--Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a velando
o somno de um filhinho, que tinha no berço. Perguntou-lhe o marido o que
ella fazia a pé á uma hora da noite. Miquelina respondeu que o esperava
para lhe servir a cêa, por isso que as creadas, fatigadas de trabalho,
não podiam esperar que seu amo se recolhesse, alta noite, para
repousarem.
O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma senhora
virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica de
tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a voz
dos subterraneos do pulmão, e fallou assim, com uma carta aberta:
«Conhece esta letra, senhora?»--É minha, penso eu--respondeu ella com
promptidão.--«Já sabe naturalmente que carta é esta.»--Não sei... será
escripta á Antoninha? ou á prima Angela? eu não escrevo a mais
ninguem.--«A mais ninguem, infame!... a senhora não escreve a mais
ninguem?»--Juro que não, juro que não... deixa-me vêr essa carta, Luiz,
deixa-me vêl-a, eu t'o peço pela boa sorte da nossa filhinha.--«Veja.»
Miquelina leu estas duas linhas da carta: _Dous dias é uma ausencia
insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a minha vida tenha algumas
flôres_...
Não continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os gritos da
desesperação! A surpreza transtornara-lhe o espirito, até converter-lhe
o dom da palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido
retirou aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um
motim, um tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina,
exhausta de forças, e convencida da realidade daquella infame allusão,
desmaiou. Seu marido tateou-lhe o pulso e o coração. Reconheceu que
havia alli uma dôr legitima. Ficou estupidamente perplexo, e fazia dó
n'esta duvida afflictiva. Mas a innocencia, filha da justiça de Deus,
devia triumphar.
Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na
subindo a gradação d'uma demencia, e Luiz d'Abreu aterrou-se seriamente.
Ás dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a seguinte
carta:--«Deves possuir quatro cartas, que te foram dadas por Thereza da
Cruz. São quatro documentos inqualificaveis da infamia d'essa mulher.
Tua virtuosa senhora escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da
Cruz pôde obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra
da que ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua
senhora é innocente como os anjos. Pede-lhe perdão, se lhe já lançaste
em rosto a calumnia forjada pela ignobil mulher a que vives associado.
Se apesar de tudo, tiveres a impudencia de continuar relações com
Thereza da Cruz, hei-de eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do
teu caracter para engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.
_Um teu amigo_.»
Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous
medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vêl-o. Mal sabia ella
que esse homem hia ajoelhar-se na sua presença! Eram tocantes as
lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando palavras
inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar aquella nova
surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo d'aquella scena,
sem a comprehenderem.
«Peço perdão a minha virtuosa mulher! (exclamou elle) perdão d'uma
affronta, d'uma calumnia, que a reduziu a esta situação... Na presença
de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...»--Sim, sim,--bradou
ella com enthusiasmo febril--eu perdôo-te de toda a minha alma, Luiz, de
todo o meu coração, meu esposo querido!...
Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mão que beijava, e foi feliz,
verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.
Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.
Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma
entrevista, á meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe concedida.
Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado á porta que devia
ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu tomou
aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e, sem
dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos vergões d'um chicote.
Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio da vergonha;
mas quando a dôr physica dominou a moral, gritou. Abreu retirou a passo
rapido. Thereza fugia, quando um segundo homem lhe lançou a mão. Ella
reconheceu-o, e pediu que a deixasse. «Não, minha senhora,--replicou o
seu conhecido--eu não posso consentir que v. exc.^a seja assim
desfeiteada na rua como uma mulher de alcouce...»--Deixe-me, deixe-me...
por piedade, snr. Alvaro de Sousa!
E debatia-se entre as mãos de Alvaro como atacada de gota coral.
Aproximou-se a patrulha. Lançou mão de ambos, e perguntou a D. Thereza
se aquelle homem a insultara. D. Thereza respondeu que não, que ninguem
a insultara. Alvaro, que nem zombando mentia, desmentiu a sua velha
_amiga_, dizendo que elle a vira chicoteada cruelmente por um homem, que
fugira; e que o mais que a tal respeito podia dizer era que esta senhora
morava n'aquella casa, era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D.
Thereza da Cruz. A patrulha não prescindiu d'estas informações
ratificadas por s. exc.^a Perguntou-lhe o nome do aggressor, e ella
respondeu que o não dizia.
Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaçadora em que a pobre
mulher se viu! A patrulha não queria largal-a; mas Alvaro de Sousa
capitulou por uma libra com as imperiosas exigencias da guarda
municipal, e conseguiu a liberdade da pobre mulher.
E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe
com a mais fleumatica placidez: «Minha querida senhora! Eu comprei com
uma libra a satisfação de pagar a v. exc.^a a menor parte d'um grande
serviço que lhe devo... Eu não pude esquecer-me nunca de que v. exc.^a
com algumas amigas suas, cumpriram uma novena a Santo Anastacio, para
que o servinho de Deus alcançasse curar-me da hydrophobia do amor, que
me atacou... Tenha v. exc.^a uma noite feliz.»
E retirou-se. Thereza da Cruz não respondeu uma palavra.
Alvaro de Sousa estava vingado.
--Tens mentido com a mais soberana presença de espirito!--atalhei eu.
--Não minto, juro-te que não minto...
Estás muito em occasião de verificar estes factos... Deseja conseguir a
verdade, que has-de conseguil-a.[3]
E eu acreditei-o; e ámanhã acreditarei tambem que qualquer destemido
despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...
--O rigor da chronologia--proseguiu o implacavel noticiador--exige que
eu te conte agora a vingança de Maria da Luz.
A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de raiz confiscou-os a
fazenda: os moveis estava designado o dia de leilão em que deviam ser
vendidos.
O marido de Maria da Luz, que por nome não perca, soubera que sua mulher
ridiculisara as pretenções de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de
vergonhosa pobreza. Bem conhecia elle a indignidade a que tentava forçar
sua mulher, instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que
tinha fortes razões de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal
conceito de nobreza de coração, e sensibilidade d'alma que qualquer
marido, mais escrupuloso ainda, não duvidaria instar, na hora critica
d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.
Maria da Luz, por fim, conveio na pessima situação em que se achavam os
negocios de seu marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra é menos negra
que a fome, segundo a opinião d'alguns moralistas entendidos n'estas
côres.
Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era pedido
o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.
O cavalheiro respondeu que a obrigação onde eram estipulados doze annos
seria reformada pelo praso de duas horas......
Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no coração,
foi a raiva: o segundo foi a vergonha: o terceiro foi a negociação com
as condições do titulo reformado, conforme a vontade do credor.
E respondeu affirmativamente, com a sagrada condição d'um segredo
inviolavel para seu marido.
E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz,
com esta carta:
«Meu caro senhor.
«Conforme á negociação que acabo de fazer com sua senhora, remetto doze
mil cruzados. Da inclusa carta da exc.^{ma} snr.^a D. Maria da Luz, verá
v. s.^a que este contracto é bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em
vantagem minha é a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade
que eu não sei se está hypothecada a v. s.^a Supposto me devessem ter
sido dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu não
tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra transacção que possamos
ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante, nos devemos
ambos considerar com mais ou menos jus á mesma propriedade. E, como eu
tenha resolvido cedêl-a em beneficio de meu lacaio, v. s.^a não terá
duvida em consideral-o com os direitos que eu possuia.