Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me, e coou-me
nas veias não sei que terror semelhante ao do sacrilego, que não tem
ainda bastante barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de
si proprio, quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no
calix, que rouba.
Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham
agora para mim uma superstição, um cunho sagrado, que me fazia na alma
não sei que pesar semelhante ao remorso.
Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do coração, que se
arrependera. Quiz deixar intactas aquellas cinzas. Luctei comigo para
vencer um excesso de medo, um abuso, talvez, da imaginação. Não pude;
mas não pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um ser sem alma, uma
recordação para as lagrimas, e uma gloria só minha n'este mundo... a
gloria de possuir na morte uma companhia que tivesse sido incentivo de
lagrimas, já que não pude conseguir como companheira na vida essa
preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos na
eternidade.
Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos
longos soffrimentos d'um homem, que atravessou uma longa existencia, sem
conciliar com os prazeres do mundo a eterna viuvez da sua alma!
Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das feições
com que a vi partir d'este mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos
que me vêem... olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos
angustiosos d'esta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira,
animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das
contorsões freneticas da desesperação... Ha alli n'aquelles ossos, onde
os labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante,
me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas minhas
dolorosas contemplações, aqui diante d'esta redoma... Ás vezes juraria
que essa caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim,
balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo á sepultura!...
Então... sinto-me demente, porque tenho ciumes do nada... ciumes d'estas
cinzas esquecidas no mundo... ciumes da memoria d'outras cinzas, que, ha
tres quartos de seculo, esperam o dia final... É lamentavel a situação
d'este pobre velho, que não pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo
reputa chimeras, não é assim?
Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o não
disse, nem lh'o diria, se lhe não acreditasse umas lagrimas que lhe vejo
nos olhos.
Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dôr. O
que eu não creio é na morte. A morte é uma palavra convencional, com que
os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio d'uma nova
existencia. A immortalidade é uma idêa abstracta de tudo que é
comprehensivel aos homens. O homem não explica a immortalidade, em
quanto não sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se me
comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia bruta, e
termina nos espiritos. As funcções do espirito, sem fórmas corporeas,
pertencem á creatura, superior ao homem. Ora, o homem não explica essas
funcções, que devem ser a sua futura existencia, pela mesma razão que o
animal, inferior ao homem, não comprehende as funcções do pensamento
aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no homem. Todos os seres, por tanto,
vão subindo na escala da intelligencia. Todos se transfiguram de fórma
em fórma até deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos
espaços incognitos como vagam os espiritos. É lá em cima, nas
proximidades do grande mysterio, ao clarão da eterna luz, que se lê o
livro de Deus. É nas regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo
sentir pelo orgão espiritual em que recebi a interminavel impressão de
agonia, que foi na terra a minha lenta peregrinação. O amor ardente e
sublime não é um attributo do espirito? Aquelle que muito ama, e muito
devorado morre de paixões grandes e ideaes, não é um propheta da vida
futura, uma preexistencia do futuro amor? A não ser o amor, qual será a
existencia do espirito?
Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que quiz elevar o
seu espirito á altura das minhas grandes doutrinas, do meu querido
segredo. Quiz convencel-o, não digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa
eternidade em que ahi se falla, despida de affectos, de poesia, de
esperanças, e... deixe-me dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...
Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho exaltações de jubilo, aqui,
n'este quarto, onde conto, ha perto de setenta annos, os minutos da
minha existencia. Este goso é a minha convicção na immortalidade... É a
minha esperança, confirmada pela meditação e pela sciencia, de que
hei-de encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do
céo...
Basta... Seja digno da minha confidencia... Não diga ás turbas de Villa
Real os segredos de D. João de Noronha. Aqui escarnecem-se os que
soffrem, logo que não soffrem pelas más colheitas do vinho, ou pela
barateza dos cereaes. Não falle a linguagem dos espiritos, onde a
materia organisada dispõe do machinismo da bocca para lhe dar uma
gargalhada em resposta.»