A procissão onde a impudencia collocára um Christo, o Deus da caridade,
nas mãos d'um padecente, que hia ser esganado!... a procissão, onde se
via um homem de tunica branca, um algoz de cutello e alcofa, alguns
sacerdotes d'um Deus misericordioso!... a procissão descia terrivel de
repulsiva solemnidade para o açougue d'aquella rêz! A tumba da
misericordia fechava aquella orgia de sangue! Era um insulto a Deus! o
cadaver d'um homem atirado á face do Creador! um escarneo satanico á
intelligencia, e ao coração da humanidade!
O prestito parou na praça do sacrificio.
Bernardo com os olhos fitos no céo via nascer a risonha aurora da
eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justiça de Deus mostrava-lhe o seu
regaço. A morte do justo era um crepusculo de nova existencia a
alumiar-lhe o rosto. Inspirava devoção aquelle seu santo sorrir para o
seio do céo que se lhe abria! Trazia nas mãos a imagem do Redemptor; mas
lá em cima via elle o Espirito Creador, a grande alma, onde se refugiam
as almas dispersas na face d'este mundo, e perseguidas pelo demonio da
ira, e da vingança, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade
entregou o azorrague da flagellação do virtuoso.
Bernardo caminhava a passo firme para a escada da forca. Estavam
contrahidas as respirações. Um gemido, menos suffocado, podia ser ouvido
por quinze mil almas que vieram a contemplar aquelle apparelho de morte,
segundo a lei, _formulada pelas inspirações do Evangelho_! pelo codigo
dos perdões! pelos preceitos do Filho de Deus que morrêra, perdoando!