II.

Carlos scismava na applicação da anedocta, quando o dominó lhe disse,

adivinhando-lhe o pensamento:

--Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me supponhas capaz

de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia não vai tão

longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um

nariz enorme: não é physico nem moral; é um defeito repulsivo e

repellente: é uma cousa que eu não sei exprimir-te com a linguagem do

inferno, que é a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me

lembro que sou assim defeituosa!

--És um enigma!...--atalhou Carlos, embaraçado, e convencido de que

encontrára um typo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em

Portugal.

--Sou, sou!...--acudiu ella com rapidez--sou aos meus proprios olhos um

dominó, um continuado carnaval de lagrimas... Está bom! não quero

tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu não

vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas aqui,

procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que és

espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade, ajudar-me a passar

algumas horas de illusão. Fóra d'aqui, tu ficas sendo Carlos, e eu serei

sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro. Agora acompanha-me:

vamos ao camarote 10 da 2.^a ordem. Conheces aquella familia?

--Não.

--É uma gente da provincia. Não digas tu nada; deixa-me fallar a mim, e

verás que não passas mal... É muito orgulho, não achas?

--Não acho, não, minha querida; mas eu antes queria não desperdiçar

estas horas porque fogem. Tu vaes fallar, mas não é comigo. Sabes que

tenho ciumes de ti?

--Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo

conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que

imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma

conquista esperançosa. Faz calar o teu amor proprio, e emprega a tua

vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma innocente a quem possas

fazer feliz, em quanto a enganas...

--Julgas, por tanto, que te minto!...

--Não julgo, não. Se mentes a alguem é a ti proprio: bem vês que não te

creio... Tempo perdido! Anda, vem comigo, se não...

--Senão... o que?

--Senão... olha...

E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com delicadeza, e

retirara-se, apertando-lhe a mão.

Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mão, com o frenesi

apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se

mataria.

--Não--exclamou elle com enthusiasmo--não me fujas, porque me levas a

esperança mais bella que o meu coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem

te conhecer!... Não levantes nunca esse véo... mas deixa-me vêr a face

da tua alma, que deve ser a realidade d'um sonho de vinte e sete

annos...

--Estás dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha pobreza de

palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo fervente para

sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve cançar-te, e a

tragedia desde Sophocles até nós não póde dispensar uma segunda

pessoa...

--És um prodigio...

--De litteratura grega, não é verdade? Inda sei muitas outras cousas da

Grecia. A Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas

com um garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E

serei eu o mesmo? Já vês que a litteratura não é symptoma de virtudes

dignas da tua affeição...

Tinham chegado ao camarote na 2.^a ordem. O dominó-velludo bateu, e a

porta foi, como devia ser aberta.

A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem

typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a attenção d'um

leitor avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia

um mundo, ou cousa maior que o mundo--o coração d'um poeta.

As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo

halito abrasado dos salões. A placidez extemporanea d'uma vida agitada,

via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a

debilidade d'um sexo, que não póde acompanhar com a materia as evoluções

desenfreadas do espirito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade

no frenesi d'aquellas feições! que projecção de uma sombra azulada lhe

descia das palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a

soberba, talvez demasiada, da sua superioridade.

O dominó-velludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe Laura.

Seria Laura? É certo que ella estremeceu, e recuou a mão repentinamente

como se uma vibora lh'a tivesse mordido.

Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma

grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.

--Laura--repetiu o dominó--não me apertas a mão? Deixa-me ao menos

sentar-me perto... muito perto de ti... sim?

O homem, que mais proximo estava de Laura, afastou-se urbanamente para

deixar aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a

distincção pela mão.

E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a

cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria

disfarçar a sua angustia intima.

A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos,

enleado nos embaraços naturaes d'aquella situação toda para elle

enygmatica, recusava cumprir as imperiosas determinações d'uma mulher

que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que

pareciam familiares de Laura, não deram muita importancia aos dominós.

Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram que tinham conhecido as

visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres que se fallavam de

perto como duas amigas intimas. O cavalheiro passou por um tal Eduardo,

e a desconhecida tiveram-n'a por uma D. Antonia.

Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem

uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita,

profundamente conhecedora da situação da sua victima, fallou ao ouvido

de Carlos:

--Estuda-me aquella physionomia. Eu não estou em circumstancias de ser

Max... Soffro demasiado para contar as pulsações d'este coração. Se te

sentires condoido d'esta mulher, tem compaixão de mim, que sou mais

desgraçada que ella.

E voltando-se para Laura:

--Procuro, ha quatro annos, uma occasião de prestar homenagem á tua

conquista. Deus, que é Deus, não despreza os incensos do verme da terra,

nem esconde á vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto de

estrellas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te chamem anjo,

não despresarás vaidosa a homenagem d'uma pobre creatura, que vem depôr

a teus pés o obulo sincero da sua adoração.

Laura não levantava os olhos do leque; mas a mão, que o sustinha,

tremia; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos n'um quadro

afflictivo.

E o dominó continuou:

--Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o

fructo abençoado da abençoada semente que o Senhor fecundou no teu

coração de pomba!... Olha, Laura, deves dar muitas graças á Providencia,

que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no

abysmo da prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao throno das

virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! És uma excepção a milhares de

desgraçadas, que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes

de opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas

da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os

olhos da razão a desgraça sentada á cabeceira do teu leito... e, com

tudo, eis-te ahi rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que

pódes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram!... Ha tanta

mulher infeliz!... Queres saber a historia d'uma?...

Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava,

não tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a urgente pergunta, duas

vezes repetida, do dominó, obrigou-a a responder affirmativamente com um

gesto.

--Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.

Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar _Laura_,

perguntou á mulher que assim era chamada:

--Elisa, ella chama-te _Laura_?

--Não, meu pai...--respondeu Elisa, titubeando.

--Chamo Laura, chamo... e que tem lá isso, snr. visconde?--Atalhou a

incognita, com affabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida.--É

um nome de carnaval, que passa com os dominós. Quarta feira de cinza

torna a filha de v. exc.^a a chamar-se Elisa.

O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, e fallando

naturalmente:

Scenas Contemporaneas · 第 29 / 121 题