Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da desesperação, ergueu-se, e
esgrimiu ainda o florete com braço impotente. Mesquita, ferido n'um
braço, afastou-lhe os botes, com admiravel presença de espirito.
O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal,
redobrava de escandalo. Não se atravessavam as multidões espessas, que
reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espanto não
era a moral ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como
razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo Sacramento,
quando dous homens se cortavam a ferro frio.
As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de
captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por meirinhos; e não
houve desgraçadamente authoridade militar que capturasse os duelistas.
Heitor Corrêa, exhausto de forças, perdidas no sangue, que os recursos
da cirurgia não estancára, desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes
de cavallaria, ligeiramente ferido no braço, curava-se n'uma botica,
affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na
rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de «morra!» Os que assim
gritavam diziam que estava exposto o Santissimo Sacramento; e, por
tanto, não podiam deixar de matar o impio que desacatára, em quinta
feira santa, a solemnidade da paixão de Christo. Como elles saciavam a
sede de sangue com o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no
milhares de factos semelhantes que acompanham sempre a edificante
historia dos muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em
Roma, como em Constantinopla.
Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava á janella quando viu entrar seu
irmão nos braços de dous soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o
facto. Contaram-lhe, com as mais irritantes circumstancias, o
acontecimento.
Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes,
sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo
d'este capote, levava um bacamarte.
Quando chegou á entrada da _rua do Jogo da Bolla_, viu um grupo de povo,
que parecia vedar a sahida d'uma botica. Lá dentro estava Pedro de
Mesquita, a quem faltára a coragem para affrontar a força bruta da
populaça.
Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante
d'aquelle homem, que alli estava ameaçado das iras da plebe, tigre
desenfreado da licença, n'aquelles dias de escravidão, logo que um acaso
lhe alargasse um pouco as algemas.
Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a multidão. Descobriram-se
todos, exclamando: «Chega o fidalgo! deixem passar o fidalgo.»
E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmão.
--Assassino... não!...--respondeu o alferes.--Fui eu quem o feri, e
honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.
Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os que podem contar muitos
avós robustos de musculos, e nenhum de vigor intellectual, não
comprehendeu a delicadesa d'aquella resposta. O que elle praticou é um
acto de barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo
atraz, aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, á queima roupa, no peito.
Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de
meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de
arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da
janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos
tormentos possiveis n'esta vida.
Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que subira,
alentado pela coragem da minha dôr, as escadas d'aquella casa, e
levantára da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de
mim... não vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa, sem
atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da
_Misericordia_, orava, talvez, á Virgem protectora das virgens...
Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as
turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror gelára os
poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem ousou, sequer, lembrar-lhe
que aquelle sangue lhe tingia os pergaminhos!
O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance
d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz.
Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.
Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado n'uma possante mula, e
seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em _Almodena_, caminho
de Lisboa. E, para que esta circumstancia me não esqueça, dir-lhe-hei
que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos seus
pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvará de real mercê que o
isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita.
O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao fidalgo, que
passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a altivez do
assassino, que zombára da lei.
Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos
dobraram por alma de Pedro de Mesquita.