IV.

É necessario fallarmos de Martha... É a luz unica d'este quadro negro...

Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se não tivesse um heroismo de

virtude para a admiração, e uma santa para o culto das almas nobres, e

apaixonadas pelo sublime do martyrio.

Por ventura, póde o senhor comprehender a situação d'um homem, que tem

desmaiada nos braços aquella por quem fôra atraiçoado...? Não é bastante

comprehender isto: é necessario compenetrar-se mais da minha situação...

Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo

indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me sacrificaram

a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu rival...

Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha

situação?... Não comprehende, porque se eu lhe disser que n'aquelle

trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que

dera a minha vida pela do rival assassinado, com tanto que Martha não

fosse assim desgraçada... o senhor, por certo, não concebe este

phenomeno, este sacrificio... esta monstruosidade de resignação... Quem

sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por

muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos, não é

assim?»

Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. João me

adivinhára. Córei, de certo, quando fui surprehendido no segredo dos

meus juizos. Nada menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre

velho! Era de certo um pungente assentimento á sua conjectura! A dôr é

generosa, e cala as affrontas. Reconheço hoje que ultrajei aquelle

grande sacrificio, que comprehendo agora. Se não receasse mesclar com a

gravidade melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente

philosophico, diria que o diabo não quiz nada com rapazes, e D. João de

Noronha, de certo, não era mais privilegiado que Lucifer para tirar de

mim melhor partido.

Scenas Contemporaneas · 第 51 / 121 题