Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o tractára
sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a aprendizagem de alfaiate
lhe não valia o pão de cada dia. Esta mulher fôra ama da roda no tempo
em que Bernardo lá fôra lançado. Suppunha ella que talvez o tivesse
alimentado ao seu seio por algumas horas, e esta só conjectura
attrahia-a para elle com instincto maternal.
O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe
inspirasse um destino. Esperou.
Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de
Lucena, e por João Leite.
Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia
para isso era o juiz de fóra Paulo Botelho.
O honrado moço, quando se viu na penosa situação de agenciar a sua vida,
por não poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela sua
innocencia, procurou o juiz de fóra, e expoz-lhe com a mais eloquente
naturalidade a injustiça com que fôra maltratado e com que estava sendo
perseguido.
Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de
entrar em sua casa sem ferros aos pés. Olhou em redor de si procurando
um aguazil para fazel-o prender traiçoeiramente; mas o generoso mancebo,
adivinhando-lhe as intenções, disse que não precisava fingir-se; que
elle dava a sua palavra de honra de não retirar da casa em que estava
vivendo, e que mandasse sua senhoria captural-o quando quizesse. O juiz
riu-se da _palavra d'honra_ na bocca d'um creado de servir, e mandou-o
embora, por não ter a proposito um meirinho.
Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro, João Leite,
que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos nobres, comprado pelo ouro
do burguez opulento.
João Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e perguntou-lhe:
--És tu o lacaio de Francisco de Lucena?
--Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena--respondeu Bernardo com
dignidade.
--E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem?
Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa
para retirar-se.
--Vem cá, miseravel!--tornou João Leite--tu és o amante da filha do teu
amo?
--Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi. Hoje
respeito-a, porque lhe não conheço a menor falta que a deshonre!
--Nem ao menos a deshonra de receber as tuas affeições, lacaio?
--Eu não lh'as offereci nunca, senhor.
--Offereceu-t'as ella, sevandija?
--Não, senhor.
--Mas ella escrevia-te...
--Sem ser criminosa, por isso...
--Então achas que não é crime escrever a um bandalho?
--Será, se v. s.^a o quer...
--Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da
bota! Se tivesses um nome...
--Tenho um caracter, senhor!
Bernardo respondeu com altivez; João Leite riu-se com despreso, e
olhando-o da cabeça aos pés, replicou:
--Tu sabes que não podes ter caracter, engeitado!?
--Então, terei um braço...
--Um braço!--atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe um valente
pontapé, que o fez descer tres escadas maquinalmente.
Bernardo assumira toda a dignidade do homem de coração ultrajado. João
Leite achou-se comprimido entre os braços do _sevandija_ que elle
suppunha fugir ao primeiro pontapé para evitar o segundo.
Quiz desfazer-se, de prompto, d'este empecilho, e não pôde, porque os
pés falsearam-lhe, e as costas bateram-lhe com todo o peso sobre os
degraus de pedra. Tirou rapido de um punhal, e roçou com elle duas vezes
sobre o braço direito de Bernardo, que o desarmou, no acto em que uma
terceira punhalada lhe resvalára no peito. O engeitado sentiu-se ferido:
vacillou um instante na resolução que se debatia entre o homicidio e o
perdão. Venceu o primeiro. Aquelle punhal tinto de sangue innocente,
pela segunda vez, derramado, entrou no coração de João Leite, e matou-o.
Isto foi obra d'alguns segundos. João Leite gritára nas convulsões da
morte; acudiram os creados, e encontraram Bernardo da Silva, de braços
cruzados ao pé do cadaver, que vibrava nos seus derradeiros
estorcimentos.
Paulo Botelho tambem acudiu. Primeiro recuou aterrado: depois gritou
«matem esse homem!» E vendo que ninguem de prompto lhe aceitava o
diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros.
Bernardo caminhou para o carcere, com a fronte altiva, com nobreza de
passo, com serenidade de consciencia e maneiras d'um principe, segundo a
linguagem popular dos que o viram.