E o peor era que o tal João Leite, noivo repellido, ficou amando
desesperadamente D. Eulalia. Ferido no seu amor proprio, e envergonhado
de tão má estreia, instava com Francisco de Lucena, lançando-lhe em
rosto a imprudencia com que viera roubal-o á sua tranquilidade, não
podendo contar com a obediencia de sua filha. Esta maneira de accusar
vexava Francisco de Lucena, porque era pôr em duvida o seu poder
paternal, e chamar-lhe fraco, imputação que elle odiava ainda mesmo que
se tratasse de vencer a repugnancia de uma fraca menina.
Redobravam as mortificações, e Eulalia, immovel como o seu infeliz amor,
offerecia-se de bom grado á vingança paternal, mas dizia, em linguagem
tragica, que só reduzida a cadaver passaria para a posse do tal
miseravel, que não tinha vergonha de perseguir uma mulher que o
despresava. O pai realisou o dito popular: «casar, ou metter freira.»
Eulalia optou pelo segundo, e os preparativos para entrar no convento
principiaram.
O amor faz a mulher varonil. Temos visto almas de lama apresentarem uma
energia corajosa, quando o tonico do amor lhes vibra as cordas
embrionarias d'um coração, que parece arfar de improviso ao repentino
choque, ao rapto da paixão violenta.
Nas vesperas da sua entrada no mosteiro, Eulalia escreveu tres cartas.
Uma a seu pai. Dizia-lhe que amára um só homem e viveria d'esse amor
desgraçado toda a sua vida.
Outra ao escudeiro. Dizia-lhe que tivesse compaixão d'ella, e chorasse
uma lagrima em troca das que ella chorára, e choraria até á morte.
Outra ao seu implacavel pretendente. Dizia-lhe que o amaldiçoava com
todo o odio do seu coração. Que lhe atirára á cara com um _não_, e nem
assim o envergonhára de continuar a perseguir uma mulher.
Esta correspondencia conservou-a Eulalia até ao momento em que transpoz
o limiar do convento. O seu primeiro acto foi dar-lhe o destino
competente. Depois, chorou, chorou, e attrahiu em volta de si os
carinhos da communidade que a mortificava com as suas frias consolações.