I.

Foi assim que principiou o meu illustre amigo:

--Alli onde o vês é um embryão de romances desgrenhados...

Referia-se a um rapaz que passava por debaixo das minhas janellas. Era

uma boa figura, visto pelas costas; mas de frente não se podia

contemplar-lhe o rosto sem recuar... não de medo, mas d'um não sei que

desabrido e repulsivo. E não era feio. Eu por mim, custou-me muito a

sustentar cara firme quando elle me fitava com aquelles olhos negros e

magneticos. Fazia-me medo, palavra d'honra! Depois afiz-me áquella

petulancia d'olhar, áquelle carregado provocante da sobrancelha, e,

graças a Deus, já me não custa tanto.

Ora ahi está, sem grave impertinencia, traçado corporalmente o snr.

Alvaro de Sousa, que passava na minha rua.

--Com que então (disse eu) é um embryão de romances aquelle senhor?! Bem

me parecia a mim que a vida d'aquelle homem não devia ser symetrica,

pausada, e prosaicamente chata como a minha! Eu nem se quer lhe sei de

nada! Ando cá tão fóra das barreiras da sociedade, e dos dramas

contemporaneos... que nem ao menos sei se a mazurka está no quinto grau

da refinação, ou se as polkas cederam o terreno á restauração do minuete

da côrte... Que miseria!

--Não perdes nada, meu caro. Olha que a verdadeira miseria está

escondida no manto de lentejoulas com que esta sociedade desdentada e

trôpega se encobre. E, se não, deixa-me lêr-te uma pagina da vida de

Alvaro de Sousa, e verás como se vive por lá...

Como sabes, aquelle rapaz é da plebe, e aspirou sempre a ser da

fidalguia. O homem não podia tragar esta desigualdade de gosos imposta

pela desigualdade do dinheiro. Sem dinheiro, e sem avós, Alvaro

achava-se aos vinte annos n'este mundo sem saber o fim para que viera,

nem a fileira social em que devia perfilar-se.

--Pois não ha tantos officios?--interrompi eu.

--Essa pergunta não me parece tua! Pois tu querias sentar n'uma tripeça

um homem de intelligencia?

--Que duvida! Os sapateiros de Lisboa não tem um jornal? Alvaro de Sousa

seria um habil redactor do _jornal dos sapateiros_.

--Estás zombando!

--Palavra de honra, que não zombo! Tu sabes lá porque horisontes vai

ampliar-se o espirito da arte? Sabes se a tripeça terá uma plastica e

uma esthetica! Sabes se a bota de canhão terá um bello ideal? Sabes se a

tomba e a intercospia terão uma philosophia? Sabes se as mathematicas

virão, com a sua geometria applicada á bota, regular as dimensões do

salto? Sabes se a dynamica será a ultima expressão do pino? E não achas

aqui n'este complexo de sciencias um succolento pabulo para um sapateiro

talentoso, para um sapateiro-Newton, para um sapateiro-Girardin?

--Tenho entendido que não queres a historia do homem... Façamos

treguas... Eu dou-te o diploma de espirituoso, e tu fechas a torneira ao

espirito por algum tempo... Guarda esse cabedal, que desperdiças, para

os teus folhetins. Farás rir um fidalgo de raça, embora o seu quinto avô

fizesse borzeguins para a tua quinta avó. Farás indignar o sapateiro,

teu irmão pelo sangue, pelo osso, e pela carne, e teu irmão pela arte,

porque, em fim, eu não sei se a sociedade dispensa mais depressa os teus

folhetins que as botas...

E eu vi que o meu amigo tinha razão, e dei-lhe plena liberdade de

historiar o episodio de Alvaro de Sousa, que continúa assim:

--Alvaro, á custa de muitos vexames e affrontas conseguiu relacionar-se

em algumas casas, onde compareciam algumas das primeiras mulheres. Eram

talvez estas as notabilidades, as sacerdotisas de iniciação para os

noviços que entravam no faustuoso templo das vestaes em quinta mão.

O rapaz foi mais adiante nas suas ambições.

O coração pedia-lhe alimento, o espirito pedia-lhe amor, as aspirações

anceavam-lhe um ideal, e o altivo mancebo entendeu que aquellas mulheres

deviam comprehendel-o no coração, no espirito, e nas aspirações.

Era, realmente, exigir muito, no anno do Senhor de 1849!

A primeira declaração, que balbuciou, teve em troca um sorrir de

despreso. Aventurou uma segunda centelha da lava, que o escaldava, por

dentro, e achou de gêlo todas aquellas mulheres. E não era isto só.

Escarneciam-no. Lastimavam-lhe a mania das declarações; e algumas

galhofeiras senhoras reuniram-se, uma noite de baile, para lhe dizerem

que, todas juntas, hiam devotamente cumprir uma novena a Santo Anastacio

para que o servinho de Deus o livrasse d'aquella hydrophobia amorosa. É

onde podia levar-se o insulto!

Alvaro de Sousa entrou no amago da sua consciencia, como n'um abysmo sem

luz, n'um segredo de torturas, e despedaçou um a um os sentimentos

generosos com que entrára n'este mundo ingrato.

_Pobre!_ esta maldita palavra, estigma de reprovação, era o seu demonio

das vigilias e dos sonhos!

Como o supersticioso, que recua espavorido á larva imaginaria do seu

crime, Alvaro de Sousa fugia dos homens, como se elles, juizes

implacaveis, devessem sentencial-o no crime da sua pobresa.

Mas um coração altivo de impotente orgulho não podia transigir com estas

leis barbaras da sociedade, que amputam no coração do pobre os mais

augustos sentimentos da sua vitalidade.

Ha uma apparente reconciliação entre a affronta e a pobresa: é a

reconciliação do odio: é um pacto de vingança, sellado pelas lagrimas do

affrontado; é uma letra de usura avara de desforço, a vencer-se, sem

praso fixo, mas a vencer-se um dia.

Esta fôra a reconciliação de Alvaro de Sousa com as _generosas_ mulheres

da sua affeição.

--Ellas, naturalmente, riam-se, se elle lhes désse parte d'essa

reconciliação...

--Riram muito. Alguem lhes disse: «Aquelle pobre rapaz, que sentia

freneticamente as suas paixões, fugiu da sociedade, e devora, na solidão

do seu quarto, um rancor profundo...--A mim:--interrompeu uma

d'ellas--Que pena! Oh Theresinha, não é uma verdadeira calamidade o odio

d'aquelle rapaz?--Ai! Maria da Luz! que triste futuro nos espera...»

E chasqueavam assim o seu _ridiculo_ inimigo, perguntando aos amigos

d'elle em que dia finalmente as hostilidades se romperiam.

Isto ninguem o dizia a Alvaro, porque entre o odio e a vingança

impossivel, nas almas fortes, está o suicidio.

--_Nas almas fortes!_ (atalhei eu com gravidade philosophica). Então não

sei eu o que são «almas fortes!» Cobardes chamo eu aquelles que

desesperam. A suprema das miserias humanas é a vingança reservada por

causa d'amores despresados. O tal Alvaro de Sousa será muito romanesco,

mas tambem é um grande tolo. Com que direito queria elle impôr-se ao

amor d'essas mulheres? «Despresaram-no porque era pobre» respondes tu. E

se o despresassem porque era feio? Achas que a pobresa tenha muitas

seducções? E porque não foi Alvaro de Sousa amar uma peixeira que as ha

bem bonitas? Se a sua alma de poeta aspirava a um _ideal olympico e

metaphysicamente imponderavel_ porque foi elle procurar o seu ideal nas

mulheres carnalmente vestidas de tafetás e veludos? A mulher ordinaria,

virgem na alma, sem a depravação das Aspasias que o repudiaram, não lhe

seria mais interessante pela candura, pela innocencia, e pelo angelico

scismar dos singelos devaneios? Eu não posso soffrer estes Werters

caricatos que appellam para o suicidio, quando a mulher dos seus sonhos

não póde altear-se ás delicadas concepções da sua alma! Vai a vêr-se a

mulher em que elles empregam todo o seu cabedal de sentimentalismo, e

depara-se uma estragada de espirito, abastardada nos instinctos, incapaz

de conceber a generosidade, gelada para as suaves impressões d'uma

amisade honesta, e finalmente uma Ninon sem o _espirito_ da franceza,

mas opulenta como ella de _materia_. Repito: porque não vão estes

impostores queimar o incenso das suas angelicas adorações aos pés d'uma

donzellinha d'olhos timidos, e faces purpurinas? Não é tão bello

surprehender o pejo da innocencia!? Não ha tanta poesia n'aquellas

lagrimas de um primeiro amor que desconfia da sombra de uma mulher, que

passa ao longe do seu Medro! Não ha ahi tantas Angelicas obscuras,

tantas Virginias, segregadas dos salões das Phryneas? Emfim, meu

sentimental historiador de paixões desgrenhadas, eu não posso sentir

comtigo as desventuras do snr. Alvaro. Quero ouvil-as, porque emfim,

escrevo folhetins, e minto quasi sempre para encher um espaço de papel.

Póde ser que digas alguma cousa que valha a pena de captar a attenção

d'este publico portuense, que lê constantemente, e, á falta de romances,

por não poder emendar o costume de lêr sempre, começa a mastigar

profundas lucubrações sobre a doença das vinhas.--Ora, diz lá.

Scenas Contemporaneas · 第 40 / 121 题