E retirou-se repetindo--_do qu'isso... do qu'isso..._

Mas o dominó-setim não soffreu, ao que parecia, a menor contrariedade

com este charivari. E o dominó-velludo nem se quer acompanhou com os

olhos o imprudente que viera embaraçar-lhe uma resposta digna da

pergunta, fosse ella qual fosse.

O _setim_ (fique assim conhecido para evitarmos palavras, e tempo que é

um preciosissimo cabedal) o _setim_, d'esta vez, encarou com mais alguma

reflexão o _velludo_. Conjecturou supposições fugitivas, que se

destruiam mutuamente. O _velludo_ era forçosamente uma mulher. A

pequenez do corpo, cuja flexibilidade o dominó não encobria; a

delicadeza da mão, que protestava contra o ardil mentiroso d'uma luva

larga; a ponta de verniz, que um descuido, no lançar do pé, denunciára

debaixo da fimbria do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca

reunidos em um homem, captaram as serias attenções do outro, que,

incontestavelmente, era um homem.

--Quem quer que sejas, (disse o setim) não te gabo o gosto! Tomára eu

saber o que vês em mim, que tanta impressão te faz!

--Nada--respondeu o velludo.

--Então, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma semsaboria,

mais eloquente que o teu silencio.

--Não te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e seria um crime

de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas graças salobras, capazes

de fazer calar para todo o sempre um Demosthenes de dominó.

O _setim_ mudou de opinião a respeito do seu perseguidor. E não admira

que o recebesse com rudeza no principio, porque, em Portugal, um dominó

em corpo de mulher, que passeia «sosinha» n'um theatro, permitte umas

suspeitas que não abonam as virtudes do dominó, nem lisongeam a vaidade

de quem lhe recebe o conhecimento. Mas a mulher em quem recahe

semelhante hypothese não conhece Demosthenes, nem diz _leso-carnaval_,

nem aguça a phrase com o adjectivo _salobras_.

O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos

olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo

aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O _setim_ juraria, pelo

menos, que aquella mulher não era estupida. E, seja dito sem tenção

offensiva, já não era insignificante a descoberta, porque é mais facil

descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada. É mais facil ser

Christovão Colombo que Emilio Girardin.

O _setim_, ouvida a resposta do _velludo_, offereceu-lhe o braço, e

gostou da boa vontade com que lhe foi recebido.

--Conheço (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa, bello

dominó...

--_Bello_, me chamas tu!... É realmente uma leviandade que te não faz

honra!... Se eu levantasse esta sanefa de sêda, que me faz bonita,

ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma exclamação de terror

na presença d'um nariz... que nariz não seria, santo Deus!... Não sabes

essa historia?

--Não, meu anjo!

--_Meu anjo!_... que graça! Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama não

sei, nem me importa. Imagina tu que és um poeta, phantastico como

Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e voluptuoso

como Voltaire aos 60 annos. Imagina que o tedio d'esta vida chilra que

se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pythonissa

descabellada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar

um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de carnaval.

Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de espirito, um anjo

de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma d'estas creações

miraculosas que fazem rebentar uma chamma improvisa no coração mais de

gêlo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão,

não é assim? Um coração de toucinho parece-te uma offensa ao bom senso

anatomico, não é verdade? Pois, meu caro dominó; ha corações de toucinho

estreme. São os corações, que reçumam oleo em certas caras estupidas...

por exemplo... olha este homem redondo, que aqui está, com as palpebras

em quatro refêgos, com os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com

o queixo inferior pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo

d'uma pingadeira, orvalhada de banha de porco... Esta cara não te parece

um grande rijão? Não crês que este baboso tenha um coração de toucinho?

--Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgraçado está a gemer

debaixo do teu escalpello...

--És tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me lá!... É verdade, ahi vai a

historia do hespanhol, que tenho que fazer...

--Então queres deixar-me?

--E tu?... queres que eu te deixe?

--Palavra d'honra que não! se me deixas, retiro-me...

--És muito amavel, meu querido Carlos...

--Conheces-me?!

--Essa pergunta é ociosa. Não és tu _Carlos_!

--Já fallaste comigo na tua voz natural?

--Não; mas começo a fallar agora.

E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e

insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e

afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle não-sei-que, que só se

escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam

a gente a prestar fé aos privilegios, ás prerogativas, aos dons muito

peculiares da aristocracia do sangue. Todavia, Carlos não se recordava

de ter ouvido semelhante voz, nem semelhante linguagem.

«Uma aventura de romance!» dizia elle lá comsigo, em quanto o

dominó-velludo, conjecturando o enleio em que pozera o seu enthusiasta

companheiro, continuava a fazer gala do mysterio, que é de todas as

alfaias aquella que mais alinda a mulher! Se ellas podessem andar sempre

de dominó! Quantas mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge

Sand! Quantas physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de

Abdel-Kader!

--Então quem sou eu?--proseguiu ella--não me dirás?... Não dizes... pois

então, tu és Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim?

--Em quanto eu não souber o teu nome, deixa-me chamar-te «anjo.»

--Como quizeres; mas sinto dizer-te que não és nada original! _Anjo!_...

é um appellido tão safado como _Ferreira_, _Silva_, _Sousa_, _Costa_...

et cetera. Não vale a pena questionarmos: baptisa-me á tua vontade.

Ficarei sendo o teu «anjo de entrudo!» E a historia?... Imagina que te

possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que phantasiaste linda, e

insensivelmente lhe curvaste o joelho, pedindo-lhe uma esperança, um

sorriso affectuoso através da mascara, um aperto convulsivo de mão, uma

promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E essa

mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez mais

radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias,

declarando-se muita feia, indecentissima de nariz, horrivel até, e, como

tal, pesa-lhe na consciencia matar as tuas candidas illusões, levantando

a mascara. Tu que a não crês, instas, supplicas, abrasas-te n'um ideal,

que toca as extremas do ridiculo, e estás capaz de lhe dizer que te

abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella não levanta a cortina

d'aquelle mysterio que te dilacera uma por uma as fibras do coração.

Chamas-lhe Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se

chama Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que,

na minha humilde opinião, são completamente fabulosos. O dominó quer

fugir-te ardilosamente, e tu não lhe deixas um passo livre, nem um dito

espirituoso a outro, nem um lançar d'olhos para os mascaras, que a fixam

como quem sabe que está alli uma rainha, envolta n'aquelle manto negro.

Por fim, a tua perseguição é tal, que a desconhecida Desdemona finge

assustar-se, e sahe comtigo ao salão do theatro para levantar a mascara.

Arfa-te o coração na anciedade d'uma esperança: sentes o jubilo do cego

de nascimento, que vai vêr o sol; estremeces como a creança a quem vão

dar um bonito, que ella não viu ainda, mas imagina ser quanto o seu

coração infantil ambiciona n'este mundo... Ergue-se a mascara!...

Horror!... vês um nariz... um nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um

nariz maior que o do duque de Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a

cavallo!... Recúas!... sentes despregar-se-te o coração das entranhas,

córas de vergonha, e foges desabridamente...

--Tudo isso é muito natural.

--Pois não ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe conto o

resto, que é o mais interessante para um mancebo que faz do nariz d'uma

mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do coração. Imagina,

meu joven Carlos, que sahiste do theatro depois, e entraste na _Aguia

d'Ouro_ a comer ostras, segundo o costume dos elegantes do Porto. E

quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do nariz, te apparecia

fatidico dominó, e se assentava ao teu lado, silencioso e immovel, como

a larva das tuas asneiras, cuja memoria procuravas delir na imaginação

com os vapores do vinho... Perturba-se-te a digestão, e sentes

contracções no estomago, que te ameaçam com o vomito. A massa enorme

d'aquelle nariz figura-se-te no prato em que tens a ostra, e já não

pódes levar á bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um fragmento

d'aquelle fatal nariz á mistura. Queres transigir com o silencio do

dominó; mas não pódes. A inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com

um sorriso cruelmente sarcastico, pedes-lhe que te não entorne com o

nariz o copo de vinho. Achas isto natural, Carlos?

--Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a

desgraça, porque a missão do poeta é a indulgencia não só para as

grandes affrontas, mas até para os grandes narizes.

--Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão da generosidade

para com as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquella mulher,

pungida pelo sarcasmo, levanta a mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir

com grande escandalo do dono da casa, que naturalmente tem a sorte do

boticario de Nicolau Tolentino. Mas... vingança do céo!... aquella

mulher ao levantar a mascara arranca do rosto um nariz postiço, e deixa

vêr a mais formosa cara que o céo alumia ha seis mil annos! O hespanhol

quer ajoelhar áquella dulcissima visão de um sonho, mas a nobre andaluza

repelle-o com um gesto, onde o despreso está associado á dignidade mais

senhoril.

Scenas Contemporaneas · 第 28 / 121 题