Francisco de Lucena recebeu com espanto semelhante carta.
Bernardo da Silva embruteceu-se ao lêr a sua.
João Leite deu quatro murros n'uma mesa, e sentiu-se suspenso no ar por
uma legião de demonios raivosos.
Cada um fez seu papel; mas todos tres reunidos deviam formar um grupo
digno da melhor caricatura inédita!
Francisco de Lucena correu ao locutorio do mosteiro, e fez alli
apparecer imperiosamente a filha.
Quiz forçal-a a declarar o nome do homem que a preoccupára até a fazer
má filha. Não lhe arrancou a menor revelação. Foi por outro caminho para
chegar ao seu fim. Fez-se sentimental; lamentou, como bom pai, as
paixões invenciveis d'uma filha que se présa com extremo carinho; contou
historias análogas, que acabavam todas por casamentos desiguaes, mas nem
por isso menos venturosos. Pediu a sua filha o nome d'esse homem que a
impressionára, e fez-lhe ante-gostar a possibilidade de casar-se, se não
viesse d'alli uma absoluta deshonra para a sua familia.
O amor fez heroes, mas tambem faz patetas. Eulalia desceu da sua altiva
energia ao raso da toleima. Declarou o nome... o nome de quem? o nome,
sem nome, do engeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do
escudeiro!...
Que horror!
Nunca se viu um solavanco mais desamparado que o salto de tigre que
Francisco de Lucena deu contra a grade que o separava da filha! Por
Deus! que a esgana se lhe chega! A pobre menina, arripiada como quem vê
um lobo com as fauces vermelhas, e as unhas recurvas, foge pelo
dormitorio, e fecha-se no quarto.