N'este momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite,
pai de João Leite.
Este homem fez signal de querer fallar. Attenderam-no todos com
religioso respeito.
As suas palavras foram estas:
--Perdôo ao assassino de meu filho! O sangue d'esse homem cahirá sobre a
minha face! Matou defendendo-se d'um aggressor infame! Senhor juiz de
fóra, requeiro a suspensão da execução da sentença. Eu sou parte, e
declaro innocente o réo!
Seguiram-se minutos d'uma estupefacção natural. Eulalia voltou os olhos
para o homem que fallára, quiz arrastar-se de joelhos aos pés d'elle;
não pôde; a impressão devia matal-a, ou resuscital-a... desmaiou a meio
caminho.
O juiz era o algoz moral creado pelo ouro, assim como o carrasco physico
fôra creado pela lei. Não podia eximir-se a pegar do cutello, e seguir
seu caminho.
--É tarde!--respondeu elle.
--Não é tarde!--replicou Pedro Leite, e continuou com solemne
exaltação:--Tarde, senhor juiz, é depois que o tribunal do mundo se
fecha atraz d'aquelle que vai entrar no tribunal de Deus! Tarde, é
quando um juiz de entranhas ferozes se apresenta no banco dos réos
condemnados com a face borrifada de sangue innocente!
--Basta!--exclamou Paulo Botelho com authoridade!
--Pois sim... basta! mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das
pessoas que me escutam. Declaro que lavo as mãos d'este sangue innocente
que vai ser derramado!
O povo murmurou com acanhamento, com a consciencia cobarde da sua
nullidade, mas balbuciou não sei que palavras que irritaram o juiz.
--Não se trata só de punir o assassino de João Leite!--exclamou o
juiz--trata-se de castigar a affronta que recebeu um nobre, feita por um
lacaio que ousou levantar olhos de amante para sua filha!
--Não, não!--gritou Eulalia, erguendo-se com impeto, com as mãos postas,
e cahindo outra vez sobre os joelhos.
O cynico já não tinha coragem para tanto! Soára a hora do ultimo mandato
ao carcereiro. Expirára o ultimo instante de oratorio.
--Cumpra-se a lei!
Disse o juiz, e fez menção de retirarem-se as ondas de povo que tinham
concorrido em tropel, chamadas pelos gritos de Eulalia, e pelo perdão
publico de Pedro Leite.
Eulalia foi conduzida em braços para o interior da habitação do juiz.