IX.

Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o tractára

sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a aprendizagem de alfaiate

lhe não valia o pão de cada dia. Esta mulher fôra ama da roda no tempo

em que Bernardo lá fôra lançado. Suppunha ella que talvez o tivesse

alimentado ao seu seio por algumas horas, e esta só conjectura

attrahia-a para elle com instincto maternal.

O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe

inspirasse um destino. Esperou.

Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de

Lucena, e por João Leite.

Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia

para isso era o juiz de fóra Paulo Botelho.

O honrado moço, quando se viu na penosa situação de agenciar a sua vida,

por não poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela sua

innocencia, procurou o juiz de fóra, e expoz-lhe com a mais eloquente

naturalidade a injustiça com que fôra maltratado e com que estava sendo

perseguido.

Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de

entrar em sua casa sem ferros aos pés. Olhou em redor de si procurando

um aguazil para fazel-o prender traiçoeiramente; mas o generoso mancebo,

adivinhando-lhe as intenções, disse que não precisava fingir-se; que

elle dava a sua palavra de honra de não retirar da casa em que estava

vivendo, e que mandasse sua senhoria captural-o quando quizesse. O juiz

riu-se da _palavra d'honra_ na bocca d'um creado de servir, e mandou-o

embora, por não ter a proposito um meirinho.

Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro, João Leite,

que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos nobres, comprado pelo ouro

do burguez opulento.

João Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e perguntou-lhe:

--És tu o lacaio de Francisco de Lucena?

--Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena--respondeu Bernardo com

dignidade.

--E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem?

Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa

para retirar-se.

--Vem cá, miseravel!--tornou João Leite--tu és o amante da filha do teu

amo?

--Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi. Hoje

respeito-a, porque lhe não conheço a menor falta que a deshonre!

--Nem ao menos a deshonra de receber as tuas affeições, lacaio?

--Eu não lh'as offereci nunca, senhor.

--Offereceu-t'as ella, sevandija?

--Não, senhor.

--Mas ella escrevia-te...

--Sem ser criminosa, por isso...

--Então achas que não é crime escrever a um bandalho?

--Será, se v. s.^a o quer...

--Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da

bota! Se tivesses um nome...

--Tenho um caracter, senhor!

Bernardo respondeu com altivez; João Leite riu-se com despreso, e

olhando-o da cabeça aos pés, replicou:

--Tu sabes que não podes ter caracter, engeitado!?

--Então, terei um braço...

--Um braço!--atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe um valente

pontapé, que o fez descer tres escadas maquinalmente.

Bernardo assumira toda a dignidade do homem de coração ultrajado. João

Leite achou-se comprimido entre os braços do _sevandija_ que elle

suppunha fugir ao primeiro pontapé para evitar o segundo.

Quiz desfazer-se, de prompto, d'este empecilho, e não pôde, porque os

pés falsearam-lhe, e as costas bateram-lhe com todo o peso sobre os

degraus de pedra. Tirou rapido de um punhal, e roçou com elle duas vezes

sobre o braço direito de Bernardo, que o desarmou, no acto em que uma

terceira punhalada lhe resvalára no peito. O engeitado sentiu-se ferido:

vacillou um instante na resolução que se debatia entre o homicidio e o

perdão. Venceu o primeiro. Aquelle punhal tinto de sangue innocente,

pela segunda vez, derramado, entrou no coração de João Leite, e matou-o.

Isto foi obra d'alguns segundos. João Leite gritára nas convulsões da

morte; acudiram os creados, e encontraram Bernardo da Silva, de braços

cruzados ao pé do cadaver, que vibrava nos seus derradeiros

estorcimentos.

Paulo Botelho tambem acudiu. Primeiro recuou aterrado: depois gritou

«matem esse homem!» E vendo que ninguem de prompto lhe aceitava o

diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros.

Bernardo caminhou para o carcere, com a fronte altiva, com nobreza de

passo, com serenidade de consciencia e maneiras d'um principe, segundo a

linguagem popular dos que o viram.

Scenas Contemporaneas · 第 65 / 121 题