Bernardo foi condemnado á pena ultima; Ergueu-se uma forca nas
proximidades do delicto, entre a casa do juiz, e a de Francisco de
Lucena.
Eulalia exaltára-se no martyrio até causar receios de loucura.
Inspiravam-se de uma dôr de morte as exclamações pungentes que soltava a
cada ruido que ouvia semelhante ao arranco retrahido d'um justiçado. O
espectaculo da forca era a sua idêa fixa, desde o momento que uma
religiosa imprudente lhe annunciou o destino de Bernardo da Silva.
A infeliz, na madrugada do dia da execução, fugiu da cella com os
cabellos em desordem, com as faces chammejantes de febre, com os olhos
embriagados de delirio, e com o coração a estalar-lhe de uma dôr que a
endoudecia.
Chegando á portaria não houveram forças humanas que a contivessem. Os
ferrolhos cederam ao impulso d'uma fraca mulher, forte da sua
desesperação; e esta virgem, com habitos de noviça, e bella, na sua
agonia, como um corpo epileptico que se levanta amortalhado do esquife,
corria por entre as multidões que principiavam a agglomerar-se para
testemunharem o desconjuntar dos ossos do pescoço d'um padecente entre
as mãos do carrasco, seu irmão, ambos filhos do mesmo Deus, ambos
remidos pelo sangue do mesmo Christo.
Viram-na as multidões passar; muitos a conheceram: alguns pronunciaram o
seu nome, mas aquella pomba, ferida de morte, era um cadaver que se
movia impellido pelo choque da pilha galvanica.
Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na direcção da
infeliz, a quem chamavam douda; mas não ousou alguem embargar o passo
áquella mulher que parecia fascinar com a magestade da sua demencia.
Os que a seguiam esperavam vêl-a entrar em casa de seu pai.
Enganaram-se. Eulalia subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no
salão onde fôra lavrada a sentença de cadafalso para Bernardo da Silva.
Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquelle alvejar de uma
larva, ajoelhada nos degraus da tribuna.
Deu-se um profundo silencio de alguns minutos.
Eulalia já não podia coordenar as idêas que poucos dias antes clamára no
côro. O sorriso da loucura, o gemido suffocante, uma lagrima embebida
logo no ardor das faces, e algumas palavras entaladas, e apenas
intelligiveis, eram alternativas que a tornaram mais lastimavel durante
alguns minutos.
A mulher e tres filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram ao
tribunal, e quizeram arrastal-a d'alli. Era impossivel. A estatua
parecia chumbada sobre o seu tumulo.
A familia do juiz julgou conveniente empregar o insulto como solução.
Fallavam do justiçado com certa nauzea, que ellas suppozeram ser o
balsamo para a ferida mortal de Eulalia. Paulo Botelho, coadjuvando as
razões da sua familia, cobria de improperios affrontosos o homem que,
pouco depois, havia de perdoar as injurias com a cabeça no laço da
forca.
A exaltação afflictiva de Eulalia tinha tocado o ponto culminante da
morte, ou da alienação irremediavel.
--Innocente! Innocente!--eram os gritos unicos, as derradeiras palavras
que os labios d'aquella mulher tinham de proferir.