Eduardo _e_ Jorge.
Jorge.--Leocadia?
Eduardo.--Já lá vai... Disse que hia para casa.
Jorge.--Dá-me lume... (_accende o charuto_). Quero dar-te um conselho,
Eduardo...
Eduardo.--Sim?!
Jorge.--Não te cases.
Eduardo (_Alvaro, sem ser visto, entra n'uma das proximas
barracas_).--Deus me livre... Sendo eu, como realmente sou um cynico,
pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu cynismo!... O casamento
é bom para ti que és um anjo de virtude, e para Alvaro que é o typo da
sisudez... Diz-me cá, és muito feliz, não és?
Jorge.--Não. Estou cançado... Minha mulher... é uma mulher...
Eduardo.--É _uma_ mulher? Pois louva a Deus por não serem duas...
Quantas querias tu? Aposto que estás desmoralisado como um turco?!
Jorge.--Sempre galhofeiro... Agora serio... Tu que és homem de
expedientes, não me dizes como eu possa ser feliz com Leocadia?
Eduardo (_ironicamente_).--Estás a zombar! Pois o anjo de virtude vem
consultar o cynico!? Não abuses da tua superioridade, Jorge...
Jorge.--Se tu soubesses que tormentos aqui vão n'esta alma!... A paixão
allucinada que me abriu o inferno no coração!... Tenho necessidade de
respirar... Quero que tu me ouças, porque não és d'esses tartufos que
torcem o nariz á menor expansão d'um espirito atormentado!... Sabes que
amo até ao delirio uma mulher?
Eduardo.--É a tua naturalmente... Isso é muito justo...
Jorge.--Não é a minha...
Eduardo.--Pois a minha tambem não...
Jorge.--Não motejes a minha dôr... Se me não queres ouvir com seriedade,
calemo-nos...
Eduardo.--Ora diz...
Jorge.--Eu amo... Julia...
Eduardo.--A mulher de... Oh escandalo!... Falla baixo que te não ouçam
os caranguejos...
Jorge.--Não soffro o escarneo... És incapaz de comprehender um
sentimento nobre...
Eduardo (_rindo_).--Sim... esse sentimento é muito nobre... Eu é que sou
o cynico... Tens razão... estou estragado a ponto de não comprehender a
nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral, verás o galardão que
recebes...
Jorge.--Não me importa a sociedade... Perco-me por aquella mulher... Era
ella quem eu amava... Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher
do meu coração era Julia...
Eduardo.--E ella... concorda?
Jorge.--Não... despresa-me... recebe as minhas cartas, e não me
responde...
Eduardo.--Mas sempre vai lendo as cartas?... Então continúa, visto que
esse sentimento é nobre... Eu é que sou o cynico...
Jorge.--E quem sabe o fim para que ella recebe as cartas?
Eduardo.--Talvez para papelotes, quando se frisa...
Jorge.--Adeus!... estás insoffrivel... Isso offende!...
Eduardo.--Pois eu sei cá para que ella recebe as cartas?
Jorge.--Talvez para mostral-as a minha mulher... e vingar-se assim...
Eduardo.--Isso póde ser... A historia antiga conta tres factos
semelhantes. O primeiro aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o
segundo com Fredegonda...
Jorge.--Deixa lá isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-me um
favor?... Se fallas com ella, pódes sondal-a a meu respeito...
Eduardo.--Sondal-a?... não sei de que modo!... Tu não sabes que o marido
é meu figadal inimigo? Só se a vir por aqui destacada do osso do seu
osso... Ella ainda agora aqui esteve com D. Leocadia...
Jorge.--Com minha mulher!
Eduardo.--Sim...
Jorge.--Estou perdido!... Deu-lhe as cartas!...
Eduardo.--Daria?! Que grande immoralidade!
Jorge.--E por isso Leocadia se retirou...
Eduardo.--E olha que não hia boa... Parece-me que a estas horas já ella
admirou o estilo das tuas preciosas cartas!... Olha... queres vêr
Julia?... Ella vem para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em
quanto ella te não vê... e quando passar, falla-lhe...
Jorge (_cumpre_).--Que hei-de eu dizer-lhe?!...
Eduardo (_sorrindo_).--Vê se ella comprehende o _o teu nobre
sentimento_...
Jorge.--Ella não pára a ouvir-me... tu verás...
Eduardo.--Se não parar, anda tu com ella... (_Retira-se_).