Jorge _e_ Julia.
Jorge.--Não tenho animo... Sou um imbecil...
Julia (_sem o vêr, sentando-se em cadeira_).--A minha querida
vingança!... Não vim só para soffrer... Alguem ha-de soffrer comigo...
Jorge (_dirigindo-se com irresolução_).--Animo!
Julia (_voltando-se de repente, e erguendo-se_).--O senhor!... (_Quer
retirar-se_).
Jorge (_sustendo-a_).--Não me fuja...
Julia.--Retire essa mão, senhor!
Jorge.--Esse enfado é muito pouco senhoril... Esta mão não mancha a sua
pureza...
Julia.--Para mim tem o horror de mão que me feriu com um punhal... O
senhor não tem dignidade nenhuma... Retire-se, que meu marido póde
vêl-o.
Jorge.--Que veja... Eu não temo seu marido...
Julia.--Pois não o tema a elle, mas respeite-me a mim, para que a sua
posição de marido seja respeitada... (_Eduardo tem vindo por entre as
barracas esconder-se atraz da mais proxima do dialogo_).
Jorge.--Eu já me não respeito na minha posição... Seu marido que tire
represalias, que eu sou indifferente a todos os ultrajes d'essa ordem.
Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico...
Julia.--Então devo acreditar que o senhor requintou em immoralidade...
Jorge.--Acredite o que quizer... Saiba que foi uma paixão que me
perverteu... Hei-de cuspir na sociedade, visto que a não posso calcar
aos pés... Despreso todas as formalidades... Para a desesperação não ha
conveniencias a guardar...
Eduardo (_á parte_).--Eu é que sou o cynico!...
Julia.--Pois, senhor, eu entendo que as devo guardar todas... Snr.
Jorge, tenha vergonha diante da sua propria consciencia. (_Vai
retirar-se_).
Jorge (_segurando-a_).--Ha-de ouvir-me... Que destino deu ás minhas
cartas?
Julia.--Entreguei-as a sua senhora.
Jorge.--Isso foi um vil procedimento...
Julia.--Deveria antes entregal-as a meu marido?
Jorge.--Não tenho nada com seu marido, Julia... Não me cite tantas vezes
o nome de seu marido, que é de nenhuma importancia n'este objecto...