A familia que Bernardo servia compunha-se de pai, mãi, tres filhos, e
uma filha, de todos os irmãos a mais nova. Por então contava quinze
annos. Era bonita, mas pobre. Os morgados não a pediam; os filhos
segundos tambem não; e a sensivel menina precisava amar, porque o seu
coração era da tempera d'aquelles que não sabem conceber sómente o amor
com a condicional do casamento.
Eulalia não tinha a mais superficial tintura de instrucção, e por isso
não podemos, em boa fé, chamar-lhe romantica. Não era janelleira, nem
rapinhava da papeleira dos irmãos o perfumado papel setim para deposito
de semsaborias amorosas, e por isso não podemos chamar-lhe douda.
Era uma mulher, e n'isto está dito tudo.
Este Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos poetas de
aspirações ferventes e meditações profundas. Mas não era impostor, nem
romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, e uma tristesa
inconsolavel como nenhuma. «A minha organisação--dizia elle--é um
aborto, uma enfermidade incuravel.»
Eulalia sympathisava com aquella tristesa, e com a figura do rapaz.
Achava-lhe traços de semelhança com seus irmãos, e via n'elle o que ella
chamava «cara de pessoa de bem.» E, com quanto eu deteste esta maneira
de classificar as caras, porque não conheço as «caras de pessoas de mal»
tenho-me visto em circumstancias forçadas de dizer o mesmo, porque ha
n'este val de lagrimas umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas
são as peiores caras.
Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir á cozinheira da casa, e
menos se lembraria de accender o fogo do amor no illustre coração d'uma
Lucena, com quem em toda a sua vida fallára tres vezes.
Eulalia passou da dôce sympathia ao amor abrasado, e do amor abrasado á
paixão violenta. Por mais finos e eloquentes olhares que a fogosa menina
lançou ao escudeiro, o escudeiro ou não dava por elles, ou explicava-os
de qualquer modo, com tanto que não ousasse ensoberbecer-se d'aquelle
affecto disparatado. E Eulalia desesperava-se!