II.

D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o cotovello á mesa da

redoma, principiou a historia do seu segredo, em tom de profunda

commoção:

«Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha sessenta e oito

annos que eu estudava latim no convento de S. Francisco. Era minha

tenção ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou

ambições de subir na posição social. Quiz ser padre, e era-o, se

nascesse na igreja lutherana, onde o padre não soffre a cruelissima

amputação da vida da alma, em commercio com o mundo.

Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem,

perdi o imperio da vontade, e as fervorosas vocações do sacerdocio.

Adorei uma d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de

desgraças, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma chaga,

aberta no coração com um ferro em brasa.

Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso

d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem,

finalmente, me fizera estupido... atraiçoou-me.

No meu tempo o amor era uma corôa de espinhos. Então apaixonava-se um

homem, e sentia-se perdido para a sua liberdade, e escravo de uma

angustia interminavel. Eu, por mim, senti-me ultrajado por uma traição

incrivel, e não pude, ainda assim, estalar as algemas ignobeis que me

prendiam á deshonra d'um abandono injustificavel.

Ajoelhei aos pés de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me roubára

cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por ella se

despresára... encontrei-a morta para mim, e vencida por uma paixão, que

devia matal-a! Tive então dó d'aquella flôr, que se desfolhava na

madrugada da sua primavera? O meu amor era grande e generoso! Pedi-lhe

que fosse minha irmã, minha amiga... Nem isso!... nem se quer me aceitou

um conselho de pai na hora em que mais precisa lhe fosse uma protecção

que a salvasse da deshonra, a que se tinha cegamente abandonado.

Eu valia menos que Pedro de Mesquita.

Este homem era official de cavallaria. Nascêra illustre; conquistara-se

uma opinião de heroe; batera-se ardidamente como um leão nas ultimas

batalhas. Era aqui apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos

triumphos difficeis do amor.

E não o lisongeavam! O homem, que obrigára Martha a despresar-me, devia

ser tudo isso.

Era muito linda esta mulher! Diziam-no as emulações, os odios, e as

intrigas, que a sua formosura causára entre pretendentes, que não

queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.

Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavallaria e filho

segundo de uma nobre casa d'esta villa, que não tenho necessidade de

mencionar-lhe.

Não obstante Heitor Corrêa era repellido, porque Pedro de Mesquita não

tinha concessões a esperar para ser mais amado que outro qualquer.

Martha arrancára, como Luzia, os bellos olhos, se assim podesse afastar

de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem que tão caro

devia ser-lhe. E era.

Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam á porfia um

ensejo em que podessem travar as espadas. Corrêa confiava demasiado em

si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o debil adversario.

O momento ambicionado chegou.

Era quinta feira santa.

Martha assistia ao officio da paixão na igreja de S. Francisco.

Heitor Corrêa antecipára-se a occupar o mais proximo, lugar de Martha.

Pedro de Mesquita viera depois, e mordera colericamente o beiço

inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz sahir; não a deixaram as

multidões espessas. Heitor Corrêa comprehendeu-a, e indignou-se. Era

muito despreso para a altivez do seu caracter.

Terminára o officio. O povo evacuou o templo. Martha sumiu-se nas

turbas. Dous homens apenas, como duas estatuas, se fixavam sós, e

immoveis, na nave da igreja.

Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e

rapidas palavras, e desembainharam os fains.

Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor

chammejava a colera, a vingança, o capricho, e por ventura o desejo de

matar, ou morrer.

Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas benziam-se

horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaçarem o

forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patricio era

indubitavel, e perigosa.

Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor não tinha já um

botão na farda, quando Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a

defesa, se sentiu ferido ligeiramente no braço esquerdo.

A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com aquelle

sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e cahiu

banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra o

assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve mão que lhe tocasse.

Scenas Contemporaneas · 第 49 / 121 题