D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o cotovello á mesa da
redoma, principiou a historia do seu segredo, em tom de profunda
commoção:
«Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha sessenta e oito
annos que eu estudava latim no convento de S. Francisco. Era minha
tenção ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou
ambições de subir na posição social. Quiz ser padre, e era-o, se
nascesse na igreja lutherana, onde o padre não soffre a cruelissima
amputação da vida da alma, em commercio com o mundo.
Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem,
perdi o imperio da vontade, e as fervorosas vocações do sacerdocio.
Adorei uma d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de
desgraças, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma chaga,
aberta no coração com um ferro em brasa.
Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso
d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem,
finalmente, me fizera estupido... atraiçoou-me.
No meu tempo o amor era uma corôa de espinhos. Então apaixonava-se um
homem, e sentia-se perdido para a sua liberdade, e escravo de uma
angustia interminavel. Eu, por mim, senti-me ultrajado por uma traição
incrivel, e não pude, ainda assim, estalar as algemas ignobeis que me
prendiam á deshonra d'um abandono injustificavel.
Ajoelhei aos pés de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me roubára
cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por ella se
despresára... encontrei-a morta para mim, e vencida por uma paixão, que
devia matal-a! Tive então dó d'aquella flôr, que se desfolhava na
madrugada da sua primavera? O meu amor era grande e generoso! Pedi-lhe
que fosse minha irmã, minha amiga... Nem isso!... nem se quer me aceitou
um conselho de pai na hora em que mais precisa lhe fosse uma protecção
que a salvasse da deshonra, a que se tinha cegamente abandonado.
Eu valia menos que Pedro de Mesquita.
Este homem era official de cavallaria. Nascêra illustre; conquistara-se
uma opinião de heroe; batera-se ardidamente como um leão nas ultimas
batalhas. Era aqui apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos
triumphos difficeis do amor.
E não o lisongeavam! O homem, que obrigára Martha a despresar-me, devia
ser tudo isso.
Era muito linda esta mulher! Diziam-no as emulações, os odios, e as
intrigas, que a sua formosura causára entre pretendentes, que não
queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.
Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavallaria e filho
segundo de uma nobre casa d'esta villa, que não tenho necessidade de
mencionar-lhe.
Não obstante Heitor Corrêa era repellido, porque Pedro de Mesquita não
tinha concessões a esperar para ser mais amado que outro qualquer.
Martha arrancára, como Luzia, os bellos olhos, se assim podesse afastar
de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem que tão caro
devia ser-lhe. E era.
Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam á porfia um
ensejo em que podessem travar as espadas. Corrêa confiava demasiado em
si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o debil adversario.
O momento ambicionado chegou.
Era quinta feira santa.
Martha assistia ao officio da paixão na igreja de S. Francisco.
Heitor Corrêa antecipára-se a occupar o mais proximo, lugar de Martha.
Pedro de Mesquita viera depois, e mordera colericamente o beiço
inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz sahir; não a deixaram as
multidões espessas. Heitor Corrêa comprehendeu-a, e indignou-se. Era
muito despreso para a altivez do seu caracter.
Terminára o officio. O povo evacuou o templo. Martha sumiu-se nas
turbas. Dous homens apenas, como duas estatuas, se fixavam sós, e
immoveis, na nave da igreja.
Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e
rapidas palavras, e desembainharam os fains.
Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor
chammejava a colera, a vingança, o capricho, e por ventura o desejo de
matar, ou morrer.
Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas benziam-se
horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaçarem o
forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patricio era
indubitavel, e perigosa.
Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor não tinha já um
botão na farda, quando Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a
defesa, se sentiu ferido ligeiramente no braço esquerdo.
A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com aquelle
sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e cahiu
banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra o
assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve mão que lhe tocasse.