V.

Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para

fóra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas encontrou-os pouco

apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu, depois, aos burguezes

ricos, e encontrou um negociante d'alto bôrdo, que recebeu a proposta

com affabilidade e trabalhou desde logo em levar a fim um casamento que

permittia aos filhos de seu filho appellidarem-se Lucenas.

O pai annunciou á filha o seu rico futuro, e encontrou-a fria.

Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo, porém, era um rapaz de

fina educação, d'alguma intelligencia, de brios que o ouro lhe

estimulava, e de orgulho superior á sua classe, porque, ha 50 annos, a

classe commercial era muito humilde, supposto já trabalhasse para esta

época de barões commerciaes, que, digam lá o que disserem, é o mais

palpitante triumpho da democracia. Para me não metter em graves questões

sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a felicidade que seu pai lhe

annunciára com tanto jubilo, e declarou-se sentimental, por tempo de

quinze dias, fechada no seu quarto, sem querer vêr sol nem lua.

Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do

seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que orçaria talvez por tres mil

cruzados. E era isto verdade.

Scenas Contemporaneas · 第 61 / 121 题