--Porque não dá um passeio até Lisboa?--tornou o academico.
--Isso lhe tenho eu dito todos os dias--atalhou o padre.
--De que me serve Lisboa?
--São ares patrios, minha senhora. Talvez o contacto do coração com as
suas amigas de collegio...
--Eu já não tenho coração para contacto com amigas nem inimigas, snr.
Valladares...
--O que v. exc.^a tem é uma ardentissima imaginação, alma de poeta, que
só tem a sensibilidade do que é triste, e não sabe tirar recursos da
esperança...
--Esperança!...--murmurou ella com um triste sorriso, e voltando-se para
mim, perguntou-me:
--Já sei que este senhor esteve em risco de passar uma noite divertida
com os lobos...
--É verdade, minha senhora; mas a Providencia encaminhou-me ao paraizo,
depois de me ter mostrado o inferno.
--Ora ahi tem uma resposta d'um moço, que seria pena comerem-no os
lobos!...--disse o padre, desafiando um gracioso sorriso de Amelia.
--Ha-de dizer ao seu parente medico que me salve da sepultura assim como
nós esta noite o salvaremos de ser victima dos lobos--disse-me ella,
apertando affectuosamente a mão de Valladares, em despedida, porque a
tosse exasperava-se cada vez mais.
Esta rapida apparição impressionou-me muito. Queria fazer mil perguntas;
mas eu não tinha a quem. O padre e o estudante fallaram em assumptos,
que me não interessavam nada. O que eu queria era a vida, a historia, os
soffrimentos, a poesia d'aquella mulher. Eu tinha lido, dias antes, não
sei que romance, onde vira uma mulher assim...
Appareceu um taboleiro com a cêa. O abbade fez o prato de D. Amelia. Era
uma aza de gallinha, que elle mesmo lhe serviu.
Valladares tambem comeu do pucaro da doente. Eu, com o abbade, entramos
corajosamente n'um coelho guisado, cuja retaguarda cortamos com um
excellente caldo verde, e lourejantes castanhas assadas com manteiga.
No fim, demos graças a Deus.
O padre, segundo o seu costume, foi sentar-se á cabeceira de sua
cunhada. Eu e Valladares entramos n'um quarto commum.