D. João proseguiu:

«A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos braços. A mãi, que

prophetisára, em seus virtuosos presentimentos, a desgraça da filha,

apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle

lethargo, com afflictivos gemidos.

Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos

anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. Não chorou uma

só. Em quanto os sinos dobravam a finados pela alma dos dous amantes,

Martha estremecia, mas não posso dizer-lhe como era aquelle tremor... A

corda d'um instrumento ferida, e deixada ao impulso da vibração

estremece assim.

No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender

serenamente a cabeça nos braços de sua mãi. Felicitamos-nos pelo repouso

da infeliz. Imaginamos que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo

menos, mais desabafada d'aquella agonia que lhe suffocava não só os

gemidos, mas até a respiração. Esperamos... mas quem não esperava era o

medico, que, ao retirar-se, deixou dito que não era Christo para

restituir a filha á viuva de Nahim.

Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se

morre assim? Dizem que a morte é a aniquilação da materia... mas aquelle

anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da destruição nos

revelassem o rapido dilacerar d'aquella morte! Quem dirá que aquella

mulher soffreu no corpo? Ninguem! A alma, só a alma, este ser immortal

que foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada

no seu mysterio de dôres inconcebiveis, reluctando por estalar as

algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e só a alma, meu

amigo, consummou aquelle trance de incomportavel inferno, e passou ao

mundo da penitencia ou da gloria...

Agora principia a minha scena n'esta tragedia... É só minha, e só eu a

comprehendo... mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei á igreja de S.

Francisco o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao pé da

sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos

successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a nossa

eterna separação.

Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar n'aquella

sepultura durante tres annos.

Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a pedra

que cobria os ossos de Martha foi levantada.

Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror,

agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do

Santissimo Sacramento.

O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava machinalmente

a enxada com que afastava as camadas da terra.

Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado pelas larvas que a

desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade revocou em volta de

mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a ella... como nos dias da

sua esplendida formosura illuminada pelo resplendor da sua innocencia,

purpureada do pejo com que a candura se rende ao imperio dos

instinctos... Era ella, quando, nos primeiros tempos da nossa infancia,

me offerecia de seu coração a parte que não podia dar a sua mãi, e a

seus irmãos... Era ella, quando me perguntava o segredo d'aquella

attracção irresistivel, que a arrastava para mim, que a entristecia sem

motivo, que a fazia ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia

sonhar umas delicias que sua mãi lhe não explicava nem realisava com os

seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o ecco da enxada, que

feria o seio da sepultura, reboava nas naves da igreja... Gelava-se-me

de terror o pensamento... a phantasia esfriava-se ao roçar pela mortalha

d'aquelles ossos, e eu sentia-me morto em metade da vida, quando a terra

sacudida da enxada me vinha cahir aos pés.

E depois... as larvas, que a razão não podia espavorir, tornavam a

cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se nas grades do côro, a

tremularem por entre os cortinados dos altares, e a esvoaçarem na

abobada do templo como nuvens escuras, espedaçadas pela tempestade.

Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus pés... tinha a face lacerada

pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu amigo... É

impossivel que a imaginação me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... senti o

frio das suas mãos... ergui-a de meus pés... perdoei-lhe... chorei com

ella...

A voz d'um homem chamou a minha alma á realidade acerba d'aquella scena,

que se me figurava um sacrilegio, uma profanação.

Scenas Contemporaneas · 第 52 / 121 题