Este officio era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas horas
livres para a sua melancolia, e muitos escondrijos no amplo palacio de
seu amo para refugiar-se d'uma sociedade que elle detestava sem saber
porque.
Este viver excepcional n'aquella classe galhofeira, esturdia, e
estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a dos
amos. Aquelles chasqueavam-nos com desabrimento: estes admiravam-no por
compaixão.
Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violencia. Era humilde com um
não sei que de estranha delicadesa. Destacava-se da sua classe com um ar
orgulhoso, mas não calculado. Cumpria as suas muitas obrigações, e
ninguem sabia quando as cumpria. Estas qualidades, rarissimas vezes
encontradas n'um lacaio, tornavam-no assumpto de estudo para os amos que
principiavam a interessar-se na analyse d'aquelle obscuro engeitado.
Guardadas as inauferiveis distancias que separam o senhor do servo, os
fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber lêr, e gastava a
maior parte da noite soletrando o abecedario, e decorando as lições que
o mordomo da casa lhe dava nas horas de desenfado.
Qualquer que fosse o impulso que a isso o levou, é certo que o amo, por
um nobre impulso, permittiu que o rapaz fosse a uma escóla, e para isso
alliviou-o dos encargos de moço de taboa, e levou-o á jerarchia de
escudeiro do menino mais velho.