Através da multidão abriu-se uma clareira para deixar passar um homem,
que devia representar um principal papel n'aquelle festim da lei.
Convergiram todas as attenções para aquelle ponto.
Era Pedro Leite--ainda o pregoeiro da innocencia de Bernardo, com a face
cadaverica das longas noites que chorára sobre o tumulo de seu filho
unico.
Quem disse a este homem que Bernardo da Silva era um innocente?
Que força occulta o arrasta a abençoar nas escadas da forca o assassino
de seu filho?
Phenomenos occultos da Providencia! A voz de Deus, soando pelos labios
do mysterio! Explicai-me as operações de Deus, e eu vos explicarei a
inspiração sobrenatural que obriga a balbuciarem o perdão os labios, que
beijaram morto um filho estremecido...
Pedro Leite aproximou-se do justiçado. Ninguem lhe embaraçou o passo.
Cheio de magestade, de poesia funebre, e de santo terror, fallou assim:
«Eu venho pedir o seu perdão á beira do patibulo. Fui eu que o arrastei
até ao tribunal em que foi condemnado; mas não sou eu que o arrasto
aqui. Bradei em favor da sua innocencia. Pedi, ha momentos, a suspensão
d'este acto, em que a minha dôr será mais... muito mais prolongada que a
sua. Não me ouviram: impozeram-me silencio, e mandaram-me sahir do
sanctuario da lei, que resfolegava sangue pela bocca do seu sacerdote.
Venho pedir o seu perdão nas escadas da forca, e vasar o fel, que me
devora a consciencia, na consciencia do juiz implacavel que pede a sua
cabeça a altos gritos!»
Ouviu-se um prolongado murmurio. Era a onda popular que refervia sopeada
entre as rochas da sua impotencia moral, n'aquelles dias, em que o
sangue d'um plebeu continuava a operação regeneradora do sangue de Jesus
Christo.
Bernardo ouviu com presença de espirito a exclamação de Pedro Leite.
«Eu lhe perdôo!»
Foram as suas palavras unicas.
Choraram-se então muitas lagrimas. A piedade teve uma explosão, que as
cronhas dos soldados reprimiram. As turbas queriam rasgar o quadrado
para arrancarem da morte um santo. Este conflicto foi serenado por outro
mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se um homem que sobresahia entre as
molas populares. Era o velho, protector unico de Bernardo da Silva,
durante a sua prisão. Poucos o conheciam.
Foram estas as suas palavras:
«Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr teu filho que morre
enforcado! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr o filho da mulher
que deshonraste, como é nobre nas escadas da forca! Nobre senhor
Francisco de Lucena! vem vêr teu filho, o filho de minha filha, que
borrifa os teus pergaminhos com o teu sangue illustre!»
E calou-se. Calaram-se todos. E aquelle homem lá estava erguido como o
anjo dos tumulos á espera que Deus mande quebrar a lousa d'uma mulher
que ahi falta n'esse trance afflictivo!
Essa mulher morrêra, deshonrada, suffocada pela mão da ignominia, a que
a soberania fidalga de Francisco de Lucena a abandonára.
Esse ancião era o pai d'essa mulher, unico que recebêra em seus braços o
filho da deshonra, unico sabedor d'aquella existencia, que acompanhou
sempre, porque lhe marcára um braço com uma cruz. Desde o ventre á
forca, de longe, desconhecido, com o segredo da deshonra de sua filha
abafado no coração, este homem seguira os vestigios do neto, sem
declaral-o nunca, porque um appellido illustre não o salvava a elle
d'uma _illustre_ ignominia.
Que impressão fez este homem nas turbas? A do espanto. Mas, momentos
depois, chamavam-lhe Doudo. Por ordem do juiz de fóra hia ser preso o
demente. Aproximou-se a justiça d'el-rei. «É doudo...!» dizia o meirinho
ao lançar-lhe a mão.
«_Não é doudo_... é MORTO... » responderam algumas vozes.
Morto, sim!