto de S. João que se sepultam os cadaveres do hospital; para
o nosso caso, porém, isso não importa.
A _Ruiva_ em postas!--Ria-se. Cahira tudo n’um silencio algido.
Calou-se, e depois:
--Tambem eu hei-de morrer. Quero lá saber nada d’aquella grande velhaca!
--Vamos, disse eu. Ha una cousa peor que um cão damnado: é um coveiro
bebedo. E sahi.
Um dia antes, o meu escalpello penetrára o corpo d’essa perdida
creatura, que veio a fornecer subsidios notaveis á minha these
inaugural.
* * * * *
Inquiri pormenores. Disseram-me que o tio Farrusco fôra casado com uma
vendedeira, a Martha, muito conhecida por Buenos-Ayres. Soube-se depois
que as hortaliças que esta mulher vendia, eram pelo marido plantadas
no cemiterio, para lá da valla e longe das vistas dos indiscretos,
hortaliças que com o tempo e o bello tempero da terra adquiriam grande
desenvolvimento.
Se lh’as gabavam, Martha retorquia:
--Ai! bom dinheiro custam, fregueza. Vem todas as manhãs de Odivellas,
uma estopada que eu sei!...
E explicava que um cunhado, da quinta do snr. marquez de Borba, tinha
seu vintem e um bocadinho de terra onde se faziam os bellos nabos e
aquellas lombardas folhudas. Caro, tudo pelas ultimas, dizia pondo a
sogra, os cordões a luzir no peito.
Carolina nasceu no dia da morte da mãi. Até alli, o coveiro vivera sem
miserias, mas, morta a mulher, descobriu-se d’onde vinham as couves e
ninguem mais lh’as comprou. Não se sabe como a pequena se creára, mas
aos doze annos era bonita, franzininha, o nariz arrebitado, descalça e
cheia de remendos.
E sem consciencia do que via, acompanhava o pai na sinistra occupação
de sepultar os mortos. Assim crescera. N’aquella miseranda existencia
entrára a crear predilecções. Começou a amar principalmente os mortos
que paravam á porta do cemiterio em ricas berlindas douradas, entre
filas de gatos pingados lugubres de tochas accesas, e puxados por
seis parelhas cobertas de crepes. Visitava-os na casa da observação,
acocorada a um canto com o olhar absorto, durante as vinte e quatro
horas que os caixões alli passavam abertos, e onde contemplava,
deitados na petrea immobilidade derradeira, os que na sua vaidade
egoista, corruptos e miasmaticos, iam habitar em sepulchros de marmore,
com figuras sentimentaes na fachada e pomposas inscripções nas lapides.
Póde dizer-se que aprendeu a lêr no cemiterio, quando curiosa na sua
pobreza esfrangalhada queria saber os nomes e posições occupadas no
mundo pelos que habitavam aquella branca cidade de marmores, de que se
julgava rainha.
Uma tarde, passeando na grande rua que corre ao longo da fachada do
cemiterio tinha parado a contemplar, no alto d’um pedestal glorioso,
a estatua do conde das Antas. E fallava ainda nos seus ultimos dias,
d’aquella energica figura de soldado, grande barba sobre o peito e
cabeça de um vigor leonino, a mão apertando o punho da espada... e
desde então, a sua ancia pedia-lhe militares, que arrastam nas ruas
os sabres prateados e destacam, na agitação dos enterros, d’entre os
graves _toilettes_ negros com a alegria embriagadora dos seus vivos
rutilantes e das suas divisas sanguineas, côr dos desejos insaciaveis.
Nos seus devaneios passavam pallidas figuras de alferes, dos que
tilintam esporas no lagedo dos passeios e retorcem bigodes frisados,
contemplando as janellas, em domingos de procissão. Todos os dias
visitava a casa das observações: alli, sobre bancas expunham-se caixões
abertos; ella mesma mettia nas mãos dos mortos as argolas de alarme,
e tal emprego quotidiano permittia-lhe vêr gentes de todas as castas
e profissões. Meninas ricas, filhas de millionarios e nascidas entre
velludos, aureas meninices em berços de renda, acalentadas por amas
normandas de cachos louros, iam alli dormindo nos seus caixões de
setim, victimas de tisica galopante, olhos vitreos e face cavada,
labios brancos em listras lividas e o gelado sorriso dos martyres,
clareando em reflexos os rostos, de uma rigidez de esculptura.
Rapazes pobres, dos que ao clarão das forjas crestaram a vida, figuras
seccas de famintos, torciam nos rostos expressões de soffrer infernal
e gelavam-se na nudez miseranda da morte, ao lado de reverendos, com a
barba bem feita, a batina nova e grave, quebrada em pregas symetricas,
finas camisas de bretanha, tiras de folhos e sapatos de fivela,
cingindo, á força de apertadas com uma fita, contra o peito, cruzes de
marfim bento, symbolo d’uma fé que nunca os caracterisou na vida.
E os grandes devassos, os magros adulteros que nos _foyers_ das operas
e nos camarins das cantoras, nas casas de batota e nas alcovas faceis
fazem publica a sua dissolução e deshonra, vinham tambem, diante da
pequena, exhibir a ultima elegancia.
Carolina, pelo numero e aspecto dos convidados d’um enterro, chegára á
perfeição de fixar a posição social de qualquer defunto.
Os conselheiros reuniam graves figuras circumspectas de velhotes de
luva preta e grandes pés, folgados em botas macias. Os condes faziam-se
acompanhar dos coches da casa real, riqueza oxydada e rota, em que se
sentiam os annos, os ratos e o oleo dos cabellos reaes.
Os escriptores arrastavam figuras chupadas, de luneta, vastas
cabelleiras polvilhadas de caspa, expectoração de discursos com
gestos amplos e eloquencia estrondosa. Conhecia o bombeiro, o
policia, o correio e o juiz de irmandade. E odiava quem vinha só para
entrar na cova, os que embarcavam para o outro mundo sem deixar, na
_gare_, alguns amigos da infancia, ou herdeiros capazes de _guardar
conveniencias_. Ouvia n’esses momentos dizer ao pai:
--Sucia de vadios! quando tinha de abrir cova sem receber gorgeta.
E aprendera a dizer com elle esta phrase profunda:
--Até morrem pelo amor de Deus; cambada!...
Havendo enterro grande, punha uma _garibaldi_ vermelha, azeite nos
cabellos ruivos, sapatos de duraque preto, sem tacões e chatos como
linguados. Toda risonha ajoelhava-se na passagem do prestito, movendo
os labios como quem reza. Depois, na volta:
--Uma esmolinha por aquella alma de Deus!
E comprava pevides, amendoim torrado e alfeloa, á tia Palma, uma de
capote verde, sem um olho, que vinha vender á porta n’um taboleiro
velho, seccas golodices de arraial. O que a abalava era aquella vida
na casa das observações. Olhava já sem terror os cadaveres, como se
fossem pessoas adormecidas no mesmo quarto, cada qual na sua maca
de estalagem. Os homens sobretudo. Alguns eram ainda novos, louros,
pallidos e bem feitos; alguns ricos, tinham a pelle fina, de um
contacto setinoso e bom.
Nas horas de calor, de verão, quando sob os cyprestes, os empregados
do cemiterio dormiam, ia devagarinho sem ser presentida á casa dos
depositos, escolhia os cadáveres dos moços, dos bellos, se os havia e
como um pequeno vampiro sequioso entreabria as mortalhas, despregando
com uma navalhinha as camisas; mettia a mão devagarinho, pelo peito,
mettia, escorregando-a ao longo das carnes, beliscando-as levemente,
com prazer; o olhar dilatava-se-lhe, havia na sua face uma mancha
de excitação, mordia os labios exaltada; e palpando, estudando,
comprehendendo e adivinhando, ficava absorta, um pouco curvada sobre
os corpos, o halito ardente, uma palpitação larga e cheia de impeto. A
sua imaginação rasgava as nevoas indecisas que diante da intelligente
maldade, a sua inexperiencia despregava como uma mascara casta e
limpida, cheia de placidez. Estas explorações fizeram-a muito cedo
mulher, preparando-a a comprehender mysterios e umas meias phrases que
ouvia aos gatos-pingados, se passavam por ella. Ás vezes, eram rapazes
de quinze a vinte annos que jaziam.
Carolina em os vendo exaltava-se, todos os nervos se lhe distendiam na
ancia d’um desejo que jámais formulára. D’uma vez tinha beijado sôfrega
uma fronte, com balbuciações afflictas, ardendo em peccado, como uma
alma de reprobo.
Não conhecera mãi, nunca uma boa mulher a beijara e o coveiro não
reprimia diante da filha as suas expansões brutaes. Entregue a si
propria, chamuscada por caricias perfidas de homens entregues á rota
corrente da sua bestialidade, fizera-se n’isto. Havia no entanto
dentro d’ella ainda, uma cousa ideal e inexplicavel, certa virgindade
infantil: de noite rezava! Vinham-lhe tristezas intimas, a insomnia
triturava-lhe por vezes a saude, como n’um almofariz de bronze. Sem
saber porquê, era desgraçada. Desejaria ser como uma pequena que vira
um dia costurando á porta fuma carvoaria, com uma rosa nas tranças. Mas
de subito, alguma cousa a arremessava á lembrança condemnada dos homens
adormecidos na casa de observação, e via-os surgir das suas mortalhas
alinhavadas, sorrindo, com vida; estendiam os braços a procural-a;
roídos de vermes, muitos vinham, como na dança do _Roberto_, roçar-lhe
pelos quadris os membros esqualidos e podres.
E estonteada, fitando no vacuo aquella visão candente, miseravel nos
seus quinze annos, sentava-se extenuada e languescida, á sombra dos
cyprestes annosos e dos tumulos soberbos, com a cabeça aos baques,
revolta a alma por criminosas commoções. Era já noite muitas vezes,
quando ia só para casa, fóra do cemiterio. O pai ficava embrulhado n’um
cobertor, com um gorro de lã preta por cujos rasgões lhe furavam os
cabellos; deitava-se no concavo d’algum velho tumulo vazio; se cahia
geada, erguia a tampa d’um jazigo de familia para ir estender-se nas
gavetas, entre caixões de chumbo.
Já estava acostumado áquella _folia_, e depois, assim não dormia as
manhãs na cama, e podia começar cedo o trabalho, regando logo de
madrugada da os canteiros dos tumulos das familias que lhe pagavam
esse trabalho, varrendo dos pedestaes as folhas seccas que o vento
despregava dos ramos, e alta noite, com passadas lentas e lugubres, nas
tragicas encruzilhadas de cyprestes, reanimando ou accendendo, com o
rôlo mettido nos dedos, as lampadas extinctas pelas lufadas do nordeste.
Nem uma vez se lembrou de Carolina que ficava de noite, na cidade,
separada d’elle, a sua filha, entregue á leviandade dos seus quinze e
aos furores de coração d’um aprendiz de marceneiro que a perseguia,
preso de maus instinctos. Carolina era branca, delicada e nervosa; o
seu sangue tinha originalidades singulares, inquietações de lucta e o
furor da aventura, e do seu seio dimanava essa ancia ardente de que se
fazem os gozos, anciada como ama sêde antiga.
Dormia n’uma casita arruinada e miseranda, occulta no fundo d’um pateo
sem luz de lampeão, para onde abriam as janellas de taboinhas de casas
suspeitas, em que marinheiros tocavam guitarra.
A historia das suas exaltações enraizava tambem como uma hera,
n’aquellas más janellas, pelas noites escuras de verão, quando
encostada ao peitoril da janella, escutava altercações, descantes e
venalidades, na confidencia de carroceiros.
N’estas disputas Carolina entrevia uma cousa, que se apoderava
rapidamente do seu organismo, enroscando-se-lhe no corpo como serpente
com frio, amarrotando e polluindo no amplexo alguma ainda que pouca,
d’essa adoravel modestia que é o thesouro das mulheres honestas.
Viam-na de manhã quando sahia, dar bons dias á visinhança e sorrir ás
peccadoras mendigas, que nas tabernas jantavam _gravanzos_ por qualquer
pataco, ter com ellas palestras. Desassombradamente olhava para os
homens, tinha desdens para uma ordem de gente e creára predilecções
pelos louros; nos seus trapos escolhia sempre côres que dessem na
vista; e calculista, com o olho febril, architectava aventuras: seria
de noite, uma chuva miuda peneirar-se-hia do alto, sobre as calçadas;
fugiria embrulhada no chalito, com um louro... Hein?
Da janella da sua mansarda empinada sobre um banco de pinho, podia
vêr o que se passava na alcova d’um pobre bordel fronteiro. Apagava a
luz para não ser vista, subia ao banco, encostada á janella; e alli,
durante horas passava a espreitar o que fazia a visinhança. Scenas
equivocas desenrolavam-se por lá. Era tão curioso! A nudez impura dos
contactos fazia-lhe regorgitar de dentro uma seiva, cuja plenitude
a estonteava. Era a febre do sangue infeccionado pelos microzimas
do vicio e o desejo da cadella nubente que uma força espicaça de
irritantes curiosidades e terrores deliciosos. Aquillo vinha-lhe ás
ondas, como a babuge das praias contra fraguedos solitarios.
Corôas de padres esverdeados, mostravam-se á luz de candieiros de
petroleo; no espelhinho dos toucadores das commodas, reflectiam-se
grupos sombrios, estranhas phantasias das incarnações do Vichnou. E
alguem dedilhando guitarras, entoava com voz rouca fados rasteiros
do conde de Vimioso e da Severa, entre exhalações de aguardente. E
tiniam garrafas, sentia-se o cheiro das sardinhas assadas. _Toasts_
desbragados expluiam claramente. As vozes das mulheres guinchavam.
Alguem rolava pelo sobrado e rimas de pratos cahiam, com estrondo, em
migalhas no meio de pragas de raios. D’uma vez tresloucada, descera
á rua. Domingo, de inverno. A noite lobrega alongava-se. Alguem
gritava--_Jornal da Noite, traz a lista de Hespanha!_
O frio penetrava as carnes. Carolina tremia, labios seccos, uma
afflicção enorme subindo-lhe do estomago. Não sabia para onde ir.
Quereria as cousas mais violentas, amplexos de ferro, beijos de lava, o
vasto oceano d’um amor sem fim e sem felicidade.
Mas o aprendiz de marceneiro, um rapaz athletico e sanguineo, appetites
excentricos, sahia da officina, dava com ella, aproximava-se com uma
_piada_...
Carolina recuava humilhada e cheia de vergonha. E sem uma palavra
deitava a correr para a mansarda, subia a escada sem parar, fechava-se
por dentro, e atirando-se para cima do leito desatava a soluçar sem
remedio a desconsolação d’aquella vida, que fluctuava sem linha de
conducta.
O candieiro apagava-se no alongamento da noite. Das torres da Estrella
uma badalada cahia sobre a cidade adormecida, a vibração enorme
alongava-se, n’um circulo infinito...
E no silencio da mansarda, Carolina abria os olhos com um terror em que
dançavam phantasmas sardonicos, com a cara do aprendiz.
Era a tarde de Nossa Senhora dos Prazeres. O tempo serenára, o céo não
tinha nuvens e no azul espiritualisado, os vôos brancos dos pombos
davam uma innocencia casta ao ambiente. Havia arraial n’essa tarde. A
procissão sahida da igreja de Santos, por entre farrapos de bandeiras e
verdores de buxo, devia entrar na capella do cemiterio, á noitinha, em
meio de foguetes e aromas do peixe frito, cuidadosamente consumido pela
fome do povoléo curioso.
Na explanada que vai terminar á porta dos Prazeres, as pequenas
barracas de lona enchiam-se de grupos; filhas de saias engommadas,
olheiras fundas com fadistas de calças esticadas sobre alpargatas de
linho. As mulheres gordas, lenço vermelho, os grossos braços nús,
refogavam mexilhão, vermelhas do calor; em torno os soldados passavam,
de chibata, rostos vulgares e bestiaes dilatados em risos enormes; e
meneando-se, diziam brutezas ás pequenas ovarinas sujas. Na confusão
dos grupos os garotos sujos, vivamente alegres, corriam relanceando
olhares famintos sobre os bolos seccos das vendedeiras ambulantes, e
de passagem pediam cinco reis. Aqui e além viam-se sobre a relva,
petiscando, familias de operários, pequenas louras e limpas, typos
de costureiras futuras, traços finos, scismadores e delicados. Os
vadios esqueleticos, de calções em frangalhos, apregoavam agua. No
ar os ruidos multiplices abafavam-se uns aos outros, e das continuas
pulsações resultantes elevava-se um ruido uniforme e indistincto, como
de ebullição longinqua. Os municipaes da patrulha iam atravessando
devagar, nos seus cavallos negros, e os capacetes esguios de cuja
crista jorrava a branca cabelleira dos pennachos de linho, salpicavam
de originalidade a paizagem. Eram um enlevo. As criadas olhavam-os
suspirando. O ruido crescia. O sol mergulhava com uma pompa escarlate,
no silencio do rio, e o poente inflammado era de uma amplidão sem
balizas. Dentro do cemiterio o mesmo movimento de quem ia e vinha.
Pessoas fornidas de carnes, esposas espessas de oleiros, capellistas
de chapelinho, laços escandalosos e sombrinha, liam, soletrando as
inscripções tumulares. Admirava-se o marmore, as fachadas. Os pequenos
vagarosos colhiam alfazema e sardinheiras. Alguns olhavam através das
rotulas, o interior dos jazigos, a vêr quem tinha berloques de contas
e figuras bordadas a lã em molduras ricas. Alguns ferreiros de mãos
callosas, descançavam na borda dos pedestaes, tasquinhando as suas
merendas; muitos bebiam pelas garrafas, fazendo saudes aos compadres. E
todo o mundo ria a sua pandega, a _fazer arraial_ com grossas bobages
cruas de taberna e de officina. As mulheres de vestidos de merino,
com folhos, mantas de lã com borlas cahidas atraz, chale bem dobrado
no braço, olhavam pasmadas. Os fragmentos das palestras, apanhados de
passagem, eram os mais originaes e contrastantes. Veteranos procuravam
o tumulo do conde das Antas. Explicavam os emblemas, a attitude féra da
estatua.
--Portugal velho! commentavam. Elle e o Saldanha!...
E familiares, um clarão purpureo na face:
--O nosso velho! diziam. No 19 de maio...
E outros queriam vêr o tumulo do Palmella. Uma velha de Aveiro ouvira
dizer na terra que era obra famosa. Alguem explicava as riquezas do
duque, as suas quintas, dois contos diarios de rendimento; a duqueza
era bonita e um pouco gorda; elle tinha sido da marinha. De resto
boas pessoas e fidalgos da gema; pela Semana Santa pediam na sé para
os pobres e sustentavam asylos. E iam semeando o chão de espinhas de
peixe, de cascas de laranja, e os ares de rumores de palestra. Mas
estrondeavam foguetes. Uma philarmonica sentia-se ao longe. Corriam.
Era a procissão. Á frente um marceneiro espadaudo trazia o pendão,
pomposo na sua capa de sêda vermelha. Virgens de branco, rosas na
cabeça, typos de gaiatos disfarçados em saias, vinham gravemente,
acertando o passo. E sobre as cabeças um andor de pau dourado e pequeno
trazia a imagem, cheia de flôres de papel. Carolina com a _garibaldi_
melhor, uma rêde de contas nos cabellos ruivos, fôra tambem á festa. O
coveiro embebedava-se em casa do _Pescada_, com a barba feita, o seu
carão anguloso e miseravel, inerte sob as abas d’um chapéo de Braga.
Carolina vestira-se logo de manhã, toda brunida, botas de duraque sem
tacões, brincos de vidro prateado, arzinho alegre, o branco appetite
da sua carne anemica, feminil e debil. E fôra ao cemiterio espairecer
um bocado, com um farnel no lenço, laranjas, duas queijadinhas da tia
Palma.
A senhora Marcellina que fôra ama do padre Anselmo e agora arranjava
criadas e concertava cadeiras, tinha promettido a Carolina ir lá ter
com ella mais a mulata, que sahira do hospital havia uma semana e lhe
estava devendo cousa de quatro moedas. A Marcellina morava no pateo
tambem, no primeiro andar, tinha arranjos de casa e barbicas pela cara,
sua meia duzia de lençoes, um rico cordão de ouro com medalha e uma
Senhora das Dôres com olhos de vidro, _mesmo viva, a olhar para uma
pessoa_.
E fallava-se: que havia papeis, uma panella de dinheiro no quintal,
ricos manteletes nas commodas, que tinham pertencido á irmã do padre
Anselmo. Marcellina era uma pessoa baixa e vagarosa, aspecto redondo e
rôxo de hemorrhoida, feridas na perna emplastada, anneis pelos dedos
e o vozeirão d’um quartel-mestre sahindo do capote d’alcoviteira. A
sua historia apoiava o enredo principal no governo civil, no hospital
e na rua das Atafonas. De resto encontrára o padre Anselmo, capellão
da Guia e _tomára-lhe amizade_. Boa pessoa, o padre Anselmo, amigo do
seu amigo, boas manhãs na cama, de inverno, beberricava-lhe um quasi
nada, ratão, pregando bellas peças; manhã cedo, ella ainda na cama,
e vinha elle da missa, descobria-a, zás, uma palmada. E morrêra.
Tudo quanto é bom acaba. A gente falla, falla ... um dia chega. E
dava grandes suspiros. Carolina conhecia-a. Mal luzia o buraco, já a
senhora Marcellina corria a vidraça e vinha de coifa branca, espanejar
o peitoril. Tinha um sorriso agradavel; um dente tropego, unico e
esquecido, esverdinhava-lhe na bocca desmobilada; as barbicas hirsutas
recordavam uma gata mansinha que se corcova electrica, sob as festas
do dono. Era-lhe de mais a mais muito obrigada.--De rastos que eu
ande, dizia, de rastos que eu ande, não lhe pago as obrigações que lhe
devo. Quando estivera doente, com tosse e muita febre, ninguem dizia
que ella escapava, a senhora Marcellina vinha dar-lhe caldos e fazer
meia junto do seu leito de proletaria. Havia dous annos. Mas não se
davam muito; a Marcellina era mais das outras defronte, fallava com
ellas de janella para janella, grossos risos e pesadas graças. E ratona
então, como nunca se vira. O que sabia de frades, e do poeta Bocage!...
Era arrebentar de riso, senhores. Além d’isso andava sempre occupada
na vida, uma azafama, chale traçado e sapato d’ourelo, a massa dos
seios papuda e mollemente batida por mais de meio seculo, arrotos
estrondosos... Sahiam de casa d’ella pessoas lugubres. D’uma vez a
policia fôra alli. Emfim, fallavam-se cousas, ella sabia de facadas, e
Carolina ouvira dizer isto--arranja pequenas a velhos. E no fundo da
sua alma branca e susceptivel experimentára horror. Na tarde anterior
a filha do coveiro recolhera com ares de dia, a Marcellina estava á
janella; fallaram-se, como estava como não estava, o pai como ia, e que
ella ia vivendo com o seu padecimento de entranha, amargos de bocca,
uma canceira, uma canceira; mesmo mortinha de todo! Tinha posto bismas
de confortativo que era muito bom, andava agora tomando _pózes_, caros
com’á fortuna, mas o fastio era grande, afflicções por dentro... O
peor eram as noites, contava todas as horas. E depois as pulgas. Ai!
dizia, quem tem mazella, tudo lhe dá n’ella. Que é feito, que é feito?
Não havia olhos que a lograssem. De resto amava as creaturas serias
como Carolina; nunca fôra de tricas, louvado Deus. E arrotava. Tinha
almoçado uma açordinha, com seu ovo; tudo lhe fazia mal.--É caruncho,
é caruncho, commentava. E convidára Carolina a entrar, descançar um
pouco, tinha rosas no quintal, uma franga preta que já punha ovos,
manto novo na Senhora das Dores--minha rica mãi do céo!
Carolina subiu, beijocaram-se, ricas filhas para um lado, abraço para
outro. Carolina sentia-se contente, uma quietação plena, chocada pela
sinceridade da outra. A senhora Marcellina olhava para ella de face. E
largou d’ahi a nada este dito:
--Ha-de ser um peixão!--E piscava o olho pardo com ares de entendedora.
Andaram vendo o quintal; Marcellina fazia-lhe um ramilhete de rosas.
D’alli a nada veio a mulata, encostada ás paredes, uma cuia enorme
de postiços e fundas olheiras, olhos de carneiro morto, um cheiro a
cigarro e a camphora.
Mas foi-se logo encostar. Com o tempo humido, tinha dôres do diabo nos
ossos. Desejaria morrer já--raio de vida! Carolina dizia-lhe palavras
commovidas; que aquillo não havia de ser nada, em o tempo limpando
já a cousa era outra, que tivesse paciencia, coitadinha, que tivesse
paciencia. E a mulata arrastava-se, com um sorriso em que havia alta
percentagem de amargura, aspecto chato e esmagado, como sacco vazio, de
roupa velha. E o seu craneo pequenino de estupida, de grande bestiaga,
tinha a calva depressão idiota d’uma cabaça ôcca. Quando ficaram sós, a
senhora Marcellina abaixando um pouco a voz, disse á filha do coveiro:
--Tenho uma coisita que lhe dizer, seu interesse.
--Sim? fez Carolina.
--Não é cousa nenhuma má, não senhor. O seu a seu dono!
--O que é então?
--Não se zanga, não?
--Porque havia zangar-me? Mas diga.
--Ha ahi um rapazola, que dá um cavacão pela menina. Um cavacão, c’os
diabos; um cavacão!
Carolina teve um sobresalto. O coefficiente das suas orgulhosas
alegrias traduziu-se n’um sorriso.
--Está a mangar, disse.
--Palavrinha, é cousa seria. Elle fallou-me n’isso.
--Para que? disse ella tremula, penetrada.
--Ora! Namoricos; não sabe como as cousas são? Rapaziadas. Todos nós
temos d’isso. Emfim, fallar não offende.--Carolina estava pallida,
sentia-se vagamente n’um deleite, curiosa e cheia de excitações. A
senhora Marcellina, de olhos no chão, mordia o labio inferior, como
quem reflecte.
--Com que então, disse Carolina, gosta?
--Hi!...
E passado um momento:
--Um rapaz como umas casas, forte, loiraço e bom trabalhador. Hein? sua
sonsinha... hein?
E insinuando-se, velha toupeira:
--Tendo juizo, minha riquinha, é uma mina. Nada de cahir antes de
tempo, percebes?
Carolina estava rubra, com palpitações doidas.
--E quem é? Como se chama?
--Isso queria vossê saber, isso queria vossê saber!
--Não, serio, diga.--E mais resoluta--ha-de dizer!
--Aqui defronte do becco, ha uma loja de marceneiro. Sabe. A do
Ferreira, um de óculos.
--Ah! fez Carolina. Já sei.
--Ha um official, o João, bonitote, muito claro. É esse.
--É esse então? Pois senhores...
--Um bello moço, um bello moço! É vêl-o além na loja, a camisa
arregaçada; que braços, hein!
Carolina adivinhava-o, sentindo-o na sua imaginação com um vigor de
pintura.
--E depois? disse ella.
--E elle pediu-me que arranjasse a cousa, que lhe fallasse; tinha
vergonha de vir elle mesmo... Ganha seis tostões, vive só; bom rapaz no
fundo.
--E meu pai?
--Ora! Nem o adivinha. Vive sempre lá em cascos de rolhas. Quer lá
saber... É vinho e deixa andar.
--Nem sei, nem sei...
--Isso, o resto arranja-se. Amanhã ha festa nos Prazeres, percebes?
Elle vai por alli. Tu vaes commigo. Entendam-se lá como quizerem.
Gostas d’elle?
--Sei lá, sei lá! Não é feio...
--Entendo. Amanhã vamos ao arraial. O dia deve estar bonito.
--Olhe, vou de manhã. Lá a espero de tarde.
--Vá feito. Valeu. Faço os meus arranjos e vou depois.
--Adeusinho, adeusinho.
Desceu a escada. No portal gritou para cima:
-- E obrigada por tudo, obrigadinha por tudo.
* * * * *
Não dormiu toda a noite. Uma turbulencia de idéas desencontradas
agitava-a. Havia dentro d’ella alguma cousa explosiva que rebentava,
que se dilatava com um volume maior que o do seu cerebro e do seu
coração.
Tinha projectos, predilecções, vaidades. Iria comer petisqueiras de
truz na frescura dos retiros, sob parreiras verdes, em quanto na
encosta, lavadeiras batem roupa. Teria vestidos azues, de merino, ricos
lenços de sêda com ramos, uma sombrinha e anneis, alguma cousa como uma
opulencia.
A tia Palma não a reconheceria tão liró, feita uma rainha de Nantes com
botas de biqueira. E mirava-se no espelho embevecida, desvanecimento
pelintra, a admiração de si mesma. Surprehendia-se a murmurar
baixinho--O meu João. O meu João está na officina. O jantar do meu
João. Em o meu João vindo. O meu João sahiu.--E orgulhava-se: ter um
homem, ter um amigo...
Diriam d’ella as visinhas--a que está com o João da officina, uma
ruiva.--Via-se aos domingos no passeio da Estrella com elle, em roda
do coreto, fazendo volutas por entre os soldados de caçadores, vestido
de merino azul, de folho, arregaçado atraz, a saia branca, um lenço
nas mãos suadas e gravatinha encarnada, de borlas. E d’alli a um anno
quem sabe, broche de ouro, de moeda! Os pequenos é que _haviam ser_ o
diabo, ranhosos, cheios de birras, cuecas vestidas cuecas amarelladas,
de rastos, fazendo gallos nas testas. Deixal-os. Tambem as _outras_
se aguentavam: ora! Mas um loiro, um loiro; que bom! Sempre tinha
dito--Deus não me mate sem um loiro. Ás vezes ao acordar, na molleza
lassa do corpo tépido e aconchegado, espreguiçava-se pensando:
--Ai! um loiro...
E lembrava as primeiras linhas do pescoço do aprendiz, linhas fortes e
firmemente contornadas, tons rosa no sanguineo da epiderme, pequeninas
espiraes de cabellinhos louros, de um macio quente e provocante. E
depois a sua imaginação, no delirio, na incoherencia, prolongava
nitidamente essas linhas, harmonisando-as, moldando-as, curvas suaves e
velludineas, cheias de saude, aquelles brancos braços herculeos e sem
um pello que lhe via na officina, um peito amplo, cheio e poderoso,
em que se sentissem vagas ondulações viris de seios, altas pernas
nervosas, esculpturaes, direitas. E diante d’ella surgia aquelle corpo
de luctador, de athleta, grandes traços magistraes e simples, de uma
pureza de academia. E penetrava-se da côr da pelle, fresca e clara,
sob que se sentiam correr impetos de sangue rico, joven, virginal,
fremente. Tomal-o-hia pelos hombros, redondos como os d’uma estatua,
e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-hia pequenos
beijos furiosos na bocca, sorvendo o seu halito, estrangulando-lhe os
arquejos, dominando-o e confundindo a sua na alma d’elle.
Seria assim eternamente, sem nunca se fatigar, e no alongamento as
noites de inverno, como grandes corôas que se rezam, deixariam cahir as
horas no silencio.
No turbilhão dos seus devaneios succediam-se rápidas as scenas,
vibrantes como _kolpodes_ que tumultuam na fermentação. Quereria a
vida das visinhas, agitações constantes da negociação dos corpos, que
transformam a vida em sonho ou chimera. Via saias de gomma arrastando,
botinas vermelhas de roseta e tacão alto, os altos penteados
caracteristicos. As caras angulosas, com manchas vinolentas sorriam
para ella, deitando linguas negras de fóra.
E sem explicar porquê, como um rhythmo original, ouvia as pancadas
d’uma enxada na terra do cemiterio. Gelava-se.--Era o pai que estava
abrindo sepulturas! No fundo sentia-se infeliz e fluctuante n’uma
grande incoherencia. Agitada como estava, o somno fugia-lhe, e as
idéas desviando-se pouco a pouco do primeiro intuito, marchavam já,
como raios que se refrangem, pelo vasto plaino das recordações.
Pensava na vida do cemiterio, o amor medonho dos cadaveres, em cuja
gelida intimidade vivera tanto, abrindo mortalhas e erguendo tampas
de caixões. Na sua sinceridade confessava-se horrivel, cheia de
affinidades com a hyena. Nunca mais iria exaltar-se perante homens
sem vida. Que infamia! Agora tinha o seu João, carnes brancas, de
semi-deus. Era feliz então sentindo na alma aquella irisação de paz
que a perfumava toda, como n’um banho voluptuoso. Ser amada por
aquelle forte, apertada e vencida nos seus braços esculpturaes,
parecia-lhe uma ventura, um milagre, alguma cousa como um sonho febril.
Dar-se-hia plenamente e sem reservas, com uma abundancia louca de
contactos, phrenetica e possuida d’um alto desejo de o possuir. A sua
vida condensava-se-lhe colorisada n’uma recordação deliciosa, sem
comprehender no deleite a saciedade, a inanição, o desprezo de si mesma
por fim. No fundo do espelhinho estanhado, a sua figura illuminada pela
vela de sebo tinha uma curva nitida e delicada. Sorriu-se para mostrar
os dentes, pequeninos e miudos, de gatasinha branca. E dilatou-se n’um
vasto contentamento interior: era bella, de uma compleição tenuissima
e nervosa, toda feita de anemias. Com a mão torceu de leve sobre a
fronte, uns cabellinhos ruivos, foi desabotoando, pouco a pouco, o
corpete... O seio era branco, assim descoberto, estreito e appetitoso
como uma miniatura, mas incapaz de amamentar um filho. Todas as
linhas harmoniosas do busto, de fragilidade suave, pareciam moldadas
n’um espartilho e realisavam uma elegancia moderna, boa para ensaiar
figurinos, nos _ateliers_ da Maria Cecilia. Ia desabotoando: uma saia
cahiu, outra e outra, e a camisa envolveu-a, como uma tunica que se
desaperta. Era magra e branca. Na harmonia dos quadris, na expansão
geral das proeminencias, exhalava-se a idealidade das organisações
virginaes. Trivial e pequena como era, excitava assim mesmo. E ella
mesma se devorava com o olhar, examinando, ensaiando attitudes, cheia
d’aquella forte figura do aprendiz de marceneiro. Na tarde do dia
seguinte deviam encontrar-se á noitinha, quando os passaros se amam, no
mysterio das ramarias; o que iria succeder? Sentiria a sua respiração
ardente, com um cheiro a decilitros de Torres, queimar-lhe a face.
Fallariam embevecidos e frementes, cheios da mesma idéa profana,
olhando em torno, receosos de quem passasse. Elle piscar-lhe-hia o olho
maganamente; entender-se-hiam. E como na membrana d’um phonographo, na
sua alma vinham arfar todas as vibrações d’aquella loucura de prazer,
em que palpitaria no dia seguinte. Que farta estava d’aquella pobreza,
comer açordas com alho, andar feita chineleira, ahi como um diabo, com
as saias todas rotas! Raio de vida! Ao menos em elle sendo o seu João,
a cousa ia melhor. E depois... uma pessoa não sabe para o que está
guardada n’este mundo. A tia Marcellina conhecia uma que fôra peixeira,
pé descalço por essas ruas, a vender carapaus, um fedor a peixum de
seiscentos diabos, e agora estava uma opiniosa com um fidalgo, n’um
primeiro andar, ricas cortinas de renda nas janellas. Podia bem ser
que nem sempre estivesse com o João--que elle era bom rapaz, coitado,
mas diz que de sete em sete annos mudam as naturezas, salvo seja.
A variedade attrahia-a. A Marcellina tinha-lhe fallado nos padres
como bons patrões, unhas muito limpas, sua palma benta pelo domingo
de Ramos, cotos de cera pelas Endoenças, bom lugar na capella-mór,
onde se podia estar refastelada a ouvir a musica do _lausperenne_. E
certos particulares, nos priores principalmente, um respeito, bellos
lençoes de linho, almocinhos que era um regalo, nunca recolhiam tarde,
muito limpos e pés lavados todos os dias. Divagava pelos braços dos
desembargadores, dos soldados e dos marujos inglezes. Conhecia uma, da
esquina, a Poloina, que até tinha inscripções; todos os seis mezes ia
receber seu _milho_, que lhe pagava o governo, ou que raio era.
Outra, a Libania, um diabo bexigoso, tinha dinheiro a razão de juros,
seu grilhão com medalha, annel de _luzeiro_. E fulana e sicrana, que
tinham de seu, umas casitas, seu estanco, nunca tinham ido ao Desterro,
viviam á barba longa e andavam gordas. Assim como assim, era boa vida;
deixem lá fallar. Para pessoa pobre não havia outra. Que ser séria
era bem bom fallado, mas o resto, tudo patacuada. Havia tolos que
davam vestidos, ricos chales de cachemira, pagavam a cêa, sua noite
ao Price,--os babosos! Depois não se cança a gente. Quem tinha juizo
sempre ia bem. Havia tal que era mesmo pelo beiço. E citava exemplos.
A prostituição desenhava-se-lhe como a solução natural no problema da
vida de uma rapariga pobre, que todas amam, umas mais, outras menos.
E a sua ardencia, aligeirava-lhe as difficuldades. Pão, pão; queijo,
queijo--que ella não era lá de meias medidas. E deixou cahir a camisa.
Entrou a lavar-se com pequeninos estremecimentos de frio; os cabellos
ruivos desnastravam-se-lhe pelas espádoas, embaraçando-a; chapinhava na
agua com ruido, rapidos movimentos cheios de graça, como fremitos de
diapasão.
Ouviu chorar de repente na calada nocturna, um sino, de uma tristeza
de morte. E depois houve ruido na rua, os candieiros mostravam-se
pelas janellas; um grupo de tochas, sinistro e lento, passou no meio
de pessoas descobertas. Era Nosso Pai, a alguem que estava agonisando.
Carolina viu.
E poz-se a recordar a vida do pai, pelo cemiterio áquella hora gelado
no silencio noctambulo, em quanto os mochos deixam cahir notas
agudas, sinistramente escarninhas. Elle estava talvez dormindo nos
seus farrapos, no coração d’um velho tumulo profanado, entre caixões
esquecidos. Ou perseguido pela insomnia--talvez não tivesse ido ao
_Pescada_--pensava n’ella por ventura, na sua solicitude de pai, porque
tambem teem coração os coveiros, mercê de Deus! E ella, sua filha,
pensava em abandonal-o, em fazer-se servir como uma isca de figado aos
cocheiros e aos trabalhadores, com reducção de preços! Roçava então
pela miseria do coveiro a sua piedade como uma aza de gaivota, e
pensava:--Pobre velho!
Vinham-lhe subitaneas ternuras, vibrações de lagrimas intimas, uma
desconsolação pathetica de tudo quanto a cercava. A idéa de morrer
apparecia-lhe diffusamente, envolta n’uma photosphera de soffrimentos.
Lembravam-lhe irmãs de caridade, jovens e pallidas, um rosario na
cinta, o negror do habito amortalhando corpos de virgens maceradas. E
longas penitencias no marmore das clausuras, entre açoutes de martyrio,
ao rumor dos _confiteor_. Ia arrepender-se, pedir perdão...
Mas o corpo do aprendiz apparecia-lhe de uma tentação hilariante,
branco, moço, potente e triumphador! Esmaecia, como um vago luar que
empallidecei.
A Marcellina appareceu á tarde, depois da procissão, afogueada,
cheia de esfalfamentos; que arrebentava se a não deixassem sentar um
bocadinho, e que ia muito mal; a noite passada não tinha podido pregar
olho; tudo eram bonecages diante d’ella, uma confusão, uma algazarra de
metter medo. E estava ainda com febre--dava o pulso--que vissem, que
vissem... Nunca fôra esmorecida, louvado Deus, lá isso não; que até
pela febre amarella... ai! nem se queria lembrar. Aguas passadas...
Tinha ido ao banco do hospital, explicado o que sentia, e desconfiava
que aquillo era cousa de _nórisma_.
Um rapazote novo que parecia ainda estudante, torcera a venta, e
ella bem vira... ai! tomára já morrer; que andar uma creatura a penar
por esse mundo e depois marchar da mesma maneira... ora!... que lhe
faltava! Antes ir d’uma vez. E que Deus lhe perdoasse, que Deus lhe
perdoasse!...--Carolina sorria-se compassiva e cheia de interesse,
tinha ternuras pelintras, roçava o seu rostinho branco pelo queixo
barbado da inculcadeira, chamando-lhe _Li-Li_ com voz de criança
amuada. Ia cahindo a tarde. O sol mergulhára no mar acharoando de tons
metallicos e cupricos as nuvens do occidente, em gradações insensiveis,
de uma grande riqueza de pinturas. Por entre tumulos, os cyprestes
antigos erguiam-se como sentinellas immoveis, armadas de capacetes
ponteagudos. Fóra as guitarras rumorejavam fadinhos tristes, do
Calcinhas e do João Brandão; um trolha cantava rouquejando, com voz
expectorada:
Habitantes d’este lugar
Se m’alegra ó _curação_...
E vozes de garotos apregoavam--_vai agua ou não vai agua_!--no meio do
vasto rumor de quem sahia.
--Sabes, segredou a Marcellina ao ouvido da pequena, que elle vem
ao anoitecer? Teve hoje de trabalhar na officina; sempre são seis
tostões... Está mesmo parvo, pelo beiço. Demais uma criancinha--dezoito
annos ainda a fazer pela Santa Maria! Pódes fazer d’elle
gato-sapato.--E depois de um silencio: