Jorge _e_ Leocadia.
Jorge.--Que caprichos são estes, Leocadia?
Leocadia.--Caprichos!... O sentimento d'uma offensa é um capricho?!
Jorge.--Qual é a offensa? Uma leviandade de Julia?
Leocadia.--A leviandade foi minha, que não quiz imital-a a ella e a
muitas, que sabem pisar os homens aos pés antes de lhes darem a mão para
que se levantem. Eu dei-lhe a minha alma sem reserva... Fiz do meu amor
um sagrado mysterio com medo que m'o profanassem. Violentei-me a
olhal-o, em publico, com indifferença, para que ninguem me invejasse.
Eram estes os seus conselhos, Jorge... Hoje é que eu comprehendo a
horrivel significação d'este plano. O senhor precisava do segredo para
agradar a muitas victimas illudidas com um só lance de olhos... Creia
que tenho tanta pena de mim como de Julia...
Jorge.--Olha, Leocadia... se o meu crime foi grande, a tua vingança
excede-o... Não me pareces o anjo resignado que eu imaginei... O que eu
acabo de fazer foi uma experiencia na tua alma... O resultado foi
infeliz! Nunca previ que consentirias ao teu coração um arrojo
vingativo, indigno de ti...
Leocadia.--Que fiz eu?
Jorge.--Que fizestes tu?... É boa a pergunta!... Procuraste n'esse salão
o homem mais desacreditado, o espirito mais corrompido, o cynico mais
orgulhoso de o ser, e disseste-lhe que o amavas, sorriste angelicamente
ás suas phrases ironicas, e nivelaste-me com elle, apresentando-m'o como
rival!... Eu... rival de Eduardo!...
Leocadia (_com vivacidade_).--Como rival... nunca! Elle não podia ser
seu rival... porque eu não tenho dous corações.... Fui imprudente...
confesso que fui; mas não pude mais... a punhalada feriu-me de repente,
não me deu tempo de pensar... disse-lhe não sei quê dos labios, mas o
coração aborrece-o, porque eu não posso amar alguem com mais virtudes do
que tu... pouco me importa que tu sejas tão cynico, tão desmoralisado
como Eduardo... Oh! Deus queira que me não ouvissem... Ahi vem Julia...
Eu retiro-me... A mãi está com os olhos fixos em mim... (_Menção de
sahir_).