O meu amigo continuou:
--Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os
intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a
levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram á
alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma cousa d'um
outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava no quarto o
terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto, d'onde a vivesa
e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas cadavericas d'uma
lenta agonia.
--Devia ser um demonio! Cuidei que uns figurões assim eram privilegio
dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como os do
Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo, não é verdade?
--O que tu quizeres... O caso é que eu julguei-o demente, ou, pelo
menos, desgraçado, que não sei se é menos, por toda a vida.
Agora, levanta-se o pano do segundo acto.
Uma bella manhã, sahe um homem d'um navio com quatro bahús atraz de si.
Este homem procurou a morada de um seu irmão; este irmão, que tinha
morrido, era o pai de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia, era um
rico brasileiro, que acabava de manifestar seiscentos contos.
Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva abraçou seu
sobrinho, chorando a morte de seu irmão, que era muito semelhante com
seu sobrinho. Deu graças á Providencia por encontrar um herdeiro do seu
ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem offensa da
metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma alma muito
grande, maior que a alma universal de Platão! só comparavel á alma que
faz girar um sangue azul nas veias d'um merceeiro.
Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo, e
respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os labios
vibraram-lhe uma eloquencia nova. O coração bateu-lhe pulsações d'um
orgulho expansivo. O corpo endireitou-se na linha vertical que a
Providencia geometrica marcou a todos os que podem parodiar Luiz XIV, e
dizer: o dinheiro sou eu!
O brasileiro não era abdominoso nem vermelho das bochechas. Era um homem
regular, com sentimentos de homem não bestealisado pelo ouro.
Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos, e
deu-lhe as fórmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi, uma carruagem, e
duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o fausto d'aquella
magica metamorphose.
E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo,
menos para casar-se, porque detestava as mulheres.
Elle lá sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com um folhetim.
--Muito obrigado; não me despeço do favor.
--Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que não prescinde,
na riqueza, da vingança premeditada no infortunio.
Alvaro de Sousa não ostentou, como era de esperar, as suas eguas, a sua
carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous mezes, ao
fogão, conversando com o tio, e conquistou-lhe assim um conceito de
grave sisudez, e uma plena confiança.
Na primavera, Alvaro appareceu com as flôres, e, agradavel como ellas,
grangeou amisades, que não tinha...
--Necessariamente... Olha que novidade me dás!... É melhor dizer...
_comprou amisades, que não tinha_...
--Não posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto pobre, era
desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de través
irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era como os que soffrem
rheumatismo agudo, que não consentem uma mosca no travesseiro. E a
pobresa, seja dito em proveito da pathologia, é o rheumatismo agudissimo
da humanidade...
Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella.
O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as
relações dos que lhe eram muito inferiores, e até d'aquelles que
repellira na infelicidade. É realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu
não te minto.
--E as mulheres que faziam?
--As mulheres? Agora vamos nós lá... Isso é uma historia muito
complicada...
--Quaes são as que figuram?
--Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da
Luz. Esta mulher é casada, e era solteira, mas solteira de trinta e
tantos annos, quando Alvaro a requestou. Não sei porque, Maria da Luz,
era a preferida no odio, talvez porque sendo a primeira a repellil-o,
desairou-o, para todas as outras... Não sei.
Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque
a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a
captar-lhe a benevolencia para conservar certos proventos, que estavam
muito em perigo.
O sobrinho começou a jogar com a influencia do tio. Quiz lêr-lhe o seu
programma de vingança, mas achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e
esperou.
Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio á sala, e quiz sustentar a
dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta safada. Alvaro
ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por fóra. Dava-se uns ares de
esquecido, e apertava a mão da sua victima com a cordialidade d'um bom
homem. E Maria da Luz espantou-se.
Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio
nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar
desgraçadamente os terrores do marido de Maria da Luz. Quando menos se
esperava, este homem é demittido, e obrigado pela fazenda a um saldo de
contas que o empobrecia. O brasileiro, que n'este tempo já era visconde
de Sousa, quiz salval-o, mas encontrou em seu sobrinho um violento
accusador das immoralidades d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra
reflectia na face de quem o protegesse. As instancias redobradas
encontraram frio o visconde, que, por fim, declarou que não intervinha
em certos negocios que delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das
conveniencias do paiz, e da moralidade dos funccionarios. Com este
fragmento de _artigo do fundo_, foi despedido o marido da Luz, cujo
decahir para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que
subira.
Maria da Luz comprehendeu a vingança, e achou-a vil.
--Realmente era...
--Mas não ha vinganças nobres, creio eu. A mulher, que eu principio a
chamar pobre, fechára os seus salões, e não esperou que os alheios se
lhe fechassem. A tristeza sentára-se nos sophás d'aquellas salas
desertas, onde viria brevemente sentar-se o escrivão da penhora. A
desgraça, ainda assim, não lhe aniquilava a soberba. Julgava ella que,
humilhando-se a Alvaro, encontraria uma protecção, mas tambem uma
ignominia. O marido, que cahira primeiro na sua miseria, perdeu,
primeiro, a dignidade. Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e
encontrou-a sempre negativa.
E Alvaro respirava com sofreguidão um momento que devia chegar.
Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingança. Thereza da Cruz
era a segunda victima de Alvaro. Esta não podia ser ferida nos
interesses materiaes. Era rica das suas propriedades. Era solteira, e
amava profundamente um homem casado.
Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a, senão
posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz fascinava-lhe a cabeça
d'aquelle amor-appetite que Stendhal judiciosamente distingue do
amor-paixão. Mas Thereza da Cruz detestava a virtuosa esposa do seu
amante, com toda a raiva d'um ciume reconcentrado.
E Alvaro sabia-o.
Era-lhe necessario quebrar aquellas ligações com estrondo e deshonra
para Thereza da Cruz.
O que elle fez é uma ignominia, é, porém uma vingança que medrara em fel
durante tres annos de torturas suffocadas.
Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz, escripta
a uma sua amiga.
O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua
perversa habilidade.
Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra.
E não deixou uma ligeira duvida sobre o genero de relações que a
prendiam a um homem, que se não nomeava.
Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma,
que dizia assim:
«Minha querida amiga.
«Sei que detestas Miquelina, e que procuras perdêl-a no conceito do
marido, para conquistares plenamente uma alma digna de ti. Queres
castigar o orgulho d'essa hypocrita que lamenta a nossa _prostituição_?
Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou
por mim. Tira as têas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e faz-lhe vêr
que sua mulher não é melhor que tu: porque tu és livre, e ella é casada.
Saberás o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.