Lucena correu a casa com os olhos injectados de fogo. Precisava d'uma
victima! Encontrou no caminho João Leite, mas este não podia
justificadamente ser sua victima. João Leite mostra-lhe a carta que
recebêra de Eulalia. Isto foi exacerbal-o. «Não se lhe dê de ser
repellido por essa infame,--lhe disse elle--Eu vou provar-lhe que sou
pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um
_engeitado_...»
Entrando em casa, procurou o «engeitado.» Encontrou-o ainda
estupidamente absorvido na meditação d'aquella carta. A entrada rapida
que fez no quarto não deu tempo a que Bernardo escondesse a carta que
tinha aberta nas mãos tremulas. Lucena arrancou-lh'a com uma convulsão
de raiva superior á furia d'um demente. Passou-a pelos olhos, e, sem
articular um som, lançou mão d'uma cadeira, e, á segunda pancada,
Bernardo tinha a face coberta de sangue. Era um sangue innocente que
reclamava justiça. Era um sangue innocente que pedia a intervenção de
Deus. A justiça, filha legitima do céo, virá mais tarde salpicar
d'aquelle sangue a face de quem o derramava.
Bernardo, ferido, e pisado de successivas pancadas, não pronunciára uma
só palavra durante este infernal martyrio. Impellido por pontapés, foi
lançado fóra da porta do quarto. As forças faltaram-lhe. O sangue corria
a jôrros. Esvaiu-se-lhe a cabeça, e cahiu.
O fidalgo chamou dous creados, e mandou pôr aquelle homem fóra da porta.
Era ao anoitecer. O engeitado foi arremessado á rua. Quando recuperou os
sentidos, achou-se frio. Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a
sua consciencia, e sentiu pela primeira vez vontade de sorrir da sua
desgraça pelos labios molhados de fel.
E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem
sorrir assim são as que Deus elege para a santidade da bemaventurança.