D. João de Noronha despediu-me.

Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas

communicações. Aprendi com elle a sciencia do espiritualismo. Se depois

me materialisei, é porque a faisca d'aquelle genio não me tinha abrasado

mais que a superficie da materia. O espirito tem a força dos

imponderaveis. A força da materia póde muito bem calcular-se pela força

dos vapores... _tantos cavallos_.

Pergunta-me uma senhora de critica muito fina:

--Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86 annos de

idade, com uma donzella sua contemporanea?!

--De uma maneira muito simples. As nupcias de D. João não podem

considerar-se physicas nem moraes. «Absurdo!--replica a espirituosa

dama.» Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma pequena fortuna,

e queria deixal-a a uma creada, que o servira desveladamente toda a sua

vida. D. João encarava philosophicamente as formulas sacramentaes do

casamento. Achava-o utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se

para recompensar uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe

enxugou nas faces mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do

sacrificio. Poucos dias supportou a viuvez.

--E a caveira?--perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances.

--A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de Noronha. A

viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na mesma

mortalha.

Scenas Contemporaneas · 第 54 / 121 题