Um anno depois, Bernardo fizera admiraveis progressos. Lia com
intelligencia do que lia; escrevia com acerto, e aprêndera só comsigo a
grammatica portugueza, visto que seus amos lhe não tinham permittido
esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permittir
ao servo sciencia que os amos não tinham! O muito illustre Francisco de
Lucena não daria o menor dos seus galgos pela vasta sciencia do Lobato.
E, talvez, tivesse razão.
Em casa de fidalgos d'esta bitóla, quando um creado adquire a confiança
dos amos, ha sempre para isso uma de duas razões. Ou o creado, devasso
como elles, encobre astuciosamente as devassidões dos amos; ou se torna
estimavel pelo zelo honroso com que procura encobrir-lh'as, já que não
póde reprehender-lh'as.
Bernardo estava na segunda razão. Os filhos de Lucena eram livres e
desmoralisados a não poder ser mais. Quizeram captar a benevolencia do
servo, não para aconselhal-os, que não desciam elles a isso, mas para
acompanhal-os em emprezas difficeis, d'aquellas em que o braço do plebeu
é muitas vezes a salvação das costas do fidalgo.
Não o conseguiram nunca; mas tambem não tiveram de arrepender-se da
confiança d'esse convite. Bernardo exercia uma influencia admiravel
sobre os nobres libertinos. Era a superioridade da intelligencia.
Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto das suas idêas, e da linguagem
escolhida com que o engeitado se sahia! O facto de ser engeitado era em
Bernardo, talvez, um motivo de superstição n'aquella casa. Se elle fosse
reconhecido filho d'algum _borra-botas_, como em linguagem nobliarchica
se chama um plebeu, de certo lhe não dariam a importancia de o
considerarem pela intelligencia. Mas o mysterio, a possibilidade de ser
vergontea infeliz d'um tronco illustre, cingiam-lhe a fronte d'uma
aureola entre nuvens, que poderia talvez, mais tarde, dissipar-se, e
deixar na plenitude da sua luz aquelle fructo do amor criminoso d'alguma
raça nobilissima, mais ou menos aparentada com os Lucenas!
Tudo isto era possivel; mas o que elles julgariam, entretanto,
impossivel, é o que vai lêr-se.