Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para
fóra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas encontrou-os pouco
apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu, depois, aos burguezes
ricos, e encontrou um negociante d'alto bôrdo, que recebeu a proposta
com affabilidade e trabalhou desde logo em levar a fim um casamento que
permittia aos filhos de seu filho appellidarem-se Lucenas.
O pai annunciou á filha o seu rico futuro, e encontrou-a fria.
Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo, porém, era um rapaz de
fina educação, d'alguma intelligencia, de brios que o ouro lhe
estimulava, e de orgulho superior á sua classe, porque, ha 50 annos, a
classe commercial era muito humilde, supposto já trabalhasse para esta
época de barões commerciaes, que, digam lá o que disserem, é o mais
palpitante triumpho da democracia. Para me não metter em graves questões
sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a felicidade que seu pai lhe
annunciára com tanto jubilo, e declarou-se sentimental, por tempo de
quinze dias, fechada no seu quarto, sem querer vêr sol nem lua.
Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do
seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que orçaria talvez por tres mil
cruzados. E era isto verdade.