Jorge, _e_ Eduardo, _dando o braço a_ Leocadia.
Eduardo.--Será isto um sonho?... Se o é, deixe-me sonhar uma hora, sim?
Leocadia (_sorrindo_).--Tambem ha sonhos de que se acorda com a face
cheia de lagrimas...
Eduardo (_para Jorge_).--Ainda aqui!... (_Leocadia estremece_).
Jorge.--Ainda aqui... não estou mal... Tem dançado muito, minha senhora?
Leocadia.--Principiei agora...
Jorge.--Pois ainda tem muito tempo de gosar... São tres horas... Nunca
lhe esqueça que foi ás tres horas...
Leocadia.--Não o comprehendo, snr. Jorge... Que tenho eu com as tres
horas do seu relogio?
Jorge.--Não se finja simples como donzellinha que sahiu hontem do
collegio...
Leocadia.--Antes uma fingida innocencia que uma descarada impostura.
Jorge.--Não entendo.
Eduardo.--Os senhores dizem que não se entendem, e eu de certo não os
entendo melhor. Não façam ceremonia de mim. Queiram explicar-se de modo
que eu possa reconcilial-os.
Jorge.--Reconciliar-nos!... Não estamos divorciados... O que me prende a
esta senhora são os respeitos e considerações que se lhe devem. Em
quanto ella se não desviar da carreira d'um nobre procedimento, as
nossas relações não soffrem quebra...
Eduardo.--Pois n'esse caso, meu caro Jorge, serás sempre o respeitador
d'esta senhora, porque os anjos não se precipitam desde que um, ha
muitos annos, teve o mau gosto de se precipitar do céo.
Jorge (_sorrindo_).--Snr.^a D. Leocadia...... snr.^a D. Leocadia!...
(_Retira-se_).