--Snr. Valladares--disse o padre ao estudante--minha cunhada ergueu-se
da cama para vir comprimental-o...
--É uma grande consideração, que eu lhe não mereço; mas a delicadeza da
snr.^a D. Amelia é sempre um severo preceito que ella se impõe.
Fallou bem.
N'isto, entrou uma senhora, com um ar de tanta nobreza, que me pareceu
uma cousa nova. Eu não conhecia assim nenhuma. Era alta, muito magra no
rosto, mas muito bella nos olhos, nos labios, nos cabellos, em tudo se
via tanta formosura, tanto donaire, um senhoril tão estreme do vulgo,
que eu, creança e poeta, senti-me tão acanhado como o mais boçal dos
pastores de cabras d'aquella freguezia.
--Como passou, snr. Valladares?--perguntou ella com voz tremula,
tossindo a cada palavra, e aconchegando da face a golla de veludo da sua
capa.
--Sempre doente, minha senhora... Por não poder mais, recolho-me a
casa...
--Eu bem lhe disse que não fosse... v. s.^a teimou, agora já sabe que os
conselhos d'uma mulher não são sempre pieguices...
--E os de v. exc.^a nunca poderão sêl-o... E a snr.^a D. Amelia como
está?
--D'este modo que vê... Tossindo sempre, sempre mal, sem descanço d'este
lado, que me parece que já não vive, se não para matar o resto de vida
que tenho...