II.

O meu amigo continuou:

--Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os

intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a

levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram á

alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma cousa d'um

outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava no quarto o

terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto, d'onde a vivesa

e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas cadavericas d'uma

lenta agonia.

--Devia ser um demonio! Cuidei que uns figurões assim eram privilegio

dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como os do

Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo, não é verdade?

--O que tu quizeres... O caso é que eu julguei-o demente, ou, pelo

menos, desgraçado, que não sei se é menos, por toda a vida.

Agora, levanta-se o pano do segundo acto.

Uma bella manhã, sahe um homem d'um navio com quatro bahús atraz de si.

Este homem procurou a morada de um seu irmão; este irmão, que tinha

morrido, era o pai de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia, era um

rico brasileiro, que acabava de manifestar seiscentos contos.

Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva abraçou seu

sobrinho, chorando a morte de seu irmão, que era muito semelhante com

seu sobrinho. Deu graças á Providencia por encontrar um herdeiro do seu

ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem offensa da

metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma alma muito

grande, maior que a alma universal de Platão! só comparavel á alma que

faz girar um sangue azul nas veias d'um merceeiro.

Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo, e

respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os labios

vibraram-lhe uma eloquencia nova. O coração bateu-lhe pulsações d'um

orgulho expansivo. O corpo endireitou-se na linha vertical que a

Providencia geometrica marcou a todos os que podem parodiar Luiz XIV, e

dizer: o dinheiro sou eu!

O brasileiro não era abdominoso nem vermelho das bochechas. Era um homem

regular, com sentimentos de homem não bestealisado pelo ouro.

Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos, e

deu-lhe as fórmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi, uma carruagem, e

duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o fausto d'aquella

magica metamorphose.

E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo,

menos para casar-se, porque detestava as mulheres.

Elle lá sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com um folhetim.

--Muito obrigado; não me despeço do favor.

--Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que não prescinde,

na riqueza, da vingança premeditada no infortunio.

Alvaro de Sousa não ostentou, como era de esperar, as suas eguas, a sua

carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous mezes, ao

fogão, conversando com o tio, e conquistou-lhe assim um conceito de

grave sisudez, e uma plena confiança.

Na primavera, Alvaro appareceu com as flôres, e, agradavel como ellas,

grangeou amisades, que não tinha...

--Necessariamente... Olha que novidade me dás!... É melhor dizer...

_comprou amisades, que não tinha_...

--Não posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto pobre, era

desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de través

irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era como os que soffrem

rheumatismo agudo, que não consentem uma mosca no travesseiro. E a

pobresa, seja dito em proveito da pathologia, é o rheumatismo agudissimo

da humanidade...

Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella.

O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as

relações dos que lhe eram muito inferiores, e até d'aquelles que

repellira na infelicidade. É realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu

não te minto.

--E as mulheres que faziam?

--As mulheres? Agora vamos nós lá... Isso é uma historia muito

complicada...

--Quaes são as que figuram?

--Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da

Luz. Esta mulher é casada, e era solteira, mas solteira de trinta e

tantos annos, quando Alvaro a requestou. Não sei porque, Maria da Luz,

era a preferida no odio, talvez porque sendo a primeira a repellil-o,

desairou-o, para todas as outras... Não sei.

Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque

a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a

captar-lhe a benevolencia para conservar certos proventos, que estavam

muito em perigo.

O sobrinho começou a jogar com a influencia do tio. Quiz lêr-lhe o seu

programma de vingança, mas achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e

esperou.

Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio á sala, e quiz sustentar a

dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta safada. Alvaro

ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por fóra. Dava-se uns ares de

esquecido, e apertava a mão da sua victima com a cordialidade d'um bom

homem. E Maria da Luz espantou-se.

Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio

nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar

desgraçadamente os terrores do marido de Maria da Luz. Quando menos se

esperava, este homem é demittido, e obrigado pela fazenda a um saldo de

contas que o empobrecia. O brasileiro, que n'este tempo já era visconde

de Sousa, quiz salval-o, mas encontrou em seu sobrinho um violento

accusador das immoralidades d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra

reflectia na face de quem o protegesse. As instancias redobradas

encontraram frio o visconde, que, por fim, declarou que não intervinha

em certos negocios que delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das

conveniencias do paiz, e da moralidade dos funccionarios. Com este

fragmento de _artigo do fundo_, foi despedido o marido da Luz, cujo

decahir para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que

subira.

Maria da Luz comprehendeu a vingança, e achou-a vil.

--Realmente era...

--Mas não ha vinganças nobres, creio eu. A mulher, que eu principio a

chamar pobre, fechára os seus salões, e não esperou que os alheios se

lhe fechassem. A tristeza sentára-se nos sophás d'aquellas salas

desertas, onde viria brevemente sentar-se o escrivão da penhora. A

desgraça, ainda assim, não lhe aniquilava a soberba. Julgava ella que,

humilhando-se a Alvaro, encontraria uma protecção, mas tambem uma

ignominia. O marido, que cahira primeiro na sua miseria, perdeu,

primeiro, a dignidade. Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e

encontrou-a sempre negativa.

E Alvaro respirava com sofreguidão um momento que devia chegar.

Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingança. Thereza da Cruz

era a segunda victima de Alvaro. Esta não podia ser ferida nos

interesses materiaes. Era rica das suas propriedades. Era solteira, e

amava profundamente um homem casado.

Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a, senão

posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz fascinava-lhe a cabeça

d'aquelle amor-appetite que Stendhal judiciosamente distingue do

amor-paixão. Mas Thereza da Cruz detestava a virtuosa esposa do seu

amante, com toda a raiva d'um ciume reconcentrado.

E Alvaro sabia-o.

Era-lhe necessario quebrar aquellas ligações com estrondo e deshonra

para Thereza da Cruz.

O que elle fez é uma ignominia, é, porém uma vingança que medrara em fel

durante tres annos de torturas suffocadas.

Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz, escripta

a uma sua amiga.

O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua

perversa habilidade.

Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra.

E não deixou uma ligeira duvida sobre o genero de relações que a

prendiam a um homem, que se não nomeava.

Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma,

que dizia assim:

«Minha querida amiga.

«Sei que detestas Miquelina, e que procuras perdêl-a no conceito do

marido, para conquistares plenamente uma alma digna de ti. Queres

castigar o orgulho d'essa hypocrita que lamenta a nossa _prostituição_?

Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou

por mim. Tira as têas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e faz-lhe vêr

que sua mulher não é melhor que tu: porque tu és livre, e ella é casada.

Saberás o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.

Scenas Contemporaneas · 第 41 / 121 题