SCENA VI.

Eduardo, _e depois a_ Viscondessa de Valbom, _com um creado de farda,

que conduz em sacco de damasco vermelho a roupa de banho_.

Eduardo (_accendendo um charuto_).--Ora aqui está o que são os môços

honestos, honrados, e bem comportados!... São estes dous maridos. Jorge

passa por um mancebo exemplar; Alvaro dizem que é o typo da bondade; e,

comtudo, vou descobrindo que as respectivas mulheres, se escrevessem

jornaes, estavam em opposição com os maridos. Os honrados são elles...

Eu é que sou o cynico!... Esta sociedade é uma grande patacuada!... Ahi

vem a viscondessa de Valbom. Não me larga desde aquelle baile...

(_Olhando sobre o hombro_). Ella cá está comigo... (_Erguendo-se_).

Minha querida senhora viscondessa, como passou v. exc.^a desde hontem?

Viscondessa.--_Passablement_. Esperei-o á noite para a partidinha, e o

maganão não nos quiz honrar com a sua visita...

Eduardo.--Urgentes negocios obrigaram-me a hir ao Porto.

Viscondessa.--Namôro... diga a verdade... namôro...

Eduardo.--Não, minha senhora. O meu coração está desde muito na terceira

secção... Não ha poder que o faça entrar na effectividade...

Viscondessa.--Ora deixe-se d'isso... Eu sei que ama... e ama uma

senhora... que... digo?

Eduardo.--Se lhe apraz...

Viscondessa.--Não direi; mas... lembre-se de que _la proprieté n'est pas

un vol_ como diz Proudhon...

Eduardo.--Eu acredito que a propriedade não seja um roubo, e por isso

mesmo não tento contra ella.

Viscondessa.--Tenta, tenta... Isso não é bonito... Se quer merecer a

minha estima, não tente partir os vinculos matrimoniaes de... eu bem

sei...

Eduardo.--E v. exc.^a acha que sou indigno da sua estima, se tentar...

Viscondessa.--Pois não? Ha cousa mais sagrada sobre a terra?! A

reputação d'uma senhora!... (_Mudando de tom_). É verdade que muitas

vezes toda a philosophia é pouca para conter os impetos do coração...

(_Mudando para o tom da honestidade_). Ainda assim, a mulher digna

reprime-se, e faz-se superior a si propria... (_Mudando de tom_). Apesar

d'isso, eu absolvo alguns erros, que muitas infelizes commettem, porque

tem a imprudencia de tentar com a ponta do pé o desfiladeiro, e por

fim...

Eduardo.--Escorregam...

Viscondessa.--Justamente...

Eduardo.--E n'esse caso...

Viscondessa.--Está a pessoa de quem fallamos...

Eduardo.--Nós não fallamos de pessoa nenhuma... Queria eu dizer que

n'esse caso não está de certo v. exc.^a

Viscondessa.--Quem sabe!... (_Á parte_). Ai! o que eu fui dizer!...

Eduardo.--Sei-o eu porque a conheço desde menino, sempre esposa

exemplar...

Viscondessa.--Desde menino, não!... pois que annos tem v. s.^a?...

Eduardo.--Trinta, minha senhora.

Viscondessa.--Trinta?!... Ha-de ser isso... Não levamos grande

differença...

Eduardo.--Queira perdoar-me, minha senhora, mas eu andava na escóla,

quando v. exc.^a deu um baile para celebrar os annos de seu filho, que

era meu condiscipulo... Ha quantos annos isto vai!

Viscondessa (_enfronhada_).--Dê-me licença que vá ao meu banho... São

horas, e a maré principia a vasar...

Eduardo.--Vasa, vasa, minha senhora... Será bom aproveitar a vasante...

Viscondessa (_á parte_).--É muito grosseiro!...

Eduardo.--Vai a resfolegar polvora pelos narizes...

D'esta vez, creio que aboli este vinculo de nova especie!... Ahi está um

dos taes cincoenta namoros de que falla Leocadia... E é por causa

d'estas... que me chamam inconstante!... Que pessimo charuto!... Gilbert

se vivesse n'este tempo suicidava-se com um d'estes canudos de acido

prussico...

Scenas Contemporaneas · 第 102 / 121 题